De
agora em diante, todos me chamarão bem-aventurada (Lc 1,48)
O
escapulário do Carmo é uma das muitas devoções com que o povo
cristão demonstra carinho para com Nossa Senhora, a Mãe de
Jesus. Você conhece muitas dessas devoções: o rosário ou
o terço, a medalha milagrosa, Nossa Senhora das Dores, Nossa
Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora Aparecida. E quem
vai poder contar todos os nomes e santuários com que o povo
louva a Virgem Maria?
Acho estas devoções importantes para despertar sentimentos de
piedade, de presença de Maria, de amor para com as coisas de
Deus. Você pendura na parede o quadro de Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro. Você traz o terço na bolsa ou o deixa na
cabeceira da cama. Você vai ao santuário de Nossa Senhora
Aparecida.
Mas a devoção a Nossa Senhora pelo escapulário do Carmo tem
algo mais:
você está vestido com ele;
você o traz sempre consigo;
ele faz parte de você.
É
como a roupa, que modifica a aparência e mostra um pouco o que
a pessoa é. Pela roupa você percebe se alguém é asseado,
cuidadoso, educado.
Pois bem, vestido com o escapulário, você assume a aparência
de pessoa ligada a Nossa Senhora. Você já não é qualquer um,
não pode fazer o que der na telha. Tem de mostrar que acredita
na Virgem Maria e no seu poder junto de Deus. Deve portar-se
com a dignidade e o decoro de filho de Nossa Senhora, de irmão
de Jesus.
O
escapulário é devoção comprometedora. Compromete a gente a
seguir os passos de Maria de Nazaré, em atitude de serviço a
Cristo e de busca da confraternização entre as pessoas. Era
com esse espírito que os primeiros devotos de Nossa Senhora do
Carmo usavam o escapulário. A Ordem dos Irmãos da
bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo viu no
escapulário o sinal do estilo de vida que se propunha "viver a
serviço de Jesus Cristo, a exemplo da Virgem Maria".
Há
quem chame o escapulário de "bentinho". É a mesma coisa. Em
geral, na parte da frente é estampada a imagem de Nossa
Senhora do Carmo.
Uma devoção que não
envelhece
-
Senhor, seguir-te-ei, mas permite-me, primeiro, que eu me
despeça dos que estão em casa.
Respondeu Jesus:
-
Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto
para o Reino de Deus (Lc 9,62).
Você talvez pergunte:
Por que renovar uma devoção tão antiga, quando todo mundo está
voltada para as novidades?
Quem vai interessar-se por uma devoção da Idade Média, no
momento em que a Igreja está preocupada com a transformação do
mundo de hoje?
São perguntas importantes. Ajudam a refletir sobre o
verdadeiro sentido do escapulário, sobre sua contribuição para
a conversão pessoal e criação de um mundo mais conforme os
planos de Deus.
Será verdade que uma devoção, por ser antiga, perde a
atualidade e o interesse? Será verdade que o escapulário não
compromete o devoto com a transformação do mundo de hoje, na
linha do Evangelho?
Respondo: Não é verdade! E explico por quê. O Escapulário, nas
suas diferentes formas e tamanhos, é um sinal. Você sabe que a
importância do sinal está naquilo que ele representa. Pois
bem, o escapulário do Carmo representa um relacionamento todo
especial do devoto com Nossa Senhora, a Mãe de Jesus.
Quem se consagra a Maria pelo escapulário assume um
compromisso: viver do jeito que ela viveu. Deve estar sempre
pronto a escutar toda palavra que sai da boca de Deus. Deve
estar sempre disposto a dizer como ela: "Faça-se em mim
segundo a tua Palavra".
Se
você é cristão consciente de sua vocação, já percebeu a
importância da devoção do escapulário ontem, hoje e sempre.
Estou falando do significado que ele tem. O sinal, pedacinho
de pano pendurado ao pescoço, não tem valor em si mesmo. Mas
Nossa Senhora acolhe com a maior ternura essas coisinhas
insignificantes da vida, quando descobre atrás delas sincero
amor filial.
Guarde bem estas palavras: o escapulário do Carmo compromete o
devoto a viver do jeito de Maria. Desde já, tenhamos como
certo que não é inútil renovar essa devoção tão cara ao povo
de Deus. Ela nos ajudará a ser mais sensatos diante do
espírito de novidades, que tem levado tanta gente a uma vida
superficial. E, tomada no seu verdadeiro sentido, não nos
deixará amarrados ao passado. Não permitirá que repitamos a
atitude daqueles que põem a mão no arado e olham para trás. Na
sua simplicidade humilde, será apoio imenso na tarefa de
construir o Reino de Deus.
À procura de milagres
Esta geração é uma geração perversa. Pede um sinal. Mas não
lhe será dado nenhum sinal a não ser o sinal de Jonas. Como
Jonas foi um sinal para os habitantes de Nínive, assim o Filho
do Homem será um sinal para esta geração (Lc 11,29-30).
A
renovação da devoção do escapulário convida a examinar com
atenção uma realidade. Há livrinhos por aí, contando de
milagres supostamente acontecidos a devotos.
Você já não ouviu falar de alguém que escapou do perigo da
morte só por ter o escapulário pendurado ao pescoço? De quem
recebeu tiro de revólver à queima-roupa, mas a bala ficou
grudada no escapulário? Do enfermo grave que pulou da cama
logo que o padre colocou o escapulário no seu pescoço?
Daria para escrever livros e mais livros com casos de milagres
do escapulário. Acredito na boa intenção daqueles que divulgam
estas histórias e procuram aumentar o número dos devotos de
Nossa Senhora do Carmo. Mas não é esta a devoção que quero
anunciar aqui. Vou colocar as coisas no devido lugar.
Não nego a existência de milagres como sinais da intervenção
extraordinária de Deus no desenrolar dos acontecimentos. Deus
é o dono de tudo e para Ele não existe lei.
Creio no poder imenso da intercessão de Nossa Senhora, a ponto
de levar o Filho a alterar planos. Não se pode, porém, ignorar
alguns problemas:
O
que é, realmente, milagroso?
Como indicar a intervenção extraordinária de Deus?
Perguntas difíceis de responder! É por isso que a Igreja põe o
pé atrás quando ouve falar de aparições e curas milagrosas. Só
depois de muita oração e muito estudo é que ela se pronuncia,
e sempre com extrema cautela.
Quanta coisa a gente não sabia explicar nem fazer e exclamava:
Milagre! Hoje, com o progresso da ciência e da técnica, tem-se
a explicação. Além do mais, você já imaginou como estamos
sujeitos a cair na ilusão? Pensamos ser milagre e, depois,
descobrimos que é um engano. Você vai ficar espantado com o
que vou dizer agora. Mas é a minha convicção.
O
que é realmente milagroso, o que é prodigioso na vida, a gente
nem percebe nem dá importância. Sabe o que é? É aquilo que
desperta o sentir Deus em nós e nos outros, e o gostar dele.
Quão maravilhoso é dominar o próprio egoísmo e colocar-se
generosamente a serviço dos outros! Quão extraordinário é
manter esperança e coragem na peleja da vida, apesar das
nossas fraquezas e dos problemas gigantescos! Quão fantástico
é acreditar e lutar pelo triunfo da justiça e da fraternidade
numa sociedade com forças e poderes organizados para impedir o
que é justo!
É
tudo milagre: não pode acontecer sem a intervenção de Deus
Pai, que revela poder na nossa fraqueza. Nesse sentido,
acredito eu, o escapulário do Carmo - lembrança da Virgem
Maria, do que ela viveu, do que ela fez por nós - é milagroso.
Quem o veste consciente e piedosamente, faz acontecer o
milagre da fé, da conversão interior, da simplicidade humilde
em face de Deus, da atitude de acolhimento diante dos irmãos.
O
escapulário, na medida em que é apreciado como consagração a
Nossa Senhora, vai nos amarrando, cada vez mais, a Deus e à
sua vontade. Realiza, assim, o maior de todos os milagres:
manter a gente em união com Deus durante a vida, na hora da
morte, para todo o sempre.
O que mudou na devoção
Todo homem sensato, que se torna cidadão do Reino do Céu, é
como um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e
coisas velhas (Mt 13,52).
Quando você e eu olhamos a maneira como tem sido divulgada a
devoção do escapulário até bem recentemente, não podemos
evitar certo assombro. O fato é notório: tem sido apresentada
como espécie de "contrato de seguro".
Nossa Senhora se obriga a garantir proteção nos perigos da
vida, na hora da morte e no destino eterno, se o devoto
cumprir certas formalidades: trazer sempre o escapulário;
fazer algumas práticas religiosas (como a recitação de sete
pai-nossos, sete ave-marias e sete glórias-ao-pai); abster-se
de carne nas quartas-feiras e sábados; guardar a castidade
segundo o estado de vida. E pronto! O devoto pode ir em frente
"seguro" da assistência infalível de Nossa Senhora, mesmo sem
levar a sério a conversão de vida...
Este tipo de devoção tem sido incentivado com numerosas
narrativas de prodígios que sensibilizam as consciências
simples. Por isso, muitas pessoas, em vez de viver do jeito de
Nossa Senhora, são levadas a buscar uma proteção
extraordinária.
Não podemos ficar satisfeitos com uma devoção assim. A sede de
autenticidade não se sacia com formalidades nem com ritos
meramente exteriores.
Cremos num Deus que não se deixa seduzir por longas e
repetidas orações nem por gestos mecânicos. Ele não se amarra
a nossos ritos nem ao nosso jeito de fazer as coisas. SEu
olhar penetra bem fundo no coração. Ele procura nossa fé
confiante, nossa disponibilidade, nossa vontade de mudar de
vida para conquistarmos sua amizade e ficarmos parecidos com
ele.
Que mudanças, então, aconteceram na devoção do escapulário do
Carmo?
Aconteceram mudanças simples, mas profundas:
Mudou a maneira de valorizar as formalidades e os ritos:
importa mais o espírito com que são feitos.
Mudou a nossa consciência: reprovamos toda exterioridade
que não demonstra uma conversão interior.
Mudou nossa atitude: já não nos contentamos com uma devoção
que resolva, apenas, o nosso caso pessoal com Deus.
Sentimo-nos comprometidos com tudo que acontece a nossos
irmãos.
Na
devoção do escapulário, o que permanece através de todas as
mudanças é o seguinte: um sinal da presença salvadora de Deus.
Nosso Pai toma em mãos o que é frágil e desprezível a nossos
olhos, para mostrar a grandeza de seu poder que liberta e une
a Ele.
Ao
proclamar esta devoção a Nossa Senhora, deixemos de lado a
preocupação com prodígios e com a meticulosa observância de
rituais exteriores. Nossa confiança está na bondade de Deus
que mostra o rosto de Pai nas coisas pequeninas ao nosso
alcance.
Um símbolo de serviço
Os
que se dizem governadores mandam no povo, e são os líderes que
dominam. Mas entre vocês não será assim. Ao contrário, quem
quiser ser importante sirva aos outros. E quem quiser ser o
primeiro, seja escravo de todos. Porque até o Filho do Homem
não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
para a salvação de muitos (Mc 10,42-45).
Quando, hoje, se observa o pequenino escapulário, que some por
debaixo da indumentária, nem se imagina que é miniatura de uma
peça de roupa, muito semelhante a um avental ou a uma bata.
Você vê uma dona-de-casa, uma enfermeira, um médico, uma
professora ou um mecânico usando um avental ou uma bata. Logo
vem à mente: "É gente que está trabalhando, fazendo algum
serviço".
O
mesmo acontecia com o escapulário antigamente: os que o
usavam, estavam de serviço no campo, na horta, nos afazeres de
casa. Como a bata, envolvia a roupa na frente e atrás. Ajudava
a conservá-la limpa. Era muito usado pelos frades.
Com o tempo, o escapulário passou a fazer parte da roupa e a
servir de distintivo de algumas ordens religiosas. NO tempo em
que os religiosos usavam hábito, você facilmente identificava
um carmelita, um dominicano ou um beneditino. Bastava olhar
para a cor do hábito e, sobretudo, para ao Escapulário por
cima.
O
que interessa, agora, é saber que o escapulário é o sinal de
alguém que está trabalhando, que está a serviço. E que quer
manter-se limpo.
Você talvez ainda argumente: Faz sentido relembrar estas
coisas nos dias de hoje? Ninguém pensa em estar a serviço.
Busca-se é estar atento para não ser dominado e explorado pela
ambição dos mais fortes. É certo que se ouve falar muito de
serviços. Mas se trata de serviços que se vendem por um
salário, como se fossem mercadoria. Serviço gratuito mesmo,
quem ousa fazer?
É
exatamente aqui que está a importância do escapulário de Nossa
Senhora do Carmo. Ele relembra uma coisa esquecida de muitos:
a atitude de serviço fraterno recomendada por Jesus de Nazaré.
Os
carmelitas, de modo diferente de outras ordens religiosas,
viram no escapulário um desígnio especial da Providência
divina: convite para estar a serviço do Reino de Deus, sem
esperar recompensa. Com este comportamento é que você fica
parecido com o divino Mestre, Jesus de Nazaré, que veio
para servir e não para ser servido.
É
neste sentido que a devoção do escapulário tem um valor
profundamente humano e cristão. É nisso que revela atualidade.
Quem traz o escapulário, está assumindo o empenho de estar
sempre a serviço fraterno e gratuito, a exemplo de Jesus e de
sua Mãe, a Virgem Maria.
Todo mundo sabe que, na nossa civilização, não dá para viver
só de trabalho gratuito. É pelo trabalho remunerado que a
maioria ganha o pão de cada dia. O escapulário do Carmo
relembra que este tipo de serviço remunerado não basta para
humanizar o mundo: a beleza da vida humana está na
multiplicação dos gestos de serviço gratuito.