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Artigos
Artigos de
autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,
publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP
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12/01/2010
Direitos e deveres
Em dezembro de 1948, a ONU proclamou a Declaração dos
Direitos Humanos. Grande passo rumo à paz e harmonia entre
os povos. Esta declaração nasceu como reação aos crimes
cometidos na Segunda Guerra Mundial, mas também assinalou
um ponto de chegada para a humanidade na longa busca de
justiça para todos. É também um ponto de partida para
novas questões surgidas pelo avanço técnico-científico,
que amplia os confins entre a vida e a morte, além do que
indica a natureza (direito do embrião, direito à morte com
dignidade etc.).
No entanto, embora as violações dos direitos humanos ainda
aconteçam, é necessário assinalar que melhoraram as
condições de muitas categorias de pessoas contadas entre
as mais fracas e humilhadas. Já não se podem negar os
direitos das pessoas prescindindo de raça, religião, sexo,
ou outra circunstância. Avançamos no incremento da
igualdade, progresso ético. Existem leis que protegem os
direitos.
No Brasil, que atravessou o período amargo da ditadura
militar (1964-1985), durante a qual muitos direitos eram
negados, avançamos nesta conquista. A constituição de 1988
é representativa dos avanços alcançados pela sociedade em
termos de direitos humanos, embora ainda vigore em muitas
partes do pais a “lei da selva”: tráfico de pessoas,
exploração sexual de menores, trabalho escravo, impunidade
e corrupção.
É preciso preservar sempre mais as conquistas, mas não
podemos, hoje, deixar de resolver uma questão importante
se quisermos ser um pais realmente desenvolvido. Refiro-me
à questão dos deveres. Sim, onde tem direitos para todos,
tem de haver deveres para todos. Para todos mesmo, os do
“andar de baixo e os do andar de cima” como se diz. Sem
levar a sério os deveres não teremos cidadania completa.
Os direitos não podem ser interpretados de forma
individualista, sem ligação com o outro, a comunidade e a
sociedade.
É preciso continuar desenvolvendo uma cultura dos
direitos, mas também dos deveres e da responsabilidade.
Criar a convicção de que só onde cada um busca respeitar
os direitos dos outros, é possível que se respeitem os
seus também. Onde as pessoas exigem seus direitos e se
dispensam dos deveres, há um mundo de crianças ou
adolescentes, de imaturos, inaptos para a vida
democrática.
Caso emblemático é a recente constatação que metade dos
5,4 mil servidores do Judiciário paulista, afastados por
“razões médicas”, não tinham problemas de saúde e estavam
aptos para trabalhar. Não queriam cumprir seus deveres. E,
em meio a tantas mortes devido a enchentes,
desmoronamentos, desastres nas estradas etc., é preciso
perguntar: será que os engenheiros que fizeram as estradas
e pontes, cumpriram seus deveres? Os fiscais cumpriram
seus deveres? Os que deram autorização para construir em
áreas de risco cumpriram seus deveres?
Enquanto formos o país do “jeitinho” seremos o país dos
desastres que poderiam ser evitados, por todos que tinham
deveres, mas só pensaram nos seus direitos, e ainda mais,
procurando levar vantagem em tudo.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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09/02/2010
Fale com ele
Grande Sertão: Veredas, romance de Guimarães Rosa, é
admirável por vários motivos. A mim chama atenção a
questão teológica que perpassa a obra. Refiro-me ao
constante questionamento sobre o mistério de Deus e a
existência do mal.
Alguns trechos são memoráveis, como por exemplo: “Com Deus
existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é
possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de
a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto
perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo
facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos
grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.
Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de
coisa nenhuma!... Deus existe mesmo quando não há. Mas o
demônio não precisa existir para haver — a gente sabendo
que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo”. (Ed.
Nova Fronteira, 36ª Ed. P. 48)
E posto que em meio ao mistério da iniquidade, como chama
São Paulo o problema do mal no mundo, existe um Deus que
se revela como criador, fonte da vida e Pai de bondade,
como o revelou seu filho Jesus Cristo, como viver sem
falar com Ele, sem viver para Ele? Assim se perguntava o
ateu visconde Charles de Foucauld, após seu “encontro” com
Deus.
O reconhecimento da existência de Deus exige do que
acredita entrar em contato com Ele e isto é o que se chama
oração. Na definição de Teresa D’Ávila mística espanhola e
padroeira dos professores, “orar é falar com alguém que
sabemos nos amar”. A oração é preceito essencial de todas
as religiões e existe até mesmo em meio aos que dizem não
terem religião. Há uma percepção difusa e universal de que
a fé e a oração fazem bem para a saúde. Neste sentido, é
interessante o livro do Dr. Kenneth H. Cooper, É Melhor
Acreditar. Esta obra versa sobre a importância da fé para
a saúde e a boa forma.
E, aqui também, não posso deixar de lembrar o que escreve
Guimarães Rosa no mesmo romance que citei acima: “Hem? Hem?
O que mais penso, testo e explico; todo-o-mundo é louco. O
senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se
carece principalmente de religião; para se desendoidecer,
desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é
que é a salvação-da-alma...”. (op. Cit.p.8).
Lembro-me do noticiários dos jornais, quando o Dalai Lama
ganhou o prêmio Nobel. Foram avisá-lo, ele estava em
oração. Não queria ser interrompido quando rezava. Assim,
foi um dos últimos a saber que tinha ganho o prêmio. Eis
um homem que valoriza a oração.
No cristianismo, a oração é essencial, é o respiro da
alma. O grande orante da Bíblia, que nos ensina a orar é
Jesus. Passava noites em oração, rezava e saía tão
transfigurado da oração que um dia seus discípulos pediram
que lhes ensinasse a rezar. Jesus ensinou o Pai Nosso. Sem
a oração, a pessoa está paralítica para a corrida do Amor,
permanece presa ao chão de tudo aquilo que não é Deus, não
pode se realizar.
Portanto, reze, fale com Ele, fale com Deus, Ele está
interessado em te escutar.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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09/03/2010
Se não vos converterdes...
Nossa sociedade tem muitas religiões e religiosidade, mas
a fé escasseia. O individualismo dominante rejeita a fé
comunitária e cada vez mais as pessoas vivem a religião da
maneira que lhes convém. A fé se tornou assunto privado.
Na maioria dos casos não se nega a existência de Deus,
vive-se como se Ele não existisse: “sicut Deus non daretur”.
Lembro-me de Millôr Fernandes que traduz de maneira
irônica esta situação: “O ateu tem um deus no qual nem ele
mesmo acredita”.
A Bíblia contém a Palavra de Deus a nós revelada, ela
alerta para a necessidade de conversão: “Se não vos
converterdes perecereis” (Lc 13,1-9). Jesus narra a
parábola da figueira estéril que não dava frutos. O dono
do pomar vai buscar frutos todo ano e não encontra. Então
diz ao empregado para cortar o pé de figo. O empregado
pede uma chance, cuidaria melhor, iria colocar adubo e
quem sabe no próximo ano os frutos apareceriam. O senhor
concordou: mais um ano, depois será cortada.
A quaresma, com seu chamado à conversão e penitência, não
teria sentido se não tivéssemos consciência de que somos
pecadores: não damos frutos para Deus! O pecado, esta
esterilidade, não fica sem consequências. Ou nos
convertemos de nossos pecados e damos frutos de justiça e
caridade, ou sofreremos a justiça de Deus. Por mais
misericordioso e paciente que Deus seja, a justiça também
faz parte de sua bondade. Não seria bom se não fosse
justo.
Esta parábola da figueira revela um Deus paciente, mas que
espera que nossa fé se traduza em atos concretos:
fraternidade, partilha, luta contra as injustiças,
desprendimento das riquezas, partilha, superação dos
nossos vícios, serviço aos pobres. Se assim não for,
seremos cortados, ou seja, não nos realizaremos como
pessoas, desligados de Deus nossa vida não tem futuro nem
aqui nem na eternidade, estaremos condenados à
autodestruição.
A conversão, mudança de atitude e de rumo, é mensagem
central do Evangelho. Jesus ensina que as catástrofes,
desastres e violências existentes ao nosso redor, não são
castigos de Deus. Muitas vezes são provocadas pelo homem,
além de serem em outros casos reações da própria matéria
que não compreendemos bem. No entanto são, do ponto de
vista da fé, advertências, avisos de Deus para que nos
convertamos. Se não tomarmos a iniciativa de purificar-nos
de nossos pecados Deus tomará a iniciativa de oferecer-nos
mais concretamente estas oportunidades de nos purificar.
Tanto a nível pessoal como social, precisa-se de
conversão. “Se não vos converterdes perecereis”, alerta
Jesus. Sem andar pelos caminhos de Deus o homem se
destrói. A conversão é purificação dos pecados ou
penitência (aspecto negativo), é também dar bons frutos de
compromisso cristão, boas obras, ética e altruísmo
(aspecto positivo). A penitência faz parte da vida: se
queres alcançar um objetivo tens que lutar. Veja o caso de
quem quer ter um corpo “sarado”, vai à Academia e faz a
maior penitência, digo malhação. A nível espiritual pode
se fazer a mesma coisa.
O Correio Popular de domingo passado noticiou o confronto
entre gangues de pichadores, 40 adolescentes em pé de
guerra. No tiroteio, morre um garoto de 14 anos. É o
desespero, a dor e a morte. Será que isso comove a cidade?
As pessoas vão se acostumando. Casos como estes se
repetem, vai aumentando o espaço da morte em detrimento da
vida. Está aí um sinal da autodestruição de uma sociedade
que não se converte. Sociedade atingida na parte da
população que representa o futuro: jovens e adolescentes.
A idolatria do dinheiro e a corrupção geram injustiça e
opressão com seus frutos de desemprego, falta de escolas,
moradia e o pior falta de perspectiva de vida. Conversão
para Deus é conversão para o Amor e a caridade, sem isto é
a autodestruição a nível pessoal e social.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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06/04/2010
Padres santos e pecadores
Acabo de ler as 400 páginas da biografia do Padre
Donizetti Tavares de Lima. Autoria do engenheiro José
Wagner Cabral de Azevedo, entusiasta da causa de
beatificação do Pe. Donizetti ora em curso. Vida
admirável! Ordenado em Campinas por D. Nery, desejou
trabalhar em lugares mais pobres, por isso, foi mais para
o interior. Pároco de Vargem Grande e posteriormente
Tambaú.
Um apóstolo do Evangelho. Trabalhou sem descanso tendo
como horizonte o Reino de Deus: justiça e paz. Fiel à
Igreja que amava, nunca arrefeceu sua fidelidade também ao
ser humano que desejava ser tratado com dignidade.
Empreendeu luta serena, impertérrita, em favor dos
direitos humanos, numa época na qual era estranho falar
neles. Quando morreu, com 79 anos, era 16 de junho de
1961, estava rodeado do povo para o qual viveu:
trabalhadores, gente humilde que tanto ele amava e que
retribuía com respeito venerado. Foi um taumaturgo. Na
Basílica ouvimos relatos de milagres como os presenciados
pelo advogado Antenor Zampieri que, jovem ainda,
desenganado, foi curado pelo padre, vindo a falecer com 89
anos.
Quando eu era menino, ouvia falar do Pe. Donizetti. À
simples menção de seu nome, criava-se um clima de
respeito. Todos o buscavam. Sua humildade era grande como
sua sabedoria. Glória e vaidade do mundo não o
perturbaram. As perseguições, calúnias, não o desanimaram.
Generoso e magnânimo perdoou os inimigos. Aos fazendeiros
que o expulsaram de Vargem Grande por defender
trabalhadores, conforme pedia o papa Leão XIII na Rerum
Novarum, e que arrependidos lhe escreveram pedindo
perdão, ele respondeu com delicadeza: envia uma benção e
uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, sinal de paz e
fraternidade. Quem parece não perdoou estes fazendeiros
foi o destino, morreram depauperados.
Diante deste gigante de fé e caridade, o que pensar das
acusações que persistem e que infelizmente são
reconhecidas verídicas, referentes a padres pedófilos? Em
uma sociedade hedonista, onde sexo, dinheiro e poder gozam
do status de divindade, a fraqueza humana se mostra na sua
fragilidade mais dolorosa: o fascínio pelo abismo, pela
amartia, ou seja, o equívoco na busca de felicidade.
Os desvios de conduta em relação ao sexo estão presentes
em todos os segmentos da sociedade. Até nos locais mais
sagrados, quais sejam o recôndito dos lares e onde jamais
poderiam existir: igrejas de denominações variadas.
Em uma floresta imensa, onde muitas árvores trabalham
silenciosas, quando cai alguma, o estrépito é grande. São
alguns os padres escandalosos, mas nem se compara à
quantidade daqueles que se dedicam dia a dia, no seu
ministério, com fidelidade, honestidade e sacrifício. É
natural que esses erros nos padres, causem tanta
indignação dado a posição que ocupam, de confiança e
respeito na sociedade. Aqui se exige dos anticlericais,
dos laicistas e inimigos jurados da Igreja, que ao
reconhecer o erro presente na instituição, não culpem toda
a instituição, desejando sua ruína. É sabido de todos, a
sanha e o ódio de muitos lobbies que não toleram o
trabalho da Igreja em defesa da vida e da família e por
isso, nesta ocasião difícil procuram esparramar o “pânico
moral” contra ela.
A atual conjuntura vivida pela Igreja vai ajudar a
esclarecer e atualizar comportamentos inadequados copiados
da sociedade civil. Um deles é a existência de tribunal
particular, privilégios para julgamento, ao molde do que
existe para militares e políticos. A Igreja tem no seu
interior o Tribunal Eclesiástico que julga casos e
denúncias deste tipo que comentamos. Porém, o tribunal
interno da Igreja leva em conta o delito não só como tal,
mas como pecado, cuja misericórdia divina deve ajudar a
sanar com o arrependimento e a promessa de correção do
infrator. Assim a tolerância é maior, como o é em todo
tribunal corporativo ao molde dos que citei acima.
Porém, para a sociedade civil estes delitos são crimes e
nem se cogita de falar em pecado. Acabou-se o regime de
cristandade. As leis são feitas para todos. Por todos
devem ser respeitadas. Tanto pelos que têm a noção de
pecado, como por aqueles que não tendo fé, a desconhecem.
Ademais, a sociedade precisa punir para corrigir os que
cometem delitos. E é aqui que penso vai mudar a maneira de
tratar os pedófilos na Igreja. Não negando o perdão aos
arrependidos e a devida assistência jurídica; mas nem por
isso, eximindo-os de darem satisfações à sociedade. A
sociedade necessita ver punidos e corrigidos os
criminosos, não só pela lei da misericórdia evangélica,
mas igualmente pela lei da sociedade civil que visa
defender os direitos humanos. Também eles, uma bandeira
da Igreja quando atua em nome de Jesus.
Alguns acham que é o celibato que favorece tais desvios.
Não é bem assim – a rede de pedofilia na internet conta
com milhares de casados. É a falta de amor e fidelidade na
missão sacerdotal, falta de entusiasmo pela causa. O “amor
tudo crê, tudo espera e suporta” (1Cor. 13,7). O papa
Bento XVI diz “O caminhar com Cristo e o ser fiel a Ele,
supera nossas forças, este caminhar com Cristo é sempre um
ser carregado por Ele” (sermão de Ramos). Ser carregado
por Cristo é não descuidar da espiritualidade e oração.
Penso que esta é a grande lição, que nós sacerdotes,
podemos tirar destes acontecimentos dramáticos para a
Igreja e muito mais dramáticos ainda para as vítimas, às
quais se deve pedir perdão, fazer justiça e muito mais:
mostrar a alegria de perdoar como Cristo perdoou a todos
que o crucificaram.
Nenhum criminoso se perdoa se não responder à sociedade
pelos crimes cometidos. Também, nenhuma vítima se perdoa
se não se abre para perdoar. A justiça a ser feita e até a
vingança são humanas. O perdão consciente é divino e faz
avançar a humanidade no caminho da cura, reconciliação e
paz.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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04/05/2010
Ficha limpa pela ética na política
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor a Deus
e ao próximo, colocado no centro do Evangelho, é síntese
do ensinamento de Jesus Cristo. Exige de quem o segue,
atenção não somente à sua salvação pessoal, mas também à
salvação de todos, no sentido de que todos tenham vida e a
tenham em abundância.
Por isso, o cristianismo não se exime de atuar
para que a sociedade seja justa e fraterna, abatendo
barreiras que impedem a vida no amor fraterno. Os
imperativos éticos de justiça e paz são normativos para o
cristão, que deve se empenhar para que o Reino de Deus
aconteça, ou seja, para que a humanidade se realize na
concórdia. Assim, a Igreja se posiciona na luta para que
haja ética na política, a qual deve gerar melhoria para
toda a população e não só para grupos com interesses
particulares.
A partir dessas premissas, a Igreja Católica, pela CNBB,
aderiu à proposta de iniciativa popular articulada pelo
Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que
reúne 43 entidades. Foram coletadas 1,3 milhões de
assinaturas. É o projeto chamado Ficha Limpa, que traz
avanços significativos no processo eleitoral brasileiro ao
impedir a candidatura de cidadãos que estejam condenados,
mesmo em primeira instância. Alguns acham demais proibir a
candidatura de quem está condenado em primeira instância.
Porém, basta pensar que, quem tem processos pendentes, nem
sequer pode fazer parte de um grupo de jurados nos
tribunais, e por que poderia representar a nação no
Congresso quem é condenado pela Justiça?
O projeto teve sua votação adiada de abril para maio. Os
parlamentares não estão com entusiasmo para satisfazer
essa petição popular. No site
Congresso em Foco, pode-se constatar que existem
152 políticos sendo investigados ou processados; ¼ dos
deputados e senadores tem pendências na Justiça. É uma
oportunidade de iniciar um esforço sério de moralização do
Congresso, evitando-se a candidatura de políticos
condenados por crimes em qualquer instância.
A base aliada do atual governo, principalmente o
PT e o PMDB, fazem manobras para minar a aprovação desse
projeto. Não aceitam que a ética na política começa com
candidatos éticos. Podem até barrar sua aprovação, mas não
poderão barrar o crescimento da consciência do povo, que,
num gesto bonito de cidadania, conseguiu articular e
mobilizar a população na coleta destas assinaturas.
O projeto Ficha Limpa é considerado um marco na luta
contra a corrupção e pela transparência na política. Na
época do Brasil Império, a lei para libertar escravos
também sofreu adiamentos e atrasos, por fim a liberdade
veio, apesar dos escravistas, que hoje têm seus nomes
desmerecidos. Os que são a favor da “ficha suja” não
conseguirão barrar a marcha da cidadania. Há um dinamismo
positivo no subsolo da História, que impulsiona e faz
avançar a consciência; é preciso aderir a ele para não
perder o bonde da história.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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01/06/2010
Capela da Santa Casa
No Centro de Campinas, logo atrás da Prefeitura, está a
Santa Casa de Misericórdia, com sua belíssima capela,
tombada pelo Estado (Condephaac) e pelo Município (Condepacc).
Teve início o mês passado o restauro dessa capela, graças
às doações feitas pelos fieis que ali participam, e que
arrecadaram os R$ 54,9 mil para pagamento da primeira
etapa deste serviço.
Como é sabido, a Santa Casa de Misericórdia é o primeiro
Hospital de Campinas, construído pela iniciativa do padre
Joaquim José Vieira. Ele angariou junto à população as
doações necessárias para a obra, iniciada em 1871 e
inaugurada em 1876. Não é a primeira instituição de
assistência pública da cidade, mas é a mais significativa,
que mais serviços prestou à população em tempos difíceis.
Padre Vieira fundou também a Irmandade de Misericórdia de
Campinas, que passou a ser detentora da posse dessa
instituição e cuja mesa diretora tem a incumbência de
geri-la, preservando sua natureza e objetivo: “dispensar
assistência hospitalar e conforto moral aos pobres
enfermos”. A direção interna foi confiada às irmãs de S.
José, ótimas enfermeiras, destacando-se Irmã Serafina e a
presença de capelães como Pe. João Batista Correa Nery.
A primeira mesa diretora teve como provedor o próprio Pe.
Vieira (1876-1883), substituído pelo Pe. Francisco de
Abreu Sampaio (1883-1887) e contou com uma plêiade de
cidadãos beneméritos, de envergadura moral admirável, como
Bento Quirino dos Santos, Luiz Silvério Alves Cruz,
Francisco Alves de Almeida Sales e outros. Atualmente, a
mesa diretora da Irmandade é presidida pelo Dr. Murillo
Antonio M. de Almeida, tendo como vice o Dr. Cirilo Pardo
M. Muraro, e se dedica à recuperação e manutenção da
entidade na continuidade do trabalho desses antepassados
ilustres.
A capela ora em restauro, ou melhor, revitalização, foi
uma doação do cidadão José Bonifácio de Campos Ferraz,
Barão de Monte Mor, que doou o edifício todo construído e
pronto. Juntou-se ele, assim, a Maria Felicíssima de Abreu
Soares, doadora da quadra de terreno no qual se construiu
a Santa Casa. São gestos de generosidade admiráveis.
Supõem não só grandeza de espírito, mas o realismo de quem
sabe que será julgado um dia por Aquele que tudo nos deu,
e pedirá conta do que fizemos com suas dádivas. Se usadas
para satisfazer o mesquinho egoísmo, autopromoção e
vanglória ou para amontoar um tesouro nos céus.
Infelizmente, carregamos de nosso passado colonial
arcaico, o ranço de aproveitar e levar vantagem pessoal em
tudo, esquecendo-se de trabalhar para que todos possam
participar de uma sociedade justa e fraterna. Seria bom
que aparecessem pessoas altruístas, mecenas, que ajudassem
a levar avante esse trabalho de restauro da Capela de
Nossa Senhora da Boa Morte. Que se juntassem nessa
empreitada à Irmandade de Misericórdia, ao ISI (Instituto
de Saúde integrada), à comunidade católica que frequenta a
capela e demais pessoas interessadas na preservação deste
patrimônio da cidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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29/06/2010
Igreja e dinamismo pastoral
A Igreja Católica em Campinas acaba de entregar a seus
fieis o seu 7 Plano de Pastoral Orgânico (PPO).
Instrumento para orientar a vida e missão dos cristãos
católicos, elaborado com a metodologia participativa, que
contou com momentos riquíssimos de encontros e assembleias,
nos quais se fez sentir a participação da Igreja sob a
direção de seu pastor, nosso arcebispo d. Bruno Gamberini.
A novidade e atualização quanto à metodologia é que a
participação dos fieis foi ampla e mais efetiva, na
elaboração deste plano. Se, antes, a elaboração era
produto de reflexões teológico-pastorais de intelectuais
orgânicos, sente-se neste 7 PPO, o vigor e a
simplicidade que brotam dos anseios dos muitos fiéis
leigos, agentes de pastoral que no dia a dia se defrontam
com a tarefa de evangelizar uma realidade urbana
desafiadora.
Os eixos deste 7 PPO desenham proposta de
ação em sintonia com o objetivo da Igreja do Brasil na sua
dimensão abrangente que é a evangelização e aqui fica
delineado o perfil da Igreja como missionária: levar o
Evangelho, proclamar a boa nova do amor de Deus
manifestado em Jesus Cristo. Como coordenadas de ação
evangelizadora se vislumbra uma Igreja que Acolhe, se
Renova e Serve. São três eixos de ação pastoral,
profundamente enraizados na pregação e ação de Jesus
Cristo.
A acolhida se faz urgente hoje na realidade
urbana, onde não raro a solidão entristece as pessoas. A
vida na cidade dá a tão almejada liberdade, mas não raro
lança a pessoa em uma realidade de desamparo, falta de
relacionamentos estáveis e fraternos. E então a tentação
de partir para o desânimo, desespero e dependência química
se tornam fortes. Uma comunidade que acolhe, escuta e
mostra novos horizontes, é como um oásis num deserto. Como
a fonte da aldeia no dizer de João XXIII, referindo-se à
paróquia, onde se vai matar a sede.
A renovação também tem seu eco na pregação do Reino de
Deus. Converter-se é a urgente necessidade de renovação
pessoal e estrutural. E aqui é necessário humildade e
paciência. Na renovação pessoal se exige às vezes
rupturas, mas, na renovação estrutural, as coisas são mais
lentas. Por exemplo, na questão das paróquias. Não vamos
acabar com as paróquias onde nossos queridos párocos
desejam ficar “até quando Deus permitir”.
O Concílio Vaticano II fala que a paróquia é uma riqueza
de unidade e diversidade (AA 10), diz ainda que se
denomina Igreja de Deus (LG 28). É na paróquia que a
Comunhão universal da Igreja encontra sua localização
última entre as casas dos fiéis, afirmava João Paulo II (CL
26-27). Ali encontramos o exercício das tarefas pastorais,
os agentes pastorais responsáveis, a sensibilidade social
e as comunidades de vida.
Os bispos em Aparecida alertaram sobre a necessidade de
renovação, para que a paróquia seja uma rede de
comunidades. E essa renovação, para ser verdadeira, se faz
pelo consenso, não pela ruptura. Nosso arcebispo, nessa
linha de compreensão, criou várias paróquias, pensando no
benefício para o povo. Tirar do tesouro da Igreja coisas
novas e antigas, renovar, mas nada desperdiçar.
O serviço é outra coordenada que exige da Igreja a prática
da solidariedade a nível interno e externo. Hoje, se a
Igreja é chamada a pregar o Evangelho, mais do que com
palavras e sermões, na prática da caridade. E aqui a
defesa da vida é uma bandeira do Evangelho que a Igreja
assumiu. Que nossa Igreja possa realizar aquilo que
planejou e que Deus que inspirou esses bons propósitos
possa ajudar a colocá-los em prática.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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19/10/2010
Nova missão
Quero iniciar agradecendo o Pe. Paulo Emiliano por
permitir-me despedir de todos os leitores desta coluna,
algo que até agora não tive como fazer. Despedir-me desta
coluna não do Correio Popular, com o qual pretendo
continuar colaborando, agora como bispo residente em
Amparo.
Nossa vida é repleta de surpresas. Muitas vezes quando não
esperamos vem bater à nossa porta algo inesperado. Penso
que todos já passaram por esta experiência que pode ser
agradável ou desagradável.
Falo a respeito do que me sucedeu e que já de todos é
sabido, ou seja, minha nomeação para bispo da Diocese de
Amparo. Agradável surpresa, acontecida em 14 de julho,
data do aniversário da Cidade de Campinas, ocasião em que
celebrávamos na Basílica a novena de Nossa Senhora do
Carmo.
Um novo horizonte se descortina, uma nova missão está
diante de quem é chamado por Deus na Igreja de Jesus
Cristo, a suceder os apóstolos. Pois o bispo é sucessor
dos apóstolos, segundo a mais antiga e verdadeira tradição
da Igreja Católica Apostólica Romana.
Jesus reuniu os doze, convidou-os para estar com ele,
serem seus companheiros e os enviou em missão. Apóstolo é
aquele que é mandado por alguém, enviado para desempenhar
uma tarefa. “Quem vos recebe a mim recebe, quem vos ouve a
mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita e quem me
rejeita, rejeita o Pai que me enviou” (Mt 10,40;Jo 13,20).
Estas palavras de Jesus que dá autoridade aos apóstolos
revela a grandeza da missão de quem é chamado a exercer na
Igreja, como bispo, a tarefa de suceder aos apóstolos.
A Igreja Católica tem a sucessão apostólica, transmitida
pelo rito da imposição das mãos que remonta os apóstolos.
Esta corrente nunca foi interrompida ao longo dos séculos.
É por isso que a Igreja Católica pode se chamar com razão
de Apostólica. O bispo anuncia a esperança que todos temos
em Cristo. A partir da revelação do amor de Deus pela
humanidade a fé se torna luz que dirige os passos de quem
crê. Com razão, Jesus Cristo foi comparado na antiguidade
com o sol matinal que desperta das trevas da noite. E aqui
parafraseando o poeta pode-se dizer: “Quando a manhã
aparece. Dizem que nasce alegria. É como se Deus viesse:
Até de noite era dia”.
O bispo deve anunciar a manhã de um novo dia, o “oitavo
dia da criação”, um tempo novo, o dia da graça do Senhor,
que veio para que todos tenham vida e a tenham em
abundância (cf. J0 10,10). Evangelizar a todos, a partir
dos pobres, é a missão do bispo nas pegadas de Jesus.
A todos vocês que durante estes anos me leram aqui nesta
coluna, deixo meu abraço sincero, minha gratidão e minha
benção em “nome de Jesus”.
Monsenhor Pedro
Carlos Cipolini
Reitor da
Basílica do Carmo
e bispo eleito de Amparo
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