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Quaresma

A
Quarta-feira de Cinzas abre o tempo da Quaresma e também dá
início à Campanha da Fraternidade, que propõe sempre a defesa da vida. Este tempo de
renovação espiritual nos prepara para celebrar a Páscoa de
Jesus. Os 40 dias que nos separam da maior festa dos cristãos, a
Páscoa, lembram os 40 anos de deserto do povo de Israel em busca
de libertação e os 40 dias de jejum de Jesus.
O
Evangelho proclamado na Quarta-feira de Cinzas nos apresenta
três práticas fundamentais dos cristãos: a caridade, a oração e
o jejum. Essas práticas envolvem a pessoa com o próximo
(esmola), com Deus (oração) e consigo mesma (jejum).
A
esmola ou caridade nos lembra o aspecto da solidariedade que
todo cristão deve ter. O "gesto concreto" da Campanha da
Fraternidade tem a função de auxiliar alguém em dificuldades ou
alguma instituição filantrópica. É um compromisso concreto com
alguém.
A
oração nos põe em contato com o transcendente, com a divindade.
A oração faz parte da vida do cristão e nos lembra que, acima de
nós, há alguém que não pode ser dispensado e do qual dependemos
- Deus.
O
jejum, muito incentivado na Bíblia, continua válido atualmente.
Além de promover a renúncia de algum alimento em alguns dias do
ano e libertar-nos da "febre do consumismo", ele tem a função de
purificar nossa vida e é sinal de espera vigilante do Deus que
vem e de cultivo da paciência e da tolerância para com os
outros.
Se
esses três elementos fazem parte da vida cristã nos 365 dias do
ano, na Quaresma, com empenho e coragem, devem ser ainda mais
valorizados e assumidos. Eles são o caminho de nossa
santificação.
Durante o tempo quaresmal - há várias décadas - a Igreja nos
apresenta também a Campanha da Fraternidade.
Mensagem de Sua Santidade
o
Papa Bento XVI
para a Quaresma de 2010

A justiça de
Deus está manifestada
mediante a fé
em Jesus Cristo (cf. Rom 3, 21–22)
Queridos irmãos e irmãs,
todos
os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma
revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos
evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões
sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina:
A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo
(cf. Rom 3,21–22).
Justiça: “dare cuique suum”
Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra
“justiça” que na linguagem comum implica “dar a cada um o que é
seu – dare cuique suum”, segundo a conhecida expressão de
Ulpiano, jurista romano do século III. Porém, na realidade, tal
definição clássica não precisa em que é que consiste aquele
“suo” que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem
mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de
uma existência em plenitude, precisa de algo mais intimo que lhe
pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o
homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o
criado à sua imagem e semelhança. São certamente úteis e
necessários os bens materiais – no fim de contas o próprio Jesus
se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das
multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que
também hoje condena centenas de milhões de seres humanos à morte
por falta de alimentos, de água e de medicamentos -, mas a
justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o “suo”
que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de fato precisa
de Deus. Nora Santo Agostinho: se “ a justiça é a virtude que
distribui a cada um o que é seu… não é justiça do homem aquela
que subtrai o homem ao verdadeiro Deus” (De civitate Dei,
XIX, 21).
De onde vem a injustiça?
O
evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se
inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: “Nada
há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas
o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do
interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos” (Mc
7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativa ao
alimento, podemos entrever nas reações dos fariseus uma tentação
permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa
exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este
pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine
a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a
sua atuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus – é ingênua
e míope. A injustiça, fruto do mal , não tem raízes
exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se
encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal.
Reconhece-o com amargura o Salmista:”Eis que eu nasci na culpa,
e a minha mãe concebeu-se no pecado” (Sl. 51,7). Sim, o
homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica
na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por
natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma
força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si
mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o
egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos
pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a
vontade divina, substituíram à lógica de confiar no Amor, aquela
da suspeita e da competição; à lógica do receber, da espera
confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho
(cf. Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação
de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se
deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah
No
coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo
entre fé em Deus que “levanta do pó o indigente (Sl
113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a
qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah,
exprime-o bem. De fato sedaqah significa, dum lado
a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro,
equidade em relação ao próximo (cf Ex 29,12-17), de
maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva
(cf. Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão
ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é
senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da
miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei
a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar
Vermelho. Isto é, a escuta da Lei pressupõe a fé no Deus que foi
o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o
libertar do poder do Egito (cf. Ex s,8). Deus está atento
ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede
justiça para o pobre (cf. Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro
(cf. Ex 22,20), o escravo (cf. Dt 15,12-18). Para
entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de
auto–suficiência daquele estado profundo de fecho, que é a
própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário
um “êxodo” mais profundo do que aquele que Deus efetuou com
Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei,
sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem
esperança de justiça?
Cristo, justiça de Deus
O
anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do
homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos:
“Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus…
mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De fato
não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da
glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça,
por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus
apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue,
mediante a fé” (3,21-25).
Qual é
portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem
da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os
outros. O fato de que a “expiação” se verifique no “sangue” de
Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo
do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre
até ao extremo, até fazer passar em si “a maldição” que toca ao
homem, para lhe transmitir em troca a “bênção” que toca a Deus
(cf. Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma
objeção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e
o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta
maneira cada um não recebe o contrário do que é “seu”? Na
realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente
diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o
preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante
a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em
evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um
Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo,
acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto:
sair da ilusão da auto suficiência para descobrir e aceitar a
própria indigência – indigência dos outros e de Deus, exigência
do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo,
óbvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um
Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”.
Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da
Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na
justiça “maior”, que é aquela do amor (cf. Rom 13,8-10),
a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do
que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia
esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é
levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde
todos recebem o necessário para viver segundo a própria
dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no
qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é
plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo
penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão
e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para
realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de
coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009.
Benedictus PP. XVI
Tempo Quaresmal e Campanha
da Fraternidade

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