
Maria: Ministério Batismal
e Sacerdotal
Palestra
proferida em 05/09/2009
para a Academia
Marial de Aparecida
Prof. Dr. Côn.
Pedro Carlos Cipolini
INTRODUÇÃO
Falar de Maria é sempre uma
alegria para os seguidores de Jesus, mas também é um desafio.
Alegria porque compreendemos o papel único desta mulher na
História da Salvação. Um desafio porque sabemos que ao longo da
história da Igreja a compreensão deste papel passou por muitas
vicissitudes.
Dentro da Igreja Católica tivemos um período de maximalismo
mariano (1830-1950) que gerou depois um minimalismo mariano
(1960-1974) revertido a partir da Marialis Cultus do papa
Paulo VI. Hoje, após o Vaticano II, há uma tendência a um
equilíbrio maior, mais seriedade e profundidade no estudo da
mariologia. Assim podemos afirmar que a mariologia, bem longe de
estar no fim ou de ter alcançado sua meta, encontra-se em um
período de renascimento, com tarefas que envolvem compromissos e
novas metas:
“Maria reaparece no horizonte eclesial como aurora pela sua
natureza ligada ao Sol de justiça e como portadora de vida e de
esperança”.
Os
bispos em Puebla colocaram com muita propriedade a figura de
Maria relacionada a Cristo e sua obra redentora: “Deus se fez
carne por meio de Maria, começou a fazer parte de um povo,
constituiu o centro da história. Ela é o ponto de encontro entre
o céu e a terra. Sem Maria desencarna-se o Evangelho,
desfigura-se e transforma-se em ideologia, em racionalismo
espiritualista”.
Aqui é colocada de maneira muito concisa a importância de Maria
na História da Salvação: escolhida por Deus para ser o ponto
de encontro entre o céu e a terra, o elo de ligação é
Cristo. Mesmo nos primeiros séculos da Igreja, o significado
simbólico de Maria começara a ultrapassar em muito o
conhecimento histórico.
É
necessário considerar que a ligação de Maria com Cristo a liga
também à Igreja, esta é uma união inseparável, assim como são
inseparáveis Reino, Cristo e Igreja.
Um dos teólogos mais conhecidos do século XX, vai se exprimir de
forma concisa, mas profunda, a respeito da importância de Maria:
“Se Cristo fosse artificialmente separado de sua mãe e da
Igreja, perderia na piedade cristã a sua possibilidade de ser
captado e compreendido historicamente, tornando-se algo
abstrato, um aerólito caído do céu para a ele voltar logo
depois, sem introduzir suas raízes na tradição passada e futura
dos homens”.
O
testemunho da Escritura sobre Maria é suficiente para
dimensionarmos sua grandeza. Os Evangelhos falam o suficiente
sobre Maria, não pretendem satisfazer nossa curiosidade sobre
ela, mas nos dão a chave para entender e acolher o segredo de
sua pessoa.
Os Evangelhos nos apresentam Maria num crescendo, à medida que a
comunidade vai se desenvolvendo e se aprofundando no
conhecimento de Jesus, vai descobrindo o papel de Maria. Assim o
Evangelho de Marcos começa por registrar que Jesus é filho de
Maria, Lucas e Mateus ressaltam a escolha que Deus fez de Maria,
sua fé, sua virgindade e maternidade e, por fim, João coloca-a
no início da vida pública de Jesus em Caná, e no final no
Calvário.
Em
Caná Maria entrega Jesus: “Façam o que Ele mandar” (Jo 2,5) e no
Calvário Jesus entrega Maria: “Eis tua mãe” (Jo 19,27). Em Caná
Maria é símbolo da comunidade nova associada ao mistério da
encarnação e redenção de Jesus, está nas origens. Aí ela é sinal
do que está para vir, adiantando a hora de Jesus (sua páscoa).
No Calvário, no momento da passagem da morte para a vida
(páscoa), ela pela fé recebe a missão da maternidade dos
discípulos como mãe do discípulo-Igreja e mãe universal. Pois
foi a primeira a acreditar e a primeira na perseverança na fé.
Os
Evangelhos deixam patente que no centro do mistério da
encarnação está Jesus, mas Maria também faz parte deste centro.
Escreve o papa João Paulo II: “No centro deste mistério, no mais
vivo dessa admiração de fé, está Maria. Santa Mãe do Redentor,
ela foi a primeira a experimentá-la”.
Alude à admiração da criação por ter Maria, criatura, gerado o
Criador.
I. MARIA, IGREJA E MINISTÉRIOS
Para
falarmos de Maria relacionada ao ministério Batismal e
Sacerdotal, é necessário fazermos menção ao relacionamento de
Maria com a Igreja, dado que estes ministérios são ministérios
eclesiais, pois se desenvolvem no âmbito da Igreja. São,
sobretudo, serviços. Ministério aponta para o serviço, dado que
o ministro é o servidor da comunidade, (ministerium =
serviço, vem da raíz minus = menor, o que está em
posição abaixo para servir à mesa e minister = servo ou
servente). É importante notar que o primeiro e mais fundamental
na Igreja é a comunidade e não o ministério, pois o ministério
existe em função da comunidade. Por isso, quando os ministros se
sobrepõem à comunidade com espírito de dominação e mando, é uma
aberração.
E
quando falamos em comunidade, comunhão, nos reportamos ao que é
nuclear no cristianismo: ao amor. O único valor que permanecerá
para sempre, a única meta da vida cristã, é o amor. Mas dizer
amor parece um lugar comum, a palavra amor serve para tantas
coisas, por isso o amor compreendido cristãmente é serviço:
amor-serviço: “coloquem-se a serviço uns dos outros através do
amor” (Gl 5,13). A grandeza de Maria, portanto, está neste amor
único e perfeito com o qual ela amou Jesus, cumprindo a vontade
do Pai que é a aceitação de Jesus em nossa vida: A vontade do
Pai é que aceiteis aquele que Ele enviou e assim tenham a vida
eterna (cf. Jo 6,40).
A
Igreja é comunidade de amor, é Igreja da Caridade
e nela Maria refulge como a que mais amou. Porque estava imersa
no amor, tinha o espírito de serviço: “Eis aqui a serva do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade” (Lc 1,38). Mas o
amor da Igreja, e o de Maria também, não é amor primeiro, só
Deus ama primeiro, portanto é um amor que brota da fé.
O
ponto fundamental do relacionamento de Maria com a Igreja é sua
primazia na fé: “bem-aventurada você que acreditou...” (Lc 1,
45). O concílio Vaticano II diz: “A todos aqueles que olham com
fé para Jesus, como autor da salvação e princípio de unidade e
de paz, Deus convocou-os e constituiu com eles a Igreja, a fim
de que ela seja para todos e cada um, sacramento visível desta
unidade salvífica”.
Podemos afirmar que a fé é fundamento e condição para tudo o
mais dentro do cristianismo. É atitude fundamental como resposta
a uma proposta. Podemos afirmar até que: “O cristianismo não é
propriamente uma religião, mas antes uma experiência de fé”.
Existe, portanto, uma proto-bem-aventurança, uma
bem-aventurança que precede todas aquelas enumeradas no Sermão
da Montanha. É a bem-aventurança da Fé proclamada por Isabel (Lc
1,45) e confirmada por Jesus: “Felizes, antes, os que ouvem a
Palavra de Deus e a observam (Lc 11,17-28; cf. tb.: Mc 16,16;
Jo 20,29). Maria cooperou de modo singular com a obra da
redenção, pela fé, obediência, esperança e caridade, por tudo
isso ela é mãe da Igreja na ordem da graça.
Ela é assim reconhecida como modelo extraordinário da Igreja na
ordem da fé: “Maria reúne em si e reflete as maiores exigências
da fé”.
Os bispos da América Latina por isso vêem em Maria a educadora
na fé: “Enquanto peregrinamos, Maria será a mãe educadora na fé,
ela cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa
vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade”.
O
papa João Paulo II faz uma consideração significativa a respeito
da fé de Maria, dizendo que no cenáculo, através da vinda do
Espírito Santo, começou a caminhada da fé da Igreja. Porém, a
caminhada da fé de Maria é mais longa que a da Igreja, pois a de
Maria começou na Anunciação: “No cenáculo, o itinerário de Maria
encontra-se com a caminhada da fé da Igreja (...) esta sua fé
heróica precede o testemunho apostólico da Igreja e permanece no
coração da mesma Igreja”.
De
Pentecostes nasce a Igreja com sua missão e serviço apostólico.
Missão que podemos associar ao batismo, e serviço apostólico o
qual podemos associar ao sacerdócio ministerial. Maria não
recebeu diretamente esta missão apostólica e nem precisou ser
batizada com água como nós, mas ela é a grande testemunha que
confere historicidade ao mistério da encarnação e redenção:
·
“Esse
primeiro núcleo daqueles que se voltaram com fé para Jesus
Cristo, autor da salvação, estava consciente de que o mesmo
Jesus era o Filho de Maria e que ela era sua Mãe; e como tal,
desde o momento da concepção e do nascimento, ela era uma
testemunha especial do mistério de Jesus, daquele mistério que
tinha sido expresso e confirmado diante dos seus olhos com a
cruz e a Ressurreição. A Igreja, portanto, desde o primeiro
momento, olhou para Maria através de Jesus, como também olhou
para Jesus através de Maria. Ela foi para a Igreja de então e de
sempre uma testemunha singular (...) foi quem primeiro
acreditou”.
Por
tudo isto, podemos falar de um “princípio mariano”, que perpassa
toda a fé da Igreja e que se pode exprimir da seguinte maneira:
“O ato de fé mariano-eclesial perfeito completa e aperfeiçoa o
ato de fé que fazemos de modo incompleto e imperfeito”.
Assim podemos falar de Maria relacionando-a ao ministério
Batismal e Sacerdotal, porque relacionada intimamente a Jesus no
mistério Pascal. Maria recebe no Templo, uma profecia especial:
terá participação privilegiada nos sofrimentos do Salvador,
“uma espada transpassará sua alma” (Lc 2,25-38).
II. SACRAMENTOS
E MINISTÉRIOS
A vida da Igreja que, como tal, é sacramento na
expressão marcante da Lumen Gentium no seu primeiro
capítulo, é constituída pelos sacramentos. Sem Igreja não seria
possível celebrar os sacramentos, pois foi à comunidade que
Jesus mandou batizar, celebrar a ceia, entregou o serviço
apostólico. Os sacramentos são expressões do mistério=mysterion
manifestado em Cristo. O auge da história da salvação é o
evento Cristo, o mistério por excelência, que Deus torna
acessível através de mistérios mediadores e secundários que são
a celebração dos mistérios litúrgicos na Igreja.
Os
sacramentos podem ser entendidos como atos sinalizadores nos
quais o evento sinalizado (Cristo/Salvação) toca e transforma a
realidade presente. Esta é a visão patrística dos sacramentos da
Igreja Oriental. Na Igreja do Ocidente o conceito bíblico
mysterion será traduzido pelo termo latino sacramentum
= sacramento. No idioma romano, sacramento tem um
significado especial: designa o juramento à bandeira prestado
por soldados quando convocados para a guerra. Assim se expressa
Tertuliano (cf. Ad martyres 3,1): “Somos convocados ao
serviço militar do Deus vivo, quando repetimos as palavras do
juramento à bandeira – cum in sacramenti verba
respondemus) ”.
O
Vaticano II vai recuperar de forma abrangente a compreensão dos
sacramentos. Neles se processa por força do Espírito Santo a
obra da redenção realizada por Cristo, possibilitando a
participação no mistério pascal. Os sacramentos têm sua força
eficaz no ato memorial que “nutre a vida cristã” e capacita os
fiéis para “exercerem o amor”.
A
consideração sobre os sacramentos pode adquirir uma dimensão
ampla e pluriforme, com uma imensa riqueza que poderíamos
resumir da seguinte maneira: os sacramentos são a maneira como
as pessoas encontram seu lugar em Cristo (Rm 8,1), eles permitem
que já não vivam elas próprias, mas Cristo nelas (Gl 2,20), a
fim de que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28). Esta
configuração a Cristo que provém do Batismo e da Ordem, traz em
si uma exigência de servir como Cristo.
Aqui, porém, vamos partir da consideração feita acima no sentido
de falar do Batismo como sacramento que torna os batizados
ministros no sentido em que respondem ao anúncio-kérigma,
tornando-se discípulos e missionários. O sacramento da Ordem
faz do batizado um servidor do Povo de Deus, para criar a
solidariedade entre os homens e Deus e dos homens entre si.
Ambos fazem um juramento, se engajam numa tarefa de vida como
Maria que ouviu o Anjo que lhe anunciou Jesus. Ela acreditou,
respondeu com a fé de discípula e se tornou missionária indo
levar Jesus a Isabel. E por toda a sua vida esteve a serviço da
causa de Jesus, o Reino, como mostram os Evangelhos.
Tanto no Batismo como na Ordem existe um sim fundamental que nos
reporta ao sim de Maria: “O sim de Maria é a porta
através da qual Deus pôde entrar no mundo, fazer-se homem.
Assim, Maria está real e profundamente comprometida com o
mistério da Encarnação, da nossa salvação... Assim, sacrifício,
sacerdócio, Encarnação caminham juntos e Maria está no centro
deste mistério”.
III. MINISTÉRIO
BATISMAL: DISCIPULADO E MISSÃO A EXEMPLO DE MARIA
1. Batismo
como inserção em Cristo
O batismo acontece como resposta a uma proposta. Quando
Deus em Jesus se torna manifesto a nós, devemos responder com a
fé e sermos batizados. Este é o caminho conforme nos mostra os
Atos dos Apóstolos (2,14-41). O kérigma é fundamental, é
o que vem primeiro e gera a fé e, consequentemente, o batismo.
Com
o batismo de crianças que se tornou a norma em nossa Igreja,
perdeu-se muito do verdadeiro significado do batismo e suas
consequências. A Igreja tem se empenhado para recuperar o
kérigma como momento primeiro de proposta, chamado, anúncio
de Jesus que fundamenta o batismo e a vida cristã, mas até hoje
não tem conseguido. A V Conferência dos Bispos da América Latina
em Aparecida ressalta a importância do Kérigma: “A
iniciação cristã que inclui o kérigma, é a maneira
prática de colocar alguém em contato com Jesus Cristo e
iniciá-lo no discipulado”.
Ao
ser batizado, recebe-se a vida nova em Cristo, a participação na
vida de amor da Trindade. Incorporado à comunidade, participa do
sacerdócio comum dos fiéis (sacerdote, pastor e profeta) e em
contato constante com Cristo, o cristão vai se formando como
discípulo em vista da missão. Ser ouvinte da Palavra, ser
discípulo é o que é simbolizado no rito do batismo, quando o
celebrante toca os ouvidos do que está sendo batizado, augurando
que logo possa dedicar-se a ouvir a Palavra.
O
Batismo é inserção em Cristo que é a Palavra de Deus Viva, a ser
ouvida (discípulo) e anunciada (missão). O batismo tem muito a
ver com o profetismo de Jesus, por isso Pedro no dia de
Pentecostes, anunciando o kérigma, diz que chegou o tempo
de todos profetizarem (At 2, 17-18). Os que são batizados
assumem a missão profética de Jesus no mundo, missão que ele
deixa clara ao falar na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 18-20).
A
mensagem distintiva do cristianismo é que o Pai estabeleceu que
as palavras e as ações de seu Filho encarnado, cheio do Espírito
Santo, sirvam como instrumentos privilegiados de sua
justificação definitiva do mundo por meio da sua extensão na
história (Igreja), até que chegue à nova criação. Assim o
batismo pode ser visto como prolongamento do ato profético de
Jesus em favor da vida e da justiça do Reino. “Concretamente, os
batizados deveriam promover a procura dos direitos humanos, da
justa distribuição, da justiça racial, da fraternidade
internacional e da responsabilidade global, e deveriam fazer
isso explicitamente em nome de Jesus, que é “justiça de Deus”
(1Cor 1,30).
A
água batismal é sinal da vida nova em Cristo, porque a água dá
vida; o batismo nos faz construtores do mundo novo da graça. Mas
a água também tem força para matar, e assim no batismo morremos
para o pecado e nos comprometemos em anunciar o fim do mundo do
pecado. No rito do batismo a missão é sinalizada quando o
celebrante toca os lábios do que está sendo batizado e almeja
que ele possa logo anunciar a Palavra.
2. Maria: Discípula perfeita e missionária, paradigma para os
batizados
Podemos relacionar Maria ao ministério batismal, percebendo como
ela se tornou ouvinte da Palavra e ajudou os outros a se
tornarem ouvintes também. Maria é aquela que sabe ouvir, é a
grande ouvinte que “guardava tudo e meditava em seu coração” (Lc
2,19). Poderíamos falar muito sobre este aspecto do ouvir e do
silêncio, como algo revolucionário na nossa vida de cristãos e
no nosso relacionamento com Deus; penso ser desnecessário.
Limito-me a transcrever o que dizem os bispos em Aparecida: “A
máxima realização da existência cristã como um viver trinitário
de filhos no Filho, nos é dada na Virgem Maria que, através de
sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc
1,38), assim como por sua constante meditação da palavra e das
ações de Jesus (cf. Lc 2,19.51), é a discípula mais perfeita do
Senhor”.
Maria discípula ouve a vida toda e ajuda os outros a ouvirem
Jesus. Ao levar Jesus a Isabel que “sentiu” a presença do “seu
senhor”, como em Caná quando recomenda que façam o que Ele diz,
como no Cenáculo rezando com os apóstolos. Para Lucas, Maria é a
mãe de Jesus (At 1,14). Mas por tudo que aconteceu no seu
itinerário de vida, ela teve de se fazer sua discípula, de tal
forma que aparece neste começo da Igreja como irmã entre os
irmãos (At 1,15); no cenáculo, a comunidade dos discípulos de
Jesus forma um grupo de irmãos e entre eles está Maria,
colocando à disposição da Igreja nascente seus dons de oração e
seu testemunho de fé.
Podemos relacionar Maria com o ministério batismal de ser
missionário, percebendo que Maria o foi, levando Jesus e
anunciando pelo Magnificat o cumprimento das promessas de
Deus (Lc 1, 46-56). Maria aqui é profetiza no sentido em que
anuncia a seu modo a justiça de Deus. “Profeta é aquele que diz
algo aberta e coerentemente, que tem algo a dizer com toda a sua
vida, algo que só pode ser dito neste mundo por meio dele”.
Maria aí nos mostra que é a partir da fé e da aceitação de Jesus
Cristo e sua missão em favor do Reino, que podemos assumir em
nossa vida a missão de Jesus em sua dimensão libertadora no
plano individual e social. “É para ela, pois, que a Igreja, da
qual ela é Mãe e Modelo, deve olhar para compreender, na sua
integridade, o sentido de sua missão”.
Maria é a grande missionária, continuadora da missão de seu
Filho e formadora de missionários, dizem os bispos em Aparecida.
Ela, da mesma forma como deu à luz o Salvador do mundo, trouxe o
Evangelho à nossa América, referindo-se ao acontecimento de
Guadalupe. Por isso hoje, quando se quer enfatizar o discipulado
e a missão, é ela quem brilha diante de nossos olhos como imagem
acabada e fiel do seguimento de Jesus Cristo.
A
Igreja gera de modo virginal seus filhos nascidos da água e do
sopro do Espírito Santo para serem discípulos e missionários.
Aquilo que acontece em nós no batismo tem sua originalidade e
sua força inicial no seio da virgem Maria. “Junto a toda fonte
batismal da mãe Igreja, está a Mãe de Jesus”.
IV. MINISTÉRIO
SACERDOTAL: SERVIÇO E SOLIDARIEDADE EM UNIÃO
COM MARIA
1. Sacerdócio ministerial: configuração a Cristo Servo
Neste ano sacerdotal que tem como tema “fidelidade a Cristo,
fidelidade sacerdotal”, a reflexão sobre o sacramento da ordem é
abundante, porém para lembrar a missão do sacerdote basta uma
palavra: servir. O serviço foi idéia vital do concílio
Vaticano II. Firmando-se na idéia bíblica fundamental de
serviço, o concílio relembra aos cristãos aquilo que segundo as
Escrituras é a atitude religiosa básica de Cristo, e que deve
ser também a atitude de cada cristão perante seus irmãos e toda
a família humana.
O
documento sobre a formação dos futuros sacerdotes deixa claro:
“Saibam com muita clareza os candidatos ao sacerdócio, que seu
destino não é o domínio nem as honras; ao contrário, deverão
eles colocar-se inteiramente a serviço de Deus e do ministério
pastoral”.
Habilitados pelo caráter e pela graça do sacramento da ordem, os
sacerdotes como ministros de Jesus Cristo, se comprometam
voluntariamente a servir a todos na Igreja. Enfim, o ministério
sacerdotal foi instituído num contexto, a última ceia, onde
Jesus encenou o lava-pés como recurso extremo para exortar e
deixar claro qual o cerne do ministério apostólico na Igreja: o
serviço em vista da solidariedade ou unidade de Deus com os
homens e dos homens entre si.
Se o
presbítero deve configurar-se a Cristo, a forma humana de Cristo
é a forma de servo: “Como subsistisse na natureza de Deus...
despojou-se a si mesmo, tomando a condição de servo” (Fl 2,6).
Servo, esta é a condição “incômoda” de vida, o modus
vivendi do Verbo encarnado em vista de se fazer solidário
com a humanidade em tudo, menos no pecado.
O
serviço do sacerdote assim como o de Jesus Cristo tem como
finalidade a realização “antecipada” do Reino na história,
prolongando os gestos proféticos de Cristo. Mesmo havendo
diferenças nos graus do sacramento da Ordem (bispo - supervisor,
o presbítero - mais velho/superior e diácono - servidor), há um
fio condutor que perpassa estas funções: o serviço. O que está
fora do serviço é dominação e não pertence ao espírito de
Cristo. O serviço exercido pelo sacerdote expressa-se de várias
maneiras: no testemunho de pertença a Deus, na função de
santificar, no anúncio da Palavra de Deus, na guarda do amor, na
defesa da vida, na opção pelos pobres, enfim: no empenho pela
justiça do Reino.
Tem-se falado muito na “caridade pastoral” que é expressão da
vida de serviço do presbítero à comunidade, no exercício de seu
papel específico que é garantir a unidade da comunidade
eclesial.
Porém, redescobre-se hoje a importante tarefa do sacerdote como
mediador: “Uma tarefa importante do presbítero hoje é ser
mistagogo, educador para a oração, mestre da oração. Ele não
é realmente mediador entre Deus e os homens. Há um só mediador
entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1Tm 2,5). Só ele é
o mediador da Nova Aliança (Hb 8,6; 9,15; 12,24). O sacerdote
pode, sim, participar dessa função, como, aliás, todo cristão ou
cristã, e de modo particularíssimo Maria, Mãe de Jesus (cf. LG
60,1;62)... Ele é o paraninfo que leva a noiva ao noivo,
como sugere Paulo (cf. 2Cor 11, 2). Ele não é o noivo, mas
apenas o amigo do noivo...”.
2. Maria: Serva solidária e mistagoga, paradigma para os
sacerdotes
Se o
amor-serviço é o fundamento da missão sacerdotal e seu exercício
se dá na caridade pastoral que se desdobra em várias funções,
podemos auferir que todas as funções sacerdotais têm relação com
Maria.
Associada como mãe a Cristo redentor, Maria embora não
participando do sacramento da Ordem, adquire missão com
características sacerdotais e de oferta sacrifical, que estão em
estreita relação com Cristo sacerdote.
O
sacerdócio de Cristo não era clerical, tanto Jesus como Maria
foram leigos. O sacerdotal em Cristo pertence à sua realidade
existencial e situa-se no nível da teologia, como o mostra a
carta aos Hebreus, que tem como categoria de fundo o sacerdócio
como mediação. Esta mediação do Cristo Sacerdote começa
com sua existência terrena, culmina na cruz e permanece para
sempre na sua existência de Ressuscitado glorioso.
“Maria e o sacerdote são ambos instrumentos de comunicação
salvífica entre Deus e os homens, a primeira mediante a
encarnação, o segundo mediante os poderes da ordem”, afirma
Paulo VI,
aquela que está no ápice da economia da salvação “precede e
supera o sacerdócio”.
O sacerdote está unido ao ministério de Cristo e, como Maria
esteve associada à sua missão, ela o está também associada à
ação ministerial de cada sacerdote. Por isso Maria é a mãe dos
sacerdotes de modo especial.
A
Carta aos Hebreus propõe duas condições requeridas para ser
sacerdote: fidelidade e compaixão (Hb. 3,1-5,10 ). Em Maria a
fidelidade aparece de forma perfeita na sua adesão ao Plano de
Deus manifestado em Cristo. Sua compaixão se expressa na sua
união íntima a Cristo e associação à obra da redenção: estava
junto à cruz. É claro que o único mediador é Cristo, mas em João
a mediação de Maria junto a Jesus é destacada em texto muito
concreto: o de Caná (2, 1-12). “Quando o episódio de Caná chega
ao fim, Jesus já realizou o primeiro sinal, os discípulos crêem
e Maria já está associada à hora de Jesus com missão e função
concretas”.
Esta mediação está
conectada também com a ação do Espírito Santo simbolizado na
água. Maria tem relação com o Espírito que transforma a História
e renova todas as coisas em ordem ao Reinado de Deus. Como
ressalta João, uma das funções de Maria na Igreja é servir aos
irmãos, conduzindo-os à fé: Maria leva à fé: é
mistagoga.
Assim a espiritualidade sacerdotal é essencialmente eclesial e
mariana, porque brota do fato de ser o sacerdote, sinal pessoal
de Cristo que está presente na Igreja, associando Maria à sua
missão. Vivendo o mistério de Maria, entra-se mais profundamente
no mistério de Cristo sacerdote.
Enfim, a maternidade de Maria deve ser compreendida não só no
plano do afeto, como amor materno, mas também no plano de formar
e educar para a vida, que é tarefa própria da mãe e que, na
Igreja, é exercida de modo especial pelo ministro ordenado que
chamamos de padre, “pai”.
Maria “mulher Eucarística”
ensina ao sacerdote a oferecer sua vida na Missa. Sobre o altar
ele fará seu o sim com o qual Maria se ofereceu a si
mesma na Anunciação, para ser a fiel colaboradora com a obra
redentora de Cristo. Se Maria tem relação com a hora de nossa
morte, como a invocamos na Ave Maria, não é somente porque é a
hora mais angustiante, é também porque é a hora do nosso eterno
nascimento para a vida definitiva. É o momento do parto em que a
mãe Maria, primeira entre os redimidos, qual sacerdote, se faz
presente para nos consignar à Trindade que nos acolherá como
Pátria dos redimidos.
CONCLUSÃO
É evidente a partir das Escrituras o papel importante de Maria
na História da Salvação: Jesus a associou à sua missão. Se
Maria está associada a Cristo, está também associada à Igreja e
nela tem presença destacada, pelo que podemos chamá-la de “Mãe
da Igreja”, como o declarou solenemente o Papa Paulo VI no
encerramento da terceira fase do Concílio Vaticano II: “Para a
glória da Virgem e para o nosso consolo, proclamamos Maria
Santíssima Mãe da Igreja, isto é de todo o Povo de Deus,
tanto dos fiéis como dos pastores”.
A força original do papel que Maria ocupa na Igreja brota
da fé (sim) e do serviço (amor). Já ao ser apresentada no
Evangelho (Anunciação), ela é aquela que acredita e, por amor,
se coloca a serviço: “Eis a serva do Senhor...” A partir de sua
Fé podemos ver nela o modelo dos batizados, que devem ser
discípulos e missionários, entregando-se continuamente na adesão
fiel ao seguimento de Jesus.
A partir de seu espírito de amor-serviço podemos ver nela
um paradigma para os sacerdotes como mediadores: servidores da
solidariedade entre Deus e os homens e dos homens entre si: “O
Concílio Vaticano II convida os sacerdotes a olhar para Maria
como o modelo perfeito da sua existência, invocando-a como Mãe
do Sumo e eterno Sacerdote, Rainha dos Apóstolos, Auxílio dos
presbíteros em seu ministério”.
Minha alma engrandece ao Senhor porque Ele fez em mim
grandes coisas e doravante todas as gerações me chamarão de
Bendita (cf. Lc 1, 46-55). A canção libertadora de Maria segundo
a tradição vétero-testamentária (Miriam, Débora, Ana, Judite),
indica a nova ordem da criação, que é boa nova para os pobres e
marginalizados da sociedade. Este é o cântico de Maria na
assembléia dos batizados - discípulos e missionários - a Igreja,
que por intermédio de seus ministros ordenados na sucessão dos
apóstolos, proclama a Palavra e celebra a Eucaristia, tornando
Jesus presente no mundo, assim como ela o fez.
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