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Dom Pedro Carlos Cipolini

Homilia na Missa de
Ordenação Episcopal
Catedral
Metropolitana de Campinas
12/10/2010
Neste momento diante de todos vocês quero agradecer a Deus, que
em Jesus Cristo nos ama e, pela força do seu Espírito, nos dá a
vida. Agradeço pelo dom da vida e pelo dom da fé que é vida da
alma: “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb. 11,6). Agradeço
pela minha família, todos os meus familiares aqui presentes,
meus irmãos, sobretudo por meus pais, João Cipolini e Alzira
Carneiro Cipolini, que souberam criar-me na fé cristã e eclesial
desde o dia de meu batismo em 25 de maio de 1952. Do lado
materno de minha família quero recordar minha bisavó e madrinha
de batismo, Virgínia Araújo dos Reis Moreira, cuja fé
impertérrita foi um exemplo preclaro. Do lado paterno recordo
meu avô italiano, Giovanni Dario Cipollini, que neste dia
exatamente, na década de quarenta, chegava em romaria, a pé, de
minha cidade natal, Caconde, ao Santuário Nacional de Nossa
Senhora Aparecida. Como Bispo, Mestre da fé, Pai-Pastor-Servidor
de minha Igreja, espero ser digno destas testemunhas familiares,
que honraram nossa Igreja dando testemunho da esperança que não
decepciona. Assim como o apóstolo Paulo, espero ser fortalecido
nesta herança de fé, para poder “com toda a humildade servir o
Senhor com lágrimas no meio das provações e ciladas do inimigo”
(At 20,19), convicto de que “a fé age pela caridade“ (Gl 5,6),
ela é a vitória que vence o mundo.
Na
Prece de Ordenação, o bispo ordenante rogou ao Pai que
concedesse ao eleito o Espírito Santo dado ao Filho e
transmitido por Ele aos Apóstolos (Jo 20). Assim, o Espírito
Santo vem do Pai para o Filho e do Filho para os Apóstolos, e
destes para os Bispos mediante a Igreja, fazendo do Bispo um
“ungido” do Pai, à semelhança do Filho (Lc 4, 14-21). A função
episcopal em uma única palavra é: “governo”. Mas o que confere a
autoridade é o sacramento, a ordenação que acaba de ser
realizada. Através dela a unção do Espírito Santo faz do bispo
um apóstolo, um enviado, na pessoa do qual “está presente o
próprio Cristo no meio dos fiéis, para santificar, ensinar e
governar o povo de Deus” (Vaticano II – LG 21). A imposição das
mãos dos bispos presentes sublinha a origem divina da eleição,
da investidura, do carisma, agregando ao Colégio Apostólico. A
unção sublinha a comunicação do Espírito Santo, a força, a
graça, o poder de Deus. Assim escreve São João Crisóstomo: “A
ordenação é isso: a mão do homem se estende, mas é Deus quem
toca a cabeça daquele que é ordenado, é Deus quem realiza tudo”
(in Ac. Apost. III, hom. 14,3). Esta é a fé convicta da Igreja
Católica Apostólica Romana à qual tenho a graça de pertencer, e
à qual amo de coração, abraçando-a neste momento na minha
querida Igreja de Amparo. Exige-se a consagração não só para
conferir responsabilidade jurídica e pública ao consagrado. A
consagração expropria a pessoa de si mesma, para que nela possa
agir aquele que o consagrado passa a representar: Cristo -
Servo/Pai e Pastor. Quando o bispo ensina, ao mesmo tempo
santifica e governa o povo de Deus; enquanto santifica, também
ensina e governa; quando governa, ensina e santifica. Esta é a
ascese do bispo: dedicar-se na caridade pastoral episcopal, a
todos os combates e a todos os zelos do apostolado, até dar a
própria vida se for necessário, “em nome de Jesus”.
Agradeço o Santo Padre o papa Bento XVI, por ter confiado em
minha pobre pessoa ao chamar-me para o episcopado. Agradeço-o
pelo seu profetismo intra-eclesial que visa purificar a Casa de
Deus, ensinando o senso de justiça e santidade, tendo a coragem
de mostrar que o medo, a covardia, a falsa diplomacia, o “varrer
os problemas para debaixo do tapete”, não ajudam a construir a
Igreja que Jesus quer. Agradeço-o ainda pelo seu profetismo
extra-eclesial, que enfrenta a tirania da ideologia
materialista-relativista, a qual coloca o valor econômico como
absoluto, capaz de manipular a consciência e a vida, expulsando
Deus da história humana, gerando misérias sem fim. Exprimo minha
união e adesão ao ministério petrino. Que o papa Bento XVI possa
continuar dando testemunho da graça redentora de Deus (At
20,24), presente na Igreja. Igreja que tem “valores
irrenunciáveis e inegociáveis”, porque fazem parte da herança
que recebe continuamente da Palavra de Deus e da Tradição, cuja
expressão orante maior é o Credo Apostólico.
O
episcopado é “amoris officium”, trabalho de amor e por
amor, exercido na Igreja unido ao Colégio dos Bispos. A
imposição das mãos de meus colegas Bispos aqui presentes, é o
reconhecimento da Apostolicidade da Igreja de Amparo, à qual sou
destinado como sucessor dos apóstolos.
Agradeço a presença de vocês, fico honrado e feliz! Sobretudo
quero agradecer D. Bruno Gamberini, por ter aceito presidir esta
celebração e ser o sagrante principal. Dom Bruno foi para mim um
verdadeiro irmão, e muito tem me ajudado desde minha nomeação,
com seu coração fraterno, generoso. Deus lhe pague! Agradeço Dom
Francisco José Zugliani, consagrante que ao impor-me as mãos,
transmitiu a sucessão apostólica a seu sucessor, num gesto
eclesial de profundo significado para a Igreja de Amparo. Na sua
pessoa, D. Francisco, agradeço a todos que me ajudaram no meu
itinerário pastoral de padre. Agradeço a Dom Benedito Beni dos
Santos, também consagrante, vice-presidente do Regional Sul-1 da
CNBB, e que foi meu professor de Teologia na graduação e
pós-graduação. Na sua pessoa, D. Beni, agradeço de coração a
todos os que me ajudaram na vida acadêmica, no meu itinerário
como professor. Quero trabalhar não só reunido a todos os irmãos
bispos, mas também unido fraternalmente a todos. Que Deus assim
me ajude.
Agradeço a presença das autoridades vindas de várias cidades. A
presença de todos os leigos/leigas, e amigos vindos de toda
parte e que compartilharam a vida comigo, durante meu itinerário
existencial. O futuro da Igreja vai depender muito da qualidade
dos leigos e de seu espírito de discípulos e missionários.
Agradeço a presença dos colegas sacerdotes, dos padres, daqueles
da Diocese de Amparo e sobretudo dos meus ex-alunos destes vinte
e três anos de magistério. Vocês são uma coroa de glória para um
professor que fez de seu magistério uma missão, missão de
explicitar o Mistério Revelado para examiná-lo com a fé e a
razão, sem trocá-lo por ideologias da moda. Permitam-me uma
última lição já que estão todos reunidos: “Amem a Igreja, ela
precisa deste amor; amem a Igreja porque Cristo a amou e se
entregou por ela, no dizer de S. Paulo” (cf. Ef. 5,25). Quem não
ama a Igreja não ama a Cristo e nem o Reino, porque são
realidades indivisíveis (João Paulo II in RM n. 18). Quando
Jesus perguntou a Pedro se ele o amava e em seguida o mandou
apascentar suas ovelhas, na verdade Jesus queria saber se Pedro
amava as ovelhas, ou seja: a comunidade. Jesus quer saber se
Pedro seria capaz de amar a Igreja como ela é (santa e
pecadora), assim como Jesus a ama. Para Jesus não há maior prova
de amor a ele do que pastorear sua esposa, a Igreja. Assim,
volto-me para minha nova missão a iniciar-se no próximo dia 24.
É uma missão de poder-serviço, na síntese do poder que vem de
Cristo Cabeça, e na força carismática de servir, que vem do
Espírito Santo. O poder-serviço torna o apóstolo servidor do
mistério da cruz, mistério do Amor (1Cor 4,9-13). Um grande
desafio que espero vencer com a ajuda de vossas orações.
Desejo ser sinal de esperança!
A descristianização atual é grave, mas não deve ser motivo de
desânimo. Ela pode ser para nós motivo de bom senso, de regresso
ao Evangelho que deve conduzir a Igreja sempre mais à humildade,
pobreza e ao Amor. Diz-nos o Documento de Aparecida: “A Igreja é
chamada a repensar e relançar com fidelidade e audácia sua
missão nas circunstâncias da realidade em que vivemos” (n. 11).
Nós somos chamados a escolher sempre Jesus Cristo, no coração,
Jesus e sua maneira de viver, escolher Jesus e os valores do
Reinado de Deus que Ele iniciou. Anunciemos as promessas de
Cristo, o kerigma, vivamos no amor de Cristo, porque o amor é a
morte da morte!
Desejo ser bom Pastor!
Buscar a ovelha perdida, reconfortar a débil, guardar a forte e
defender a fraca (Ez 34,4). O Bispo-Pastor-Servidor cuida do
rebanho, construindo comunidades de discípulos ouvintes da
Palavra que se deixam tomar por ela, aprendendo a vencer o mal
pelo bem: “Vince in Bono malum”. Construindo comunidades
de missionários, anunciadores do Evangelho. Isto vai exigir
coordenação pastoral em vista da unidade da Igreja. Coordenar e
organizar não para criar burocracia, mas para fazer crescer a
Igreja como mediação do Reino.
Desejo priorizar o Reino de Deus!
O Reino é o mais necessário, com ele vem a felicidade
verdadeira. A mensagem central do Reino de Deus anunciado por
Jesus é que somos chamados a ser filhos de Deus por
participação, “consortes da natureza divina” (2Pr 1,2-4). Sem
isto não há liberdade e nem libertadores-livres para libertar.
Como filhos de Deus, podemos viver a justiça, na solidariedade e
partilha, como “fantasia da caridade” no dizer do Papa João
Paulo II ao afirmar: “A Igreja é devedora desta profecia ao
mundo assediado pelos problemas da fome e das desigualdades
entre os povos” (Pastores Gregis n. 20). Não há Reino de
Deus sem misericórdia, porque o Deus do Reino é misericordioso.
Disto decorre a evangélica opção pelos pobres que está inscrita
na fé cristológica, como afirmou o papa Bento XVI no discurso
inaugural da Conferência de Aparecida. Por isso, na tradição da
Igreja Antiga o bispo é chamado de Procurator Pauperum”
(cf. Pastores Gregis n. 20).
Não
posso deixar de agradecer os presbíteros assistentes que
convidei: Mons. Fernando de Godoy Moreira e Pe. Bruno Alencar
Alexandroni. Através deles homenageio e agradeço o clero de
Campinas ao qual pertenci. Agradeço ainda a todas as pessoas que
colaboraram para a realização desta celebração tão bonita.
Permitam-me citar alguns nomes, que todos se sintam
representados neles: Côn. Álvaro Augusto Ambiel, cura da
catedral, Pe. Carlos José Nascimento, cerimoniário, Pe. Dr.
Marcos Paulino, comentarista e Maestro Clayton Dias. Deus lhes
pague!
Quero encerrar com dois pensamentos. Primeiro: a oração de Santo
Ambrósio que muito meditei estes dias: “Tu que me chamaste
quando eu estava perdido não permita que agora sendo bispo eu me
perca. Faça com que eu sinta sincera e íntima compaixão pelos
pobres, pelos que erram, que eu não seja soberbo ao repreender
os pecadores, mas que eu chore com eles” (in De Poenitentiae
II – 8,73). E segundo: o conselho de S. Gregório Magno: “Com
coragem aceita em si as lutas e consagra-te com misericórdia a
proteger e amparar o próximo. Contra os males sofridos,
acrescenta o bem realizado” (in Moralia sobre Jó, Lib.
3,39-40).
Peço
a Nossa Senhora, neste dia a ela consagrado, à Mãe de Jesus e
nossa mãe, minha mãe querida, que me cubra com seu manto
protetor, que ela continue sendo para mim um amparo em todas as
horas, e me ensine também a amparar os outros.
Viva
Nossa Senhora Aparecida!
Dom
Pedro Carlos Cipolini
Catedral de Campinas, 12 de outubro de 2010
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