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IV - RUMO
AO 7º PLANO DE PASTORAL ORGÂNICA
A Igreja que queremos ser
39.A
Revisão Ampla projetou e desenhou “a Igreja que queremos ser” (cf. RA
115-134) como uma “construção permanente” (RA 114) impulsionada pelo
Espírito Santo, caracterizando-a de “Povo de servidores” (cf. RA 138). Faço
minhas estas propostas.
Dom Gilberto já havia
delineado a “Igreja que queremos ser” á luz da teologia: “Uma Igreja,
presença-serviço, de Jesus, em sua opção pelos pobres, salvadora e
libertadora em favor do Reino no mundo” (cf. Carta Pastoral por ocasião dos
70 anos de criação da Diocese de Campinas cap. II pp13-22).
Vejo estas características
da “Igreja que queremos ser”, incluídas no que a 46ª Assembléia da CNBB
projeta como sendo o “tríplice múnus” da Igreja: “A Igreja por fidelidade a
Cristo e à missão dele recebida, tem a estrita responsabilidade de oferecer,
em cada época, o acesso à Palavra de Deus, à celebração Eucarística e dos
Sacramentos, e de cuidar da caridade fraterna e do serviço aos pobres” (DGAE-
CNBB/Doc. 87 n. 60).
40. Desta forma,
continuando na trajetória da Igreja de Campinas, com a Igreja do Brasil digo
que: queremos ser Igreja Missionária da Caridade como Amor-Serviço
(cf. RA 117-133), na qual a Palavra (cf. RA 120) nos impele à missão
profética (cf. RA 115). Queremos ser Igreja da Celebração da fé através da
sagrada liturgia (cf. RA 121), dos sacramentos, mormente a Eucaristia que
nos une em comunhão impelindo-nos à santidade. Queremos ser Igreja solidária
(RA 122 – 130) do amor-serviço, do empenho na promoção da vida, da
solidariedade (cf. DGAE- CNBB/Doc 87 n 61-87).
Estou consciente de que o
amor é vivido a partir de situações concretas e de que o amor universal não
pode nos colocar em posição de neutralidade diante das situações muitas
vezes dramáticas. Por outro lado, também estou consciente de que evangelizar
o Reino ao modo de Jesus, exige a firmeza permanente a qual inclui o amor
estendido até mesmo aos inimigos (Mt.5, 44).
Quero lembrar que o perdão
é a forma divina de inclusão, sem ele o anúncio do Reino não tem
legitimidade. Juntamente com a acolhida dos pobres, o perdão é gesto
messiânico. A misericórdia estendida a todos é a chave da ação salvadora de
Jesus e fundamento de sua missão em favor do Reino: “Quero misericórdia e
não sacrifício” (Mt 9, 13).
Por fim, recordo que : “Os
discípulos e missionários de Jesus Cristo temos a tarefa prioritária de dar
testemunho do amor de Deus ao próximo com obras concretas. Dizia Santo
Alberto Hurtado: Em nossas obras, nosso povo sabe que compreendemos sua dor”
( DA n. 386).
É assim, a partir da
primazia da Palavra de Deus, da centralidade do Reino e destes textos do
Magistério que falam de uma Igreja da Caridade como Amor-Serviço, que
desejo indicar algumas pistas para a elaboração do nosso sétimo Plano de
Pastoral Orgânico, que temos em vista começar a elaborar no próximo ano.
Comunidade de comunidades de fé e vida
41. As
paróquias são células vivas da Igreja (cf. DA 170). Elas necessitam de
renovação, devem reformular suas estruturas, para que sejam redes de
comunidades e de grupos de vivência (cf. DA 173) para que possam ser de
fato, espaço de iniciação cristã, educação e celebração da fé, aberta à
diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de maneira
comunitária e responsável, integradoras dos movimentos e novas comunidades
de vida (cf. DA 173).
Nossa Igreja deve
incentivar continuamente a formação das comunidades eclesiais, de pequenos
grupos de vivência cristã, círculos bíblicos e grupos de quarteirão. Que se
reúnam com freqüência para crescerem no espírito evangélico e na ação
missionária da Igreja. O projeto de uma Igreja da Caridade como Amor-serviço
passa necessariamente pela formação destas pequenas comunidades que, na
continuidade da missão de Jesus em favor do Reino, promovam a vida em
plenitude: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo
10,10).
Numa sociedade que não é
mais estruturada ao redor da religião, a ação pastoral deve oferecer às
pessoas a possibilidade de partilhar a experiência cristã numa comunidade.
Assim sendo, quero propor que todas as paróquias sejam “Pólo Missionário”,
centro de vivência comunitária e irradiação do Evangelho, idéia que a
Revisão Ampla nos legou (cf. RA 98) para as paróquias de centro de cidade
mas que desejo propor a todas as paróquias da Arquidiocese.
42. Quero dizer uma
palavra sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que marcam de forma
significativa nossa caminhada de Igreja. Em nossa realidade elas têm sido
escolas formadoras de cristãos comprometidos com a fé e a vida, generosos no
serviço ao Reino de Deus.
Os bispos em Medellím
reconheceram nelas “uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de fé
e evangelização” (MD n.15). Com os bispos do Brasil creio que elas são
“fator de renovação interna e novo modo de a Igreja estar presente no mundo.
Como comunidade, integra famílias, adultos e jovens em estrito
relacionamento interpessoal de fé. Como eclesial, é comunidade de fé,
esperança e caridade, é de base por estar constituída por pequeno número de
membros em forma permanente e como célula da grande comunidade” (CNBB –
Doc.25 n. 4 e n. 30). Elas são de fato, quando livres da tentação das
ideologias, “um sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e
evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade, fundada
na civilização do amor” (João Paulo II RM 51).
Como nos recordam os
bispos reunidos em Aparecida: “Como resposta às exigências da evangelização,
junto com as comunidades eclesiais de base, existem outras formas válidas de
pequenas comunidades, inclusive redes de comunidades, movimentos, grupos de
vida, de oração e de reflexão da Palavra de Deus” (DA 180). Todas estas
maneiras de vida comunitária devem ter espaço em nossa realidade eclesial.
43. Faço minhas, e
aqui transcrevo na íntegra o que diz a este respeito o documento final da
Revisão Ampla: “Certamente existem conflitos no interior da própria Igreja
Arquidiocesana, mas que devem ser vividos e experimentados à luz das
exigências de conversão evangélica. Teremos de buscar uma visão eclesial
que, mais profunda e evangelicamente, contemple a todos e a todos traga
vida. No atual momento da nossa Igreja Arquidiocesana, sentimos uma tensão
entre o modelo eclesial proposto a partir da experiência eclesial das CEBs,
a forma tradicional das paróquias e a experiência eclesial relançada pelos
movimentos. Tal tensão, que gera conflitos, deverá ser vivida de forma a se
buscar uma comunhão de diferentes, mas que seja respeitadora da referência
fundamental, que é a comunidade eclesial como lugar estrutural e
estruturante da fé e da vida cristã. Os movimentos eclesiais, assim como as
pastorais populares, são lugar conjuntural e de suporte da vida cristã.
Compete a nós todos, como Igreja, buscarmos meios organizativos onde a
experiência eclesial possa acontecer de modo a apontar caminhos para uma
efetiva comunhão, que possa contribuir para uma vida melhor para todos e, de
modo especial, para os pobres”(RA 83).
O que diz a Revisão Ampla,
apesar do tempo passado, é plenamente atual e deve ser motivo de profunda
reflexão para nossa Igreja Arquidiocesana se ela quiser ser “uma Igreja de
comunhão e respeitadora das diferenças à imagem da Trindade”, como também
propõe a própria Revisão Ampla (cf. RA 133).
Alimentos da Igreja da Caridade: Palavra, Eucaristia e Amizade
a) Pão da
Palavra: alimento da vida comunitária e da missão.
44.
Jesus ao iniciar seu ministério escolhe os doze
para viver em comunhão com Ele e depois enviá-los em missão. A comunhão dos
discípulos com Jesus é feita na escuta de sua Palavra (Mc 4, 11.33-34). Os
discípulos são ouvintes da Palavra. Assim também os primeiros cristãos se
reúnem assiduamente para escutar os ensinamentos dos apóstolos que
transmitem o que Jesus lhes ensinou (At 2,42). A Sagrada Escritura, a
Palavra de Deus, é fonte de vida para a Igreja e alma de sua ação
evangelizadora, por isso podemos afirmar que desconhecer a Escritura é
desconhecer Jesus Cristo.
É da escuta da Palavra que
brota a conversão e a vida missionária; é da escuta da Palavra que surge a
força para se viver em comunhão. Desejo que nossa Igreja se nutra cada dia
com o Pão da Palavra, somente desta atitude de colocar-se á escuta da
Palavra pode surgir um testemunho profético que esteja em sintonia com o
profetismo de Jesus. Que nossa pastoral seja animada pela Palavra, “animação
bíblica da pastoral” (cf. DA 248). É da fonte da Palavra que deve brotar
nossa ação em favor do Reino.
Minha preocupação tem sido
orientar para que o contato com a Escritura seja não só intelectual e
instrumental, mas com o coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am
8,11), pois só Ele “tem palavras de vida eterna”. Tenho incentivado as
Escolas de Teologia, na Diocese e nas Foranias, e as Escolas da Fé nas
paróquias, para que o pão da Palavra e “os ensinamentos dos apóstolos” sejam
partilhado com todos. Elas se multiplicaram e estão dando frutos. Que
possamos continuar a ser, em especial os presbíteros e diáconos, fiéis
distribuidores do pão da Palavra: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).
b) Pão da Eucaristia: fonte de comunhão e vida
solidária
45. O 14º Congresso
Eucarístico Nacional marcou nossa Igreja deixando-nos em seu lema uma
lembrança imorredoura. A Eucaristia é fonte cristalina, lugar privilegiado
do encontro do discípulo missionário com Jesus Cristo. “Existe estreito
vínculo entre as três dimensões da vocação cristã: crer, celebrar e viver o
mistério de Jesus Cristo, de tal forma que a existência cristã adquira
verdadeiramente forma eucarística” (DA 251). É na liturgia que ao
celebrarmos o mistério Pascal, encontramos o Senhor e penetramos mais
intimamente nos mistérios do Reino.
Nunca é demais recordar
que “a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã” (LG 11). A Eucaristia é o
resumo e a suma de nossa fé. De celebração em celebração, anunciando o
Mistério pascal de Jesus até que Ele venha, o povo de Deus em peregrinação
avança pela porta estreita da cruz em direção ao banquete celeste (cf. CIC
1344). Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos compromete com a promoção da vida,
nos compromete com os pobres (cf. CIC 1397).
Desejo que nossa Igreja
seja uma Igreja Eucarística. O Templo Votivo do Santíssimo Sacramento no
coração da cidade de Campinas, local consagrado á adoração perpétua de
Cristo Eucarístico, é não só um monumento de gratidão e louvor, expressando
a fé de nossa Igreja em Jesus Eucaristia, mas é também um coração que
incessantemente pulsa, comunicando-nos a vida do Amor que se faz pão para a
vida do mundo. Ele nos faz ouvir no centro de Campinas o eco do convite
feliz do Congresso Eucarístico: “Venham, venham todos para a Ceia do
Senhor!”.
Invocando a intercessão do
Beato Mateus Moreira e seus companheiros proto-mártires do Brasil, peçamos
que não falte em nossas comunidades o pão da Eucarística, que não falte o
zelo e o amor de todos para com este tão grande sacramento. Afinal, pela
celebração Eucarística já nos unimos à liturgia do céu e antecipamos a vida
eterna, quando Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).
c) Pão da Amizade: para testemunhar o amor
46.
Sabemos que não pode existir vida cristã fora
da comunidade. “Como os primeiros cristãos que se reuniam em comunidade, o
discípulo participa na vida da Igreja e no encontro com os irmãos, vivendo o
amor de Cristo na vida fraterna solidária” (DA 278 d). É na comunidade que
vivenciamos o amor ao Mestre Jesus e o amor aos condiscípulos, é na
comunidade que vivemos, na pessoa dos irmãos a amizade com Jesus que disse:
“Já não vos chamo servos mas amigos” (Jo. 15,15). Que Deus possa considerar
os homens como amigos é a revelação que muda o sentido do amor dando-nos a
capacidade de amar até mesmo os inimigos, quanto mais os irmãos e irmãs que
fazem parte de nossa comunidade.
É necessário renovar a
comunidade diante do desafio da fragmentação da vida e o individualismo de
um lado e a busca de relações mais humanas de outro lado: “A vida fraterna
em comunidade gera e alimenta atitudes de apoio mútuo, reconciliação,
solidariedade e compromisso” (DGAE/2008-2010 n 150). Neste sentido, no
interior da comunidade eclesial, o diálogo deve ser regra permanente para a
boa vivência e o aprofundamento da comunhão.
Na dureza da vida diária,
em situações nas quais a solidão é marcante, em especial nas cidades
grandes, é necessário que as comunidades se tornem casa de acolhida,
fraternidade e cultivo da verdadeira amizade, “expressão privilegiada do
amor cristão” (RA 125-133). A comunhão com os que são diferentes, o amor ao
próximo até a morte na dimensão da cruz, são sinais de que vivemos vida nova
no ressuscitado e a morte não tem mais poder sobre nós, porque amamos como
Jesus amou (Jo. 13,34-35).
Nosso desafio maior neste
sentido, é sobretudo a cidade (cf. OA 8 e 12). Como evangelizar a cidade?
D. Gilberto na sua Carta Pastoral de 1975 escrevia: “O trabalho, nas grandes
cidades continua desafiando o zelo e a criatividade dos pastores e dos
cristãos em geral” (n. 15). Como desenvolver uma pastoral urbana, pergunto,
senão através de uma eficiente pastoral de conjunto? Que saibamos assumir
este desafio! Faço aqui uma menção á pastoral da Acolhida, da Escuta Cristã,
que neste contexto urbano se tornam cada vez mais necessárias em nossas
comunidades.

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