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O versículo
em questão traz o seguinte, segundo a tradução da Bíblia
de Jerusalém: Nas vossas orações não useis de vãs
repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo
palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como
eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade
antes de lho pedirdes. Em seguida, Jesus ensina o
Pai-Nosso.
Não deixem de
praticar tão piedosa oração que é o santo terço. Quem dera
se as pessoas deste mundo ao invés de repetir os mesmos
pecados, repetissem orações. Na verdade, a chave para
entender esta passagem não está na palavra repetições,
mas na palavra
vãs.
Entende? A oração do terço se baseia na repetição de
Ave-Marias e Pais-Nossos, mas jamais tais orações serão
vãs, ou seja, despropositadas e orgulhosas, se devidamente
proferidas.
Logo após
essas palavras, Jesus ensina o Pai-Nosso, dizendo,
portanto, orai desta maneira. Tal exemplo de oração
foi absorvido pelo povo que a escutou e, sem dúvida
alguma, repetida diversas vezes, ao longo de toda uma vida
e ao longo de toda a vida da Igreja Cristã. Jesus queria,
com estas palavras, alertar mais uma vez o povo contra os
que pretendiam atrair a atenção dos homens, em detrimento
a Deus. São os fariseus, que gostavam de alardear sobre
suas virtudes de oração e jejum, enquanto tinham no
coração uma piedade falsa.
Daniel J.
Harrington, s.j. escreve, sobre essa passagem, o seguinte:
Na devoção judaica, a oração de súplica era muito
importante e os discípulos de Jesus são exortados a não
confundir quantidade com qualidade (v.7). Como Pai
amoroso, Deus conhece as necessidades de seus filhos antes
mesmo que eles façam seus pedidos, mas ele quer que eles
peçam com fé e confiança (v.8). Na súplica, mais do que
informar Deus de alguma situação, expressamos nossa
dependência e nossa fé1. Portanto, não há
porque considerar como vãos o Pai-Nosso ou a Ave-Maria
somente porque são repetidos. O que Deus enxerga é a
postura do coração ao recitá-los, e não a postura do ego
de quem repete.
São Paulo nos
diz para orar sem cessar (cf. 1Ts 5,17) e que nós oremos
sempre e por tudo (Ef 5,20). Como, então, fazer isso?
Segundo algumas versões, foi praticando exatamente este
orai sem cessar que nasceu o terço. Nos mosteiros
antigos praticava-se a leitura de todos os salmos, todos,
ao longo de um dia inteiro. Assim os monges poderiam orar
sem cessar. Entretanto, ao longo dos anos, os salmos foram
sendo substituídos pela Ave-Maria, posteriormente
intercalando-se a oração do Senhor. Como existem 150
salmos, a substituição gerou 150 Ave-Marias, ou seja, um
rosário. Qualquer oração que seja, dita com piedade,
perseverança, amor e fervor, será bem aceita, seja ela
repetida ou não, porque não será vã. Entendeu?
Vejamos, também, que, em comparação,
muitas igrejas protestantes que possuem um ritual
litúrgico, como os luteranos, anglicanos, metodistas, e
alguns presbiterianos, possuem livros de orações,
repetidas à semelhança dos católicos, como o Credo Niceno
entre outros. Inclusive existem luteranos que rezam um
terço adaptado. Sem contar, também, as expressões de
louvor, repetidas à exaustão, de quase todos os
protestantes neopentecostais (Aleluia! Glórias a ti,
Senhor! etc.). Não creio que eles, que gritam sem cessar
tais expressões, consideram isto como vã repetição. Outro
exemplo de repetição de uma oração está no Salmo 136. Leia
e conte quantas vezes aparece o verso porque o seu amor é
para sempre. O que desagrada a Deus não é a repetição da
oração, mas como ela é feita.
Enfim,
podemos concluir que uma leitura rápida e literal da
Bíblia pode levar a desfechos indesejados. Não, não é uma
vã repetição rezar o terço, não é uma vã repetição rezar o
Pai-Nosso, não é vã a repetição que se faz de coração
aberto, sincero e piedoso.
Para terminar, deixo uma exortação
de São João Crisóstomo: "Nada se compara em valor à
oração; ela torna possível o que é impossível, fácil o que
é difícil. É impossível que caia em pecado o homem que
reza”.
Nota
1. HARRINGTON,
D.J.
Mateus. Comentário Bíblico. Ed. Loyola, 2002.
Fonte
RIBEIRO,
Rondinelly. Apostolado Veritatis Splendor:
Mateus 6,7-8 e as "vãs repetições". Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/4017. Desde
23/10/2006.
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