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Justificativa: ministério do bispo como serviço
a Deus e aos irmãos
3.
Todo o ministério do Bispo está orientado, a
exemplo do Bom Pastor, ao serviço de Deus e dos irmãos. Nele as funções de
ensinar, santificar e governar estão intimamente ligadas. O “munus
docendi”, ou seja, a tarefa de ensinar coloca o bispo como primeiro
evangelizador da Igreja na qual foi constituído pastor. Sendo o bispo,
discípulo do Senhor, torna-se pela obediência ao Evangelho e por vocação, o
mestre da fé. Nele encontram sua radical unidade e harmonia os diversos
ministérios relacionados à Palavra, à evangelização e catequese.
Ensina-nos o Concílio
Vaticano II: “Os bispos regem as Igrejas Particulares que lhe foram
confiadas, com conselhos, exortações e exemplos” (LG 27). Assim sendo, está
previsto que o bispo proponha a doutrina servindo-se também de cartas
pastorais na ocasião de circunstâncias especiais para a vida diocesana,
dirigida a toda a comunidade cristã e lida nas Igrejas e distribuída aos
fiéis (cf. AS n. 122).
Por isso quero dirigir-me
a toda a Igreja Particular de Campinas com esta carta pastoral, nesta
ocasião especial em que comemora seu centenário. Usando deste recurso que
meus antecessores usaram, espero alcançar a adesão que eles tiveram.
4.
Meu objetivo principal com esta carta pastoral
é conclamar nossa Igreja para que se una e intensifique sua comunhão e
participação em todos os setores da vida eclesial, da pastoral e, mormente,
no elã missionário que deve nos animar. Meu objetivo primordial é oferecer a
todos, pontos luminosos que devem nortear nosso trabalho pastoral, no
cumprimento do objetivo geral da pastoral de nossa Igreja e em nossa ação
evangelizadora.
Pastoral não se faz por
decreto, lembrou D. Gilberto em sua Carta Pastoral por ocasião dos 70 anos
de criação de nossa Diocese, em 1978. E eu acrescento, nem com legislação
eficiente, ou plano de pastoral apropriado, bem escrito, mas com a adesão de
corações repletos de fé e esperança, que desejam praticar a caridade, sendo
que a primeira caridade é o anúncio do Evangelho, a que o plano de pastoral
deve servir. Que sejamos unidos no essencial em meio à pluralidade de ações
evangelizadoras que a realidade nos for apontando a cada dia. Unidade na
pluralidade: programa comum percorrido por caminhos diversos, eis nosso
desafio.
Que vocês possam receber
esta carta, como uma mensagem de amor e solicitude do pastor que deseja
ardentemente ver cada um de vocês transformados em carta viva de Nosso
Senhor Jesus Cristo, missionários e missionárias do Evangelho: “Carta
escrita nos corações, conhecida e lida por todos os homens” (2Cor, 2,2).
Nossa realidade: uma mudança de época
5.
De um modo geral está cada vez mais claro que
"vivemos uma mudança de época, e seu nível mais profundo é o cultural, no
qual se dissolve a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo
e com Deus" (cf. DA n. 44). Constatamos também que uma economia a serviço do
mercado e voltada primordialmente para o lucro é causa de exclusão e
sofrimentos indizíveis.
A criação de nossa diocese
se deu no contexto do processo de industrialização de Campinas, após a crise
do café ocorrida entre 1899 e 1912. Acelerou-se o processo de
industrialização, trazendo consigo o início de um outro processo, o da
secularização que teve incidência marcante na Igreja. Entre os anos 1950 e
1970, Campinas experimenta um crescimento demográfico acentuado, tornando-se
aos poucos uma metrópole, com todas as conseqüências urbanas que daí advêm e
das quais destaco o surgimento das periferias. Este processo de urbanização,
e hoje conurbação, atinge toda a região.
6.
Devido à urbanização do mundo, marca do
processo de globalização, os problemas sociais se avolumaram. No limiar do
séc. XXI criou-se a Região Metropolitana de Campinas, a fim de viabilizar
soluções para uma das regiões mais ricas do país, na qual parcela
significativa da população luta contra a pobreza e a violência.
Podemos constatar que
transformações tão intensas mudam os referenciais. A referência não é mais o
conjunto das relações sociais, mas o indivíduo consumidor. Isto tem seu
impacto sobre a religião, a pastoral e a maneira de viver a pertença à
Igreja. Os laços comunitários se esgarçam, as conseqüências se fazem sentir
nas famílias e nas comunidades eclesiais.
7.
Quanto à situação religiosa, constatamos: mais
que o avanço do processo de secularização, o crescimento do pluralismo
religioso, na trilha do individualismo, faz da opção religiosa uma escolha
subjetiva. Crescem as religiões que exprimem uma identidade fugaz, que não
criam laços comunitários e não empenham em mudanças éticas que envolvam
valores humanos e evangélicos.
Nossa realidade urbana,
considerando Campinas e as cidades que compõem nossa Arquidiocese, impõe-nos
uma séria reflexão para articular um pensamento pastoral conjunto e uma
busca sincera para encontrar os meios mais eficazes para o cumprimento de
nossa missão: evangelizar a cidade! Neste sentido, proponho para
consideração de todos, mormente quando se tratar de planejarmos nossa
pastoral, o que indica o documento de Aparecida ao abordar a pastoral urbana
(cf. DA n.509-519).
Motivação fundamental: glorificar o Nome do Senhor!
8.
Ao assumir o múnus episcopal, escolhi como lema
as palavras do salmo “Nomem Domini Benedictum”: Bendito seja o nome do
Senhor! (Sl 112). Com isso desejei expressar o sentimento e a
disposição que norteariam meu ministério episcopal: a glória de Deus. Esta
foi a motivação fundamental do ministério de Jesus. Para ser fiel a este
ideal, ele venceu as tentações de todas as ideologias que pretendiam levá-lo
a capitular diante dos bens materiais, da fama e do poder (Mt 4,1-11).
Penso que a motivação de
toda a ação pastoral da Igreja não pode fugir a este lídimo e último
desideratum: seja santificado o seu nome (Lc 11,2), seja glorificado e
bendito o nome do Pai pela ação de seu Filho Jesus que é o tronco no qual
somos inseridos (Jo. 15,5).
Recordo-me aqui da tão
repetida sentença de Santo Irineu de Lyon: “A glória de Deus é o homem que
vive e a vida do homem consiste na visão de Deus” (Adversus haereses,
Livro IV 20,7). Nossa motivação fundamental seja permanecer no serviço a
Deus que é o serviço à vida. Serviço à vida no sentido de que todos tenham o
pão, mas serviço à vida que vai além desta dimensão material tão urgente e
necessária, que é o serviço à vida para que todos possam ter “vida
nova em Cristo”.
9.
A vida no Espírito que brota de Deus e nos é
trazida por Jesus Cristo, se antepõe à vida corporal: “Que adianta ao homem
ganhar o mundo inteiro e perder sua vida?” (Mt 16,26). Por isso a vida
adquire novo significado na pregação dos apóstolos: só Cristo constitui a
vida verdadeira. Ele é luz e vida desde toda eternidade (Jo 8,12) e veio
trazer esta vida à humanidade (Jo 10,10-11). A vida nova em Cristo é a
grande mensagem que se traduz no conceito evangélico de Reino de Deus. “Só o
Reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o
mais que não se identifica com ele” (Paulo VI in EN n. 8). “Buscai primeiro
o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”
(Mt 6,33).
Deus é glorificado por uma
nova humanidade, uma nova sociedade possível, nós cremos como cristãos,
somente a partir do Reino de Deus inaugurado por Jesus de Nazaré. Nossa
motivação fundamental parte de Jesus Cristo, pedra fundamental, parte da sua
pregação do Reino de Deus que é empenho para que todos tenham vida e vida
plena: “E a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, o único Deus
verdadeiro, e aquele que tu enviaste” (Jo 17, 3). E assim será bendito para
sempre o nome do Senhor!

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