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III - IGREJA DA CARIDADE E MISSÃO: NOSSA PERSPECTIVA
FUTURA
Nossa fé é eclesial: creio com a fé da Igreja
30.
A primeira beneficiária da salvação é a Igreja,
novo Povo de Deus (1Pd 2,9) adquirido por Cristo com seu sangue (At 20,28)
tornando-a sua cooperadora na obra da redenção. O Concílio deu realce ao
papel da Igreja na obra da salvação. Ao mesmo tempo em que reconhece que
Deus ama a todos os homens e mulheres e lhes dá a possibilidade de serem
salvos, a Igreja professa que Deus constituiu Jesus Cristo como único
mediador e que ela própria foi posta como instrumento universal de salvação
(LG 48).
Em nossa profissão de fé:
“creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica”, a Igreja é entendida a
partir do Espírito Santo, como o lugar em que Ele atua neste mundo. Na
Comunidade de fé somos chamados a viver a conversão (batismo), a
união-comunhão (Eucaristia) e os demais sacramentos.
A mediação eclesial é
componente chave de nossa fé. Eu creio dentro da Igreja: nossa fé é
eclesial. Devemos reafirmar nossa pertença á Igreja com muita convicção,
especialmente nessa época em que a tentação mais comum é a de ser cristão
sem Igreja, ou seja: seguir Cristo, sim, pertencer á Igreja não (cf. DA n.
156). Sabemos que Cristo é inseparável da Igreja e do Reino de Deus, são
três realidades inseparáveis entre si: “Mesmo sendo distinta de Cristo e do
Reino, a Igreja está unida indissoluvelmente a ambos” (João Paulo II - RM n.
18).
31.
Quero convidar a todos para considerarem o que
diz o documento de Aparecida ao reafirmar a unidade vinculante entre Cristo,
Reino e Igreja: “A condição de discípulo brota de Jesus Cristo como de sua
fonte, pela fé e pelo batismo, e cresce na Igreja, comunidade onde todos os
seus membros adquirem igual dignidade e participam de diversos ministérios e
carismas. Desse modo, realiza-se na Igreja a forma própria e específica de
viver a santidade batismal a serviço do Reino de Deus” (DA n. 184).
32.
Coloco também para consideração de todos a
realidade histórica da Igreja. Ela é divina e humana, é peregrina na
história e por isso não pode ser somente espiritual e invisível. É encarnada
e aparece como corpo social, “organismo visível, sociedade dotada de órgãos
hierárquicos” (LG n. 8). Nela todo poder é serviço exigente à liberdade dos
filhos de Deus em nome de Jesus Cristo o Servo de todos. Daí a necessidade
da instituição. A liberdade sem a instituição vira anarquia e morre, a
instituição sem liberdade acaba se tornando sistema impessoal. A Igreja é
sociedade (porque constituída de pessoas), instituição (porque é
organizada), mas não é sistema, porque é comunidade de encontro pessoal e
portanto é comunhão na força do Evangelho.
33. Alerto a todos
para que tenhamos cuidado, a fim de não sermos vítimas de concepções
ideológicas de Igreja quais sejam: Igreja reduzida á idéia de sindicato:
luta pela justiça esquecendo-se da misericórdia. Igreja vista como clube:
convivência fraterna esquecida da missão. Igreja concebida como assistência
social: sociedade de utilidade pública esquecida da espiritualidade que
empenha em favor do Evangelho.Igreja confundida como partido político:
trabalho limitado com e para pessoas que tem os mesmos projetos sociais e a
mesma ideologia. Todas estas visões distorcidas tendem a considerar a Igreja
somente no seu aspecto sociológico, ou seja, no seu elemento terrestre
excluindo o mistério e seu horizonte escatológico. Mistério que a envolve na
sua realidade na qual se fundem dois elementos: o humano e o divino (LG n.
8).
Igreja da Caridade como Solidariedade e Missão
34.
Em preparação ao jubileu da redenção, a Igreja
do Brasil pode desenvolver o projeto “Ser Igreja no Novo Milênio”. As
reflexões propostas tinham sua base nos textos dos Atos dos Apóstolos. É
recordando este projeto, que tanto nos ajudou a clarear e firmar nossas
convicções a respeito do ser da própria Igreja e de nosso ser na Igreja, que
desejo falar sobre a Igreja. Os “retratos da Igreja” (At 2,42-47; 4, 32-37;
5, 12-16) que os Atos nos trazem são paradigmáticos para a Igreja de sempre,
é um projeto sempre em movimento para alcançarmos a meta de sermos uma
Igreja cada vez mais parecida com Jesus, no amor do Pai e na força do
Espírito, a serviço do Reino. A fé apostólica, a escuta da Palavra, a Fração
do Pão, a comunhão fraterna, a oração em comum, a partilha e a missão
evangelizadora, são elementos constitutivos da eclesialidade.
35.
Em sua primeira encíclica, o Santo Padre Bento
XVI enfoca a Igreja
como “Comunidade de
Amor”: “O Espírito é força que transforma, o coração da comunidade
eclesial, para ser, no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da
humanidade uma única família, em seu Filho. Toda a atividade da Igreja é
manifestação de um amor que procura o bem integral do homem: procura a sua
evangelização por meio da Palavra e dos Sacramentos” (DCE n. 19).
O papa João Paulo II,
afirmara que a caridade é verdadeiramente o coração da Igreja. E ainda que
no novo século a Igreja também terá necessidade de muitas coisas para sua
caminhada histórica, mas se faltar a caridade (ágape), tudo será inútil.
Afirma também que, se verdadeiramente contemplamos o rosto de Cristo, nossa
programação pastoral não poderá deixar de inspirar-se no mandamento novo que
Jesus nos deu (cf. NMI n. 42). Nesta perspectiva, propõe a toda a Igreja:
“Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos
espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e
corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (NMI n.43).
Construindo comunhão e participação
36. Os bispos em
Puebla indicam a Igreja como “mistério, comunidade fraterna de caridade
teologal” (DP 567).Assim, em sintonia com o Magistério petrino, os bispos da
América Latina, na perspectiva de Puebla, propuseram na Conferência de
Aparecida, uma Igreja da caridade, lugar de comunhão e participação:
“A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade
e justiça entre nossos povos” (DA n. 396), sem nos esquecermos do
protagonismo dos leigos do qual nos fala o Episcopado em Santo Domingo.
Quero compartilhar com
vocês, irmãos e irmãs um dos textos do Documento de Aparecida que mais me
marcaram: “A América Latina e o Caribe não devem ser só o Continente da
esperança. Além disso, devem também abrir caminhos para a civilização do
amor” (DA 537). Em sua volta às fontes o Vaticano II ofereceu-nos uma
eclesiologia comunitária, que Puebla leu na perspectiva de uma “Igreja de
comunhão e participação” (DP 326). A Igreja é koinonia, palavra
bíblica que remete ao mistério de Deus como comunhão que se revela: Deus é
comunhão de amor.
Vamos abraçar
esta causa,
fazendo nosso cada vez
mais, este ideal:
uma Igreja Missionária
da Caridade como Amor-serviço solidário
que brota da Palavra e
da Eucaristia.
37. Igreja da
caridade é comunhão. O discípulo-missionário é chamado a viver em
comunhão com o Pai e com seu Filho na comunhão do Espírito Santo (1Jo
1,3;1Cor 13,13). O mistério da Trindade é fonte, modelo e meta do mistério
da Igreja que brota da Trindade, a verdadeira, a melhor comunidade. “A
vocação ao discipulado missionário é convocação à comunhão em sua Igreja.
Não há discipulado sem comunhão” (DA n.156). E ainda: “A Igreja é comunhão
no amor. Esta é sua essência e o sinal através do qual é chamada a ser
reconhecida como seguidora de Cristo e servidora da humanidade” (DA n. 161).
A comunhão é dom e tarefa, é graça e compromisso. A Igreja é comunhão em si
tendo em vista criar comunhão no mundo estando assim a serviço do Reino de
Deus.
Insisto na recomendação
que fiz aos presbíteros e aos agentes durante minha visita pastoral no
sentido de que todas as paróquias e comunidades tenham seus Conselhos de
Pastoral (CPPs e CPCs) e também os Conselhos de Assuntos Econômicos (CAE)
para ajudar na administração. São válidos e imprescindíveis instrumentos de
comunhão e participação. Quero que em nossa Arquidiocese não sejam
facultativos mas normativos.
38. Igreja da
caridade é participação, digo
participação pensando da inclusão de todos na vida comunitária. Participação
na comunidade unida pelo amor, amor que gera critérios de participação
comunitária segundo a vocação e os dons de cada um. Sejamos sim uma Igreja
toda ministerial nesta perspectiva da participação.
A caridade busca a
participação e inclusão de todos.Assim, esta participação intra-comunitária,
deve estender-se como integração na pastoral, nos organismos e no empenho
para que todos participem dos dons da vida. É preciso superar a privatização
da caridade ampliando seus horizontes para que ela seja exercida como busca
do bem comum, empenho pela justiça á luz da opção preferencial pelos
pobres.Assim a caridade que promove a participação, adquire sua dimensão
política quando é promoção integral da pessoa humana.
A caridade é força de
resistência contra a destruição do amor dentro da comunidade e da realidade
social. Devemos lutar para não deixar arrefecer a caridade, devido à
crescente iniqüidade social (Mt 24,12). “A caridade para com Deus e para com
o próximo, é o sinal do verdadeiro discípulo de Cristo” (LG n. 42). A
caridade como amor a Deus e aos irmãos é a síntese da vida moral do fiel
cristão.

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