A esperança é
a última que morre, segundo a voz do povo. E o povo tem toda
razão. No Dia de Finados você vai ao cemitério para relembrar
seus familiares e amigos falecidos. O sentimento dos cristãos,
ao visitar os túmulos e participar das missas e orações, não é
somente de saudades, mas de esperança. A esperança é a de nos
encontrarmos um dia, na casa do Pai. A esperança da ressurreição
é que nos leva ao cemitério. E ela segue conosco o tempo todo.
Essa esperança nunca morre.
Jesus Cristo
nos antecedeu na morte e na ressurreição. A esperança da
ressurreição nos leva, ainda mais, ao encontro e ao respeito dos
outros homens e de suas existências. A separação pela morte é
passageira, não será definitiva: se vivermos no amor, um dia nos
encontraremos todos, no seio amoroso de Deus. Jesus Cristo é a
nossa esperança, diz Paulo na sua carta aos Colossenses (Col
1,27). Por isso, as missas e orações nos cemitérios no Dia de
Finados são celebrações da esperança e não das saudades ou dos
mortos. Nós cremos na vida eterna.
A tradição
cristã dá muito valor a três virtudes que nos vêm de Deus: a fé,
a esperança e a caridade. A esperança é a segunda virtude
teologal. O seu símbolo é uma âncora. Desde os primeiros
séculos, os cristãos desenhavam e esculpiam âncoras nos túmulos,
manifestando sua esperança na ressurreição do falecido. Os
cristãos assimilavam a forma da cruz com a da âncora, como uma
espécie de cruz invertida.
A âncora
evoca essa pesada massa de ferro, capaz de reter o barco diante
das inconstâncias do mar e da deriva. Essa é a função da
esperança em nossa vida. Símbolo de firmeza, a âncora evoca a
solidez, a segurança, a tranqüilidade e a fidelidade. No meio da
mobilidade do mar, a âncora é estável, imóvel, fixa e constante.
A âncora lembra, em cada um de nós, a capacidade de manter a
calma, a lucidez e a firmeza diante de turbilhões dos
sentimentos e atos da vida. A correnteza e a maré não arrastam
os barcos quando estão bem ancorados. O mesmo ocorre com quem
tem esperança.
A última
garantia dos marinheiros nas tempestades é a âncora e, por isso,
ela está associada fortemente com a esperança. Sobre a esperança
cristã, diz a Bíblia: "Esta é, para nós, como âncora da alma,
fixada com muita firmeza, que penetra para além do véu, ali onde
Jesus entrou como precursor em nosso lugar..." (Hb 6,19-20). Ao
ancorarmos nossa alma em Jesus Cristo, evitamos o naufrágio
espiritual e nos preparamos para o encontro com o próprio Deus,
na hora de nossa hora, na ressurreição dos justos, para "além do
véu".
"Minha âncora
e minha cruz", diziam os místicos cristãos. Não desejamos e nem
devemos nos abandonar às correntezas da natureza e do mundo,
pois nos fixamos na fonte de toda graça que é Jesus Cristo.
Quando o
moribundo dá seu último suspiro, para os cristãos, ele acabou de
nascer. Começou a nascer no batismo e agora completa o seu
nascimento. É o verdadeiro dia do nascimento, o vere dies
natalis, tão evocado pela Igreja ao longo dos séculos. Pela
morte, o cristão entra na Vida em Plenitude. Nisso se ancora a
nossa esperança. Esse nascimento cósmico está associado à idéia
da morte como um segundo parto, banhado de esperança. Como dizia
o padre Antonio Vieira, "a mais fiel de todas as companheiras da
alma é a esperança".
No princípio
do Cristianismo, os pagãos designavam os cristãos como "aqueles
que não temem a morte". A esperança da ressurreição nos mantém
em comunhão entre irmãos, no seio da Igreja, mas também com os
Santos e Santas de Deus que já deixaram esta vida. Somos uma
congregação peregrina e não em desagregação. O mistério da morte
e a esperança da ressurreição são um dos mais fortes cimentos de
uma vida em comunidade, em Igreja. Uma Igreja feita de homens e
mulheres, amorosos, esperançosos e não desesperados, em harmonia
entre si. Alimentados no amor e pela esperança da vida eterna.
Em qualquer lugar. Em qualquer hora. Em qualquer situação. E
especialmente nos cemitérios, nas celebrações do Dia de Finados.
Arquidiocese de Campinas
Novembro/2008
"Ao lado do Pai"
O
Dia de Finados sempre nos traz pensamentos, memórias e imagens
relacionadas aos nossos queridos que já partiram. Dirigimo-nos
ao cemitério, levamos flores, rezamos e, sobretudo, manifestamos
num gesto concreto o nosso desejo de estar ao lado daqueles que
já partiram. Na verdade, todos esses sinais são verdadeiramente
cristãos, pois revelam anseios profundos do coração humano: ir
ao encontro, tornar belo, conversar e estar ao lado daqueles que
amamos. Mesmo que com gestos, o que mais queremos dizer é que a
vida é sempre mais que a morte. A vida é eterna!
Dia
de Finados é momento de presença, mesmo sabendo que nenhuma
atitude que façamos consegue plenamente saciar o sentimento de
saudade, muito menos trazer pessoas de volta ao nosso convívio,
como estávamos acostumados. É dia de meditar o mistério da vida,
e como ele supera nosso entendimento, podemos, com o salmista,
dizer: "Tua sabedoria é grandiosa, alta demais, eu não a entendo
[...] mas como fugirei da Tua presença?" (Sl 139:6).
Enfim, nesse dia somos convidados a reconhecer que é o próprio
Deus, nosso Pai, quem nos impulsiona com o Dom da Esperança e
nos ajuda a acreditar que a vida é sempre mais... Por isso
caminhamos, não fugindo da saudade, do entendimento acerca da
morte e da vida, mas na presença do Pai, o Criador da vida.
Num
momento de perda, é comum escutarmos pessoas dizendo: "Não sei
como viverei daqui a diante; alguém muito importante se foi!" De
fato, falar da morte requer de nós um esforço muito grande para
entender a vida. Finados é tempo para darmos um passo adiante,
meditarmos esse mistério, seus caminhos e a força que a vida tem
sobre nós; é colocarmo-nos ao lado daqueles com quem partilhamos
nossas alegrias e tristezas, experimentando a certeza de que o
amor, presença de Deus, é a única força capaz de nos ajudar
nesse momento.
É
abraçar a certeza de que viver é dar a vida, entregar-se pelos
outros e esperar em Deus, aquele que nos amou por primeiro.
Nesse sentido, até a saudade revela-se como graça, como
lembrança do sopro de Deus manifestado na vida daqueles que
partilharam suas vidas conosco e que agora partilham a alegria
eterna ao lado do Pai.
Vale
para esses momentos de tristeza ou mesmo de vazio, a confiança
expressa naquela frase corrente que nos diz: "saudade sim,
tristeza não", pois todos fomos criados para a felicidade, que
iniciou-se com nossa passagem tão rápida por este mundo, mas
será completa e verdadeira na eternidade.
Nesse mesmo espírito, a Pastoral das Exéquias deseja, antes de
tudo, estar ao lado de todas as pessoas que passam por situações
difíceis de perda e de saudade; quer realizar a Missão
Evangelizadora da Igreja, anunciando o Ressuscitado. Quer ser
presença da misericórdia do Pai e nos ajudar a pensar, viver e
celebrar a vida como eterno Dom de Deus. Quer deixar uma
mensagem de esperança, "porque o amor de Deus foi derramado em
nossos corações" (Rm 5,5). Saudade sim, tristeza não!"