Introdução

Saudações: ao ensejo deste centenário

Justificativa: ministério do Bispo, serviço a Deus e aos irmãos

Nossa realidade: uma mudança de época

Motivação fundamental: glorificar o nome do Senhor

 

O Vaticano II e a Igreja em Campinas

Os primeiros Planos de Pastoral Orgânica e a Revisão Ampla

Da Revisão Ampla ao 6º PPO

Nosso Objetivo Geral da Ação Pastoral

 

II - Visitas pastorais celebrando o Centenário

Visita do Sucessor dos Apóstolos promovendo a unidade

Confirmando a caminhada de uma Igreja toda ministerial

Centenário: monumentos de fé, esperança e caridade

 

III - Igreja da caridade e Missão: nossa perspectiva futura

Nossa fé é eclesial: creio com a fé da Igreja

Igreja da caridade-solidariedade e da missão

Construindo comunhão e participação

 

IV - Rumo ao 7º Plano de Pastoral Orgânica

A Igreja que queremos ser

Comunidade de comunidades de fé e vida

Alimentos da Igreja da Caridade: Palavra, Eucaristia, Amizade

a) Pão da Palavra: alimento da vida comunitária e da missão

b) Pão da Eucaristia: fonte de missão e vida solidária

c) Pão da Amizade: para testemunhar o amor

Igreja Missionária do Reino de Deus

Formação contínua: da fé messiânica à fé no poder da cruz e ressurreição

Igreja da Solidariedade: opção pelos pobres

Chamados à santidade

 

Conclusão

Caminhemos na esperança

Com Maria, Mãe de Jesus

Bendizendo o Nome do Senhor

 

 

 

 

IV - RUMO AO 7º PLANO DE PASTORAL ORGÂNICA

 

A Igreja que  queremos ser

 

39.A Revisão Ampla projetou e desenhou “a Igreja que queremos ser” (cf. RA 115-134) como uma “construção permanente” (RA 114) impulsionada pelo Espírito Santo, caracterizando-a de “Povo de servidores” (cf. RA 138). Faço minhas estas propostas.

 

Dom Gilberto já havia delineado a “Igreja que queremos ser” á luz da teologia: “Uma Igreja, presença-serviço, de Jesus, em sua opção pelos pobres, salvadora e libertadora em favor do Reino no mundo” (cf. Carta Pastoral por ocasião dos 70 anos de criação da Diocese de Campinas cap. II pp13-22). 

 

Vejo estas características da “Igreja que queremos ser”, incluídas no que a 46ª Assembléia da CNBB projeta como sendo o “tríplice múnus” da Igreja: “A Igreja por fidelidade a Cristo e à missão dele recebida, tem a estrita responsabilidade de oferecer, em cada época, o acesso à Palavra de Deus, à celebração Eucarística e dos Sacramentos, e de cuidar da caridade fraterna e do serviço aos pobres” (DGAE- CNBB/Doc. 87 n. 60).

 

40. Desta forma, continuando na trajetória da Igreja de Campinas, com a Igreja do Brasil digo que: queremos ser Igreja Missionária da Caridade como Amor-Serviço (cf. RA 117-133), na qual a Palavra (cf. RA 120) nos impele à missão profética (cf. RA 115). Queremos ser Igreja da Celebração da fé através da sagrada liturgia (cf. RA 121), dos sacramentos, mormente a Eucaristia que nos une em comunhão impelindo-nos à santidade. Queremos ser Igreja solidária (RA 122 – 130) do amor-serviço, do empenho na promoção da vida, da solidariedade (cf. DGAE- CNBB/Doc 87 n 61-87).

 

Estou consciente de que o amor é vivido a partir de situações concretas e de que o amor universal não pode nos colocar em posição de neutralidade diante das situações muitas vezes dramáticas. Por outro lado, também estou consciente de que evangelizar o Reino ao modo de Jesus, exige a firmeza permanente a qual inclui o amor estendido até mesmo aos inimigos (Mt.5, 44).  

 

Quero lembrar que o perdão é a forma divina de inclusão, sem ele o anúncio do Reino não tem legitimidade. Juntamente com a acolhida dos pobres, o perdão é gesto messiânico. A misericórdia estendida a todos é a chave da ação salvadora de Jesus e fundamento de sua missão em favor do Reino: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9, 13).

 

Por fim, recordo que : “Os discípulos e missionários de Jesus Cristo temos a tarefa prioritária de dar testemunho do amor de Deus ao próximo com obras concretas. Dizia Santo Alberto Hurtado: Em nossas obras, nosso povo sabe que compreendemos sua dor” ( DA  n. 386).

 

É assim, a partir da primazia da Palavra de Deus, da centralidade do Reino e destes textos do Magistério que falam de uma Igreja da Caridade como Amor-Serviço, que desejo indicar algumas pistas para a elaboração do nosso sétimo Plano de Pastoral Orgânico, que temos em vista começar a elaborar no próximo ano.

 

 

Comunidade de comunidades de fé e vida

 

41. As paróquias são células vivas da Igreja (cf. DA 170). Elas necessitam de renovação, devem reformular suas estruturas, para que sejam redes de comunidades e de grupos de vivência (cf. DA 173) para que possam ser de fato, espaço de iniciação cristã, educação e celebração da fé, aberta à diversidade de carismas, serviços e ministérios, organizadas de maneira comunitária e responsável, integradoras dos movimentos e novas comunidades de vida (cf. DA 173).

 

Nossa Igreja deve incentivar continuamente a formação das comunidades eclesiais, de pequenos grupos de vivência cristã, círculos bíblicos e grupos de quarteirão. Que se reúnam com freqüência para crescerem no espírito evangélico e na ação missionária da Igreja. O projeto de uma Igreja da Caridade como Amor-serviço passa necessariamente pela formação destas pequenas comunidades que, na continuidade da missão de Jesus em favor do Reino, promovam a vida em plenitude: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10,10).

 

Numa sociedade que não é mais estruturada ao redor da religião, a ação pastoral deve oferecer às pessoas a possibilidade de partilhar a experiência cristã numa comunidade. Assim sendo, quero propor que todas as paróquias sejam “Pólo Missionário”, centro de vivência comunitária e irradiação do Evangelho, idéia que a Revisão Ampla nos legou (cf. RA 98) para as paróquias de centro de cidade mas que desejo propor a todas as paróquias da Arquidiocese.

 

42. Quero dizer uma palavra sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que marcam de forma significativa nossa caminhada de Igreja. Em nossa realidade elas têm sido escolas formadoras de cristãos comprometidos com a fé e a vida, generosos no serviço ao Reino de Deus.

 

Os bispos em Medellím reconheceram nelas “uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de fé e evangelização” (MD n.15). Com os bispos do Brasil creio que elas são “fator de renovação interna e novo modo de a Igreja estar presente no mundo. Como comunidade, integra famílias, adultos e jovens em estrito relacionamento interpessoal de fé. Como eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade, é de base por estar constituída por pequeno número de membros em forma permanente e como célula da grande comunidade” (CNBB – Doc.25 n. 4 e n. 30). Elas são de fato, quando livres da tentação das ideologias, “um sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade, fundada na civilização do amor” (João Paulo II  RM 51).

 

Como nos recordam os bispos reunidos em Aparecida: “Como resposta às exigências da evangelização, junto com as comunidades eclesiais de base, existem outras formas válidas de pequenas comunidades, inclusive redes de comunidades, movimentos, grupos de vida, de oração e de reflexão da Palavra de Deus” (DA 180). Todas estas maneiras de vida comunitária devem ter espaço em nossa realidade eclesial.

 

43. Faço minhas, e aqui transcrevo na íntegra o que diz a este respeito o documento final da Revisão Ampla: “Certamente existem conflitos no interior da própria Igreja Arquidiocesana, mas que devem ser vividos e experimentados à luz das exigências de conversão evangélica. Teremos de buscar uma visão eclesial que, mais profunda e evangelicamente, contemple a todos e a todos traga vida. No atual momento da nossa Igreja Arquidiocesana, sentimos uma tensão entre o modelo eclesial proposto a partir da experiência eclesial das CEBs, a forma tradicional das paróquias e a experiência eclesial relançada pelos movimentos. Tal tensão, que gera conflitos, deverá ser vivida de forma a se buscar uma comunhão de diferentes, mas que seja respeitadora da referência fundamental, que é a comunidade eclesial como lugar estrutural e estruturante da fé e da vida cristã. Os movimentos eclesiais, assim como as pastorais populares, são lugar conjuntural e de suporte da vida cristã. Compete a  nós todos, como Igreja, buscarmos meios organizativos onde a experiência eclesial possa acontecer de modo a apontar caminhos para uma efetiva comunhão, que possa contribuir para uma vida melhor para todos e, de modo especial, para os pobres”(RA 83).

 

O que diz a Revisão Ampla, apesar do tempo passado, é plenamente atual e deve ser motivo de profunda reflexão para nossa Igreja Arquidiocesana se ela quiser ser “uma Igreja de comunhão e respeitadora das diferenças à imagem da Trindade”, como também propõe a própria Revisão Ampla (cf. RA 133).

              

 

Alimentos da Igreja da Caridade: Palavra, Eucaristia e Amizade

 

a) Pão da Palavra: alimento da vida comunitária e da missão.

 

44.  Jesus ao iniciar seu ministério escolhe os doze para viver em comunhão com Ele e depois enviá-los em missão. A comunhão dos discípulos com Jesus é feita na escuta de sua Palavra (Mc 4, 11.33-34). Os discípulos são ouvintes da Palavra. Assim também os primeiros cristãos se reúnem assiduamente para escutar os ensinamentos dos apóstolos que transmitem o que Jesus lhes ensinou (At 2,42). A Sagrada Escritura, a Palavra de Deus, é fonte de vida para a Igreja e alma de sua ação evangelizadora, por isso podemos afirmar que desconhecer a Escritura é desconhecer Jesus Cristo.

 

É da escuta da Palavra que brota a conversão e a vida missionária; é da escuta da Palavra que surge a força para se viver em comunhão. Desejo que nossa Igreja se nutra cada dia com o Pão da Palavra, somente desta atitude de colocar-se á escuta da Palavra pode surgir um testemunho profético que esteja em sintonia com o profetismo de Jesus. Que nossa pastoral seja animada pela Palavra, “animação bíblica da pastoral” (cf. DA 248). É da fonte da Palavra que deve brotar nossa ação em favor do Reino.

 

Minha preocupação tem sido orientar para que o contato com a Escritura seja não só intelectual e instrumental, mas com o coração “faminto de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8,11), pois só Ele “tem palavras de vida eterna”. Tenho incentivado as Escolas de Teologia, na Diocese e nas Foranias, e as Escolas da Fé nas paróquias, para que o pão da Palavra e “os ensinamentos dos apóstolos” sejam partilhado com todos. Elas se multiplicaram e estão dando frutos. Que possamos continuar a ser, em especial os presbíteros e diáconos, fiéis distribuidores do pão da Palavra: “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

 

 

b) Pão da Eucaristia: fonte de comunhão e vida solidária

 

45. O 14º Congresso Eucarístico Nacional marcou nossa Igreja deixando-nos em seu lema uma lembrança imorredoura. A Eucaristia é fonte cristalina, lugar privilegiado do encontro do discípulo missionário com Jesus Cristo. “Existe estreito vínculo entre as três dimensões da vocação cristã: crer, celebrar e viver o mistério de Jesus Cristo, de tal forma que a existência cristã adquira verdadeiramente forma eucarística” (DA 251). É na liturgia que ao celebrarmos o mistério Pascal, encontramos o Senhor e penetramos mais intimamente nos mistérios do Reino.

 

Nunca é demais recordar que “a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã” (LG 11). A Eucaristia é o resumo e a suma de nossa fé. De celebração em celebração, anunciando o Mistério pascal de Jesus até que Ele venha, o povo de Deus em peregrinação avança pela porta estreita da cruz em direção ao banquete celeste (cf. CIC 1344). Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos compromete com a promoção da vida, nos compromete com os pobres (cf. CIC 1397).

 

Desejo que nossa Igreja seja uma Igreja Eucarística. O Templo Votivo do Santíssimo Sacramento no coração da cidade de Campinas, local consagrado á adoração perpétua de Cristo Eucarístico, é não só um monumento de gratidão e louvor, expressando a fé de nossa Igreja em Jesus Eucaristia, mas é também um coração que incessantemente pulsa, comunicando-nos a vida do Amor que se faz pão para a vida do mundo. Ele nos faz ouvir no centro de Campinas o eco do convite feliz do Congresso Eucarístico: “Venham, venham todos para a Ceia do Senhor!”.

 

Invocando a intercessão do Beato Mateus Moreira e seus companheiros proto-mártires do Brasil, peçamos que não falte em nossas comunidades o pão da Eucarística, que não falte o zelo e o amor de todos para com este tão grande sacramento. Afinal, pela celebração Eucarística já nos unimos à liturgia do céu e antecipamos a vida eterna, quando Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28).

 

 

c) Pão da Amizade: para testemunhar o amor

 

46. Sabemos que não pode existir vida cristã fora da comunidade. “Como os primeiros cristãos que se reuniam em comunidade, o discípulo participa na vida da Igreja e no encontro com os irmãos, vivendo o amor de Cristo na vida fraterna solidária” (DA 278 d). É na comunidade que vivenciamos o amor ao Mestre Jesus e o amor aos condiscípulos, é na comunidade que vivemos, na pessoa dos irmãos a amizade com Jesus que disse: “Já não vos chamo servos mas amigos” (Jo. 15,15). Que Deus possa considerar os homens como amigos é a revelação que muda o sentido do amor dando-nos a capacidade de amar até mesmo os inimigos, quanto mais os irmãos e irmãs que fazem parte de nossa comunidade.

 

É necessário renovar a comunidade diante do desafio da fragmentação da vida e o individualismo de um lado e a busca de relações mais humanas de outro lado: “A vida fraterna em comunidade gera e alimenta atitudes de apoio mútuo, reconciliação, solidariedade e compromisso” (DGAE/2008-2010 n 150). Neste sentido, no interior da comunidade eclesial, o diálogo deve ser regra permanente para a boa vivência e o aprofundamento da comunhão.

 

Na dureza da vida diária, em situações nas quais a solidão é marcante, em especial nas cidades grandes, é necessário que as comunidades se tornem casa de acolhida, fraternidade e cultivo da verdadeira amizade, “expressão privilegiada do amor cristão” (RA 125-133). A comunhão com os que são diferentes, o amor ao próximo até a morte na dimensão da cruz, são sinais de que vivemos vida nova no ressuscitado e a morte não tem mais poder sobre nós, porque amamos como Jesus amou (Jo. 13,34-35).

 

Nosso desafio maior neste sentido, é sobretudo a cidade (cf. OA 8 e  12). Como evangelizar a cidade? D. Gilberto na sua Carta Pastoral de 1975 escrevia: “O trabalho, nas grandes cidades continua desafiando o zelo e a criatividade dos pastores e dos cristãos em geral” (n. 15). Como desenvolver uma pastoral urbana, pergunto, senão através de uma eficiente pastoral de conjunto? Que saibamos assumir este desafio! Faço aqui uma menção á pastoral da Acolhida, da Escuta Cristã, que neste contexto urbano se tornam cada vez mais necessárias em nossas comunidades.

 

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