Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

A FUNDAÇÃO DE CAMPINAS E DA PARÓQUIA (FREGUESIA) DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

 

      A terceira petição, como vimos submetida às autoridades eclesiásticas paulistas, pelos agricultores de Campinas do Mato Grosso, era no sentido de que uma capela provisória abrigasse a sede de distrito e de freguesia. A demanda religiosa estava, agora, explicitamente vinculada ao propósito político, de autonomia em relação a Jundiaí.

 

     A construção da primeira igreja Matriz estava atrasada, os moradores pediam autorização para construir “uma ermida mais à ligeira, com a decência possível, para servir enquanto não se conclui a dita Matriz”.

 

     No dia 7 de maio de 1774 o bispo de São Paulo, d.Frei Manuel da Ressurreição, recém-empossado como bispo, finalmente emitiu autorização para a construção da capela provisória em Campinas, enquanto a matriz não fosse concluída. E seria uma “capela feita de barrotes e paus roliços e coberta de sapé, estando à testa do serviço José Pedroso, vindo de Parnaíba”.

 

      Os fatos se precipitaram, e o governador da Capitania de São Paulo, Luis Antônio de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, também passou a interferir, pois o movimento pela criação de uma nova Freguesia em Campinas, liderado pelos agricultores locais, coincidia com as ordens recebidas de Lisboa, para consolidar a ocupação da região Centro-Sul do Brasil. As orientações que o Morgado de Mateus recebia de Portugal vinham mais precisamente do seu padrinho político, o Marquês de Pombal, o todo-poderoso de Lisboa na época, primeiro ministro do Rei de Portugal.   

 

        O objetivo central do projeto  político e econômico do Marquês de Pombal era a autonomia portuguesa, então essencialmente dependente dos interesses da Inglaterra. Para atingir esse propósito, Pombal ainda tinha de lidar com uma aristocracia igualmente dependente.

 

       Um dos caminhos trilhados pelo Marquês foi o de estimular a ocupação e o desenvolvimento dos territórios coloniais, o que se tornou ainda mais estratégico após o terremoto de Lisboa em 1755 – era essencial buscar novas fontes de renda para financiar a reconstrução da capital e a recomposição do Império português, considerando o esgotamento progressivo da exploração de minérios em áreas como a Capitania de Minas Gerais.

 

      E foi o que aconteceu. Sob as ordens de Pombal, o Morgado de Mateus passou a criar novas freguesias e vilas na Capitania de São Paulo. Seria uma forma de estimular a ocupação e promover a defesa das terras cobiçadas pelos castelhanos. Uma dessas localidades foi a freguesia de Piracicaba, criada oficialmente a 1o de agosto de 1767, pelo ituano Antônio Correa Barbosa.

 

      A última localidade fundada no mandato do Morgado de Mateus, a 14 de julho de 1774, foi a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. O Marquês de Pombal foi derrubado no ano seguinte, e com ele caíram todos seus homens de confiança, como o Morgado.

 

      O Morgado de Mateus conhecia perfeitamente a estrutura da Igreja. Ele era membro da Ordem Terceira de São Francisco, uma ordem secular, e freqüentador do convento franciscano de São Paulo, como lembra Celso Maria de Mello Puppo, em seu “Campinas, seu berço e juventude”, página 38. Muito provavelmente o Morgado de Mateus conhecia o frei Antônio de Pádua Teixeira, que viria a ser o primeiro pároco da nova Freguesia de Nossa Senhora das Campinas do Mato Grosso.   Morgado de Mateus fora indicado por Pombal para a Capitania de São Paulo, mas não era, como seu protetor, totalmente anti-clerical.

 

     A 27 de maio de 1774 Morgado de Mateus emitiu um bando, equivalente ao atual decreto, indicando Francisco Barreto Leme como fundador da Freguesia e Distrito de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. O bando indica até o formato que deveria ter a nova área urbana, apontando para uma tradição de planejamento que Campinas infelizmente não confirmou ao longo da história.

 

 

BANDO DE MORGADO DE MATEUS PARA FUNDAÇÃO DE CAMPINAS

 

Porquanto tenho encarregado a Francisco Barreto Leme formar uma povoação na paragem chamada Campinas do Mato Grosso, distrito de Jundiaí, em sítio onde se achar melhor comodidade e é preciso dar norma para a formatura da referida povoação: Ordeno que esta seja formada em quadras de sessenta ou oitenta varas cada uma, e daí para cima, e que as ruas sejam de sessenta palmos de largura, mandando formar as primeiras casas nos ângulos das quadras, de modo que fiquem os quintais para dentro a entestar uns com os outros”. 

 

 

 

      O governador Morgado de Mateus emitiu uma nova determinação, a 3 de junho de 1774. Desta vez foi um pedido de empréstimo, a dona Inácia Bueno, referente a paramentos para a capela que seria inaugurada em Campinas. O Morgado de Mateus pediu em empréstimo até do sino maior da Capela da Piedade, localizada em propriedade de Inácia Bueno, para que ele servisse à nova capela, até que um próprio fosse comprado pelos agricultores campineiros.   

 

      E a fundação da nova Freguesia aconteceu, a 14 de julho de 1774. Francisco Barreto Leme era o fundador oficial, por ato do governador. Mas a Freguesia tinha um co-fundador, o Frei Antônio de Pádua Teixeira, nomeado vigário interino da nova Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, pelo bispo d.Frei Manuel da Ressurreição.

 

      A capela provisória foi erguida com barrotes de paus roliços e coberta com sapé, como relata Jolumá Brito, "estando à testa do serviço José Pedroso, vindo de Parnaíba, onde cometera um homicídio, e neste serviço trabalhou puxando barrotes nos ombros de Luis Antônio de Carvalho Banhos. É o mesmo a que nos referimos, que fugira ao recrutamento do serviço militar a que se procedia em Itu" (“História da Cidade de Campinas”, Volume I, Jolumá Brito, Campinas, 1956, página 146).

 

       No mesmo dia da primeira missa (na capela provisória, erguida no local onde hoje está o túmulo de Carlos Gomes, no lado oposto à Basílica do Carmo) deu-se a fundação da unidade civil ou distrito. A missa, conduzida pelo Frei Antônio de Pádua Teixeira, foi co-oficiada pelo Frei Manoel de Santa Gertrudes, presidente do Mosteiro de São Bento, e o padre Antônio do Prado Siqueira, vigário de Mogi-Mirim.   

 

      A missa também serviu para o batizado de um neto de Barreto Leme e para o casamento de um casal de escravos. Ato muito simbólico, pois Campinas – assim como toda área que assistiria ao incremento da cultura da cana-de-açúcar – começava a receber um número cada vez maior de escravos para suas lavouras.

 

     Fundamental lembrar que, durante todo o período colonial, a estrutura da Igreja Católica se confundia com a do Estado, ou seja, com a Coroa Portuguesa, no que se convencionou chamar de regime do “Padroado” ou “Cristandade”. A relação de unidade se manteve durante a monarquia brasileira. A separação entre Igreja e Estado aconteceria apenas com a Proclamação da República, a 15 de novembro de 1889.

 

     É por isso que todo o movimento que levou à criação da paróquia ou freguesia (classificação religiosa) esteve associado à criação do distrito (classificação civil) de Campinas, como Distrito do Termo ou Município de Jundiaí. Igreja e Estado eram praticamente a mesma coisa.  Daí o fato da criação do embrião de uma nova cidade, no caso Campinas, a partir de um distrito, ter sido marcada com uma primeira missa, justamente da nova paróquia, a da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso.  Fatos que reforçam a afirmação de que o Frei Antônio de Pádua Teixeira é, com justiça, co-fundador de Campinas.

 

      Estava assim concluído o primeiro capítulo da trajetória que levou à criação da que seria, no futuro, Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. Começava a atuação da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas, naquela capela humilde, em uma área doada por Francisco Barreto Leme (Como diz José Roberto de Amaral Lapa: “O rocio foi doado pelo fundador Francisco Barreto Leme, que cedeu parte de sua propriedade à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. As suas terras acredita-se que fossem de uma das primitivas sesmarias, que pertencera a Antônio da Cunha de Abreu, medindo uma légua em quadra e tendo como referência dessa medição, segundo se acredita, o local do campinho do meio, onde hoje se encontra a praça Bento Quririno e a Matriz do Carmo”. Amaral Lapa, José Roberto do, “A cidade: os cantos e os antros. Campinas 1850-1900”, Edusp Editora, 2001, pagina 49). Os nomes de Barreto Leme e de Frei Antônio de Pádua Teixeira estavam definitivamente inscritos, em letras maiúsculas, na história de Campinas e da Igreja.

 

      Pela ligação entre Igreja e Estado na época, a primeira paróquia de Campinas correspondia à toda extensão do novo distrito. O território paroquial ficava entre as paróquias de Mogi Mirim, ao Norte; de Amparo, a Leste;  de Jundiaí, ao Sul: e de Capivari e Piracicaba, a Oeste.   

 

     Um imenso território, correspondente ao que seria, depois, a maior parte da Região Metropolitana de Campinas (RMC), criada em maio de 2000. Muitos municípios da RMC foram criados com o desmembramento de Campinas, como Valinhos, Hortolândia, Sumaré, Americana, Paulínia. A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso já nascia grande em termos territoriais, e durante todo o século 19 houve discussões em relação aos limites, principalmente entre Campinas e Piracicaba (então Vila Nova da Conceição). 

 

        A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas era subordinada civilmente à Câmara de Jundiaí, mas não à Freguesia ou Paróquia de Jundiaí, à qual passa a igualar-se em atribuições de poderes com início do cartório eclesiástico próprio com livros de assentamentos de batizados, casamentos e óbitos.

 

 

 

BARRETO LEME, TRADIÇÃO DE DESBRAVAMENTO

 

      Barreto Leme tinha provavelmente 70 anos quando assistiu, emocionado e com o senso do dever cumprido, à primeira missa da nova Freguesia. Os registros históricos indicam que ele teria nascido em 1704, na Vila de Taubaté. Depois ele se casou com Rosa Maria de Jesus, com quem viveu em Caçapava. O casal teve 12 filhos, sete deles nascidos em Campinas.

 

      Mas episódios como aquele não eram estranhos à família Leme. Pelo contrário, os Lemes tiveram papel preponderante na expansão portuguesa, e durante quase três séculos participaram de muitos episódios cruciais para a história de Portugal e do Brasil.

 

      O ponto de partida para essa presença multissecular dos Lemes está no porto de Bruges, na Bélgica, uma pequena cidade que, por seu mosaico de canais entrelaçados, é conhecida como a “Veneza do Norte da Europa”.

 

      Para muitos turistas que a  visitam rapidamente, Bruges será provavelmente apenas a “terra do chocolate”, tal a quantidade de itens fabricados na cidade com a famosa iguaria. Mas Bruges é de fato uma localidade importantíssima na história das grandes navegações européias.

 

      Por sua localização estratégica, entre a própria Bélgica, Holanda, França e Inglaterra, Bruges era uma base privilegiada para a ação de financistas e mercadores de vários países. Era uma pequena cidade cosmopolita, onde vivia o flamengo Martim Lems, praticamente o fundador da dinastia Leme, que percorreria os mares do planeta a serviço, sobretudo, da Coroa portuguesa.

 

      Data provavelmente de 1452 a chegada a Lisboa de Martim Lems I, um dos filhos do patriarca. Na capital lusitana, a transformação de Lems para Leme foi natural. Dois filhos de Martim Leme I, Antônio Leme e Martim Leme II, foram ativos na conquista portuguesa de Tanger e Arzila, no Norte da África, em 1471. Pelo ato, foram nomeados Cavaleiros Flamengos a serviço do  Rei Afonso V, de Portugal, segundo registra Manoel de Sueyro nos Anais de Flandres.

 

      Os dois Cavaleiros Flamengos tiveram destino oposto, como indica John G.Everaert no paper “Les Lem, alias Leme une dynastie marchande de origene flamande au service de la expansion portugaise”, publicado pelo Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA), de Funchal, Ilha da Madeira.

 

      Martim Leme II retornou a Bruges, onde ocupou vários cargos políticos, econômicos e militares. Antônio Leme se estabeleceu na Ilha da Madeira, onde se casou com Catarina de Barros e teria sido colaborador do próprio Cristóvão Colombo, que viveu algum tempo no local.

 

      Vários episódios da vida dos Lemes na Ilha da Madeira estão documentados nas “Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira”, de Henrique Henriques de Noronha, também publicado pelo CEHA.

 

      Foi a partir da Ilha da Madeira que um ramo da família Leme acabou se ligando à história do Brasil. Um filho de Antônio Leme, Antônio Leme II, migrou para o Brasil e em 1544 já era juiz-ordinário do Conselho Municipal de São Vicente – a primeira Câmara Municipal criada em solo americano.

 

      Pedro Leme, filho de Antônio Leme II, casou-se por três vezes, e seus filhos estão entre os pioneiros da introdução da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo. Pedro Taques e Teodoro de Sousa Campos Júnior, dois dos principais historiadores dos momentos iniciais de São Paulo, fizeram vários registros da importância da família Leme no Estado.

 

      Os Lemes eram, por exemplo, co-proprietários do Engenho São Jorge dos Erasmos, em São Vicente. Vários Lemes participaram, ainda, das “entradas” e “bandeiras” que tomaram o rumo do interior paulista e do país, para a captura de índios e busca de pedras preciosas. Um dos mais famosos deles é, naturalmente, Fernão Dias Paes Leme, o “caçador de esmeraldas”.

 

      Um neto de Pedro Leme, que tinha o mesmo nome do avô, foi o bisavô de Francisco Barreto Leme. Pedro Leme era pai de Mateus Leme do Prado, por sua vez pai de Pedro Leme do Prado, que se estabeleceu no Vale do Paraíba no final do século 17, depois de viver em São Vicente. Em Caçapava, que pertencia a Taubaté, Pedro Leme do Prado casou-se com Francisca de Arruda Cabral, com quem teve o filho Francisco Barreto Leme, nascido em 1704.

 

      A origem nobre de Francisco Barreto Leme, pelo lado paterno, era complementada por ascendência igualmente ilustre, do lado materno. Francisca de Arruda Cabral, sua mãe, era neta do capitão Manuel da Costa Cabral, membro da família do descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.

 

      Provavelmente Francisco Barreto Leme tinha esse passado cheio de proezas quando assistia ao Frei Antônio de Pádua Teixeira e os dois co-oficiantes encerrarem a primeira missa na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. E não tinha sido, portanto, por acaso que foi confirmado pelo Morgado de Mateus como o fundador oficial.

 

      Barreto Leme tinha uma razão pessoal muito forte para estar especialmente tocado com a cerimônia. Tinha sido ele o doador daquela gleba da paragem das Campinas, antes ligada a suas propriedades rurais, que adquirira das primeiras sesmarias concedidas em Campinas, para edificação da primeira igreja e instalação do núcleo urbano, conforme as determinações contidas no Bando do Morgado de Mateus (cf. “Campinas, Cantos e Antros”, página 49).

 

      Além de doar as terras, Barreto Leme contribuiu para a construção da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada a 25 de julho de 1781, já no espaço da atual Basílica do Carmo. Parece até que o descendente dos Lemes de Bruges estava aguardando essa inauguração, que na prática representava a concretização de um sonho de décadas.

 

      Pouco tempo depois, a 13 de abril de 1782, falecia Francisco Barreto Leme. Seu corpo foi enterrado no espaço da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, posteriormente chamada de Matriz Velha e atual Basílica do Carmo, como atesta o registro do vigário Frei José de Monte Carmelo Siqueira, terceiro pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição:

 

 

      “FRANCISCO – Aos treze de abril de 1782 faleceu da vida presente FRANCISCO BARRETO LEME de idade de setenta e oito anos com todos os Sacramentos. Foi por mim recomendado e sepultado dentro desta de Igreja de Nossa Senhora da  Conceição das Campinas. E para constar fiz este assento, em que me assinei.

                        O vigr.o Fr.José do Monte Carmelo Seq.a”        

                                  

 

 

      A esposa Rosa Maria faleceria logo depois, como registrou o pároco seguinte, o vigário Inácio José Cintra:

 

“ROSA – Aos dez dias do mês de novembro de mil setecentos e oitenta e dois, faleceu da vida presente ROSA MARIA DE JESUS de idade de setenta anos pouco mais, ou menos, viúva que ficou de FRANCISCO BARRETO LEME. Com todos os sacramentos: foi por mim recomendada e sepultada dentro desta Igreja de N.S.da Conceição das Campinas. E para constar fiz este assento em que me assinei.

                             O vigr.o  Ignácio José da Cintra”

 

 

 

Durante séculos foi mantido o hábito de enterro dos ricos, das pessoas consideradas importantes das comunidades, no interior das Igrejas.  Este costume terminou em Campinas em 1846. Hoje somente os bispos são enterrados no interior das Igrejas. Em vários lugares cemitérios eram mantidos ao lado das Igrejas. Em Campinas havia um cemitério próximo do local onde foi erguida a primeira capela, onde hoje está a casa que foi do Visconde de Indaiatuba (rua Barão de Jaguara, esquina com General Osório). Um cemitério para os escravos existia nas proximidades de onde foi depois construída a Igreja de São Benedito.

 

O local onde Barreto Leme foi enterrado está identificado em uma área da Basílica do Carmo, não muito longe de onde era sua residência na incipiente área urbana, próxima da atual rua Dr.Quirino. Essa casa de grande importância para a história local seria depois doada em patrimônio à matriz Velha e, finalmente, desapropriada para abertura da rua Dr.Quirino.

 

      Em 12 de janeiro de 1869, por iniciativa dos vereadores Rodrigo Otávio de Oliveira Meneses e Cândido Ferreira da Silva Camargo, foi aprovada pela Câmara Municipal a nomeação da antiga rua da Matriz Velha como rua Barreto Leme, em homenagem ao grande pioneiro. A rua Barreto Leme acabaria ligando, posteriormente, o Largo do Carmo à área onde seria construído o Palácio dos Jequitibás, que abriga a Prefeitura Municipal. 

 

     Quando ouvia, enternecido, as palavras pronunciadas na primeira missa em Campinas, Barreto Leme sabia, bem no seu íntimo: o futuro da Paróquia, e da própria área urbana, dependia definitivamente de outro personagem daquele momento, o Frei Antônio de Pádua Teixeira, com quem tinha laço de parentesco. Os dois tiveram um ascendente comum, Pedro Leme, aquele que viera da Ilha da Madeira para se fixar em São Vicente.

 

      E, de fato, as duas famílias, dos Lemes e dos Teixeiras, teriam papel preponderante na estruturação econômica, política e administrativa de Campinas. Se as Campinas do Mato Grosso tiveram seus pioneiros, como os sesmeiros e primeiros produtores rurais, foram estes dois homens, Francisco Barreto Leme e Frei Antônio de Pádua Teixeira, os dois pilares, os sustentáculos da pequena comunidade rural que depois se transformaria na grande metrópole.

 

 

 

FREI ANTÔNIO DE PÁDUA TEIXEIRA, O CO-FUNDADOR

 

      Por vários motivos o Frei Antônio de Pádua Teixeira pode ser considerado co-fundador de Campinas, ao lado de Francisco Barreto Leme. Ele rezou a primeira missa, foi o primeiro pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. E a ação de Frei Antônio foi decisiva para a fixação em Campinas de sua família, que teria papel protagonista no desenvolvimento econômico e organização urbana local. A influência da família Teixeira nos campos político, econômico, cultural e social se estendeu por várias gerações, chegando até nos dias atuais. Mais uma comprovação da importância da primeira Igreja da cidade, atual Basílica de Nossa Senhora do Carmo.

 

      A primeira missa celebrada em Campinas foi cantada. Frei Antônio estava animado e emocionado, ao lado dos dois co-celebrantes. No mesmo ato o primeiro vigário da nova Freguesia assinou o primeiro assentamento, referente ao batizado de um neto de Barreto Leme. Era Domingos, filho de Domingos da Costa Machado, português de nascimento e que era casado com Maria Barbosa, filha de Barreto Leme.   

          

      O primeiro vigário dedicou zelo especial para a consolidação da Paróquia, sediada durante muitos anos naquela capela provisória. Ele ia pessoalmente aos pousos dos tropeiros, arrecadar esmolas dos viajantes, dedicadas à manutenção da primeira Paróquia.

 

      O paroquiato de Frei Antônio de Pádua Teixeira foi relativamente curto. Iniciado a 14 de julho de 1774, foi encerrado a 16 de março de 1779. O Livro Tombo registra o seu último assentamento na Paróquia de N.S.Conceição, o “termo de entrega das alfaias da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição das Campinas, ao ver. Padre Inácio Paes de Oliveira, vigário de Jundiaí”. Mas não era o encerramento da contribuição de Frei Antônio de Pádua Teixeira à Igreja e cidade de Campinas, porque sua colaboração continuaria com seus parentes da família Teixeira, de grande importância para a vida local. 

 

      A presença de Frei Antônio em Campinas foi fundamental para a fixação no novo núcleo urbano de seus pais, Capitão Domingos Teixeira Vilela e da mãe, Ângela Isabel Nogueira do Prado, que viviam em Baependi, Minas Gerais. Ela era natural de Baependi, e o Capitão Teixeira Vilela era português de Chaves. Outros dos 12 filhos do casal também se deslocaram para Campinas, por influência do Frei Antônio. As casas do religioso e da família foram as primeiras na incipiente povoação.

 

      Os censos de 1775 e 1776, realizados em toda Capitania, e que estão no Arquivo Público do Estado de São Paulo, indicam que os pioneiros residentes na Freguesia eram justamente o vigário Frei Antônio de Pádua Teixeira, os pais e os irmãos Joana Antônia Teixeira, José Teixeira Vilela e Filipe Néri Teixeira e, em outro “fogo”, ou casa, Maria Ângela Teixeira.

 

      Começava aí, com a fixação da família do Frei Antônio, a trajetória que levaria à estruturação de um dos principais pólos canavieiros do Brasil e, além disso, era o começo da importante presença de originários de Minas Gerais em Campinas – uma tradição que apenas se consolidaria com o tempo.

 

      Felipe Néri Teixeira e Joaquim José Teixeira Nogueira, irmãos de Frei Antônio, são apontados como os introdutores da indústria do açúcar em Campinas, em conjunto com Antônio Ferraz de Campos (NOVAES, José Nogueira, in “A Câmara Municipal de Campinas”, Campinas, 1974). Os dois foram vereadores em Campinas, assim como filhos, netos e numerosa descendência, com papel relevante no cenário político. José Paulino Nogueira, descendente dessa verdadeira dinastia, era por exemplo presidente da Câmara municipal em 1889, ano da terrível febre amarela que arrasou Campinas.

 

      As raízes dessa participação expressiva dos Teixeira na história campineira estão naqueles anos, nos quais o Frei Antônio de Pádua Teixeira foi o primeiro titular da Paróquia de N.S. de Conceição das Campinas. Após sua decisiva passagem por Campinas, Frei Antônio permaneceu alguns dias no Convento de São Francisco, em São Paulo, até ser nomeado, a 8 de maio de 1779, presidente do Convento São Luis, em Itu, onde faleceu, e de onde ainda atuou como importante elo entre sua família e a dos Camargos. Para se ter uma idéia da importância das duas famílias na história local, os Teixeira Nogueira e Camargo estiveram presentes em 27 das primeiras 32 legislaturas da Câmara Municipal de Campinas.

 

       Uma felicidade o Frei Antônio de Pádua Teixeira acabou não tendo em vida: ver a inauguração da Matriz de N.S.de Conceição das Campinas, o que aconteceria a 26 de julho de 1781. Mas o legado do humilde franciscano permanece, como fruto de seu enorme coração.

 

      

 

OS OUTROS PIONEIROS, DA CIDADE E DA IGREJA

 

      Ao lado de Francisco Barreto Leme e do Frei Antônio de Pádua Teixeira, Campinas teve outros pioneiros, que também tiveram expressiva participação na consolidação do núcleo urbano e da primeira paróquia, antecessora da atual Paróquia e Basílica de Nossa Senhora do Carmo. Entre outros, podem ser citados:

Capitão José de Sousa de Siqueira – Parente de Barreto Leme, nasceu em Guarulhos, casou-se com Margarida Soares de Campos e foi bandeirante nos sertões de Goiás, antes de fixar-se em Campinas, no sítio das Anhumas. Foi um dos líderes da petição para criação de uma Freguesia em Campinas, com sua primeira Igreja. José de Sousa de Siqueira faleceu em 1777, sua esposa Margarida em 1792, e os corpos de ambos foram sepultados na Matriz, assim como vários de seus descendentes. O Capitão foi enterrado com o hábito da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. O Frei Antônio de Pádua Teixeira assinou o Termo de Óbito do Capitão José de Sousa de Siqueira:

 

“JOSÉ DE SOUSA – Aos vinte, digo, aos nove dias do mês de setembro de mil e setecentos e setenta e sete faleceu da vida presente José de Sousa de Siqueira casado com Margarida Soares, de idade de oitenta anos pouco mais ou menos, não ditou testamento aprovado, mas sim um apontamento feito na Vila de Jundiaí pelo Tabelião em que determinava que o seu corpo fosse amortalhado em o seu hábito de Terceiro de Nossa Senhora do Carmo, e fosse sepultado na Igreja Matriz de Jundiaí das grades para cima, onde tinha sepultura paga, e que senão se poder conduzir fosse nesta freguesia; e que se lhe dissesse uma missa de corpo presente; o que tudo se cumpriu, exceto ser enterrado em Jundiaí, por não poderem lá levá-lo, e por essa razão foi sepultado de fronte da porta principal desta Igreja; tendo sido antes fortalecido com todos os sacramentos,nesta mesma freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas, e por verdade, e para constar fiz este assento, em que me assino.

O vigo Fr. Anto de Pádua”  

 

 

 

  • E mais: Diogo da Silva Rêgo, Domingos da Costa Machado, Francisco Pereira de Magalhães, Salvador de Pinho, Luis Pedroso de Almeida, Bernardo Guedes Barreto

 

 

 

DOM FREI MANUEL DA RESSURREIÇÃO, ATUAÇÃO DECISIVA

 

      Além de Morgado de Mateus, Francisco Barreto Leme e Frei Antônio de Pádua Teixeira, d.Frei Manuel da Ressurreição é outra figura capital no processo que levou à criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso.  

 

    A petição assinada pelos “homens bons” de Campinas, liderados por Barreto Leme, para a criação de nova freguesia, desmembrada de Jundiaí, foi encaminhada poucos meses depois de D. Frei Manuel da Ressurreição ter-se tornado o terceiro bispo da diocese de São Paulo, confirmado pelo Papa Clemente XIV em bula de 17 de junho de 1771.

 

      D.Frei Manuel tomou posse a 17 de maio de 1772. A diocese estava vaga há muito tempo. Os moradores encaminharam a petição para a criação da nova freguesia em setembro, portanto, não muito depois de sua posse.

 

      Um documento de 1777, do bispo d.Frei Manuel da Ressurreição, indicaria como o motivo do pedido era encarado pela cúpula da Igreja na época. O bispo informava sobre a criação da nova freguesia, desmembrada da Freguesia de Jundiaí:

 

     "Foi dividida a três anos da Freguesia de Jundiaí, a requerimento de moradores, que ali viviam como irracionais, faltos de pasto espiritual por morarem dois dias de viagem distante do seu Pároco e Igreja Matriz. (Ass.Bispo d.Frei Manuel da Ressurreição, 19 de agosto de 1777)". Neste mesmo documento o bispo assinala que a indicação de Frei Antônio de Pádua Teixeira para primeiro vigário se deveu “a escoas” (*) de poderes diocesanos.

 

       Como anotou Celso Maria de Mello Pupo, a fundação de Campinas deve-se, então, a quatro principais nomes: Barreto Leme, Frei Antônio de Pádua Teixeira, Morgado de Mateus e d.Frei Manuel da Ressurreição.  “Campinas se fez com as doações do fundador, com o trabalho idealístico e apostólico do franciscano, com a caridade do Bispo e com o desejo de fundar vilas do capitão Geral” (Pupo, Celso M.M,  in “Campinas, seu berço e juventude”, página 51).

 

 

(*) Do verbo “escoar”, aqui no caso significando: “escapar, escapar de maneira furtiva...”, o que pode significar que o nome de Frei Antônio de Pádua para primeiro pároco dependeu mais dos que fizeram a petição para criar a paróquia do que do bispo. Foi como que imposto.

 

 

 

 

 

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