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Artigos

 

Artigos de autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

10/02/2009

Renovar a esperança

 

Sem dúvida existe muito pessimismo no mundo. São muitas as causas que justificam aqueles que sempre repetem: “deseje o melhor, mas prepare-se para o pior”. Guerras, disputas, crises, alimentam o desespero em muitos corações.

No entanto, são os otimistas, os que tem esperança, que fazem avançar a história. Onde os pessimistas vêem dificuldades, os otimistas vêem oportunidades. E o otimismo mais genuíno brota da fé em Deus e no ser humano.

A esperança não decepciona, diz a Sagrada Escritura, a esperança é a origem do otimismo, do bom humor, da valorização da vida. A esperança é força interior propulsora. Para o cristão se fundamenta na mensagem de Jesus, o Filho de Deus, o qual nos ensinou a amar, ensinou que a última palavra é da vida e não da morte.

Em recente visita à Europa pude constatar que, por detrás da crise mundial do sistema financeiro, existe outra maior: a falta de esperança. Isto se reflete na incapacidade crescente de lidar com situações nas quais a vida está fragilizada. Exemplo sintomático é a situação dos idosos cujo número cresce a cada ano, em países cuja expectativa de vida está chegando aos 110 anos. O avanço formidável da tecnologia, da medicina não se fez acompanhar do avanço na valorização da vida colocando graves questionamentos éticos à sociedade.

Precisamos de esperança para que a Terra seja mais habitável. Precisamos de mais bom humor em nossos relacionamentos. Ele nos ajuda a reconhecer a contradição da vida e superar a tentação de priorizar o egoísmo, o qual valoriza mais o poder que a vida.

O bom humor sabe que o poder é a ilusão final, e que o riso, a alegria, revela a verdade final, e esta é a que permanecerá para sempre, porque o poder passa. As bem-aventuranças ensinadas por Jesus são um caminho para viver a esperança e o bom humor em meio às contradições da vida.

O bom humor do cristão, a festa, a alegria cristãs, não brotam da alienação, mas da fé na ressurreição, a qual constitui-se em espírito de insurreição diante daqueles que fazem aliança com a morte.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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03/03/2009

Tentações no deserto

 

Passou o Carnaval, chegou a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas. Quaresma se refere a quarenta. Na tradição bíblica, o número quarenta representa a plenitude de uma vida ou uma vida inteira. Os 40 anos que o Povo de Israel passou no deserto, os quarenta dias que Jesus passou no deserto jejuando, são indicativos de uma realidade que afeta cada pessoa.

O Evangelho diz que Jesus foi tentado no deserto (Mc 1,12-15). O deserto é lugar da dificuldade, morada dos demônios e, sobretudo, lugar da tentação. É uma metáfora apropriada da vida de cada um de nós e da vida do povo.

No deserto, o povo de Deus foi tentado, Jesus também o foi. E ali, em meio às tentações, tanto o povo de Deus como Jesus puderam discernir e decidir pelo projeto de Deus que é caminho de justiça, liberdade e paz. O povo, ao sair do deserto e entrar na Terra Prometida, tinha um projeto alternativo de vida na justiça e no direito. Jesus, ao sair do deserto, tem o projeto do Reino de Deus, no qual todos são incluídos numa fraternidade que se pode chamar de universal.

Fiódor Dostoievski escreve no seu romance imortal (Os Irmãos Karamazov) que estas tentações de Jesus no deserto sintetizam a história da humanidade: “São as três formas em que se cristalizam todas as contradições insolúveis da natureza humana” (Livro V, 5). As tentações de Jesus são as tentações de cada um durante toda a vida e que o mesmo escritor assim sintetiza: “Em teoria, pode-se amar seu próximo, e até mesmo de longe se o pode; de perto, é impossível”.

O projeto de Deus é uma vida no amor que produz justiça, cujo fruto é a paz. No entanto, o projeto de Satanás é um mundo onde o que vale são os bens materiais, a vaidade e o poder que domina. Assim como Jesus, vivemos em nossa vida esta contradição: de um lado, o Espírito Santo nos impelindo a vencer o mal fazendo o bem. De outro lado, o Espírito do mal que nos impele para os pantanais da alma, precipitando-nos numa vida de egoísmo e desespero.

Entre o projeto de Deus e o projeto de Satanás para este mundo, o ser humano tem de decidir. O projeto de Deus é inspiração, o projeto de Satanás é tentação. Os frutos estão aí. A violência e a insegurança alarmantes, com as quais já estamos nos habituando, são frutos do mal, do projeto de Satanás. Precisamos resistir às tentações.

Quaresma é tempo de conversão, de discernimento e decisão: optemos pelo projeto de Deus e assim poderemos continuar provando que “a paz é fruto da justiça”, como nos propõe para reflexão a Campanha da Fraternidade deste ano.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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21/04/2009

Santa Casa de Misericórdia

 

É tempo de Páscoa, nós refletimos e celebramos a morte e ressurreição de Jesus. Ele entrou no coração da morte, pois foi devorado por ela, mas lá dentro Ele a destruiu. A morte, acostumada a devorar os seres humanos, encontrou neste homem o próprio Deus, indestrutível, autor e fonte da vida, senhor da vida e da morte. E tudo isso foi feito por misericórdia para com a humanidade.

Misericórdia talvez seja a característica mais autêntica e profunda do amor de Deus, é o segredo mais divino e primordial de todas as ações de Deus, desde a criação. Deus não precisava criar nada para ser feliz, mas Ele quis compartilhar sua felicidade, criando e depois redimindo a humanidade.

Misericórdia, no entanto, é hoje a atitude mais estranha numa civilização regida por uma economia sem coração, refletida no “levar vantagem em tudo”, pelo “se arrume” ou “não tenho nada com isso”. Onde predomina o egoísmo como autodefesa e norma de conduta de sobrevivência, é difícil entender certos sentimentos, tão divinos e ao mesmo tempo, tão humanos como a misericódia.

Jesus disse: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Onde Mateus escreve sede perfeitos, Lucas escreve misericórdia, que é a expressão da suma perfeição de Deus. A Igreja nos passos de Jesus prescreve as sete obras de misericórdias corporais: Dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher os peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E as sete obras de misericórdia espirituais, dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos, perdoar as injúrias, tolerar as fraquezas do próximo e enterrar e orar pelos vivos e defuntos.

Em Campinas existe uma obra que compendia quase todas estas obras de misericórdia. É a Santa Casa de Misericórdia. Na metade do século 19 não existia hospital em Campinas, mas sim muitos doentes. Algumas enfermarias precárias não conseguiam atender a quantidade de vítimas de pestes, pobres e muitos escravos. Foi então que o Padre Joaquim José Vieira, de pequena estatura, por isso chamado de Vigarinho, conseguiu mobilizar a população para ir construindo aos poucos esta obra que, não só na época, mas hoje também honra o espírito filantrópico e solidário do povo de Campinas.

Para levar avante esta empreitada, de caridade e altruísmo, Pe. Joaquim J. Vieira fundou a Irmandade de Misericórdia de Campinas em 1871. Em 1876 viu realizado seu sonho no hospital concluído, na casa para abrigo de órfãos. Em meio às duas instituições a belíssima capela de Nossa Senhora da Boa Morte. O prédio da Santa Casa, unido ao Hospital Irmãos Penteado, está ali logo atrás da prefeitura. Prefeitura, aliás, construída em terreno que pertencia à Santa Casa, e no qual existia a belíssima gruta de Nossa Senhora de Lourdes: Rua Benjamim Constant, 1.657.

A Irmandade de Misericórdia de Campinas e a Santa Casa, como instituição centenária, primeiro hospital da cidade, merece não só o respeito e a honra advindos desta primazia, mas, muito mais, merece nosso interesse e colaboração. Pois é digno de admiração o eficiente trabalho desenvolvido pelo atual Provedor da Santa Casa Dr. Murilo Antonio de Moraes Almeida.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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02/06/2009

Por que não se entendem?

 

Esta pergunta ouvimos frequentemente ao constatar a dificuldade crescente que as pessoas têm para conviverem pacificamente. Viver na sociedade sempre foi difícil, um desafio, porém, hoje, a impressão que se tem é que a convivência pacífica está se tornando impossível. São significativos os dados que indicam a infelicidade causada pela incapacidade de conviver que as pessoas provam, com o consequente corolário de desentendimentos, brigas, vinganças, crimes, mortes.

A época moderna que tanto progresso trouxe à humanidade começou sob o signo da valorização do indivíduo. Penso, logo existo! Ouse pensar, portanto, faça a crítica e coloque-se no centro do Universo. O antropocentrismo trouxe muitos benefícios, porém, quando o homem se coloca no centro, como se fosse Deus, sente a vertigem do poder, da autossuficiência. Instala-se o individualismo, marca da cultura do consumo que é a cultura da globalização. Essa cultura funda-se no ter e não no ser, portanto, relacionar-se não tem valor, o que vale é possuir: é a guerra!

A dificuldade para se entender com os outros é consequência desse estado de coisas. O outro é sempre ameaça, compete comigo, é alguém a ser vencido. Já dizia Sartre, profeta do existencialismo ateu: “O inferno são os outros”. Cresce especialmente entre os jovens a idéia de que “ser feliz é amar a si mesmo o suficiente para não precisar de ninguém”. Nossa cultura favorece a proliferação de narcisistas que no dizer de Theodore Rubin, “são pessoas que se tornam o próprio mundo e acabam crendo que são o mundo inteiro”. Assim, o conceito de liberdade, palavra chave para se entender a cultura moderna, se torna sinônimo de falta de limites.

Não é de se estranhar que os desencontros se agudizem, desde a dificuldade de conviver com o vizinho até a dificuldade de se entender, existente entre as nações. Tome-se como exemplo o desentendimento entre países ricos e pobres numa questão tão urgente como a questão climática. Por que não se entendem?

Porque falta diálogo. Isso dificulta o entendimento entre as pessoas, grupos, nações. Diálogo que é característica própria do ser humano, animal racional. Diálogo que é escuta, respeito, consideração, acolhida. Quantos conflitos não foram desarmados e resolvidos com o convite: “vamos conversar?”. O ser humano não é só indivíduo, ninguém é uma ilha, já foi dito, o ser humano é também pessoa, e pessoa é “um nó de relacionamentos” como ensina o pensamento personalista de Emanuel Mounier.

O exemplo consumado de diálogo nos é dado pelo próprio Deus. Na Bíblia, temos os relatos da busca que Ele faz do homem, que por sua vez também o busca. Não é só o relato de uma busca, mas de um encontro maravilhoso entre o céu e a terra: em Jesus Cristo, Deus vem ao encontro do ser humano, não para condená-lo mas para salvá-lo num sublime diálogo de amor.

Sem diálogo ninguém se entende, sem diálogo não há solução para nenhum problema humano. Sem saber dialogar uns com os outros, não se é capaz de dialogar com o grande Outro: Deus. E nessa incapacidade de dialogar, surge a violência como opção, uma opção que não é solução para nada, ao contrário do diálogo.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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30/06/2009

Ano sacerdotal

 

Neste mês, dia 19, o papa Bento XVI proclamou o Ano Sacerdotal por ocasião dos 150 anos da morte de S. João M. Vianney, cura de Ars, padroeiro dos padres. É um convite para refletir sobre a missão do sacerdote. Missão sublime, exigente, desejada por Jesus.

São inúmeras as passagens evangélicas nas quais Jesus sinaliza o desejo de ter 12 apóstolos: “Jesus constituiu o grupo dos 12, para que ficassem com Ele e os enviassem a pregar com autoridade” (Mac 3,14). Com esses 12, Jesus viveu momentos importantes de seu ministério, com eles instituiu a Eucaristia que mandou celebrarem em sua memória. Foram os 12, as testemunhas da ressurreição. Ao morrerem, eles deixaram sucessores, impondo-lhes as mãos. Assim, na Igreja, temos nos bispos e padres, a sucessão apostólica.

Com notícias de escândalos envolvendo padres, há um sentimento depreciativo em relação a eles. Todas as categorias têm seus fracos e pecadores, até no meio dos 12 apóstolos tinha um Judas. Não se deve, porém, esquecer que os faltosos são minoria necessitada de correção condizente. Há uma legião enorme de sacerdotes infatigáveis no trabalho, que dão testemunho belíssimo de fé, esperança e caridade. São uma floresta que ajuda o mundo a respirar, purificando o ar. Floresta silenciosa! Infelizmente, quando uma árvore cai, o barulho é grande, dando a impressão que toda a floresta está caindo.

O papa define o coração de Jesus como “núcleo essencial do cristianismo” e vê nos sacerdotes uma dádiva dessa coração. A presença de Jesus se prolonga nos sacerdotes. Jesus está presente na Palavra, na Eucaristia, na Comunidade, mas também no padre que recebeu o sacramento da Ordem. O sacerdote, diz o papa, “é consagrado para servir o sacerdócio comum dos fiéis”. E acrescenta: “A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso de Deus”.

Quantas pessoas se recordam com gratidão de palavras, gestos e ajuda fraterna de um padre em momentos difíceis? Podemos dizer que o Brasil nasceu com a primeira missa celebrada por um padre, quando se-lhe deu o nome: Terra de Santa Cruz. Campinas também nasceu com a presença de um padre, Frei Antonio de Pádua Teixeira, o qual não só rezou a primeira missa, mas teve atuação destacada (cf. Celso M. M. Pupo).

Campinas se destaca no campo da educação e da solidariedade/saúde que virão a favorecer o progresso em todos os sentidos. Nesses dois campos, temos padres como pioneiros. O primeiro hospital de Campinas foi fundado por Padre Joaquim José Vieira. No campo da educação, foram padres que fundaram a Universidade Católica, Dom Barreto e Mons. Salim à frente, numa época em que os jovens precisavam deixar a cidade para estudar.

Rezemos por nossos padres especialmente nesta semana em que estão todos reunidos para o Retiro Espiritual Anual.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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28/07/2009

Da corrupção e dos corruptos

 

Ultimamente, as notícias de corrupção em todos os níveis de poder se tornaram abundantes. No Executivo, Judiciário e Legislativo. A situação do Congresso Nacional é lamentável. A corrupção generalizada é grave, sobretudo, porque se desenvolve num governo que prometeu e convenceu a população que acabaria com ela, no entanto, acabou fazendo parte dela e até defendendo corruptos.

Todos sabemos que a corrupção mata. É a violência que vem de cima, obtendo sua resposta na violência que vem debaixo, espalhada nas ruas de nossas cidades.

Porém, não podemos lamentar nem posar de “profetas da desgraça”. Há algo de positivo em tudo isso: cresce a consciência da populacão, que, a duras penas, vai percebendo que deve acabar com os políticos patrimonialistas, que se elegem para obter privilégios para si mesmos e não para trabalhar pela melhoria da vida do povo. Uma das características da pós-modernidade é o desencanto com o racionalismo discursivo, mas uma das vantagens é o espírito crítico em favor da vida, que a duras penas cresce entre a populacão, a qual, num longo aprendizado, a poder de desenganos e decepções, aprende a exigir mais capacidade e honestidade dos políticos.

Há uma desconfiança generalizada com autoridades em todos os campos da vida social, este é um dos frutos da corrupção. E aqui há o perigo do recurso à violência quando não existem paradigmas ou líderes capazes de mostrarem caminhos éticos de confiança na justiça e no Direito. O pensamento positivo, que ensina a vencer os desafios, apostando na vitória do bem, está em perigo em nossa sociedade: Vale a pena ser bom e justo? O mundo moderno sofreu uma perda mental muito mais consciente que a queda moral”, escreveu G. K. Chesterton.

A imoralidade a que assistimos é fruto da incapacidade de perceber com a inteligência, raciocínio, que ser bom é a vocação e realização do ser humano, perceber que a maldade não compensa, que a corrupção é atraso. É uma fraqueza da inteligência não perceber o quanto se perde, em todos os setores da sociedade, no econômico também, com a corrupção generalizada. Assim, o extravio da razão, a irracionalidade, precede o extravio ético e moral, que conduz a um desencanto geral, ao absurdo de corpos sadios em mentes tresloucadas pelo egoísmo.

É preciso voltar à razão e a razão mais elevada é a razão alimentada pelo amor. Só o amor pode ser mestre autorizado da razão porque a razão última de tudo é o amor e não o absurdo, o nada. O egoísmo dos corruptos não os torna felizes, o egoísmo não torna ninguém feliz. Só o amor faz feliz o ser humano.

Os corruptos e corruptores um dia deverão prestar contas ao amor que os julgará. E como não tiveram misericórdia serão julgados sem misericórdia pela própria fonte do amor que é Deus (Mt 7,23). Deus que falou a vida toda pela voz de suas consciências que foram silenciadas. Nada mais terrível que comparecer de mãos vazias diante do juiz deste tribunal, no qual a única vantagem é ter tido uma vida de amor e servico ao próximo, como foi a vida de Jesus.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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25/08/2009

Aonde iremos?

 

Em nossa vida temos necessidade de fazer escolhas. Jesus teve que escolher o caminho da fidelidade ao Pai quando tentado no deserto. Os discípulos de Jesus também tiveram que fazer a escolha: seguir o mestre ou abandoná-lo. É disso que trata o relato do Evangelho de João 6,60-71, que coloca-nos algumas questões: Você realmente escolheu Jesus em sua vida? Essa escolha é assumida? Você a vive?

Este relato evangélico mostra-nos Jesus, no auge de sua missão. É famoso e todos esperam que ele seja um Messias glorioso, guerreiro, vitorioso como os conquistadores deste mundo, que se impõem pela força e astúcia. Jesus, porém, mostra que não é este o caminho. Isto vai gerar uma crise.

Jesus diz que as glórias e conquistas terrenas (carne) de nada servem, sem o espírito (vida na fé). Precisamos de um impulso que venha fora de nós, é a fé, dom de Deus que devemos acolher. A exigência da fé é radical, torna o seguimento de Jesus radical.

Jesus afirma sua condição divina: veio do Pai e para Ele voltará, por isso tem poder de ressuscitar os mortos, diz ser alimento “pão para a vida do mundo”. Jesus quer dizer que ele não é um Messias materialista, mas é o Filho de Deus e tem poder de dar a vida eterna. Quem quiser esta vida, deve se alimentar dele, de suas palavras, ou seja, viver dele que é a vida, seguí-lo porque é o caminho e aceitar sua doutrina porque é a verdade.

A encarnação de Jesus e a Eucaristia são a pedra de toque de nossa fé e adesão a Ele, nos obrigam a posicionar. Ou nós aceitamos ou nos afastamos dele. Muitos o abandonam! Jesus decepcionou muita gente que acreditava em Deus só para levar vantagem, pensando somente em si. Achavam que podiam amar a Deus sem amar o próximo.

Jesus não prometeu glória mundana nem prosperidade material para ninguém (teologia da prosperidade). Ele prometeu isso sim, vida plena para todos, vida que não tem fim e ensinou a conseguir isso: amando o próximo, entregando a vida no serviço, sendo “pão” para os irmãos. A realeza de Jesus consiste em amar e servir. Jesus ensina que a vida é para ser partilhada e não guardada egoisticamente.

Judas é tipo da pessoa que no seu egoísmo não entende que a vida é para ser vivida no amor. Ele escolhe entregar as pessoas à morte e por fim entregar-se à morte por orgulho. Ou escolhemos seguir, Jesus e assim chegamos ao Pai que é vida eterna, ou abandonamos Jesus e abraçamos os projetos que levam à morte.

Muitos abandonaram Jesus e ele pergunta aos doze apóstolos: Vocês também querem ir embora? Pedro diz então: Aonde iremos? Só tu tendes palavras de vida eterna. Os que permanecem reconhecem que seus ensinamentos conduzem à vida.
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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22/09/2009

Crônica do centro

 

Ela voltava para casa com sua amiga Cleuza. Vindo da Igreja, atravessaram a praça Sodoma na qual à noite tudo acontece. Em casa da amiga toma chá e combina de saírem de manhã para compras. Marcovina logo cedo vai à casa da amiga como combinado. Chama, ninguém atende, a porta estava sem trancar, entra. Encontra a amiga morta, sentada ainda, na cadeira onde a deixara. A televisão ligada dá notícia do catador de papelão que foi atropelado por uma BMW, de um empresário drogado que voltava de uma festa na madrugada. Marcovina corre para a praça quer chamar socorro. Não havia mais praça, somente barracas, nas quais se vendia de tudo. Os taxistas estavam em greve, protesto pelo assassinato de um colega. Como levar a amiga para o hospital? Ela pensava que Cleuza estivesse somente desmaiado.

Com muito custo fez contato com o Samu, mas havia dificuldade de chegar à casa de Cleuza. As obras em frente à Prefeitura provocavam um transtorno adicional ao trânsito. Enfim conseguiram ir ao hospital. Em lá chegando, não havia médico no momento, era o mês em que a maioria tira férias. Conseguiram um, que deu o atestado de óbito encaminhando o corpo para o necrotério. Nova dificuldade, pois na rua, na saída do hospital, havia congestionamento devido a um tiroteio durante o qual uma bala perdida atingira um pedestre, sendo que no mesmo quarteirão, um pichador caiu de alto de um prédio, ferido, esperava imóvel a remoção rodeado de curiosos. Um Deus nos acuda típico de centro de cidade.

Marcovina vai até o orelhão, o telefone não funcionou, lembrou que boa parte deles está em péssimo estado. Na sala de espera do necrotério, pegou no jornal e começou a ler: “A organização das cidades começa por um pacto de civilidade entre os cidadãos na busca de harmonia entre os projetos individuais e coletivos, através de normas e regras a serem cumpridas por todos”. Bonito, pensou, o problema é o por todos... Enfim, o corpo de Cleuza foi liberado para um velório de uma hora, o último horário para enterros estava próximo. No velório todos estavam assustados, porque no dia anterior à noite, tinha havido um assalto praticado por pivetes, ali mesmo. Ainda bem que de tarde o perigo é menor, mas dá uma gastura! Marcovina pensava, não é atoa que o poeta escreveu: “a vida é um grande hospital onde quase tudo falta, por isso ninguém se cura e morrer é que é ter alta”.

Chegou o padre, fez a “encomendação” do corpo, segundo o rito católico. Porém, a sobrinha da defunta é evangélica, trouxe um pastor para fazer outras rezas para a tia. Um atropelo. Enfim o enterro! No caminho já quase chegando, percebeu-se alvoroço ao redor do túmulo: um dos coveiros, alcoolizado, caiu dentro da cova, os outros tentavam tirá-lo. Ninguém sabe de onde, apareceram enfim, dois policiais que levaram o coveiro. A vida na cidade é agitada, pensava Marcovina. Desorganização geral? Não, ponderou: talvez a ordem aqui é essa desordem organizada, porque sem ordem não há progresso e ninguém pode negar o progresso que temos, em uma grande cidade como a nossa: polo tecnológico, industrial etc. e tal! Pensando bem, filosofou, a desordem é bem planejada e está distribuída igualmente em toda a área central pelo menos.

Até os acidentes de trânsito, segundo pesquisa recente, indica que estão distribuídos em vários cruzamentos e não só em um ou outro. Apenas chegou em casa desabou um temporal. Olhou pela janela e viu a Rua Barão se transformando em um rio. Enfim, recordou-se de uma frase que lera num muro e que dizia: “Se o bicho é pequeno passa por cima, se é grande passa por baixo”. Consolando-se com esta máxima popular, Marcovina terminou seu dia, dando graças a Deus por estar viva.
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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20/10/2009

Igreja e Estado laico

 

Foi aprovado pela Câmara e pelo Senado o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil. Esse acordo internacional, assinado em novembro de 2008, entre o governo do Brasil e a Santa Sé representada pelo Estado do Vaticano agora acaba de ser ratificado, aguardando a promulgação por decreto do presidente da República. Esse acordo tem 20 artigos, estabelece as bases para o relacionamento entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro. O conteúdo do acordo não confere nenhum privilégio à Igreja Católica, apenas especifica e consolida a relação entre o Brasil e a Santa Sé, tornando esse relacionamento mais transparente.

O acordo em questão vem sanar uma lacuna, dado que o Brasil, um dos maiores países de população católica, não tinha consolidada juridicamente, sua relação com o Vaticano, ao contrário da maioria dos países. Amparado na Constituição, representa uma evolução, consolidando diversos aspectos do relacionamento e presença da Igreja no Brasil. Presença marcante e substancial, sem a qual não se pode escrever a história do País e muito menos de sua cultura. Basta pensar na implantação de escolas pelos padres no processo de aldeamento do planalto central, uma das quais deu origem a uma cidade como São Paulo. A Igreja Católica se inscreve definitivamente entre as entidades benfeitoras, que ajudaram a plasmar a Pátria que hoje temos. O Brasil, mediante a aprovação deste acordo, atualiza-se no palco das relações internacionais.

No entanto, tal acordo foi criticado por muitos que viram nele um perigo para o Estado laico. Há hoje uma tendência de conferir à laicidade um conteúdo antagônico à religião o que acaba sendo laicismo, no qual a fé é desprezada e substituída pelo racionalismo. É uma volta ao movimento iluminista do século 18 que estabeleceu a “religião” da deusa razão, cuja estátua foi entronizada na catedral de Notre Dame em Paris, durante a Revolução Francesa. Laico, no entanto, não quer dizer inimigo da religião. Estado laico não é Estado sem fé ou ateu, mas somente Estado não confessional, sem religião oficial, obrigatória. Estado laico é aquele onde as autoridades religiosas não fazem parte da regulamentação da vida pública. É um Estado não regido por normas religiosas.

A atual constituição do Brasil não propugna um Estado ateu e nem hostil ao cristianismo, como deseja certa parcela da intelectualidade “adultecente” que a exemplo do Prêmio Nobel português, destila seu fel contra Deus. Na base de uma revolta adolescente se declaram ateus, mas não se esquecem de Deus, nem o deixam em paz. No Brasil não há religião oficial, também não há política de repúdio à religião, como certos indivíduos gostariam do alto de suas ideologias antidemocráticas travestidas de populismo. Assim, Estado laico não implica que a religião seja condenada à invisibilidade, pois, o Estado tem obrigação de assegurar a liberdade religiosa, por isso mesmo ele é laico. Não se pode entender laicidade do Estado sem referência à liberdade religiosa.

O presente acordo é bem-vindo, porque ajuda no progresso do relacionamento entre Igreja e Estado, dando segurança ao povo católico, dado que a laicidade é exigida do Estado, mas não do cidadão que justamente devido à laicidade do Estado, tem liberdade para praticar sua fé.

Se existe motivo de preocupação não é com esse acordo, mas com a “Lei Geral das Religiões”, levada avante no Congresso pela bancada evangélica. Aliás, a Igreja Católica não tem no Congresso, nenhum padre em exercício de suas funções sacerdotais, e muito menos bispo. Isso mostra de um lado, a honestidade da Igreja Católica em não misturar as competências e espaços de atuação política e religiosa. E de outro, o respeito à laicidade do Estado que para ser tal, exige que não seja nem legislado e nem governado por religiosos, de vocação ou profissão como se vê no atual Congresso.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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17/11/2009

Pastoral planejada na Igreja

 

Falar em planejamento pastoral parece estranho. Jesus nosso bom Pastor, saiu pelo mundo anunciando o Evangelho do Reino de Deus sem maiores complicações. No entanto, isso não corresponde aos fatos. Por trinta anos Jesus esteve em Nazaré numa longa preparação. No deserto por 40 dias se preparou para sua missão.

O planejamento é necessário, o próprio Jesus ensinou que é preciso planejar (cf. Lc 14,28). Mesmo em época de desencanto com o planejamento ele se faz necessário a cada dia, em todos os setores, se queremos obter êxito. O trabalho do pastor é conduzir e cuidar. Um planejamento de pastoral tem o objetivo de conduzir o trabalho de evangelização e cuidar para que ele seja eficaz.

O planejamento, como reflexão sistemática da ação pastoral não é burocratização da pastoral. É maneira de fazer o melhor. Por isso, a metodologia do planejamento participativo se torna a mais adequada. Na Igreja do Brasil, desde a época do Concílio Vaticano II implantou-se a prática do planejamento de pastoral a partir do Plano de Pastoral de Conjunto (1965).

A Arquidiocese de Campinas, na trilha da renovação conciliar, vem desenvolvendo esta prática do planejamento pastoral. Partindo da realidade, ouvindo os clamores do povo, confrontando a vida com a Palavra de Deus, que ilumina a compreensão dos acontecimentos, parte-se para a escolha de metas e objetivos que devem ser executados.

No primeiro domingo deste mês, houve uma assembleia com representantes de todas as forças vivas da nossa Igreja, para dar mais um passo na elaboração do 7º Plano de Pastoral da Arquidiocese.

Diante do individualismo, da exclusão social, anunciar o Evangelho se torna dever imperativo para todos os seguidores de Jesus. A ética evangélica nos coloca o desafio de vencer o mal fazendo o bem. Para isso é necessário ouvir a Palavra de Deus e comprometer-se na vivência comunitária do Mistério Pascal.

Foram esses os temas tratados nesta Assembleia Arquidiocesana, presidida por nosso arcebispo e coordenada pelo cônego João Luiz Fávero. Somos convidados a colocar as mãos na massa, para construir uma Igreja que se renova para ser sempre mais acolhedora e perseverante no seguimento de Jesus.

Nova reitora para a PUC-Campinas

Em nossa Assembleia de Pastoral esteve presente a professora Ângela de Mendonça Engelbrecht, vice-reitora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Dias depois tivemos a satisfação de vê-la nomeada reitora. Quero dar-lhe os parabéns. Também parabenizar o grão-chanceler da universidade, d. Bruno Gamberini, que a escolheu. Dias atrás aqui nesta coluna um colega cantou loas à atuação da mulher nas pastorais da Igreja de Campinas. Também no mundo da cultura, esta nomeação torna mais evidente a atuação da mulher.

Foi uma escolha feliz, acertada, pelos méritos da professora totalmente dedicada e comprometida com a universidade. Além do doutorado, da experiência acadêmica que a capacita para esta elevada função, é pessoa equilibrada e com objetividade na abordagem das questões, atitude típica de quem se coloca longe das lutas pelo poder, comuns a qualquer academia.

Fazemos votos que a professora Ângela seja feliz, e leve avante o lema da universidade: “Fide splendet et cientia” — Resplandeçam a fé e a ciência (em diálogo).

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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