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Basílica Tombada

A
praça Bento Quirino, em 09/10/2003, foi tombada pelo Condepacc
(Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas) e, junto
com ela, a Basílica do Carmo. Acontecimento significativo,
merece destaque por vários motivos: em primeiro lugar, pela
valorização da memória histórica no contexto de uma realidade
que tem uma nova relação com o tempo. Em nossa época, o que vale
é o “presente contínuo”, sem futuro e sem passado. Assim,
preservar a memória do passado, através da preservação de seus
símbolos, faz bem a uma cidade, mostra que ela, ao preservar
suas origens, garante o seu futuro. Árvore cujas raízes se
decompõem acaba por sofrer as conseqüências no seu todo.
Em
segundo lugar a divulgação e a importância que a imprensa dá ao
fato, demonstra mudança em relação ao conceito de progresso.
Antes, o progresso era visto como a derrubada dos símbolos do
passado, para que surgisse o novo. Caso exemplar foi o que
ocorreu com o Teatro Municipal. Hoje se percebe, em contexto
cultural mais amplo, que o novo pode e deve conviver com o
passado, de forma harmoniosa, para que o futuro tenha realmente
futuro.
O
espaço rural no Brasil era regido pelos referenciais católicos
que ofereciam segurança e orientação para o comportamento das
pessoas. Desta forma, uma igreja era geralmente o edifício mais
notado no coração de uma vila ou cidade. Assim, a Matriz do
Carmo e a atual praça Bento Quirino foram, no seu passado, a
cellula mater em torno da qual se desenvolveu Campinas, nos
seus dois primeiros séculos de existência. Na cidade grande
diluem-se os referenciais cristãos, a ponto de desaparecerem em
meio às pessoas já desorientadas pela fragmentação de valores. A
parte arquitetônica de cidades maiores como Campinas, termina
também por ocultar a visibilidade das construções das igrejas,
cuja presença não se distingue entre os arranha-céus.
Este tombamento pretende preservar o berço da cidade, seu marco
zero, com a igreja que sinalizou sua fundação de forma
indelével. A Basílica do Carmo apresenta três fases na sua
existência, reconhecidas por sua importância histórica. Data de
1772 o pedido dos moradores do bairro de Campinas do Mato
Grosso, pertencente à paróquia de Jundiaí, para erigirem uma
capela dedicada à Imaculada Conceição. A primeira fase foi
iniciada em 14/07/1774, com a primeira missa, quando da fundação
da paróquia e da cidade, em uma matriz provisória, coberta de
sapé, onde hoje se encontra o monumento a Carlos Gomes. Essa
matriz provisória, que funcionou desde a fundação até que
estivesse pronta a matriz definitiva, inaugurada em 25/07/1781,
onde hoje se localiza a atual Basílica, foi o primeiro templo
religioso de Campinas e relicário de suas tradições mais caras.
Nela foi sepultado o fundador da cidade, em abril de 1782,
conforme consta no Livro Tombo (L.1, fls.16 de 1774-1806) da
paróquia, assinado pelo pároco da época e transcrito in
Monografia Histórica de Campinas (1952), à página 77. Esta
matriz foi sede da freguesia (paróquia) de Nossa Senhora da
Conceição, durante o período do Brasil-colônia e império. Todos
os grandes acontecimentos dessa época em que os poderes civis e
religiosos estavam unidos, se desenvolveram ao redor dela e
desta praça. Nela foram batizados campineiros ilustres como
Carlos Gomes e Campos Sales. A Matriz do Carmo atesta o que
ninguém poderá negar, que Campinas nasceu cristã, com um gesto
fundacional que recorda Jesus Cristo na Palavra e na Eucaristia
(missa), e Maria a Mãe do Filho de Deus, escolhida como
padroeira.
A
segunda fase iniciou-se em 1870, quando a sede da paróquia de
Nossa Senhora da Conceição foi transferida para a Igreja do
Rosário (demolida) e, posteriormente, para a Matriz Nova, hoje a
Catedral. A cidade foi dividida em duas paróquias. Assim, a
primeira igreja de Campinas passou a ser denominada Matriz
Velha, sede da paróquia cognominada Santa Cruz e Nossa Senhora
do Carmo. Nesse período, aí passaram, como párocos, os dois
primeiros bispos de Campinas: D. Nery e D. Barreto. Na área
territorial da paróquia, foram fundadas a Puccamp e a
Congregação das Irmãs de Jesus Crucificado. Em 1922, a
Matriz do Carmo foi demolida e, durante dez anos, reconstruída
como se encontra em seu formato atual, em estilo neogótico, de
inegável beleza e bom gosto.
A
terceira fase iniciou-se em 22/06/1975, quando a Matriz do
Carmo, graças aos esforços do monsenhor Geraldo Azevêdo, recebeu
do papa Paulo VI o título de Basílica Menor. Na justificativa
apresentada para o requerimento deste importante título, constou
com destaque o aspecto histórico e o amor do povo a este templo
enraizado na memória coletiva da população de Campinas. Como
Basílica, este templo passou a ter uma ligação especial com o
Santo Padre, o Papa, distinguindo-se como local abençoado para
se receber as graças de Deus.
Fonte: Texto publicado no Jornal Correio Popular
Autoria: Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em Teologia, Professor
Titular da PUC Campinas, Pároco e Reitor da Basílica N. Sra. do Carmo
e Vigário Episcopal da região Campinas.
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