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Santa Casa de
Misericórdia
de Campinas

Litogravura de
Jules Martin - 15/08/1876
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Um dos traços
característicos do povo de Campinas foi sempre o sentimento de
generosidade e de amor ao próximo. A esmola, sob qualquer de suas
modalidades, jamais fôra aqui negada ao pobre, ao necessitado.
Quando não havia ainda
as instituições beneficentes que hoje embelezam os setores da cidade
e alguns de seus subúrbios, o indigente nem precisava bater à porta
do afortunado para receber a esmola pelo amor de Deus. Corações que
se compadeciam das misérias nos tugúrios de indigentes, onde muitas
vezes gemiam os enfermos, depositavam a horas não sabidas da noite,
através das frinchas das portas, o óbulo da verdadeira caridade.
Comerciantes havia que consignavam uma verba, em cada semana, para
atender à mendicância aos sábados, colocando sobre o balcão uma
pilha das antigas moedas de cobre que eram retiradas uma a uma pelos
pobres.
Explica-se, pois, por
que as casas destinadas à assistência pública, nesta cidade, são
todas de iniciativa particular, em uma esplendente demonstração da
bondade e dos sentimentos generosos da gente campineira. Os poderes
públicos têm se limitado a auxiliá-las, após a inauguração, mas
infelizmente com verbas que não correspondem aos benefícios que
essas instituições dispensam à população desprovida de recursos.
Carlos F. de Paula,
in Monografia
Histórica do Município de Campinas
Santa Casa de Misericórdia de Campinas
de 1876
a 1950

Na ordem
da antiguidade, não é a primeira instituição de assistência pública
de Campinas, mas certamente o é pela soma incalculável de benefícios
prestados aos enfermos indigentes.
Em
agosto de 1860, o jovem sacerdote padre Joaquim José Vieira, natural
de Itapetininga-SP, foi nomeado vigário (pároco) de Campinas. Nessa
época, a cidade contava apenas com a paróquia de Nossa Senhora da
Conceição. O padre Vieira, com apenas 24 anos de idade, vinha
substituir o padre Antônio Cândido de Mello. Devido à sua estatura
franzina, o povo chamava o padre Vieira de "Vigarinho".
Confiante na generosidade do povo de Campinas, idealizou a fundação
nesta cidade de um instituto que, congregando os esforços das
pessoas de boa vontade, viesse a dispensar assistência hospitalar e
conforto moral aos pobres enfermos, idéia esta que se lhe tornou uma
preocupação constante, até que se concretizasse no imponente edifício
a que denominou Hospital de Misericórdia.
Dentre
os primeiros donativos, destaca-se o da grande quadra de terreno,
onde atualmente se acham a Santa Casa e dependências, oferecida pela
respeitável senhora Maria Felicíssima de Abreu Soares, viúva do
Comendador Joaquim José Soares de Carvalho.
No dia
19 de novembro de 1871, por entre grande regozijo popular,
realizou-se a cerimônia de lançamento da primeira pedra do futuro
edifício, cuja construção fôra dirigida por Diogo Benedito dos
Santos Prado, mais conhecido por "Dioguinho". O dr. Francisco
Quirino do Santos assim remata o artigo de fundo publicado na Gazeta
de Campinas, de 19 de novembro de 1871:
"Em
quanto aos homens, talvez um dia, compulsando as prédicas do padre
Joaquim José Vieira, apontem para o edifício com que ele vai dotar
este município, dizendo: - Ali está o seu melhor sermão!"
Para a
construção da Santa Casa, ofereceram os antigos campineiros toda
sorte de auxílios, em dinheiro, materiais, operários etc., a que se
juntou valioso legado do benemérito Antônio Francisco Guimarães,
nascido em Portugal mas brasileiro adotivo, cognominado "o Bahia".
A
construção da capela que ocupa a parte central do edifício se fizera
a expensas do saudoso campinense José Bonifácio de Campos Ferraz
(posteriormente Barão de Monte-Mor), no cumprimento de um voto de
erigir em Campinas uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da
Boa Morte, que assim se tornou a padroeira da Santa Casa.
Em 1º de
outubro de 1876, o "Vigarinho", então Cônego Vieira, teve a inefável
ventura de ver as portas do Hospital se abrirem de par em par no
recebimento de doentes pobres. O povo de Campinas conquistou nesse
dia merecida floração de glória em sua nunca desmentida
munificência, com a inauguração da Santa Casa de Misericórdia. A
direção interna fôra então entregue às Irmãs de São José, de início
apenas três, tendo como superiora a Irmã Ana Felicité Del Carreto. O
serviço religioso foi confiado ao padre Francisco Quay Thevenon, que
durante 12 anos exerceu a capelania com grande desvelo.
A 1ª
Mesa Administrativa, eleita no dia 6 de fevereiro desse ano, tinha
como provedor o padre Joaquim José Vieira; Bento Quirino dos Santos
- tesoureiro; dr. Luís Silvério Alves Cruz - secretário; Francisco
Alves de Almeida Sales - procurador; e doze mesários. O fundador da
Santa Casa exerceu a provedoria até 22 de abril de 1883, quando teve
de renunciá-la por haver sido eleito Bispo do Ceará. Já nesse tempo,
era Superiora da Santa Casa a benemérita Irmã Ana Justina, que
durante o longo período de 45 anos, prestou à Instituição os mais
relevantes serviços.
De sua
fundação até 1950, estiveram à testa da administração da Santa Casa,
no cargo de provedor: Cônego Joaquim José Vieira (1876-1883); padre
Francisco de Abreu Sampaio (1883-1887); Major Antônio Luís Rodrigues
(1887-1891); dr. Francisco Augusto Pereira Lima (1891-1893); Bento
Quirino dos Santos (1893-1913); Cel. Manuel de Morais (1914-1925);
dr. Antônio Álvares Lôbo (1926-1934); Cláudio Celestino de Toledo
Soares (1934-1935); dr. Lino de Morais Leite (1936-1947); Bento de
Sousa Morais (1948-1950).
Os
maiores legados recebidos pela Santa Casa foram de parte do dr.
Joaquim de Sousa Campos Júnior, dr. Salustiano Penteado, Severo
Penteado, Antônio Correia de Lemos e Rafael Gonçalves de Sales, que
se tornaram grandes benfeitores da Instituição.
Em
meados século passado, os serviços hospitalares achavam-se
distribuídos em 4 enfermarias de clínica médica, 4 de cirurgia, 2 de
pediatria, 1 de oftalmologia, 1 de otorrinolaringologia, 1 de
cardiologia e 2 de tisiologia. Contava ainda com o serviço de
assistência dentária gratuita, instalada no pavilhão anexo "d. Ester
Nogueira".

Referências:
Câmara Municipal de
Campinas. Monografia Histórica do Município de Campinas. Rio
de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1952.

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