É
com alegria que se nota, entre os católicos, um grande
aumento da devoção a Maria, a ponto de importantes
órgãos de imprensa noticiarem o fato com destaque.
Uma das práticas marianas mais divulgadas é a do uso do
escapulário do Carmo, também conhecido mais correntemente no
Brasil como “bentinho”.
É freqüente até ver jovens usando o escapulário ao pescoço. Todos têm
uma vaga noção de que Maria protege, de forma
especial, aqueles que o portam. Mas conhecerão, também,
o profundo e belo significado do escapulário do Carmo?
Numa carta aos Superiores da ordem do Carmo, S.S. João
Paulo II, que também usa o escapulário, explica
admiravelmente o simbolismo desta importante devoção
mariana, que nossa Campanha também divulga:
“No símbolo do Escapulário - afirma João
Paulo II - se evidencia uma síntese eficaz de espiritualidade
mariana, que aumenta a devoção dos fiéis,
tornando-lhes sensível a presença amorosa
da Virgem Mãe em suas vidas. O escapulário é,
essencialmente, um "hábito".
Quem
o recebe fica agregado ou associado, num grau mais ou menos
íntimo, à Ordem o Carmo, dedicada ao serviço
da Virgem Maria, para o bem de toda a Igreja.
Quem
veste o Escapulário é, portanto, introduzido na
terra do Carmelo, para que "coma de seus frutos e bens" (cf. Jer 2,7), e experimente a presença doce
e materna de Maria, no compromisso cotidiano de se revestir
interiormente de Jesus Cristo, e de o manifestar vivo, em si
próprio, para o bem da Igreja e de toda a humanidade.
Duas são, portanto, as verdades evocadas no símbolo
do Escapulário: de um lado a proteção
contínua da Santíssima Virgem, não só
ao longo do caminho da vida, mas também no momento
da passagem para a plenitude da glória eterna; de outro lado,
consciência de que a devoção a Ela não
pode se limitar a orações e obséquios
em sua honra em algumas circunstâncias, mas que deve constituir
um “hábito”.
Isto quer
dizer: uma textura permanente da própria conduta cristã,
tecida de oração e de vida interior, mediante
a prática freqüente aos Sacramentos e o exercício
concreto das obras de misericórdia espirituais e corporais.
Deste modo, o Escapulário se converte em símbolo
de “aliança” e de comunhão recíproca
entre Maria e os fiéis: de fato, traduz de modo concreto a
entrega que Jesus, do alto da cruz, fez a João, e nele
a todos nós, de sua Mãe; e a entrega do apóstolo predileto
e de nós a Ela, constituída como Mãe espiritual.
“Também eu levo sobre meu coração,
há tanto tempo, o Escapulário do Carmo. Pelo
amor que tenho à celestial Mãe, cuja proteção
experimento continuamente, auguro que este ano mariano ajude
a todos os religiosos e religiosas do Carmelo, e a todos os piedosos
fiéis que a veneram filialmente, para crescer no seu amor
e irradiar no mundo a presença desta Mulher do silêncio
e da oração, invocada como Mãe da misericórdia,
Mãe da esperança e Mãe da graça.”
Carta do Papa João Paulo II Sobre o Escapulário
Ninguém desconhece o grande amor de João Paulo II para com
Nossa Senhora. No caso de Nossa Senhora do Carmo, como já havia
feito anteriormente, ele reafirmava que, desde a infância, usava
o escapulário. Essa confissão, esse testemunho de um Papa, nos
faz perceber como este “Sacramental”, este sinal visível de amor
a Maria, é muito estimado pela Igreja e pode ser um meio de
forte evangelização. Não podemos deixar de lado os sinais
exteriores, pois fazem parte do patrimônio de nossa fé.
A carta do Papa é riquíssima e vale a pena lê-la, atento aos
seguintes pontos:
1) não faz nenhuma referência ao privilégio
sabatino;
2) apresenta o escapulário como patrimônio de toda a
Igreja;
3) sinal de amor a Maria;
4) chamados a viver suas virtudes;
5) duas vertentes de espiritualidade;
6) o Papa mesmo o usava.
750 anos do Santo Escapulário
Carta:
Aos Reverendíssimos Padres: Joseph Chalmers (Prior Geral da
Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo
- O. Carm.) e Camilo Maccise (Prepósito-Geral da Ordem dos
Irmãos Descalços da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo
(O.C.D.).
O providencial evento da graça, que foi para a Igreja o ano
Jubilar, a induz a olhar com fé e esperança o caminho apenas
iniciado do novo milênio. “Nosso caminhar, no principio deste
novo século – escrevi na carta apostólica Novo
Millennio ineunte – deve fazer-se mais rápido...
Acompanha-nos neste caminho a Santíssima Virgem, à qual...
confiei o terceiro milênio” (n.58).
Com profundo gozo soube portanto que a Ordem do Carmo, em seus
dois ramos, antiga e reformada, quer expressar seu próprio amor
filial para com sua Patrona, dedicando o ano de 2001 a Ela,
invocada como Flor do Carmelo, Mãe e Guia no caminho da
santidade. A este respeito, não posso deixar de sublinhar uma
feliz coincidência: a celebração deste Ano Mariano para todo o
Carmelo acontece, segundo nos transmite uma venerável tradição
da mesma Ordem, no 750º aniversário da entrega do Escapulário.
É conseqüentemente uma celebração que constitui para toda a
Família Carmelitana uma maravilhosa ocasião para aprofundar-se
não só em sua espiritualidade mariana, mas para vivê-la cada vez
mais, à luz do posto que a Virgem Mãe de Deus e dos homens ocupa
no mistério de Cristo e da Igreja e, portanto, para seguir a Ela
que é a “Estrela da
evangelização”
cf. Novo Millennio ineunte, n.58).
As distintas
gerações do Carmelo, desde as origens até hoje, em seu
itinerário até a “santa montanha, Jesus Cristo Nosso Senhor”
(Missal Romano, coleta da Missa em honra da B.A.V. Maria do
Monte Carmelo, 16 de julho), trataram de plasmar a própria vida
sobre o exemplo de Maria.
Por isso no Carmelo, e em toda alma movida por um terno afeto
até a Virgem e Mãe Santíssima, floresce a contemplação da que,
desde o princípio, soube estar aberta à escuta da Palavra de
Deus, e obediente à sua vontade (Lc 2,19.51). Maria, de fato,
educada e plasmada pelo Espírito (cf. Lc 2,44-50), foi capaz de
ler na fé sua própria história (cf. Lc 1,46-55) e, dócil à
inspiração divina, “avançou na peregrinação da fé e manteve
fielmente sua união com o Filho até a cruz, junto à qual, não
sem um desígnio divino, se manteve erguida (cf. Jo 19,25),
sofrendo profundamente com seu Unigênito e associando-se com
entranhas de mãe a seu sacrifício” (Lúmen gentium, 58).
A contemplação da Virgem é apresentada enquanto, como Mãe
primorosa, vê crescer seu Filho em Nazaré (cf. Lc 2,40-52),
segue-lhe pelos caminhos da Palestina, assiste-o nas bodas de
Caná (cf. Jo 2,5) e, aos pés da Cruz, se converte na Mãe
associada a seu oferecimento, doando-se a todos os homens na
entrega que o mesmo Jesus faz dela a seu discípulo predileto
(cf. Jo 19,26). Como Mãe da Igreja, a Virgem Santa está unida
aos discípulos “em contínua oração” (At 1,14) e, como Mulher
nova, antecipa em si o que realizará um dia em todos nós, com a
plena fruição da vida trinitária é elevada ao Céu, de onde
estende o manto de proteção de sua misericórdia sobre os filhos
que peregrinam até o monte santo da glória. Tal atitude
contemplativa da mente e do coração leva a admirar a experiência
de fé e de amor da Virgem, que já vive em si o que todo fiel
deseja e espera realizar no mistério de Cristão e da Igreja (cf.
Sacrosanctum Concilium, 103; Lumen gentium, 53).
Justamente por isto, os carmelitas e as carmelitas elegeram
Maria como sua Patrona e Mãe espiritual e a têm sempre ante os
olhos do coração, a Virgem Puríssima que guia todos ao perfeito
conhecimento e imitação de Cristo.
Floresce assim uma intimidade de relações espirituais que
incrementam cada vez mais a comunhão com Cristo e com Maria.
Para os membros da Família Carmelitana, Maria, a Virgem Mãe de
Deus e dos homens, não é somente um modelo para imitar, mas
também uma doce presença de Mãe e Irmã na qual confiar. Com
acerto, santa Teresa de Jesus exortava: “Imitai a Maria e
considerai que tal deve ser a grandeza desta Senhora e o bem de
tê-la por Patrona” (Castelo interior,III,I,3).
Esta intensiva vida Mariana, que se expressa em oração confiada,
em entusiasmado elogio e diligente imitação, conduz a
compreender como a forma mais genuína da devoção à Virgem
Santíssima, expressa pelo humilde sinal do Escapulário, é a
consagração ao seu Coração Imaculado (cf. Pio XII, Carta
Neminem profecto latet [11 de fevereiro de 1950: AAS 42,
1950, pp. 390-391]; Const.Dogm. Sobre a Igreja Lúmen
Gentium, 67). Desse modo, no coração se realiza uma
crescente comunhão e familiaridade com a Virgem Santa, “como
nova maneira de viver para Deus e de continuar aqui na terra o
amor do Filho Jesus à sua mãe Maria” (cf. Discurso do Ângelus,
em Insegnamenti XI/3, 1988, p. 173). Se nos põe assim, segundo a
expressão do Beato mártir carmelita Tito Brandsma, em profunda
sintonia com Maria, a Theotokos, convertendo-nos como Ela
em transmissores da vida divina: “Também a nós nos manda o
Senhor seu anjo... também nós devemos receber a Deus em nossos
corações, levá-lo crescer em nós de modo tal que ele nasça de
nós e viva conosco como o Deus-conosco, o Emanuel” (Da relação
do B. Tito Brandsma ao Congresso Mariológico de Tongerloo,
agosto, 1936).
No sinal do
Escapulário se evidencia uma síntese eficaz de espiritualidade
mariana que alimenta a devoção dos crentes, fazendo-lhes
sensíveis à presença amorosa da Virgem Maria em suas vidas.
O Escapulário é essencialmente um “hábito”. Quem o recebe é
agregado ou associado em um grau mais ou menos íntimo à Ordem do
Carmelo, dedicada ao serviço da Virgem para o bem de toda a
Igreja
(cf. Fórmula da imposição do Escapulário, no “Rito da Bênção e
imposição do Escapulário”, aprovado pela Congregação para o
Culto divino e a disciplina dos Sacramentos, 5/1/1996).
Quem veste o
Escapulário é, portanto, introduzido na terra do Carmelo, para
que “coma de seus frutos e bens” (cf.Jr 2,7), e experimenta a
presença doce e materna de Maria, no compromisso cotidiano de
revestir-se interiormente de Jesus Cristo e de manifestá-lo vivo
em si para o bem da Igreja e de toda a humanidade (cf. Fórmula
da imposição do Escapulário, cit.).
Duas, portanto, são as verdades evocadas no sinal do
Escapulário: por uma parte, a proteção contínua da Virgem
Santíssima, não só ao longo do caminho da vida, mas também no
momento da transição até a plenitude da glória eterna; por
outra, a consciência de que a devoção a ela não pode limitar-se
a orações e obséquios em sua honra em algumas circunstâncias,
mas deve constituir um “hábito”, como que um tecer
permanente da própria conduta cristã, entrelaçada de oração e de
vida interior, mediante a freqüente prática dos Sacramentos e o
concreto exercício das obras de misericórdia espiritual e
corporal.
Deste modo o Escapulário se converte em sinal de “aliança” e de
comunhão recíproca entre Maria e os fiéis: de fato, traduz de
maneira concreta a entrega que Jesus, desde a cruz, fez a João,
e nele a todos nós, de sua mãe, e a entrega do apóstolo
predileto e de nós a Ela, constituída como nossa Mãe espiritual.
Desta espiritualidade mariana, que plasma interiormente as
pessoas e lhes configura a Cristo, primogênito entre muitos
irmãos, são um esplêndido exemplo os testemunhos de santidade e
de sabedoria de tantos Santos e Santas do Carmelo, todos eles
crescidos à sombra e sob a tutela da Mãe.
Também eu levo sobre meu coração, desde há tanto tempo, o
Escapulário do Carmo!
Pelo amor que nutro para com a celeste Mãe comum, cuja proteção
experimento continuamente, auguro que este ano mariano ajude a
todos os religiosos e religiosas do Carmelo, e aos piedosos
fiéis que a veneram fielmente, a crescer em seu amor e irradiar
no mundo a presença desta Mulher do silêncio e da oração,
invocada como Mãe da misericórdia, Mãe da esperança e da graça.
Com estes
augúrios, distribuo com gosto a Benção Apostólica a todos os
frades, monjas, irmãos leigos e leigas da Família Carmelitana,
que tanto se esforçam por difundir entre o povo de Deus a
verdadeira devoção a Maria, Estrela do Mar e Flor do Carmelo!
Vaticano, 25 de março de 2001.
João Paulo II
Todo de
Maria
Pergunta:
Numa perspectiva cristã, falar de maternidade leva
espontaneamente a falar da Mãe por excelência, a de Jesus.
Totus Tuus, Todo de Maria, é o lema escolhido pelo seu
Pontificado. O relançamento da teologia e da devoção marianas –
de resto, em fiel continuidade com a ininterrupta tradição
católica – é um outro caráter distintivo do ensinamento e da
ação de João Paulo II. Por outro lado, hoje se multiplicam vozes
e notícias de aparições misteriosas e mensagens da Virgem;
multidões de peregrinos põem-se de novo a caminho, como em
outros séculos. Santidade, o que pode dizer-nos a respeito?
Resposta:Totus Tuus. Esta
fórmula não tem apenas um caráter pietista, não é uma simples
expressão de devoção: é algo mais. A orientação para semelhante
devoção se afirmou em mim no período em que, durante a Segunda
Guerra Mundial, trabalhava como operário numa fábrica. Num
primeiro momento, achei que devia afastar-me da devoção Mariana
da infância, em favor do cristocentrismo. Graças a São Luiz
Grignon de Montfort, compreendi que a verdadeira devoção à
Mãe de Deus é, ao contrário, cristocêntrica; aliás, é
radicada muito profundamente no Mistério trinitário de Deus,
e nos referentes à Encarnação e à Redenção.
Desse modo, portanto, redescobri com consciência a nova piedade
Mariana, e esta forma madura de devoção à Mãe de Deus me
acompanhou ao longo dos anos: seus frutos são a Redemptoris
Mater e a Mulieris dignitatem.
No
que diz respeito à devoção Mariana, cada um de nós deve ter
claro que não se trata só de uma necessidade do coração, de uma
inclinação sentimental, mas que corresponde também à verdade
objetiva sobre a Mãe de Deus. Maria é a nova Eva, que Deus põe
diante do novo Adão-Cristo, a começar pela Anunciação, através
da noite do nascimento em Belém, o convite nupcial em Caná da
Galiléia, a cruz sobre o Gólgota, até o cenáculo do Pentecostes,
a Mãe de Cristo Redentor é a Mãe da Igreja.
O
Concílio Vaticano II dá um passo de gigante tanto na
doutrina quanto na devoção marianas. Não é possível agora
reproduzir todo o maravilhoso capítulo VII da Lumen gentium,
mas precisaria fazê-lo. Quando participei do Concílio,
reconheci-me totalmente neste capítulo, onde encontrei todas as
minhas experiências anteriores, desde os anos da adolescência,
bem como aquela peculiar ligação que me une à Mãe de Deus em
formas sempre novas.
A
primeira forma, a mais antiga, relaciona-se com os momentos de
pausa, na infância, diante da imagem de Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro, na igreja paroquial de Wadowice, e está ligada
à tradição do escapulário carmelita, particularmente eloqüente e
rica de simbolismo, que conheci desde a juventude, através do
convento dos carmelitas “sobre a colina”, em minha cidade natal.
Está ligada, além disso, à tradição dos peregrinos ao santuário
de Kalwaria Zebrzydowska, um daqueles lugares que atraem
multidões de peregrinos, de modo especial do Sul da Polônia e de
além dos Cárpatos. Este santuário regional tem uma peculiaridade
de ser não só mariano, mas também profundamente cristocêntrico.
E os romeiros que lá chegam, durante sua estada junto ao
santuário de Kalwaria, percorrem antes de tudo as “veredas”, que
são uma Via crucis, em que o ser humano encontra o
próprio lugar perto de Cristo através de Maria. A Crucificação
é também o ponto topograficamente mais alto, que domina todos os
arredores do santuário. A solene procissão mariana que lá se
realiza antes da festa da Assunção, nada mais é do que a
expressão da fé do povo cristão na participação particular da
Mãe de Deus na ressurreição e na glória do próprio Filho.
Desde os primeiríssimos anos, minha devoção Mariana
relacionava-se estreitamente à dimensão cristológica. O que me
conduzia nesta direção era precisamente o santuário de Kalwaria.
Um
capítulo à parte é Jasna Góra, com seu ícone de Nossa Senhora
Preta. A Virgem de Jasna Góra há séculos é venerada como Rainha
da Polônia. Este é o santuário de toda a nação. Junto de sua
Senhora e Rainha, a nação polonesa durante séculos procurou, e
continua procurando, sustentação e força para o renascimento
espiritual. Jasna Gora é o lugar de uma particular
evangelização. Os grandes eventos da vida da Polônia são sempre
de algum modo ligados a este lugar: tanto a história antiga da
minha nação, quanto a contemporânea, encontram o ponto de sua
mais intensa concentração exatamente lá, na colina de Jasna
Gora.
Tudo
o que disse, acredito que explique suficientemente a devoção
Mariana do Papa atual e, sobretudo, sua atitude de total entrega
a Maria, aquele Totus Tuus.
No
que se refere, pois, àquelas “aparições”, àquelas “mensagens” a
que aludi, proponho-me a dizer alguma coisa mais adiante nesta
nossa conversação.
Texto extraído do livro "Cruzando o Limiar da Esperança".