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Entenda
melhor
(Assuntos de
interesse para o cristão católico)

O Papa e
o preservativo
Por Dr. Fábio Toledo (*)
As declarações
do Papa Bento XVI ao jornalista Peter Seewald, publicadas no livro Luz do
Mundo, têm causado um verdadeiro rebuliço na mídia. Chega-se a “profetizar”,
a partir das palavras do Pontífice, ou das distorções que se fazem delas,
que seria um primeiro passo rumo a uma nova visão da Igreja sobre a
sexualidade. Será esse pronunciamento o início de uma mudança da moral
católica acerca desse tema?
Não é possível
entender a posição da Igreja Católica sobre o preservativo sem compreender a
sua mensagem sobre o amor conjugal. Em sua primeira encíclica, “Deus é
amor”, o Papa Bento XVI, buscando esclarecer a natureza do amor de Deus pelo
ser humano, vai buscar como fonte para que possamos entender como Deus nos
ama exatamente o amor conjugal entre o homem e a mulher.
Os laços que se
estabelecem entre o homem e a mulher que se uniram em matrimônio são da
mesma natureza daquele que nos unem a Deus. E é nesse contexto que se insere
a sexualidade. Não é ela algo vergonhoso. São Josemaria Escrivá chegou à
ousadia de comparar o leito conjugal com um altar. Portanto, uma realidade
em que Deus se faz presente e abençoa.
No entanto,
sendo expressão do amor do homem e da mulher, não há como dissociar a
relação sexual dos fins do matrimônio, que são bem dos cônjuges, traduzido
na ajuda mútua, e a criação e educação dos filhos.
Desse segundo
fim natural do matrimônio é que advém todo o ensinamento da Igreja em
relação à contracepção. Ou seja, esse amor entre o homem e a mulher,
expressão do amor de Deus pelo ser humano, há de estar aberto à vida. Isso
não quer dizer que somente se deva buscar o ato sexual com a intenção de
gerar filhos. O prazer sexual em si é algo bom para os cônjuges. Também a
gravidez, havendo justas razões, pode ser evitada pelos métodos naturais de
contracepção. Contudo, um casal cristão que se dispõe a seguir os
ensinamentos da Igreja em todos os aspectos, menos nesse, seja usando
preservativo, seja se valendo da esterilização, no fundo está como que
dizendo a Deus: “o Senhor pode estar presente em todos os aspectos da minha
vida, no trabalho, na família etc., menos nesse. Aqui queremos que o Senhor
não se intrometa”. Com isso, porém, perde-se o aspecto mais sublime do amor
humano, que é exatamente a sua natureza divina.
Mas como
explicar o pronunciamento do Papa no sentido de que “em alguns casos, quando
a intenção é reduzir o risco de contaminação, (o uso do preservativo) pode
ser um primeiro passo para abrir o caminho a uma sexualidade mais humana,
vivida de outro modo”?
O contexto em
que o Papa propõe que seja vivida a sexualidade de modo a promover a
dignidade humana é no matrimônio. Quando, porém, se rompem as regras da
moral, surge a questão do mal menor. Por exemplo, trata-se de norma de
direito natural o respeito ao patrimônio alheio. No entanto, são possíveis
vários níveis de violação a essa norma, de modo que o furto, que é cometido
sem violência ou grave ameaça é menos grave que o roubo, e esse é menos
grave que o latrocínio, em que o ladrão mata para roubar.
O mesmo se diga
com relação ao relacionamento sexual. Em que pese todo o ensinamento da
Igreja acima mencionado, há os que não aceitam essa visão e defendem o “sexo
livre”, totalmente dissociado da abertura aos filhos e como um mero ato de
satisfação de uma necessidade fisiológica. Nesse contexto, o uso do
preservativo com propósito de respeitar a vida do parceiro é um mal menor
que o risco de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis.
Penso que o Papa
nos dá um exemplo de carinho e compreensão que devemos ter para com todos,
em especial com os que não têm a mesma fé ou as mesmas convicções que as
nossas. Se perguntarem a nós cristãos o que pensamos a respeito do assunto,
diremos com toda a sinceridade que relacionamento sexual é um ato de amor
entre um homem e uma mulher unidos em matrimônio. Mas isso não nos autoriza
qualquer atitude de menosprezo ou falta de respeito com quem pensa ou aja de
forma diferente. Tanto nos interessa a vida e a saúde deles que se aconselha
o uso de preservativo como forma de proteger a vida alheia. Mas nós,
cristãos, temos também o direito de dizer a quem queira ouvir que isso não é
amor humano verdadeiro, nem relacionamento sexual saudável, nem tampouco que
serão felizes os que perambulam por esses caminhos.
(*) Dr. Fábio
Henrique Prado de Toledo é Juiz de Direito em Campinas.
Este artigo foi
publicado no Jornal Correio Popular, em 29/11/2010.
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