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ARTIGOS

 

Artigos de autoria do Pároco Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

O DEUS DOS ATEUS

Artigo publicado em 04/09/2007.

 

Penso que as pessoas não são atéias. O homem pode ser ateu em relação a certas imagens de Deus, mas no fundo admite em segredo: sou ateu graças a Deus! Freqüentemente o que acontece é que ao encontrar-se com o sentimento de finitude, nada, existência para a morte, absurdo da vida, o homem possa a tomar o caminho do desespero que leva  à loucura (Nietzche) ou da realização na santidade (Gandhi).

 

O número dos que se declaram ateus no Brasil aumentou; no último senso passavam um pouco de 7%. E ultimamente alguns autores trouxeram o tema novamente à baila: Daniel Dennet, Sam Harris, Michel Onfray, Hitchens Christopher e Richard Dawkins.

 

Pode-se duvidar de Deus. Mas com certeza o ser humano busca amar e ser amado. Não experimentando amor, é impossível admitir a existência de Deus. Principalmente em nossa cultura, que esvaziou os símbolos do Pai a tal ponto que a figura do Pai entrou em colapso. O evento que preparou a hominização – o homo sapiens, não foi o assassinato do pai, mas o nascimento do pai, afirma E. Morin. O movimento hoje parece ser o contrário. Estamos a caminho de uma animalidade sem pai, como afirma o psicólogo L. Zoja. Da morte do pai à morte de Deus é um passo.

 

Deixando para trás o refrão marxista que entende a religião como “ópio do povo”, os ataques passam, agora, da religião para a própria possibilidade da existência de Deus: uma ilusão maléfica para o ser humano. Todos eles concordam que o pior na religião é a fé na existência de Deus. Assim, o zoólogo R. Dawkins, professor de Oxford, na Inglaterra, chega a afirmar que seu sonho é a completa destruição de todas as religiões.

 

Antes os ateus iam para a fogueira da Inquisição. Será que agora serão os crentes que irão para as fogueiras acesas por cientistas? Ao menos a fogueira das vaidades já foi acesa com esses discursos prepotentes sobre a fé.

 

Esta agressividade desses cientistas contra Deus, a religião, mostra o desapontamento com a persistência da fé em nossos dias, quando se esperava que Deus estivesse morto e sepultado. Mais do que nunca, hoje o homem deseja colocar-se no lugar de Deus. A tecnociência reivindica pela boca de seus “profetas” o lugar de Deus. Enquanto parte da intelectualidade científica da Europa repropõe a morte de Deus como avanço, a Europa como um todo se espanta com as contínuas conversões ao islamismo de um lado, e de outro o niilismo e o crescimento dos cultos satânicos.

 

Porém, sem Deus o mundo e o ser humano não se explicam. Podemos afirmar, sim, que é possível crer depois de Freud. A própria existência do homem impele a crer na existência de Deus. O físico e matemático B. Pascal, inventor da máquina de calcular, escreve: “o momento mais sublime da razão é quando ela aceita que não pode explicar tudo”. Para ele somente a religião e a fé podem ultrapassar o ponto em que a pesquisa científica se choca com o inexplicável.

 

Nem todos os cientistas concordam com teses atéias. O biólogo Francis Collins, diretor do Projeto Genoma, em livro lançado recentemente, intitulado “A linguagem de Deus”, apresenta as evidências de que Deus existe. Afirma que a ciência e a fé devem caminhar juntas e uma não tem nada a temer da outra. Precisa-se da humildade de Collins, um ex-ateu, para crer.

 

A fé nunca fecha-nos o caminho que conduz à descrença, deixa-nos livres. Crer é apenas arriscar-se a ler a realidade, para além do empírico, do perceptível, em chave de símbolo. E não existe contradição com a ciência, se houver diálogo.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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FAMÍLIA : AMOR E LIBERDADE

Artigo publicado em 21/08/2007.

 

De uma maneira ou outra, todos temos família. Viemos de uma família por mais pequena que seja. Neste mês de agosto se comemora a “semana da família” e ficamos pensando se ainda é possível olhar, com serenidade e simpatia, este grupo de pessoas que estabelece relações tão íntimas e dependentes.

 

Em sua obra, Era dos extremos, sobre o século XX, o historiador inglês, Heric Hobsbaum escreve que “as instituições mais severamente solapadas pelo novo individualismo moral foram a família e as Igrejas organizadas no Ocidente”. Podemos deduzir, assim, que a causa mais profunda desta crise da família é o individualismo.

 

Em nossa época, as pessoas prezam, sobretudo, a liberdade como independência de tudo e de todos. O sujeito com sua liberdade ilimitada, o indivíduo livre! É esta a nova “utopia”, ou seja, o desejo-projeto de felicidade que cada um alimenta para si. Não depender de nada e de ninguém numa autonomia total, eis o ideal. Mas será que isto é possível ao ser humano?

 

Este projeto individualista proposto como meio de vida feliz é ilusório. São muitos os condicionamentos sociais e mecanismos que regem de forma invisível a sociedade, de tal modo imperceptíveis, que criam a ilusão de que é possível uma vida independente de tudo e de todos. Basta pensar no “sorria você está sendo filmado”, cada vez mais presente em tantos lugares.

 

Tal individualismo é ilusório. A realidade não está constituída de indivíduos auto-suficientes, que estabelecem relações sociais somente de acordo com sua vontade, determinando sozinhos, e por própria conta, com plena autonomia, todos os aspectos da vida. Percebemos que deve haver contrato em qualquer sociedade, neles os relacionamentos têm prazo para terminar. E os vínculos contratuais são funcionais.

 

A família, no entanto, não é uma mera sociedade, é uma “comunidade”. A família é comunidade porque não se baseia na ficção de uma auto-suficiência ilusória, mas se funda na busca conjunta da auto-realização, no amor.

 

Nenhum ser humano é uma ilha. Por mais que as novelas na TV mostrem às vezes a família de forma depreciativa, quase todas terminam em um belo casamento. Casamento no qual se retoma a utopia verdadeira que é a união das pessoas, para juntas buscarem a auto-realização, a qual não está no individualismo, no sujeito egoísta fechado sobre si mesmo, mas no amor que se comunica e gera vida. No amor que realmente liberta. Na prática, a verdadeira liberdade não está separada do amor.

 

A família é invenção de Deus, como relata a Bíblia, é o “santuário da vida”. Mais do que nunca devemos admitir, por muitos motivos, que o futuro da humanidade passa pela família.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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NOSSA PADROEIRA

Artigo publicado em 24/07/2007.

           

No mês de julho, dia 16 comemora-se Nossa Senhora do Monte Carmelo ou do Carmo. Esta devoção apareceu nos primeiros séculos do cristianismo. Terminadas as perseguições aos cristãos em 313, surgiram grupos de monges e eremitas que iam para o deserto, a fim de “derramar o sangue da alma”, ou seja, ter uma vida de oração e penitência.

 

Um destes grupos estabeleceu-se no Monte Carmelo, na Palestina. No séc. XI construíram uma capelinha dedicada à Virgem Maria. O bispo de Jerusalém Santo Alberto deu a eles uma regra de vida. Assim formou-se a ordem dos carmelitas. Em 1251, durante graves dificuldades, o superior da Ordem, S. Simão Stock, intercedendo em suas orações, recebe de Nossa Senhora o Escapulário como sinal de proteção à Ordem e a quem o usasse. Esta devoção espalhou-se pelo mundo todo e, segundo o papa Paulo VI, pode ser incluída entre as devoções verdadeiramente marianas.

 

Carmelo significa jardim ou pomar. O Monte Carmelo está presente em inúmeras passagens da Bíblia, em especial ao mencionar o profeta Elias, que ali morou com seus discípulos (1Rs 18,20-40). Por isso os monges que ali se estabeleceram se entenderam como herdeiros do profeta Elias. Assim, a devoção carmelita tem como patronos Nossa Senhora, a profetiza do Magnificat e o profeta Elias. Há nela um cunho profético: anúncio de Jesus Cristo como concretização do Reino de Deus, Reino de justiça e paz, e denúncia de tudo aquilo que atenta contra os “direitos” do Deus da vida.

 

Nossa igreja matriz, hoje Basílica, situa-se na praça Bento Quirino e, juntamente com esta praça, é tombada como patrimônio histórico da cidade. Campinas surgiu ali. A Basílica está no local da primeira igreja da cidade, a qual era sede da paróquia Imaculada Conceição. Após a transferência da mesma para a catedral, em 1870, continuou a ser paróquia, com o nome de Santa Cruz, tendo como padroeira Nossa Senhora do Carmo. Nela está enterrado o fundador de Campinas, Francisco Barreto Leme. Em 1909, por iniciativa do pároco, foi fundada a Ordem Terceira do Carmo, que reúne leigos desejosos de viver a espiritualidade carmelita.

 

Assim como Jesus foi transfigurado no Monte Tabor, podemos dizer que Maria também foi transfigurada no Monte Carmelo. Monte que é figura de Jesus Cristo. Nele se deve subir com o auxílio de Maria. Milhões de pessoas usam o escapulário, são todos carmelitas, consagrados a imitar Maria que soube ouvir e praticar a Palavra de Deus.

 

Neste último dia 16, milhares de pessoas passaram pela Basílica para rezar e receber o escapulário, que não é superstição, mas devoção. Símbolo do compromisso do cristão em seguir Jesus imitando sua fiel discípula, sua mãe Maria. Consultando nosso site: <www.basilicadocarmocampinas.org.br>, saiba mais sobre Nossa Senhora do Carmo, o Escapulário e a Basílica do Carmo.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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COMO SOFRER?

Artigo publicado em 29/05/2007.

 

No meu ministério devo encontrar quase todos os dias pessoas que são atingidas pelo sofrimento. É doloroso ouvir o relato de situações, as mais atrozes, situações de angústia e sofrimento, quer físicos ou morais! Isto me faz refletir e a reflexão busca luzes na razão, e também na fé.

 

O sofrimento é experiência básica da vida humana, nascemos em meio à dor e morremos quase sempre com ela. Entre o nascimento e a morte, ela vem nos visitar muitas vezes. O coração humano aspira por um mundo sem sofrimento, mas ele é nosso companheiro de viagem na existência.

 

Na civilização atual, há um estímulo grande ao conforto, bem-estar. A busca por comodidade sempre maior se espanta diante do sofrimento. Em nossos dias, diminui a resistência à dor, ao sofrimento; isto aumenta duplamente seu efeito quando nos acomete. No entanto, o sofrimento está presente como nunca, basta olhar à nossa volta, nem precisamos falar em guerras.

 

Há uma grande luta para reduzir o sofrimento no mundo. A dor é um alerta da natureza, anuncia que fomos atingidos por um mal que precisamos enfrentar. Provavelmente no futuro se poderá eliminar toda dor, o que vai acabar privando-nos deste sinal de alerta. Mas a luta maior é para descobrir um sentido para o sofrimento.

 

A presença do sofrimento em nossa vida é tão dura que não se é capaz de resistir a ele sem recorrer a um estímulo maior, à religião que pode aproximar do mistério. Existem áreas do sofrimento humano que faz a vida parecer absurda, principalmente quando se trata do sofrimento do inocente. Aqui, o sofrimento se torna mais incompreensível para quem crê, do que para quem se diz ateu. Para este, o mal é normal, o bem é que surpreende. Aquele que crê num Deus providente e bom não pode deixar de se escandalizar diante do sofrimento. Pois para o que crê em Deus, o mal e o sofrimento são sempre uma anomalia.

 

Na Bíblia, tão repleta de relatos de sofrimentos e alegrias, como a própria existência, destaca-se o relato do livro de Jó, o homem sofredor. Mais que as teorias para explicar seu sofrimento, o que conforta Jó no seu sofrimento é a presença silenciosa e paciente de seu amigo. A solidariedade é a chave para vencer o sofrimento humano. Quantas vezes em meio ao sofrimento mais amargo, a presença amiga de alguém dá conforto e alívio!

 

Desta maneira, Deus responde às indagações nossas sobre o sentido do sofrimento. Não com teorias, mas com a solidariedade de quem veio até nós e mergulhou na nossa dor. Jesus na cruz mergulha no sofrimento. Embora isto não explique o sofrimento de forma teórica e racional, dá-lhe um sentido. Em Jesus Cristo, Deus está presente no sofrimento humano, fazendo companhia e espreitando o que faremos com nosso sofrimento. Porque o problema maior do sofrimento é o que fazer com ele.

 

É no Calvário que podemos nos basear para escolher como sofrer. Temos três opções. Ou sofrer como o bandido revoltado, que blasfema e nada aproveita de seu sofrimento: o mau ladrão. Ou sofrer como penitente que, do fundo de sua dor, aprende a humildade e se liberta para ser acolhido no paraíso: o bom ladrão. Ou sofrer como o inocente Jesus, o qual sofrendo com amor e confiança no Pai, redime o mundo com sua solidariedade. Escolhamos.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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PÁSCOA

 

É tempo de páscoa novamente e sentimos o apelo para a renovação de nossa esperança.  A esperança é a última que morre, diz o ditado que a páscoa cristã corrige para: a esperança não decepciona e, portanto, não morre.

 

A festa da páscoa é festa da renovação da vida vegetal e animal. As primícias do rebanho e da colheita, o cordeiro e os pães são oferecidos a Deus que passa à frente de seu povo para guiá-lo rumo à liberdade. Uma festa ecológica que há centenas de anos era celebrada pelo povo de Deus libertado da escravidão do Egito, conforme narra a Bíblia: “Que ninguém se apresente de mãos vazias diante do Senhor, cada um traga seu dom, conforme a benção que Deus lhe tiver proporcionado” (Dt 16,16).

 

Apesar de toda tristeza e de todo drama que devasta o mundo, é páscoa novamente! É festa da gratidão e da partilha, festa da vida que teima em renascer dos escombros da morte, porque é mais forte que a morte. Terrorismo, poluição, escravidão e exclusão social, nada disso impede o renascer da vida.

 

A morte pode até ir ganhando no varejo, mas a vida é que vai ganhar no atacado. Esta é a garantia que temos ao celebrar na fé a vitória de Jesus Cristo morto e ressuscitado. É esta a sabedoria da páscoa, sabedoria que não possuem os eruditos, mas os sábios que buscam a verdade capaz de tornar a humanidade mais feliz.

 

A páscoa é celebração da alegria: festa do otimismo. Ela nos faz pensar que são os otimistas que tocam o mundo pra frente, os pessimistas são espectadores. Os pessimistas quebram o entusiasmo vital com a desculpa de serem realistas. Mas os otimistas são mais realistas. Não olham só o túmulo, olham para o mistério de luz que vai além. O otimista sabe que até mesmo as coisas mais dolorosas devem ser envoltas pela luz da alegria, as luzes da vida. O otimista reconhece o direito de se buscar sempre a alegria que é persistir na busca de ser.

 

A alegria da páscoa é saber que o grão de trigo, ao morrer, gera uma vida nova e poderosa, capaz de produzir muitos frutos. Aproveitemos a lição da páscoa, lição de alegria verdadeira. Lição de sabedoria capaz de perceber além do tempo, perceber que a vida teima sempre e acabará por vencer, pois a última palavra não é da morte, mas da vida.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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PECADO  SOCIAL?

 

 “Não existe pecado do lado de lá do Equador...”, cantavam na década de sessenta, expressando o sentimento geral de depreciação do pecado. Principalmente com o avanço da psicologia e psiquiatria, estudadas nas faculdades e aplicadas nos consultórios, o pecado caiu de moda. Deus morreu, sentenciou Nietsche, o filósofo ou teólogo-ateu, como o chamam alguns. Com seu desaparecimento, já que o pecado é desobediência a Deus, o pecado acabou.

 

Esta é a reação a um moralismo excessivo, anti-evangélico de tempos passados, no qual a idéia de pecado era usada, não raro, para que através do medo a obediência fosse célere. Isto, sim, é hoje superado no ensinamento e pastoral da Igreja. Necessitamos cautela ao falar da culpabilidade da pessoa, levando-se em conta condicionamentos psicológicos e sociais. A liberdade do indivíduo é um mistério e, por isso, Cristo nos proíbe de condenar as ações dos outros: “não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7, 1).

 

Porém, o pecado existe, e a Bíblia, do começo ao fim, seria incompreensível, se não existisse o pecado como recusa do homem ao amor de Deus. Jesus é apresentado como aquele que tira o pecado do mundo (Jo l,29), ele diz que não veio chamar justos mas pecadores (Mc 2,17). Mais que teorizar sobre o pecado, Jesus o enfrenta. Ele mostra que o pecado é mal por excelência, corrompe a humanidade, fazendo as pessoas se enfrentarem em lutas mortais, no esquecimento de Deus.

 

Podemos caracterizar o pecado como “aversão a Deus e conversão às criaturas”, as quais acabam tomando o lugar de Deus no coração do homem, degradando sua vida. Com esta troca, instala-se uma frustração fundamental que arruína a pessoa no seu ser moral, impossibilitando a convivência feliz da pessoa consigo mesma, com os outros, com a natureza e com Deus. Negando-se ao amor para o qual foi criada, a pessoa fica desequilibrada em todo o seu ser.

 

Fomos surpreendidos pela lista dos “novos” pecados divulgada pela Santa Sé: “fazer modificação genética, poluir o meio ambiente, causar injustiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico, usar drogas (cf. Correio Popular, 11/03/08). Na grande Tradição da Igreja, os pecados são resumidos na sua visibilidade e conseqüências como capitais, ou seja, são sete cabeças: soberba, vaidade, luxúria, ira, gula, preguiça, avareza. Haveria uma “nova” lista? Na verdade, o que há é uma tradução para hoje destes pecados, um redimencionamento com enfoque social.

 

Numa época de incrível inter-relacionamento e interação em rede por todo o Planeta na globalização, “é preciso ressaltar que se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista, hoje possui uma ressonância sobretudo social”, reconhece a Santa Sé.

 

Assim, finalmente, o que a Teologia Latino-americana já ensinava há quarenta anos, ganha dimensão universal na Igreja. O documento de Medellin  denunciava as “estruturas de pecado” (2,1) e Puebla falava do “pecado social” (n. 28). Foram mal vistos pela Teologia européia desconfiada, acusados de se deixarem influenciar pelo marxismo. Nem mesmo o uso destes conceitos por João Paulo II amenizou a desconfiança: “Pecados sociais, são o fruto, a acumulação e concentração de muitos pecados pessoais” (cf. in AAS 77, 1985, p. 217). E ainda: “não será fora de propósito falar de estruturas de pecado” (cf. SRS n.36).

 

Enfim, começa-se a ver um pouco além do “salve sua alma”, da salvação do indivíduo, para pensar na salvação com dimensões sociais: uma salvação integral que envolve não só o indivíduo, mas a humanidade e toda a Criação.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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VIDA  ETERNA

 

No dia-a-dia, nossos afazeres e preocupações se multiplicam.  Preocupações com quê? Com a vida, basicamente.

 

A Campanha da Fraternidade, muito bem articulada no seu tema e proposta, nos quer fazer pensar sobre a vida. Escolhe, pois, a vida!  É o apelo que recebemos numa realidade de morte, onde a violência crescente é demonstração cabal de que o valor da vida está em baixa.

 

Refletindo sobre o material colocado à disposição para viver esta Campanha, percebi que se fala da vida de forma magistral. A vida é valor supremo que temos, dom maior que recebemos e devemos defender. Denuncia-se a cultura de morte que coloca a ganância de bens materiais, sucesso e individualismo, como valores absolutos. A defesa da vida é urgente!

 

No entanto, o que chamou-me a atenção foi o que se diz sobre a morte: “Não existe vida sem morte e a morte persiste sendo o grande desafio” (Texto-Base p.52). Diante do aumento de suicídios em todo o mundo, a questão da morte se coloca como contraponto para a questão da vida.

 

Para nossa cultura, a morte é assunto tabu, mas não deveria ser. Quem se esquivar da discussão sobre a morte, se esquivará da discussão sobre o que chamamos vida. O pensamento da morte está ligado à pergunta sobre o sentido da vida.

 

Nas primeiras décadas do século passado, a morte ainda era tratada com dignidade. O ato de morrer era um acontecimento vivenciado por pessoas da família e amigos: a morte e o morrer têm um sentido! Porém, nas últimas décadas, a morte é vista como absurdo, um fim detestável, do qual se tenta esquivar. É acontecimento privado: deve-se morrer escondido. O morto atrapalha a vida de todo mundo. Na maioria das vezes, morrer é interpretado como falência da arte da medicina. Com a morte sendo vista como absurdo, também a vida se torna absurda.

 

A vida humana é energia e nenhuma energia se acaba no universo: se transforma. Assim sendo, a ciência não pode negar o fato de a vida ter uma continuidade após a morte. Porém, nem mesmo aceitando uma vida após a morte, desaparece a indignação, o medo e a angústia diante da morte. E tudo isso se reflete na vida: “Que divindade é esta que, tendo criado o ser humano, deixa-o, depois, tornar-se comida para os vermes?”, indaga o filósofo cristão Kierkegaard.

 

Penso que junto com o empenho em favor da vida digna para todos, deva haver um esforço para recuperar o sentido da morte e do morrer para o ser humano. “A maneira pela qual nossa sociedade nega a morte não traz esperança, somente aumenta nosso medo e vontade de destruir”, afirma a Dra. Kubler-Ross, estudiosa de tanatologia.

 

Devemos redescobrir o Deus da vida, que se manifestou em Jesus Cristo morto e ressuscitado, para que, assim, a morte se transforme em vida, vida eterna e feliz.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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CENTENÁRIO DA ARQUIDIOCESE

 

A Arquidiocese de Campinas vive seu  “ano do centenário”. Há cem anos foi criada a Diocese de Campinas pelo papa São Pio X que, aos 07 de junho de 1908, assinou a Bula de criação intitulada “Dioecesium nimiam amplitudinem”, criando a província eclesiástica de S. Paulo e a sede episcopal de Campinas.

 

Até então, todo o Estado de S. Paulo era uma só diocese. A instalação da diocese deu-se a 18 de outubro de 1908. O primeiro bispo foi um campineiro que, por um bom tempo, tinha sido pároco de Campinas: D. João Batista Correa Nery. Ele tomou posse a 1º de novembro de 1908. Posteriormente, a 19 de abril de 1958, Campinas foi elevada a Arquidiocese.

 

A diocese é uma porção do Povo de Deus confiada a um Bispo, sucessor dos apóstolos, que a pastoreia em cooperação com o presbitério. Esta parcela eclesial, congregada na força do Espírito Santo, se une em torno do seu bispo,  mediante a Palavra de Deus e os Sacramentos, mormente a Eucaristia. Numa diocese, realmente reside e opera a uma, santa, católica e apostólica Igreja de Jesus Cristo.

 

O nome diocese é herdado dos primeiros séculos do Império Romano. Era denominação de um agrupamento de províncias, na época do imperador Dioclesiano. Governadas por um vigário sem funções militares, mas somente administrativas e judiciais. Quando após as perseguições a Igreja se estabelece de forma pública e legal, ela se organizou em  Igrejas Particulares que tomaram o nome de “diocese”. A designação correta, portanto, é Igreja Particular no sentido de Igreja que está em um lugar determinado.

 

Este centenário traz em si a evocação de muitíssimos fatos que, desde a criação da diocese de Campinas, influíram na vida da população como um todo. Sendo honesto, um historiador não poderá contar a história de Campinas, sem atentar para a importância da Igreja no desenvolvimento da cidade e região.

 

É conhecida a vocação de nossa cidade para a solidariedade e a promoção da educação. Nestas duas áreas, destacou-se a Diocese de Campinas pela ação de todos os seus membros, a partir da ação de seus bispos. Basta considerar aqui, pela exigüidade de espaço, os dois primeiros.

 

D. Nery que tinha saído de Campinas, fora nomeado bispo do Espírito Santo, como benfeitor da cidade quando da febre amarela, ao retornar como seu primeiro bispo, intensificou a ação evangelizadora, sempre acompanhada de obras. Em uma cidade de quarenta mil habitantes, devastada pela doença e com grande número de órfãos, D. Nery criou o Liceu de  Artes e Ofícios (Salesiano), a creche Bento Quirino, o Ginásio  Diocesano, a Escola Agrícola. Durante a epidemia de 1919, transformou o Ginásio Diocesano em hospital da Cruz Vermelha e o Seminário Episcopal em pronto socorro.

 

Dom Francisco de Campos Barreto, o segundo bispo, foi também um batalhador. Entre suas inúmeras iniciativas está a criação da Universidade Católica. Na época, a juventude campineira tinha que estudar fora. Foi a Diocese que se preocupou em dar oportunidade para os jovens ficarem aqui e estudar. A Unicamp viria algumas décadas depois, pela ação do Estado.

 

É uma efeméride que merece ser comemorada. O papel da Diocese na história de Campinas é significativo, a ponto de se poder dizer que, sem ela, a história seria muito diferente, para pior, com certeza.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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SETE PECADOS

 

Um sujeito trabalhando duro, vê outro deitado numa rede na maior folga, e diz: "Sabe que preguiça é um dos sete  pecado capitais?" E o outro responde: "Pois é, a inveja também!" Os pecados capitais são conhecidos, pois servem para fazer piada. O que não dá piada não é popular.

 

A atual novela da qual este artigo empresta o título, explicita os sete pecados capitais que se devem evitar, como aparecem nos ensinamentos éticos do cristianismo. Capitais, porque são cabeça, deles procedem os demais. Mais que pecados, são tendências  que podem levar a pecar. Brasileiro gosta de novelas. Através delas, muito se divulga de costumes e atitudes construtivas ou destrutivas muitas vezes.

 

Em nossa mentalidade onde tudo se explica pela ciência e em se tratando de comportamento, pela psicologia, a noção de pecado é rejeitada pelo mundo bem pensante. Porém, a maior parte da população tem boa intuição, não se engana. Sabe que pecado é como atirar e errar o alvo, é algo que dá satisfação, mas não alegria, dá prazer mas não felicidade. É algo incompleto, como um botão de rosa que, sempre fechado, guarda tudo para si, não se abre. Em seu egoísmo não serve para ninguém, nem mesmo para si, não se desenvolverá, não produzirá sementes. Consideremos sucintamente os sete pecados capitais.

 

Primeiro o orgulho que leva a pessoa a se colocar como princípio de tudo. Negando a existência de Deus, a pessoa se coloca no seu lugar. É como um motorista que, ao dirigir o carro, nega a existência das rodas por não vê-las.  Esqueceu que são elas que fazem o carro andar, e não ele. Elas sustentam o carro, assim como Deus sustenta o mundo.

 

A inveja é a tendência a entristecer-se com o bem dos outros. O invejoso só sofre, nunca está contente com o que tem e fica triste com o que os outros têm. Não tolera pessoas com dons diferentes, ou que fazem as coisas melhores que ele. O invejoso não é só um tormento para os outros mas, principalmente, para si mesmo.

 

A ira é o descontrole que ofende os outros com facilidade. Em geral o inseguro é iracundo, porque a ira é o exagero do sentimento instintivo que leva a pessoa a se defender dos perigos. É  reação violenta, exagerada e também desejo de castigar quem  ofende ou agride.  A ira desconhece que só se vence o mal pelo bem.

 

A gula é o abuso do prazer legítimo que acompanha o comer e beber. A malícia da gula é que ela escraviza a pessoa a seu corpo. Ela é fonte de doenças. Não só fome mata, mas a gula também!

 

A luxúria é a absolutização do sexo, redução do amor ao erótico, ou seja, desligar sexo do amor, o qual é compromisso de vida com outra pessoa.  A erotização da sociedade torna a pessoa objeto de cama e mesa. Daí pode vir muito prazer, mas será que vem satisfação e felicidade? Em geral se esquece que formas sublimes de amor não incluem sexo: amor aos pais, a Deus, amigos, filhos etc.

 

A preguiça é a tendência a evitar qualquer esforço, torna a pessoa um parasita que se irrita quando querem tirá-lo de sua inércia. A lei do menor esforço é a lei do preguiçoso, indolente.

 

A avareza. É o vício dominante no mundo de hoje regido pelo sistema neo-liberal centrado no econômico. As pessoas são levadas a pensar em ganhar dinheiro noite e dia, para poder gastar e consumir. O ter é que vale, e não o ser.

 

Enfim, para quem começou a escrever achando que o assunto era fraco, até que escrevi demais. Talvez seja um oitavo vício, o de quem escreve, quem sabe?

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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TEMPOS DE VIOLÊNCIA

 

Em tempos de violência, somos mais do que nunca convidados a falar de paz. Falar de paz para podermos compreender o valor de se criar uma cultura de paz. A violência presente na nossa sociedade, e de modo especial nas cidades, chegou a um ponto em que vai se tornando questão de segurança nacional. Muitos se perguntam: estamos em uma guerra civil? Vai se tornando patente às autoridades brasileiras e às pessoas que pensam, que a violência está comprometendo as conquistas e o progresso que conseguimos com grande esforço.

 

O que significa o progresso econômico e científico diante da perda inútil de tantas vidas, vítimas da violência na maior parte das vezes impune? Muitos até chegam à conclusão quase óbvia: ou acabamos com a violência ou a violência acabará conosco. O que é a guerra, a não ser a exacerbação e generalização da violência? Mais que nunca, hoje é necessário educar para a paz. Na realidade nós em geral somos educados para a desconfiança, a acusação e a suspeita. Não conseguimos entender o que o outro diz, porque não ouvimos. Não ouvindo, não há diálogo e, conseqüentemente, não há entendimento. Estoura, então, a guerra que, na realidade, coloca todos contra todos.

 

As Igrejas cristãs estão unidas este ano para trabalharem pela paz.  A Campanha da fraternidade deste ano, na sua 41ª edição, tem como tema “Solidariedade e paz” e como lema: “Felizes os que promovem a paz”. Este lema é um ensinamento de Jesus tirado do evangelho (Mt. 5, 9). O tema da paz tem preocupado as Igrejas cristãs e, assim, elas dão este belo exemplo de união para promover os valores evangélicos e solidários em favor da paz.

 

A  miséria, tanto material como moral, a insegurança, o desamor, a decepção com a vida e consigo mesmo estão na raiz da violência. A sociedade muitas vezes consegue propor somente o gozo e a posse de bens, como valores pelos quais vale a pena lutar. Assim, a competição pela posse de bens materiais torna a busca do dinheiro o valor supremo. Todos os meios são válidos, então, para se conseguir o fim. Por outro lado, a herança que a nossa história nos legou, com seus quatrocentos anos de escravidão, é uma herança de violências.

 

O mito de que nós, brasileiros, somos um povo pacífico, não se sustenta mais. Morrem mais pessoas, principalmente crianças, vítimas da violência no Brasil, do que no Iraque e no Oriente Médio, que são zonas declaradas de guerra. E não seria violento um país rico como o nosso, que precisa convencer seus cidadãos a fazerem uma campanha contra a fome? A fome é uma forma refinada de violência em um país exportador de comida como o nosso.

 

Os seres humanos desejam a paz. As pessoas têm um ideal de vida, mesmo que a nível inconsciente, de paz e harmonia, pois os seres humanos compartilham valores básicos, universais, entre eles a paz. Poderíamos até dizer que o instinto de sobrevivência, em seres inteligentes de forma privilegiada como os humanos, exige a paz em primeiro lugar. A estratégia da guerra preventiva é própria de animais predadores que vivem da caça. Todas as religiões e sábios de todos os tempos atestam que o ser humano foi feito para viver em paz e pode fazê-lo.

 

A Campanha da Fraternidade deste ano quer mobilizar todas as pessoas de boa vontade para divulgarem esta idéia de que a paz é necessária e é fruto da  solidariedade que constrói uma sociedade mais justa e fraterna. Se não por convicções religiosas e humanísticas, ao menos pela sobrevivência da humanidade. Assim, que sejamos pessoas de paz. Que possamos debelar a violência que se manifesta  às vezes em nosso gestos, em uma frase talvez, e até mesmo no tom da voz. O cristianismo propõe à sociedade este momento de reflexão sobre a paz, porque crê que a paz é possível; ela vencerá no final.  É muito maior o que nos une como cidadãos da humanidade do que o que nos desune. A paz é possível.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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