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ARTIGOS

 

Artigos de autoria do Pároco Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

NÃO AO ABORTO: SIM À VIDA! ( I )

 

A 13a Conferência Nacional de Saúde, que reuniu representantes da sociedade civil, profissionais da área e gestores do SUS, rejeitou dia 18 deste mês a proposta de descriminalização do aborto: 70% dos representantes votaram contra a proposta defendida pelo Ministério da Saúde.

 

Fica provado mais uma vez que brasileiro é contra o aborto. Em recente pesquisa divulgada em importantes jornais do país dia 19/07/2007, constatou-se a rejeição do aborto pela população. Dos entrevistados, 87% são de opinião de que fazer aborto é moralmente errado.

 

O governo Lula, através do Ministério da Saúde e de políticos do PT, tem projetos favoráveis à aprovação da descriminalização do aborto. É preciso que fique claro que não é legalização, porque ninguém pode legalizar tal procedimento, dado que o direito à vida é uma cláusula pétrea da constituição (Art. 5). O aborto é violação do direito à vida do nascituro. Não vou entrar no emaranhado da ficção jurídica de cunho utilitarista, eivada de eufemismos, feito para negar ou amenizar a violação do direito à vida do nascituro.

 

As campanhas do governo em favor do aborto, que reduzem a questão somente a um de seus aspectos, qual seja, a saúde, estão de costas para o povo, com a astuta falácia de que defendem o próprio povo, que a uma altura destas precisa ser tutelado. E a democracia? Aliás, não existe democracia sem respeito à dignidade da pessoa humana. A pedra fundamental da dignidade humana é o direito à vida, sua defesa onde se encontra ameaçada. Ameaçada, justo ali onde não há como se defender.

 

Em um país como o nosso, no qual os ricos gastam dez vezes mais que os pobres, país que coloca 7 jovens por hora nas prisões, a maioria desempregados, o favorecimento da prática do aborto parece mais um subterfúgio para resolver,  passando por um atalho perverso, a má distribuição de renda e a desigualdade social escandalosa na qual vivemos. Por que as soluções para os problemas sociais devem passar sempre pela morte, em geral dos mais fracos, e não pela promoção da vida? Por que não usar a mesma presteza que se usa para aprovar a descriminalização do aborto, para aprovar leis urgentes, que destinem verbas para a educação e distribuam melhor a riqueza?

 

Poder-se-ia enumerar todo um arrazoado técnico-científico-social a favor do aborto. São opiniões que têm o direito de existir. Porém, não podem negar que o aborto é grave. É matar o feto, que sente alegria, dor e treme diante do bisturi. E diante do Deus da vida, é um crime, um pecado. Pode-se descriminalizar o aborto no papel, nas leis, mas não na consciência, porque nem tudo que é legal é justo.

 

A despenalização material do aborto pela sociedade não elimina nem evita que a voz da consciência continue perguntando como perguntou a Cain: “onde está teu irmão?” O discurso deveria ser sobre como diminuir mortes por abortos e não como legalizar uma realidade de morte.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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NÃO AO ABORTO: SIM À VIDA (II)

 

O Natal nos fala do mistério de uma gravidez inesperada por parte da mãe, Maria, e até certo ponto, indesejada pelo noivo dela, José, que pensou em deixá-la em segredo (Mt 1, 18-24). Sabemos como foi o desfecho do drama, como a criança nasceu. Se tivesse aborto nesta história, não haveria Natal. Mas foi o amor que venceu.  Continuo assim minha reflexão sobre o aborto iniciada em meu artigo precedente.

 

Maria, mulher pobre de Nazaré, assumiu a gravidez, sem entrar na discussão prepotente de ser ou não ser dona do próprio corpo, fazendo dele o que desejar como se faz com mercadoria. Opta pela vida, coloca seu corpo a favor da vida. De sua vida brota outra vida que ela acolhe. Nisso se torna mulher grandiosa, perfeita. 

 

Há valores que não se podem desprezar sob pena de se pagar um preço alto. Não matar é um mandamento ontológico inscrito na consciência de cada membro da humanidade. É sol que ilumina o ser humano de dentro. Não se pode cancelá-lo. Se a vontade do povo, o capricho de alguns, o interesse de poucos constituísse o direito, poderíamos  então criar o direito ao roubo, latrocínio etc. Aqui é preciso considerar que a luz de milhões de velas não corresponde à luz de um único sol.

 

Como é esdrúxula a reclamação de certas mulheres, de que os homens são os principais participantes da discussão sobre o aborto. É muito natural que assim seja, pois eles, se desejam continuar nascendo, dependem das mulheres já que todo homem ao nascer tem sangue de mulher nas veias.

 

Achar que a disseminação do aborto diminui a violência é outra das teorias vindas dos EUA. Aliás, muito bem aceitas por grupos de cientistas e estudiosos que trabalham a peso de ouro para instituições internacionais, interessadas em divulgar o aborto como solução. E vem o demógrafo Paul Ehrlich dizendo que a terra tem gente demais etc. O IBGE já deixou claro que aborto não combate a violência e a demógrafa Susana Covenaghi disse muito bem: “Alguns querem acabar com a pobreza. Outros querem acabar com os pobres”.

 

Em 30 de outubro de 2005, o Correio Popular publicou uma pesquisa mostrando que o campineiro é contra o aborto. O que isto demonstra? Atraso?  A pesquisa auferiu que 77,3% da população de Campinas é contra o aborto. Isto mostra o espírito solidário que sempre permeou a história da cidade. Uma cidade que quase foi extinta pela febre amarela e teve que conviver muito com a morte. Mas Campinas optou pela vida, aprendeu que a solução passa pela vida e não pela morte.

 

O óvulo fecundado pertence ao gênero humano, tem código genético diferente de seus genitores, por isso a tradição jurídica proclama que o nascituro é pessoa humana e tem direito à vida. Na tradição cristã aurida na Bíblia, vemos Isabel que saúda Maria grávida, como a “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). Antes de nascer, Jesus já operava a redenção, já recebia a profissão de fé que fundamenta o cristianismo: Ele é o Senhor! Que Ele nos ilumine neste Natal!

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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ESCUTA CRISTÃ

 

São milhares de pessoas que já se beneficiaram deste serviço chamado “Escuta Cristã”, existente em algumas paróquias de Campinas, como a Catedral e a Basílica do Carmo. Neste mês, este serviço completou dez anos, devolvendo a alegria e infundindo coragem a pessoas desanimadas ou desesperadas que buscam quem as acolham e ouçam.

 

A vida na cidade se torna complexa a cada dia. A mudança de época, os muitos problemas de uma metrópole, machucam as pessoas deixando muitas delas desorientadas. De um lado, a pessoa moderna típica da cidade sofre a necessidade de conhecer e controlar tudo para sentir-se segura e livre. De outro lado, a pressa, sobrecarga de trabalho, medo, vão fragilizando os laços entre as pessoas. Ninguém tem tempo, já não há quem possa ouvir-nos! Num clima de tensão destes, muitas vezes agravado pela pobreza ou solidão, as pessoas se desequilibram.

 

No desejo de encontrar caminhos para ajudar, os organismos de articulação da pastoral da Arquidiocese de Campinas chegaram à conclusão que se tornava necessário implantar um serviço que disponibilizasse pessoas nas igrejas para acolher e ouvir. Assim surgiu este serviço levado avante por um grupo significativo de pessoas que se prepararam para exercer este trabalho, que a cada dia se revela mais importante.

 

A solução para nossos problemas pessoais e comunitários encontra-se, em princípio, não em programas sociais de vários tipos, que são necessários, mas  na restauração do equilíbrio interior das pessoas. E isto começa pelo ouvi-las, o que as ajuda a ouvirem-se. Na “Escuta Cristã” este ouvir não é um ouvir profissional, mas um ouvir amoroso, gratuito, cheio de empatia e compaixão, valores básicos do cristianismo. Por isso se chama “Escuta Cristã”.

 

Tanto o judaísmo como o cristianismo são religiões da escuta. “Ouve ó Israel, o Senhor teu Deus vai falar” (Dt 6,4). O convite para ouvir a voz de Deus é freqüente na Bíblia. Também Deus ouve constantemente: “Eu ouvi o clamor do meu povo, conheço seus sofrimentos e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7). Nos Evangelhos, o mesmo convite: “Este é meu Filho amado: ouvi-o” (Mt 17,5). Jesus é o pastor e as suas ovelhas “ouvem a sua voz” (Jo 10,3).  O convite a ouvir é tão freqüente que S. Paulo vai escrever que “a fé entra pelos ouvidos” (Rm 10, 17). A fé é ouvir a Deus e a caridade é ouvir os irmãos, pois “a fé age pela caridade” (Gl 5,6).

 

Ver e ouvir são manifestamente os meios fundamentais da experiência humana, são os portais pelos quais o mundo penetra em nosso íntimo. São as maneiras pelas quais, abrindo-se à realidade, aceitamos o encontro com ela. Nossa civilização é mais propensa a ver, contemplar imagens, que ouvir ou ler. Parece que somos hoje transformados de pessoas do ouvido e da palavra, em pessoas dos olhos e do ver. Surge constantemente muito palavreado vazio e imagens igualmente vazias diante de nós. Por isso, somos convidados hoje a reaprender a ver e, principalmente, a ouvir.

 

É Jesus que nos ensina o aprendizado da escuta (Lc 16,29). O rico não ouviu o pobre Lázaro, faminto à porta de sua casa, enquanto ele se banqueteava. Isolado e insensível, o rico não conseguia ouvir com os ouvidos do amor. São estes os únicos ouvidos que captam o mistério e o sentido de todas as coisas. Parabéns à Escuta Cristã e todos as pessoas envolvidas nesta pastoral que ouve com os ouvidos do amor.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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ORAÇÃO  E  CARIDADE

 

Viajando pelo interior de Minas Gerais, cheguei a Baependi. Cidade antiga, encarapitada  na encosta de uma colina, como soe acontecer no mar de morros que é Minas Gerais. Ali tomei conhecimento da existência de Nhá Chica, nome com o qual passou a ser conhecida Francisca de Paula de Jesus.

 

Nasceu em 1810, em S. João Del Rei, veio para Baependi com dez anos, mais um irmão e a mãe. Morrendo a mãe e tendo o irmão se arrumado, a jovem resolveu seguir o conselho da mãe: viver para a oração e a caridade.  Recusando propostas de casamento, morou a vida toda em casa modesta, que ainda hoje se conserva. Aí dedicou totalmente a fazer a todos, todo o bem possível.

 

Devota de Nossa Senhora da Conceição, viveu vida de oração, baseada na sua grande fé. Era analfabeta, mas procurou quem pudesse ler-lhe os Evangelhos. Modesta, virtuosa, foi reconhecida como o anjo da cidade, gozando de apreço e simpatia de todas as camadas populares. Mulher pobre, mas rica de fé. Fé que agia através da caridade. Era a mãe dos pobres.

 

Nhá Chica ficou famosa em toda a região. Era procurada por pessoas que lhe pediam oração ou uma palavra de conforto e esperança. Através dela, Deus operava milagres. Com o passar do tempo, vinham pessoas consultá-la. Despida da ciência das escolas, tinha em alto grau a sabedoria de Deus. Pessoas instruídas, até mesmo titulares do Império, iam ouvir suas opiniões sempre ajuizadas.

 

Um médico e livre pensador, Dr. Henrique Monat, deixou publicada uma entrevista que teve com Nhá Chica, segundo ele “uma celebridade em todo o sul de Minas”, na época. Faleceu aos oitenta e dois anos, foi sepultada depois de cinco dias de velório com grande afluência do povo, na Capela  que havia construído. Esta capela é hoje o santuário visitado por pessoas do Brasil todo.

 

Em 1846, a princesa Isabel visitou Baependi e foi protagonista de festividades esplêndidas. Hoje, nada na cidade lembra este fato, nem mesmo uma placa. No entanto, a cidade deixa transpirar o suave perfume desta mulher, que os bispos do sul de Minas propuseram ao Vaticano como candidata aos altares, já tendo iniciado o processo para  sua beatificação.

 

Nhá Chica era clarividente, deixa-nos o testemunho do valor da oração. Jesus diz que é necessário orar sempre e que a oração remove montanhas. A oração bem feita não só nos aproxima de Deus, mas é fonte de equilíbrio, porque nos revela a nós mesmos.

 

Deixa-nos também o testemunho do valor da caridade como realização pessoal. Ao ajudarmos os outros, podemos concluir que muito mais ajudamos a nós mesmos. Quem faz o bem fica cada vez mais bom, ao passo que nem sempre o bem que se faz é aproveitado pelos outros.

 

Iniciando o tempo quaresmal, na quarta feira de cinzas, a Igreja nos convida a intensificar a oração e a caridade que são caminho e termo, da conversão para Deus, no que consiste nossa realização como pessoas.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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O PAPA E A UNIVERSIDADE

 

O que faz a Universidade ser universidade não é a ciência propriamente dita, mas a orientação do pensamento para o universal, para indagar sobre tudo e buscar as respostas sobre as diversas questões que são propostas pelo próprio homem desde sempre e a cada época. E assim tender para a unidade do conjunto, já que a Universidade deve ser o local onde as diversas informações se unificam e se orientam para o todo. Se a Universidade deve estar desta forma, aberta às interrogações e questões postas pelo homem, pelo mundo, a questão de Deus também faz parte da Universidade.

 

Sem a Filosofia e a Teologia, a Universidade pode se identificar a um curso técnico, pois não estaria aberta ao que está além da técnica. Por isso vai escrever o sábio reitor da Universidade de Dublin, John Henry Newman: “A exclusão da teologia contraria o caráter de universidade como instituição científica”.

 

A Universidade tem o compromisso de estar aberta a toda informação e conhecimento disponível. Não pode haver, neste sentido, Universidade dominada por um pensamento único, de um grupo, que queira impor-se a todos como absoluto, sem respeitar a liberdade da consciência. Por isso, uma das atitudes mais importantes e características de qualquer Universidade é ouvir. Capacidade de escutar o que o outro tem a dizer.

 

E foi justamente esta atitude fundamental para qualquer Universidade que foi ferida, de forma escandalosa, semana passada, quando o Santo Padre Bento XVI teve de cancelar sua palestra na Universidade de Roma “La Sapienza”, diante do protesto irreverente, e da intolerância antidemocrática de um pequeno grupo da referida Universidade. Universidade fundada em 1303, pelo seu predecessor o Papa Bonifácio VIII. Palestra que tinha sido convidado a ministrar como bispo da cidade de Roma. Ao aceitar o convite da direção, o Papa pretendia demonstrar seu interesse e simpatia à comunidade universitária. Não foi possível.

 

É evidente que este pequeno grupo, pequeno mas forte, não representa a maioria das inteligências da instituição em questão. Esta Universidade tempos atrás promoveu encontro mundial de Reitores para elaborar “premissas para um novo humanismo no terceiro milênio”. E certamente este novo humanismo não inclui a intolerância. Por que este pequeno grupo se impôs?

 

Sabemos que em qualquer Universidade há um grupo de fanáticos, que se julga dono da verdade. Não só faz barulho, mas intimida. Isto porque busca, sobretudo, o poder para se impor: impor a sua verdade. Os membros destes grupos de iluminados que existem em qualquer Universidade, se tornam extremamente utilitaristas: verdade é o que lhes é útil para obter o poder, pois quando o obtiverem, resolverão todos os problemas. Não se importam com isso, de trair o genuíno espírito da Universidade, que inclui a tolerância e a capacidade de ouvir o diferente.

 

A Universidade pode ser laica e estatal, mas a população a que a universidade e o Estado devem servir conta com pessoas religiosas e, em certos locais, de maioria cristã. Têm o legítimo direito à liberdade religiosa, direito de ver a Universidade pública tratar desta questão que lhes interessa. Por isso, não pode prescindir de ouvir o representante de uma Igreja que conta dois mil anos e tem um tesouro de conhecimento e experiência ética, como o Papa. O fato de a Universidade ser laica não torna automaticamente ateus seu corpo docente e seus alunos. A questão da teologia está presente, a questão religiosa se impõe, se a Universidade está realmente interessada na busca da verdade.

 

O papa teve a gentileza de enviar à Universidade o texto da palestra que deveria proferir pessoalmente. Texto que pode ser lido pela internet e que se intitula “Não venho impor a fé mas pedir a coragem para a verdade”. Vale a pena ser lido pela erudição, profundidade e oportunidade das questões que aborda. Entre outras coisas, diz que a verdade significa mais que saber, pois só saber nos torna tristes, a sabedoria verdadeira vem do conhecimento como descoberta da bondade.

 

Que este incidente nos possa persuadir que realmente fé, verdade e  ciência nos devem tornar bons e não somente sábios ou “sabidos”.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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