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Igreja Missionária do Reino de Deus
47.
A Igreja é por sua natureza missionária. O
sujeito da missão é sempre a Comunidade Eclesial animada e sustentada pelo
dinamismo do Espírito que se move a partir de dentro das comunidades. A
missão envolve todo o povo de Deus, já que todos, pelo batismo, são chamados
ao compromisso missionário. Os bispos em Aparecida apontam a missão
primeiramente nas paróquias que devem ser comunidade de comunidades e
centros de irradiação missionária (cf. DA 309,517,306), em seguida apontam
a missão continental que se dirige aos católicos batizados mas não
evangelizados ou catequizados (cf. DA 286, 213) e a missão ad gentes
significando a missão universal da Igreja.
Chamo atenção para que
esta missão seja desenvolvida na linha do diálogo com a sociedade e também o
diálogo ecumênico e Religioso (cf. RA 129-132). Quero lembrar o empenho
missionário junto ás famílias. A família é o santuário da vida. “só ela pode
dar o sentido da fidelidade e gratuidade” (cf. RA 608). Dirijo uma palavra
de incentivo à Comissão de Pastoral Familiar, desejando que progrida
servindo-se dos subsídios da CNBB, especialmente do Diretório da Pastoral
Familiar (doc. 79/2004).
Num tempo em que se tenta
ligar religião com intimismo, consumismo e individualismo, o discípulo de
Jesus Cristo é convocado a sair de si, tornando-se cada vez mais
missionário. Este é um desafio que se apresenta não apenas aos cristãos
individualmente, mas também às próprias comunidades. “Este desafio nos
conduz á urgência de uma ação missionária planejada, organizada e
sistemática. Para isso, é necessário abandonar as ultrapassadas estruturas
que já não favoreçam mais a transmissão da fé” (DGAE/2008-2010 n. 172).
Trata-se de verdadeira conversão pastoral de nossas comunidades, fato que
exige ir além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral
decididamente missionária (DA 370). Todos os organismos da Igreja devem ser
animados por uma espiritualidade de comunhão missionária.
48.
Convoco nossa Igreja para vivenciarmos o
espírito missionário a que nos instou a Conferência dos Bispos em
Aparecida: Pregar o Evangelho em vista do Reino empenhados na construção de
uma sociedade solidária. Neste sentido apelo não só às comunidades eclesiais
com suas pastorais e movimentos, mas a todos os organismos de nossa Igreja
para que se deixem impregnar por este espírito missionário.
Neste sentido dirijo-me á
nossa Pontifícia Universidade Católica que segundo sua natureza tem prestado
importante ajuda à Igreja em sua missão evangelizadora. Trata-se de vital
testemunho de ordem institucional sobre Cristo e sua mensagem, tão
necessário e importante para as culturas impregnadas pelo secularismo.
A Universidade deve propor
à sociedade e aos estudantes e intelectuais uma visão cristã da realidade.
“As atividades fundamentais de uma Universidade Católica deverão vincular-se
e harmonizar-se com a missão evangelizadora da Igreja... terão que
desenvolver com fidelidade sua especificidade cristã, visto que possuem
responsabilidades evangélicas que instituições de outro tipo não estão
obrigadas a realizar” (DA 341-342).
Formação contínua: da fé messiânica à fé no
poder da cruz e da ressurreição
49. A formação tem
sido uma preocupação constante de nossa Igreja. São inúmeras as iniciativas
destacando-se a Comissão Bíblico-Catequética. A formação tem sido uma
prioridade pastoral para nós. Desejo que nossa formação seja sempre centrada
em Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.
Convido a todos para
passar continuamente de uma fé meramente messiânica, que pode envolver em um
messianismo político sem a dimensão escatológica, a uma fé pascal na qual a
dimensão escatológica é apontada pela realidade do Reino de Deus que
ultrapassa a história humana e penetra na eternidade. Lutar na Terra para
transformar a história, porém com os olhos fixos na eternidade onde está
nossa pátria definitiva (cf. Hb 13,14).
Muito tempo antes do
apóstolo Paulo, foi nos cânticos do Servo Sofredor de Isaías que a
comunidade das origens foi buscar a chave para resolver o mistério profundo
do Messias Filho de Deus padecendo a morte de Cruz (cf. J. Jeremias, A
mensagem central do NT, Paulinas, S. Paulo, 1977, 56). “Contra o Deus do
messianismo popular dos zelotas Jesus opõe o Deus do Servo Sofredor” (R.
Muñoz, O Deus dos cristãos, Vozes, Petrópolis, 1986,204). A idéia do
Messias no judaísmo contemporâneo de Jesus vinha vinculada com a idéia de
luta política pelo poder. Jesus propõe e vive um messianismo do amor-serviço
como perdão e misericórdia. A comunidade primitiva vai descobrir o
messianismo como serviço à humanidade na promoção da vida a exemplo do Pai:
“Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso (Lc 6,36). É
este o horizonte que devemos ter se queremos ser uma Igreja misericordiosa a
serviço do Reino.
Nossa meta é o Reino de
Deus que irrompeu com o crucificado-ressuscitado, e não projetos meramente
humanos que muitas vezes excluem Deus. A fé pascal, escatológica está
centrada no poder da cruz e da ressurreição. É deste ponto de partida que
desejo nossa Igreja participando ativamente e colaborando com todas as
forças da sociedade que promovam a vida e os valores do Reino de Deus,
apoiando os movimentos sociais em favor da vida. Sensibilizemo-nos com as
grandes questões da promoção da vida, da justiça, mormente com a inclusão
solidária dos excluídos. E não nos esqueçamos que a liberdade na perspectiva
do Reino de Deus passa pelo perdão e a misericórdia. Sem o risco do perdão,
a história não terá futuro e a violência se repetirá indefinidamente.
50. Agradeço a Deus
porque nestes últimos anos em nossa Arquidiocese estão sendo implantadas as
Escolas de Fé e Vida por toda parte. “Dai-lhes vós mesmos de comer” disse
Jesus (Mc 6,37).Dar nós mesmos do Pão da Palavra, é o que estamos fazendo
com grande aceitação e alegria por parte de inúmeros irmãos e irmãs das
nossas comunidades. Também nossa Faculdade de Teologia na Pontifícia
Universidade Católica tem a missão de formar e capacitar pessoas dentro da
grande corrente da Palavra e da Tradição da Igreja. Que ela cumpra seu papel
na fidelidade á sua missão.
Enfim, a Formação que tem
sido uma prioridade das mais indicadas nos recentes planejamentos de
pastoral de nossa Igreja, tem que partir da Palavra de Deus e ter as
características de uma formação integral, querigmática e permanente, atenta
ás dimensões diversas que lhe são exigidas (cf. DA 279-280). Com os demais
bispos do Brasil recordo que “é importante que a Igreja forme pessoas em
níveis de decisão: empresários, políticos, formadores de opinião no mundo do
trabalho, dirigentes sindicais. A opção pelos pobres exige uma pastoral
voltada aos construtores da sociedade” (DGAE/2008-2010 n. 86)
Igreja do serviço solidário: opção pelos
pobres
51.
A vida só se desenvolve plenamente na comunhão
fraterna e justa. “Porque Deus em Cristo não redime só a pessoa individual,
mas também as relações sociais entre os seres humanos” (CDSI 52). Por isso,
a partir de nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Servo,
exorto a todos para que estimulemos o Evangelho da vida e da solidariedade
em nosso plano de pastoral, à luz da Doutrina Social da Igreja. Aliás,
aproveito para recomendar que nossa Igreja possa assumir e divulgar a
Doutrina Social da Igreja como farol que ilumina nosso serviço eclesial de
promoção humana na perspectiva do Reino de Deus.
52. Aqui incide a
opção preferencial e evangélica pelos pobres: “Tudo o que tem relação com
Cristo tem relação com os pobres, e tudo o que está relacionado com os
pobres clama por Jesus Cristo” (DA 393). A Igreja de Campinas tem se
destacado pela firmeza e zelo com que abraçou esta causa em seus planos de
pastoral. Conclamo a todos para seguirmos avante neste caminho reafirmado
pela Revisão Ampla (cf. RA 109 – 113).
Assumir o poder da cruz e
ressurreição, é a partir da fé, no horizonte do Reino de Deus, propor um
novo humanismo que permita colocar as riquezas a serviço do pobre. Que
permita uma economia na qual a produção e o consumo existam em função das
necessidades dos homens e não como objeto autônomo tendo só o lucro como
meta (cf. DP 497). A humanização da economia e a globalização da
solidariedade propostas por Jesus (cf. Mt 6, 24-34) são hoje mais
necessárias do que nunca. É necessário escolher o projeto solidário do Reino
e não o projeto de Mamon (Dinheiro) (cf. Mt 6,24-34).
53. Tomar a cruz
(Mt 10,38) e seguir o Mestre, é assumir a prática de Jesus em favor do Reino
de Deus, no qual os pobres e excluídos são chamados a participar: “a opção
pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre
por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” ( Bento XVI in DI; DA 392).
Não nos iludamos, porém, nesta postura crítica da Igreja diante do sistema
sócio-econômico e na sua opção evangélica pelos pobres e pela justiça do
Reino, certamente está o motivo de muitos abandonarem a Igreja Católica,
preferindo uma proposta mais emotiva e sem compromisso social.
O Santo Padre no discurso
inaugural da Conferência de Aparecida recordou que a Igreja está convocada a
ser “advogada da justiça e defensora dos pobres” (DI 4) e os bispos fazendo
eco ao Santo Padre confirmaram que “a Igreja latino-americana é chamada a
ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos”, que ela
“continue sendo, com maior afinco, companheira de caminhada de nossos irmãos
mais pobres, inclusive até o martírio”(DA 396).
Chamados à santidade
54.
Na Igreja todos são chamados á santidade (LG
40), que se realiza na força do Espírito Santo mediante o seguimento do
Senhor por amor. Pelo batismo o cristão inicia sua configuração a Cristo.
“Cada um procurará alcançar a santidade vivendo a caridade segundo as
características próprias de seu estado de vida (DM 12,1). O mundo espera
daqueles que vivem em Cristo, um testemunho de santidade e compromisso.
Recordemo-nos que hoje o testemunho de comunhão eclesial e de santidade, são
uma urgência pastoral. Por isso deixo aqui registrado meu apelo para que o
empenho na vida de santidade seja sincero e constante na confiança total
Naquele que pode lavar-nos de nossos pecados dando-nos, por sua graça, uma
vida nova e eterna.
55.
Não existe vida cristã nem santidade sem vida
de oração. A oração tanto pessoal como comunitária é lugar onde o cristão
cultiva sua amizade com Cristo, alimentado pela Palavra e a Eucaristia. “A
oração diária é sinal do primado da graça no caminho do discípulo
missionário. Por isso, é necessário aprender a orar, voltando sempre a
aprender essa arte dos lábios do Mestre” (DA 255). Recomendo, sobretudo, a
leitura orante da Bíblia, a Lectio divina sempre estimulante para o
aprendizado da oração. Sendo o Ofício Divino a voz da Igreja (SC 99) como
sua oração e fonte inesgotável de piedade ( SC 90), recomendo-o sobremaneira
a toda a nossa Igreja.
Penso aqui nos religiosos
e religiosas, em especial os de vida contemplativa, que em nossa Igreja se
dedicam a oferecer o testemunho belíssimo do primado da oração. Sejam
abençoados e não esmoreçam, mas perseverem, pois nossa Igreja necessita de
seu testemunho e confia em suas orações. Sem oração nosso esforço pastoral
se perde.
Quero agora concluir esta
carta que procurei escrever não só com a preocupação mas com o coração de
pastor.
CONCLUSÃO
Caminhemos na Esperança
56.
Sabemos que a esperança não decepciona por isso
nós nos alegramos “na esperança da glória de Deus” (Rm 5,2). Nesta terra
somos peregrinos, somos caminheiros da esperança, caminhamos para o céu
nossa pátria definitiva. E devemos estar sempre prontos, no entanto a darmos
os motivos desta nossa esperança (1 Pd 3,15). “À expectativa da nova terra
não deve, porém, enfraquecer, mas antes ativar a solicitude em ordem a
desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já
consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro” (GS 39).
Nossa esperança deve
produzir frutos que autentique sua validade e este fruto é o amor. O papa
João Paulo II nos alerta: “À Crise de civilização, devemos responder
com a civilização do amor, fundada sobre os valores universais da paz,
solidariedade, justiça e liberdade que encontram em Cristo sua plena
atuação” (TMA 52). E o papa Bento XVI nos adverte: “Não é a ciência que
salva o homem. O homem é redimido pelo amor. Isso vale já no âmbito deste
mundo. Quando alguém experimenta em sua vida um grande amor, conhece um
momento de redenção que dá um novo sentido á sua vida” (SS 26).
A esperança nos dá
confiança. Confiamos porque Ele nos assegurou; “Eis que eu estarei com vocês
todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Que nossa esperança e nossa
confiança sejam suficientes para vermos Jesus nos irmãos mais necessitados.
Assim, que nossa esperança seja traduzida em gestos concretos de amor
através das obras de misericórdia prescritas pela Igreja (CIC
2447). São ações pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades
corporais e espirituais: instruir, aconselhar, consolar, confortar, dar de
comer e beber, providenciar moradia, dar de vestir, visitar enfermos e
prisioneiros, sepultar os mortos. Afirmam os bispos em Aparecida: “A Igreja
estimula e propicia o exercício de uma imaginação da caridade que permita
soluções eficazes” (DA 537).
Com
Maria mãe de Jesus
57.
A Igreja nestas terras nasceu oficialmente
quando da criação da paróquia e fundação da cidade de Campinas em 1774. E
isto foi realizado com a celebração da Eucaristia e a invocação da padroeira
Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem presente nesta ocasião, se conserva
até hoje em nossa igreja Catedral. Desde o início de nossa caminhada como
Diocese, a presença de Maria é marcante, pois ela é a padroeira não só da
Catedral e da cidade de Campinas, mas também de toda a Arquidiocese.
Maria no cenáculo, com os
apóstolos quando da vinda do Espírito Santo é uma presença significativa.
Ela é presença indispensável a nos indicar que a “salvação é uma realidade
comunitária” (SS 14). A presença animadora da Mãe, neste início da Igreja,
nos mostra seu papel. Ela é a estrela que no meio da noite, indica o
caminho, para chegarmos à plenitude do dia, no qual o sol que é Cristo nos
ilumina com o fogo do Espírito.
58. Nossa Igreja
Arquidiocesana quer empreender a caminhada de Maria, a caminhada com Maria
que é a caminhada da fé. “A Virgem Maria é a imagem esplêndida da
conformação ao projeto trinitário que se cumpre em Cristo. Desde a sua
Concepção Imaculada até sua Assunção, recorda-nos que a beleza do ser humano
está toda no vínculo do amor com a Trindade, e que a plenitude de nossa
liberdade está na resposta positiva que lhe damos” (DA 141).
A ela consagramos nossos
trabalhos pedindo que apresente-nos a Jesus, que interceda por nós a fim de
que nos conformemos a Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Que a Virgem
Imaculada nos mostre os caminhos e nos alcance a disposição necessária para
enfrentarmos os desafios da construção do Reino de Deus já presente na
História.
Bendizendo o Nome do Senhor
59.
Quero encerrar fazendo um apelo à unidade. Unidos quais ramos ao tronco que
é Jesus. Unidos com o sucessor de Pedro: “Que todos sejam um” (Jo 17,21).
Esta unidade é fruto do amor: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros
todos reconhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13, 35). Que possamos todos
dizer do fundo do coração: O amor de Cristo nos uniu como Igreja de
Campinas!
Lembro que “a comunhão
orgânica eclesial chama em causa a responsabilidade pessoal do bispo, mas
supõe também a participação de todas as categorias de fiéis, enquanto
co-responsáveis do bem da Igreja particular que eles mesmos formam” (PG 44).
Que possamos valorizar sempre mais uma ação pastoral orgânica renovada e
vigorosa é o que nos pede a Igreja de nosso continente de cada um e de cada
comunidade: “Cada uma é chamada a evangelizar de modo harmônico e integrado
no projeto pastoral da Diocese”(DA 169).
60.
Que a Igreja Missionária da Caridade como Amor-Serviço, co-responsável na
comunhão e participação, seja sempre mais uma realidade entre nós.
Encerrando este ano do
centenário de nossa Igreja, abençôo a todos e os conclamo para repetirem
comigo; “Seja bendito o Nome do Senhor”.
Na solenidade da Grande
Mãe de Deus, padroeira de nossa Arquidiocese e da cidade de Campinas, sob a
invocação de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, dia 08 de dezembro de
2008.
+ BRUNO GAMBERINI
Arcebispo Metropolitano de Campinas

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