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Artigos

 

Artigos de autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

12/01/2010

 

Direitos e deveres

 

Em dezembro de 1948, a ONU proclamou a Declaração dos Direitos Humanos. Grande passo rumo à paz e harmonia entre os povos. Esta declaração nasceu como reação aos crimes cometidos na Segunda Guerra Mundial, mas também assinalou um ponto de chegada para a humanidade na longa busca de justiça para todos. É também um ponto de partida para novas questões surgidas pelo avanço técnico-científico, que amplia os confins entre a vida e a morte, além do que indica a natureza (direito do embrião, direito à morte com dignidade etc.).

No entanto, embora as violações dos direitos humanos ainda aconteçam, é necessário assinalar que melhoraram as condições de muitas categorias de pessoas contadas entre as mais fracas e humilhadas. Já não se podem negar os direitos das pessoas prescindindo de raça, religião, sexo, ou outra circunstância. Avançamos no incremento da igualdade, progresso ético. Existem leis que protegem os direitos.

No Brasil, que atravessou o período amargo da ditadura militar (1964-1985), durante a qual muitos direitos eram negados, avançamos nesta conquista. A constituição de 1988 é representativa dos avanços alcançados pela sociedade em termos de direitos humanos, embora ainda vigore em muitas partes do pais a “lei da selva”: tráfico de pessoas, exploração sexual de menores, trabalho escravo, impunidade e corrupção.

É preciso preservar sempre mais as conquistas, mas não podemos, hoje, deixar de resolver uma questão importante se quisermos ser um pais realmente desenvolvido. Refiro-me à questão dos deveres. Sim, onde tem direitos para todos, tem de haver deveres para todos. Para todos mesmo, os do “andar de baixo e os do andar de cima” como se diz. Sem levar a sério os deveres não teremos cidadania completa. Os direitos não podem ser interpretados de forma individualista, sem ligação com o outro, a comunidade e a sociedade.

É preciso continuar desenvolvendo uma cultura dos direitos, mas também dos deveres e da responsabilidade. Criar a convicção de que só onde cada um busca respeitar os direitos dos outros, é possível que se respeitem os seus também. Onde as pessoas exigem seus direitos e se dispensam dos deveres, há um mundo de crianças ou adolescentes, de imaturos, inaptos para a vida democrática.

Caso emblemático é a recente constatação que metade dos 5,4 mil servidores do Judiciário paulista, afastados por “razões médicas”, não tinham problemas de saúde e estavam aptos para trabalhar. Não queriam cumprir seus deveres. E, em meio a tantas mortes devido a enchentes, desmoronamentos, desastres nas estradas etc., é preciso perguntar: será que os engenheiros que fizeram as estradas e pontes, cumpriram seus deveres? Os fiscais cumpriram seus deveres? Os que deram autorização para construir em áreas de risco cumpriram seus deveres?

Enquanto formos o país do “jeitinho” seremos o país dos desastres que poderiam ser evitados, por todos que tinham deveres, mas só pensaram nos seus direitos, e ainda mais, procurando levar vantagem em tudo.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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09/02/2010

 

Fale com ele

 

Grande Sertão: Veredas, romance de Guimarães Rosa, é admirável por vários motivos. A mim chama atenção a questão teológica que perpassa a obra. Refiro-me ao constante questionamento sobre o mistério de Deus e a existência do mal.

Alguns trechos são memoráveis, como por exemplo: “Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma!... Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver — a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. (Ed. Nova Fronteira, 36ª Ed. P. 48)

E posto que em meio ao mistério da iniquidade, como chama São Paulo o problema do mal no mundo, existe um Deus que se revela como criador, fonte da vida e Pai de bondade, como o revelou seu filho Jesus Cristo, como viver sem falar com Ele, sem viver para Ele? Assim se perguntava o ateu visconde Charles de Foucauld, após seu “encontro” com Deus.

O reconhecimento da existência de Deus exige do que acredita entrar em contato com Ele e isto é o que se chama oração. Na definição de Teresa D’Ávila mística espanhola e padroeira dos professores, “orar é falar com alguém que sabemos nos amar”. A oração é preceito essencial de todas as religiões e existe até mesmo em meio aos que dizem não terem religião. Há uma percepção difusa e universal de que a fé e a oração fazem bem para a saúde. Neste sentido, é interessante o livro do Dr. Kenneth H. Cooper, É Melhor Acreditar. Esta obra versa sobre a importância da fé para a saúde e a boa forma.

E, aqui também, não posso deixar de lembrar o que escreve Guimarães Rosa no mesmo romance que citei acima: “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico; todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião; para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...”. (op. Cit.p.8).

Lembro-me do noticiários dos jornais, quando o Dalai Lama ganhou o prêmio Nobel. Foram avisá-lo, ele estava em oração. Não queria ser interrompido quando rezava. Assim, foi um dos últimos a saber que tinha ganho o prêmio. Eis um homem que valoriza a oração.

No cristianismo, a oração é essencial, é o respiro da alma. O grande orante da Bíblia, que nos ensina a orar é Jesus. Passava noites em oração, rezava e saía tão transfigurado da oração que um dia seus discípulos pediram que lhes ensinasse a rezar. Jesus ensinou o Pai Nosso. Sem a oração, a pessoa está paralítica para a corrida do Amor, permanece presa ao chão de tudo aquilo que não é Deus, não pode se realizar.

Portanto, reze, fale com Ele, fale com Deus, Ele está interessado em te escutar.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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09/03/2010

 

Se não vos converterdes...

 

Nossa sociedade tem muitas religiões e religiosidade, mas a fé escasseia. O individualismo dominante rejeita a fé comunitária e cada vez mais as pessoas vivem a religião da maneira que lhes convém. A fé se tornou assunto privado. Na maioria dos casos não se nega a existência de Deus, vive-se como se Ele não existisse: “sicut Deus non daretur”. Lembro-me de Millôr Fernandes que traduz de maneira irônica esta situação: “O ateu tem um deus no qual nem ele mesmo acredita”.

A Bíblia contém a Palavra de Deus a nós revelada, ela alerta para a necessidade de conversão: “Se não vos converterdes perecereis” (Lc 13,1-9). Jesus narra a parábola da figueira estéril que não dava frutos. O dono do pomar vai buscar frutos todo ano e não encontra. Então diz ao empregado para cortar o pé de figo. O empregado pede uma chance, cuidaria melhor, iria colocar adubo e quem sabe no próximo ano os frutos apareceriam. O senhor concordou: mais um ano, depois será cortada.

A quaresma, com seu chamado à conversão e penitência, não teria sentido se não tivéssemos consciência de que somos pecadores: não damos frutos para Deus! O pecado, esta esterilidade, não fica sem consequências. Ou nos convertemos de nossos pecados e damos frutos de justiça e caridade, ou sofreremos a justiça de Deus. Por mais misericordioso e paciente que Deus seja, a justiça também faz parte de sua bondade. Não seria bom se não fosse justo.

Esta parábola da figueira revela um Deus paciente, mas que espera que nossa fé se traduza em atos concretos: fraternidade, partilha, luta contra as injustiças, desprendimento das riquezas, partilha, superação dos nossos vícios, serviço aos pobres. Se assim não for, seremos cortados, ou seja, não nos realizaremos como pessoas, desligados de Deus nossa vida não tem futuro nem aqui nem na eternidade, estaremos condenados à autodestruição.

A conversão, mudança de atitude e de rumo, é mensagem central do Evangelho. Jesus ensina que as catástrofes, desastres e violências existentes ao nosso redor, não são castigos de Deus. Muitas vezes são provocadas pelo homem, além de serem em outros casos reações da própria matéria que não compreendemos bem. No entanto são, do ponto de vista da fé, advertências, avisos de Deus para que nos convertamos. Se não tomarmos a iniciativa de purificar-nos de nossos pecados Deus tomará a iniciativa de oferecer-nos mais concretamente estas oportunidades de nos purificar.

Tanto a nível pessoal como social, precisa-se de conversão. “Se não vos converterdes perecereis”, alerta Jesus. Sem andar pelos caminhos de Deus o homem se destrói. A conversão é purificação dos pecados ou penitência (aspecto negativo), é também dar bons frutos de compromisso cristão, boas obras, ética e altruísmo (aspecto positivo). A penitência faz parte da vida: se queres alcançar um objetivo tens que lutar. Veja o caso de quem quer ter um corpo “sarado”, vai à Academia e faz a maior penitência, digo malhação. A nível espiritual pode se fazer a mesma coisa.

O Correio Popular de domingo passado noticiou o confronto entre gangues de pichadores, 40 adolescentes em pé de guerra. No tiroteio, morre um garoto de 14 anos. É o desespero, a dor e a morte. Será que isso comove a cidade? As pessoas vão se acostumando. Casos como estes se repetem, vai aumentando o espaço da morte em detrimento da vida. Está aí um sinal da autodestruição de uma sociedade que não se converte. Sociedade atingida na parte da população que representa o futuro: jovens e adolescentes.

A idolatria do dinheiro e a corrupção geram injustiça e opressão com seus frutos de desemprego, falta de escolas, moradia e o pior falta de perspectiva de vida. Conversão para Deus é conversão para o Amor e a caridade, sem isto é a autodestruição a nível pessoal e social.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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06/04/2010

 

Padres santos e pecadores

 

Acabo de ler as 400 páginas da biografia do Padre Donizetti Tavares de Lima. Autoria do engenheiro José Wagner Cabral de Azevedo, entusiasta da causa de beatificação do Pe. Donizetti ora em curso. Vida admirável! Ordenado em Campinas por D. Nery, desejou trabalhar em lugares mais pobres, por isso, foi mais para o interior. Pároco de Vargem Grande e posteriormente Tambaú.

 

Um apóstolo do Evangelho. Trabalhou sem descanso tendo como horizonte o Reino de Deus: justiça e paz. Fiel à Igreja que amava, nunca arrefeceu sua fidelidade também ao ser humano que desejava ser tratado com dignidade. Empreendeu luta serena, impertérrita, em favor dos direitos humanos, numa época na qual era estranho falar neles. Quando morreu, com 79 anos, era 16 de junho de 1961, estava rodeado do povo para o qual viveu: trabalhadores, gente humilde que tanto ele amava e que retribuía com respeito venerado. Foi um taumaturgo. Na Basílica ouvimos relatos de milagres como os presenciados pelo advogado  Antenor Zampieri que, jovem ainda, desenganado, foi curado pelo padre, vindo a falecer com 89 anos.

 

Quando eu era menino, ouvia falar do Pe. Donizetti. À simples menção de seu nome, criava-se um clima de respeito. Todos o buscavam. Sua humildade era grande como sua sabedoria. Glória e vaidade do mundo não o perturbaram. As perseguições, calúnias, não o desanimaram. Generoso e magnânimo perdoou os inimigos. Aos fazendeiros que o expulsaram de Vargem Grande por defender trabalhadores, conforme pedia o papa Leão XIII na Rerum Novarum, e que arrependidos lhe escreveram pedindo perdão, ele respondeu com delicadeza: envia uma benção e uma imagem de Nossa Senhora  Aparecida,  sinal de paz e fraternidade. Quem parece não perdoou estes fazendeiros foi o destino, morreram depauperados.

 

Diante deste gigante de fé e caridade, o que pensar das acusações que persistem e que infelizmente são reconhecidas verídicas, referentes a padres pedófilos? Em uma sociedade hedonista, onde sexo, dinheiro e poder gozam do status de divindade, a fraqueza humana se mostra na sua fragilidade mais dolorosa: o fascínio pelo abismo, pela amartia, ou seja, o equívoco na busca de felicidade. Os desvios de conduta em relação ao sexo estão presentes em todos os segmentos da sociedade. Até nos locais mais sagrados, quais sejam o recôndito dos lares e onde jamais poderiam existir: igrejas de denominações variadas.

 

Em uma floresta imensa, onde muitas árvores trabalham silenciosas, quando cai alguma, o estrépito é grande. São alguns os padres escandalosos, mas nem se compara à quantidade daqueles que se dedicam dia a dia, no seu ministério, com fidelidade, honestidade e sacrifício. É natural que esses erros nos padres, causem tanta indignação dado a posição que ocupam, de confiança e respeito na sociedade. Aqui se exige dos anticlericais, dos laicistas e inimigos jurados da Igreja, que ao reconhecer o erro presente na instituição, não culpem toda a instituição, desejando sua ruína. É sabido de todos, a sanha e o ódio de muitos lobbies que não toleram o trabalho da Igreja em defesa da vida e da família e por isso, nesta ocasião difícil procuram esparramar o “pânico moral” contra ela.

 

A atual conjuntura vivida pela Igreja vai ajudar a esclarecer e atualizar comportamentos inadequados copiados da sociedade civil. Um deles é a existência de tribunal particular, privilégios para julgamento, ao molde do que existe para militares e políticos. A Igreja tem no seu interior o Tribunal Eclesiástico que julga casos e denúncias deste tipo que comentamos. Porém, o tribunal interno da Igreja leva em conta o delito não só como tal, mas como pecado, cuja misericórdia divina deve ajudar a sanar com o arrependimento e a promessa de correção do infrator. Assim a tolerância é maior, como o é em todo tribunal corporativo ao molde dos que citei acima.

 

Porém, para a sociedade civil estes delitos são crimes e nem se cogita de falar em pecado. Acabou-se o regime de cristandade. As leis são feitas para todos. Por todos devem ser respeitadas. Tanto pelos que têm a noção de pecado, como por aqueles que não tendo fé, a desconhecem. Ademais, a sociedade precisa punir para corrigir os que cometem delitos. E é aqui que penso vai mudar a maneira de tratar os pedófilos na Igreja. Não negando o perdão aos arrependidos e a devida assistência jurídica; mas nem por isso, eximindo-os de darem satisfações à sociedade. A sociedade necessita  ver punidos e corrigidos os criminosos, não só pela lei da misericórdia evangélica, mas igualmente pela lei da sociedade civil que visa defender os  direitos humanos. Também eles, uma bandeira da Igreja quando atua em nome de Jesus.

 

Alguns acham que é o celibato que favorece tais desvios. Não é bem assim – a rede de pedofilia na internet conta com milhares de casados. É a falta de amor e fidelidade na missão sacerdotal, falta de entusiasmo pela causa. O “amor tudo crê, tudo espera e suporta” (1Cor. 13,7). O papa Bento XVI diz “O caminhar com Cristo e o ser fiel a Ele, supera nossas forças, este caminhar com Cristo é sempre um ser carregado por Ele” (sermão de Ramos). Ser carregado por Cristo é não descuidar da espiritualidade e oração. Penso que esta é a grande lição, que nós sacerdotes, podemos tirar destes acontecimentos dramáticos para a Igreja e muito mais dramáticos ainda para as vítimas, às quais se deve pedir perdão, fazer justiça e muito mais: mostrar a alegria de perdoar como Cristo perdoou a todos que o crucificaram.

 

Nenhum criminoso se perdoa se não responder à sociedade pelos crimes cometidos. Também, nenhuma vítima se perdoa se não se abre para perdoar. A justiça a ser feita e até a vingança são humanas. O perdão  consciente é divino e faz avançar a humanidade no caminho da cura, reconciliação e paz.


 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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04/05/2010

 

Ficha limpa pela ética na política

 

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor a Deus e ao próximo, colocado no centro do Evangelho, é síntese do ensinamento de Jesus Cristo. Exige de quem o segue, atenção não somente à sua salvação pessoal, mas também à salvação de todos, no sentido de que todos tenham vida e a tenham em abundância.

Por isso, o cristianismo não se exime de atuar para que a sociedade seja justa e fraterna, abatendo barreiras que impedem a vida no amor fraterno. Os imperativos éticos de justiça e paz são normativos para o cristão, que deve se empenhar para que o Reino de Deus aconteça, ou seja, para que a humanidade se realize na concórdia. Assim, a Igreja se posiciona na luta para que haja ética na política, a qual deve gerar melhoria para toda a população e não só para grupos com interesses particulares.

A partir dessas premissas, a Igreja Católica, pela CNBB, aderiu à proposta de iniciativa popular articulada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que reúne 43 entidades. Foram coletadas 1,3 milhões de assinaturas. É o projeto chamado Ficha Limpa, que traz avanços significativos no processo eleitoral brasileiro ao impedir a candidatura de cidadãos que estejam condenados, mesmo em primeira instância. Alguns acham demais proibir a candidatura de quem está condenado em primeira instância. Porém, basta pensar que, quem tem processos pendentes, nem sequer pode fazer parte de um grupo de jurados nos tribunais, e por que poderia representar a nação no Congresso quem é condenado pela Justiça?

O projeto teve sua votação adiada de abril para maio. Os parlamentares não estão com entusiasmo para satisfazer essa petição popular. No site Congresso em Foco, pode-se constatar que existem 152 políticos sendo investigados ou processados; ¼ dos deputados e senadores tem pendências na Justiça. É uma oportunidade de iniciar um esforço sério de moralização do Congresso, evitando-se a candidatura de políticos condenados por crimes em qualquer instância.

A base aliada do atual governo, principalmente o PT e o PMDB, fazem manobras para minar a aprovação desse projeto. Não aceitam que a ética na política começa com candidatos éticos. Podem até barrar sua aprovação, mas não poderão barrar o crescimento da consciência do povo, que, num gesto bonito de cidadania, conseguiu articular e mobilizar a população na coleta destas assinaturas.

O projeto Ficha Limpa é considerado um marco na luta contra a corrupção e pela transparência na política. Na época do Brasil Império, a lei para libertar escravos também sofreu adiamentos e atrasos, por fim a liberdade veio, apesar dos escravistas, que hoje têm seus nomes desmerecidos. Os que são a favor da “ficha suja” não conseguirão barrar a marcha da cidadania. Há um dinamismo positivo no subsolo da História, que impulsiona e faz avançar a consciência; é preciso aderir a ele para não perder o bonde da história.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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01/06/2010

 

Capela da Santa Casa

 

No Centro de Campinas, logo atrás da Prefeitura, está a Santa Casa de Misericórdia, com sua belíssima capela, tombada pelo Estado (Condephaac) e pelo Município (Condepacc). Teve início o mês passado o restauro dessa capela, graças às doações feitas pelos fieis que ali participam, e que arrecadaram os R$ 54,9 mil para pagamento da primeira etapa deste serviço.

Como é sabido, a Santa Casa de Misericórdia é o primeiro Hospital de Campinas, construído pela iniciativa do padre Joaquim José Vieira. Ele angariou junto à população as doações necessárias para a obra, iniciada em 1871 e inaugurada em 1876. Não é a primeira instituição de assistência pública da cidade, mas é a mais significativa, que mais serviços prestou à população em tempos difíceis.

Padre Vieira fundou também a Irmandade de Misericórdia de Campinas, que passou a ser detentora da posse dessa instituição e cuja mesa diretora tem a incumbência de geri-la, preservando sua natureza e objetivo: “dispensar assistência hospitalar e conforto moral aos pobres enfermos”. A direção interna foi confiada às irmãs de S. José, ótimas enfermeiras, destacando-se Irmã Serafina e a presença de capelães como Pe. João Batista Correa Nery.

A primeira mesa diretora teve como provedor o próprio Pe. Vieira (1876-1883), substituído pelo Pe. Francisco de Abreu Sampaio (1883-1887) e contou com uma plêiade de cidadãos beneméritos, de envergadura moral admirável, como Bento Quirino dos Santos, Luiz Silvério Alves Cruz, Francisco Alves de Almeida Sales e outros. Atualmente, a mesa diretora da Irmandade é presidida pelo Dr. Murillo Antonio M. de Almeida, tendo como vice o Dr. Cirilo Pardo M. Muraro, e se dedica à recuperação e manutenção da entidade na continuidade do trabalho desses antepassados ilustres.

A capela ora em restauro, ou melhor, revitalização, foi uma doação do cidadão José Bonifácio de Campos Ferraz, Barão de Monte Mor, que doou o edifício todo construído e pronto. Juntou-se ele, assim, a Maria Felicíssima de Abreu Soares, doadora da quadra de terreno no qual se construiu a Santa Casa. São gestos de generosidade admiráveis. Supõem não só grandeza de espírito, mas o realismo de quem sabe que será julgado um dia por Aquele que tudo nos deu, e pedirá conta do que fizemos com suas dádivas. Se usadas para satisfazer o mesquinho egoísmo, autopromoção e vanglória ou para amontoar um tesouro nos céus.

Infelizmente, carregamos de nosso passado colonial arcaico, o ranço de aproveitar e levar vantagem pessoal em tudo, esquecendo-se de trabalhar para que todos possam participar de uma sociedade justa e fraterna. Seria bom que aparecessem pessoas altruístas, mecenas, que ajudassem a levar avante esse trabalho de restauro da Capela de Nossa Senhora da Boa Morte. Que se juntassem nessa empreitada à Irmandade de Misericórdia, ao ISI (Instituto de Saúde integrada), à comunidade católica que frequenta a capela e demais pessoas interessadas na preservação deste patrimônio da cidade.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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29/06/2010

 

Igreja e dinamismo pastoral


A Igreja Católica em Campinas acaba de entregar a seus fieis o seu 7 Plano de Pastoral Orgânico (PPO). Instrumento para orientar a vida e missão dos cristãos católicos, elaborado com a metodologia participativa, que contou com momentos riquíssimos de encontros e assembleias, nos quais se fez sentir a participação da Igreja sob a direção de seu pastor, nosso arcebispo d. Bruno Gamberini.

A novidade e atualização quanto à metodologia é que a participação dos fieis foi ampla e mais efetiva, na elaboração deste plano. Se, antes, a elaboração era produto de reflexões teológico-pastorais de intelectuais orgânicos, sente-se neste 7 PPO, o vigor e a simplicidade que brotam dos anseios dos muitos fiéis leigos, agentes de pastoral que no dia a dia se defrontam com a tarefa de evangelizar uma realidade urbana desafiadora.

Os eixos deste 7 PPO desenham proposta de ação em sintonia com o objetivo da Igreja do Brasil na sua dimensão abrangente que é a evangelização e aqui fica delineado o perfil da Igreja como missionária: levar o Evangelho, proclamar a boa nova do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Como coordenadas de ação evangelizadora se vislumbra uma Igreja que Acolhe, se Renova e Serve. São três eixos de ação pastoral, profundamente enraizados na pregação e ação de Jesus Cristo.

A acolhida se faz urgente hoje na realidade urbana, onde não raro a solidão entristece as pessoas. A vida na cidade dá a tão almejada liberdade, mas não raro lança a pessoa em uma realidade de desamparo, falta de relacionamentos estáveis e fraternos. E então a tentação de partir para o desânimo, desespero e dependência química se tornam fortes. Uma comunidade que acolhe, escuta e mostra novos horizontes, é como um oásis num deserto. Como a fonte da aldeia no dizer de João XXIII, referindo-se à paróquia, onde se vai matar a sede.

A renovação também tem seu eco na pregação do Reino de Deus. Converter-se é a urgente necessidade de renovação pessoal e estrutural. E aqui é necessário humildade e paciência. Na renovação pessoal se exige às vezes rupturas, mas, na renovação estrutural, as coisas são mais lentas. Por exemplo, na questão das paróquias. Não vamos acabar com as paróquias onde nossos queridos párocos desejam ficar “até quando Deus permitir”.

O Concílio Vaticano II fala que a paróquia é uma riqueza de unidade e diversidade (AA 10), diz ainda que se denomina Igreja de Deus (LG 28). É na paróquia que a Comunhão universal da Igreja encontra sua localização última entre as casas dos fiéis, afirmava João Paulo II (CL 26-27). Ali encontramos o exercício das tarefas pastorais, os agentes pastorais responsáveis, a sensibilidade social e as comunidades de vida.

Os bispos em Aparecida alertaram sobre a necessidade de renovação, para que a paróquia seja uma rede de comunidades. E essa renovação, para ser verdadeira, se faz pelo consenso, não pela ruptura. Nosso arcebispo, nessa linha de compreensão, criou várias paróquias, pensando no benefício para o povo. Tirar do tesouro da Igreja coisas novas e antigas, renovar, mas nada desperdiçar.

O serviço é outra coordenada que exige da Igreja a prática da solidariedade a nível interno e externo. Hoje, se a Igreja é chamada a pregar o Evangelho, mais do que com palavras e sermões, na prática da caridade. E aqui a defesa da vida é uma bandeira do Evangelho que a Igreja assumiu. Que nossa Igreja possa realizar aquilo que planejou e que Deus que inspirou esses bons propósitos possa ajudar a colocá-los em prática.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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19/10/2010

 

Nova missão


Quero iniciar agradecendo o Pe. Paulo Emiliano por permitir-me despedir de todos os leitores desta coluna, algo que até agora não tive como fazer. Despedir-me desta coluna não do Correio Popular, com o qual pretendo continuar colaborando, agora como bispo residente em Amparo.

Nossa vida é repleta de surpresas. Muitas vezes quando não esperamos vem bater à nossa porta algo inesperado. Penso que todos já passaram por esta experiência que pode ser agradável ou desagradável.

Falo a respeito do que me sucedeu e que já de todos é sabido, ou seja, minha nomeação para bispo da Diocese de Amparo. Agradável surpresa, acontecida em 14 de julho, data do aniversário da Cidade de Campinas, ocasião em que celebrávamos na Basílica a novena de Nossa Senhora do Carmo.

Um novo horizonte se descortina, uma nova missão está diante de quem é chamado por Deus na Igreja de Jesus Cristo, a suceder os apóstolos. Pois o bispo é sucessor dos apóstolos, segundo a mais antiga e verdadeira tradição da Igreja Católica Apostólica Romana.

Jesus reuniu os doze, convidou-os para estar com ele, serem seus companheiros e os enviou em missão. Apóstolo é aquele que é mandado por alguém, enviado para desempenhar uma tarefa. “Quem vos recebe a mim recebe, quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita e quem me rejeita, rejeita o Pai que me enviou” (Mt 10,40;Jo 13,20). Estas palavras de Jesus que dá autoridade aos apóstolos revela a grandeza da missão de quem é chamado a exercer na Igreja, como bispo, a tarefa de suceder aos apóstolos.

A Igreja Católica tem a sucessão apostólica, transmitida pelo rito da imposição das mãos que remonta os apóstolos. Esta corrente nunca foi interrompida ao longo dos séculos. É por isso que a Igreja Católica pode se chamar com razão de Apostólica. O bispo anuncia a esperança que todos temos em Cristo. A partir da revelação do amor de Deus pela humanidade a fé se torna luz que dirige os passos de quem crê. Com razão, Jesus Cristo foi comparado na antiguidade com o sol matinal que desperta das trevas da noite. E aqui parafraseando o poeta pode-se dizer: “Quando a manhã aparece. Dizem que nasce alegria. É como se Deus viesse: Até de noite era dia”.

O bispo deve anunciar a manhã de um novo dia, o “oitavo dia da criação”, um tempo novo, o dia da graça do Senhor, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf. J0 10,10). Evangelizar a todos, a partir dos pobres, é a missão do bispo nas pegadas de Jesus.

A todos vocês que durante estes anos me leram aqui nesta coluna, deixo meu abraço sincero, minha gratidão e minha benção em “nome de Jesus”.

 

Monsenhor Pedro Carlos Cipolini

Reitor da Basílica do Carmo e bispo eleito de Amparo

 

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