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Artigos

 

Artigos de autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

08/01/2008

O "Deus nos acuda" no trânsito

 

É grande a preocupação com acidentes de trânsito. Neste período de férias, as mortes nas estradas aumentam. O feriado de Natal foi triste neste aspecto. Retomo o assunto abordado pela Professora Maria de Fátima neste espaço semana passada.

Aumenta a cada dia a indisciplina no trânsito. Quando atentos para observar o que acontece, ficamos pasmos. Acontece de tudo. Todos têm consciência de que nesta questão, a situação é péssima: um Deus nos acuda! Pesquisa realizada pelo Correio Popular em outubro deste ano perguntou: Você acha que os motoristas de Campinas dirigem bem? Resposta: Não 92,2% e Sim 7,8%. Sem comentário.

É preciso promover educação, solidariedade e respeito no trânsito. Um excelente subsídio para tal é a publicação Orientações para a pastoral da estrada do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes, organismo da Santa Sé. Estas orientações, transformadas nos Dez Mandamentos do trânsito Seguro estão sendo encampadas e divulgadas pela CNBB em parceria com o Detran e outros organismos interessados em preservar vidas. Penso valer a pena considerar estes dez mandamentos:

1) Não matar. O carro é instrumento a serviço da vida, convivência e progresso e ao usa-lo se deve respeitar as leis de trânsito para que isto aconteça.

2) A estrada e a rua deve ser para você instrumento de ligação e comunhão entre as pessoas e não local de risco de vida. As estradas são construídas para aproximar as pessoas e favorecer a promoção humana. Não as transforme em matadouros.

3) Cortesia, sinceridade e prudência ajudam você a superar imprevistos. No trânsito é preciso manter o clima de respeito e amor ao próximo. A sensibilidade nas relações humanas é condição para as pequenas e grandes soluções da vida.

4) Seja caridoso e ajude o próximo nas suas necessidade, especialmente as vítimas de acidentes. Amor e justiça são princípios indispensáveis para a convivência humana.

5) Que o carro não seja para você expressão de poder e domínio nem ocasião para pecar. O bom uso do carro depende das boas intenções do motorista: o que se passa no coração se expressa nas relações.

6) Convença com caridade, os jovens e os que já não o são, para que não dirijam quando estão sem condição de faze-lo. Bom senso é princípio indispensável para discernir as condições de dirigir. Se for o caso, aceitar os próprios limites.

7) Ajude as famílias das vítimas de acidente. A solidariedade é importante nas horas difíceis da vida. Faça ao outro o que você gostaria que lhe fizessem neste momento.

8) Reúna a vítima e o motorista agressor num momento oportuno para que possam viver a experiência libertadora do perdão. Fogo não se apaga com fogo nem violência com violência. Só o perdão liberta e da paz.

9) Na estrada e na rua, proteja o mais vulnerável. Cuidado pela vida dos mais fracos é expressão de grandeza.

10) Sinta-se responsável pelo outro. Ninguém é mais que ninguém mas, todos somos menos sem o outro. Segundo a Organização Mundial de Saúde morrem 1,2 milhão de pessoas em acidentes por ano. Que nossa escolha seja promover a vida! Boa viagem a todos.
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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22/01/2008

O papa e a universidade

 

O que faz a Universidade ser universidade não é a ciência propriamente dita, mas a orientação do pensamento para o universal, para indagar sobre tudo e buscar as respostas sobre as diversas questões que são propostas pelo próprio homem desde sempre e a cada época. E assim tender para a unidade do conjunto, já que a Universidade deve ser o local onde as diversas informações se unificam e se orientam para o todo. Se a Universidade deve estar desta forma, aberta às interrogações e questões postas pelo homem, pelo mundo, a questão de Deus também faz parte da Universidade.

Sem a Filosofia e a Teologia, a Universidade pode se identificar a um curso técnico, pois, não estaria aberta ao que está além da técnica. Por isso vai escrever o sábio reitor da Universidade de Dublin, John Henry Newman: “A exclusão da teologia contraria o caráter de universidade como instituição científica”.

A Universidade tem o compromisso de estar aberta a toda informação e conhecimento disponível. Não pode haver neste sentido, Universidade dominada por um pensamento único, de um grupo, que queira impor-se a todos como absoluto, sem respeitar a liberdade da consciência. Por isso, uma das atitudes mais importantes e características de qualquer Universidade é ouvir. Capacidade de escutar o que o outro tem a dizer.

E foi justamente esta atitude fundamental para qualquer Universidade que foi ferida, de forma escandalosa semana passada, quando o Santo Padre Bento XVI teve de cancelar sua palestra na Universidade de Roma La Sapienza. Diante do protesto irreverente, e da intolerância antidemocrática de um pequeno grupo da referida Universidade. Universidade fundada em 1303 pelo seu predecessor o Papa Bonifácio VIII. Palestra que tinha sido convidado a ministrar como bispo da cidade de Roma. Ao aceitar o convite da direção, o Papa pretendia demonstrar seu interesse e simpatia à comunidade universitária. Não foi possível.

É evidente que este pequeno grupo, pequeno mas forte, não representa a maioria das inteligências da instituição em questão. Esta Universidade tempos atrás promoveu encontro mundial de Reitores para elaborar “premissas para um novo humanismo no terceiro milênio”. E certamente este novo humanismo não inclui a intolerância. Por que este pequeno grupo se impôs?

Sabemos, que em qualquer Universidade há um grupo de fanáticos, que se julga dono da verdade. Não só faz barulho, mas intimida. Isto porque busca, sobretudo o poder para se impor: impor a sua verdade. Os membros destes grupos de iluminados, que existem em qualquer Universidade, se tornam extremamente utilitaristas: verdade é o que lhes é útil para obter o poder, pois, quando o obtiverem resolverão todos os problemas. Não se impostam com isso, de trair o genuíno espírito da Universidade, que inclui a tolerância e a capacidade de ouvir o diferente.

A Universidade pode ser laica e estatal, mas a população a que a universidade e o Estado devem servir conta com pessoas religiosas e em certos locais de maioria cristã. Têm o legítimo direito á liberdade religiosa, direito de ver a Universidade pública tratar desta questão que lhes interessa. Por isso, não pode prescindir de ouvir o representante de uma Igreja que conta dois mil anos e tem um tesouro de conhecimento e experiência ética como o Papa. O fato de a Universidade ser laica não torna automaticamente ateus seu corpo docente e seus alunos. A questão da teologia está presente, a questão religiosa se impõe, se a Universidade está realmente interessada na busca da verdade.

O papa teve a gentileza de enviar à Universidade o texto da palestra que deveria proferir pessoalmente. Texto que pode ser lido pela internet e que se intitula Não venho impor a fé mas pedir a coragem para a verdade. Vale a pena ser lido pela erudição, profundidade e oportunidade das questões que aborda. Entre outras coisas diz que a verdade significa mais que saber, pois, só saber nos torna tristes, a sabedoria verdadeira vem do conhecimento como descoberta da bondade.

Que este incidente nos possa persuadir que realmente fé, verdade e ciência nos devem tornar bons e não somente sábios ou “sabidos”.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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05/02/2008

Oração e caridade

 

Viajando pelo Interior de Minas Gerais, cheguei a Baependi. Cidade antiga, encarapitada na encosta de uma colina, como só acontece no mar de morros que é Minas Gerais. Ali tomei conhecimento da existência de Nhá Chica, nome com o qual passou a ser conhecida Francisca de Paula de Jesus.

Nasceu em 1810 em S. João Del Rei, veio para Baependi com 10 anos mais um irmão e a mãe. Morrendo a mãe e tendo o irmão se arrumado, a jovem resolveu seguir o conselho da mãe: viver para a oração e a caridade. Recusando propostas de casamento, morou a vida toda em casa modesta que ainda hoje se conserva. Aí dedicou totalmente a fazer a todos todo o bem possível.

Devota de Nossa Senhora da Conceição, viveu vida de oração, baseada na sua grande fé. Era analfabeta, mas procurou quem pudesse ler-lhe os Evangelhos. Modesta, virtuosa, foi reconhecida como o anjo da cidade, gozando de apreço e simpatia de todas as camadas populares. Mulher pobre, mas rica de fé. Fé que agia através da caridade. Era a mãe dos pobres.

Nhá Chica, ficou famosa em toda a região. Era procurada por pessoas que lhe pediam oração ou uma palavra de conforto e esperança. Através dela, Deus operava milagres. Com o passar do tempo, vinham pessoas consultá-la. Despida da ciência das escolas, tinha em alto grau a sabedoria de Deus. Pessoas instruídas, até mesmo titulares do Império, iam ouvir suas opiniões sempre ajuizadas.

Um médico e livre pensador, Dr. Henrique Monat, deixou publicada uma entrevista que teve com Nhá Chica, segundo ele “uma celebridade em todo o Sul de Minas” na época. Faleceu aos 82 anos, foi sepultada, depois de cinco dias de velório com grande afluência do povo, na Capela que havia construído. Esta capela é hoje o santuário visitado por pessoas do Brasil todo.

Em 1846, a princesa Isabel visitou Baependi e foi protagonista de festividades esplêndidas. Hoje, nada na cidade lembra este fato, nem mesmo uma placa. No entanto, a cidade deixa transpirar o suave perfume desta mulher que os bispos do Sul de Minas propuseram ao Vaticano como candidata aos altares, já tendo iniciado o processo para sua beatificação.

Nhá Chica era clarividente, deixa-nos o testemunho do valor da oração. Jesus diz que é necessário orar sempre e que a oração remove montanhas. A oração bem feita não só nos aproxima de Deus, mas é fonte de equilíbrio porque nos revela a nós mesmos.

Deixa-nos também o testemunho do valor da caridade como realização pessoal. Ao ajudarmos os outros, podemos concluir que, muito mais, ajudamos a nós mesmos. Quem faz o bem fica cada vez mais bom, ao passo que nem sempre o bem que se faz é aproveitado pelos outros.

Iniciando o tempo quaresmal, na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja nos convida a intensificar a oração e a caridade que são caminho e termo, da conversão para Deus, no que consiste nossa realização como pessoas.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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19/02/2008

Vida eterna

 

No dia-a-dia nossos afazeres e preocupações se multiplicam. Preocupações com quê? Com a vida, basicamente.

A Campanha da Fraternidade, muito bem articulada no seu tema e proposta, nos quer fazer pensar sobre a vida. Escolhe pois a vida! É o apelo que recebemos numa realidade de morte, onde a violência crescente é demonstração cabal de que o valor da vida está em baixa.

Refletindo sobre o material colocado à disposição para viver esta campanha, percebi que se fala da vida de forma magistral. A vida é valor supremo que temos, dom maior que recebemos e devemos defender. Denuncia-se a cultura de morte que coloca a ganância de bens materiais, sucesso e individualismo como valores absolutos. A defesa da vida é urgente!

No entanto, chamou-me a atenção foi o que se diz sobre a morte: “Não existe vida sem morte e a morte persiste sendo o grande desafio” (Texto-Base p.52). Diante do aumento de suicídios em todo o mundo, a questão da morte se coloca como contraponto para a questão da vida.

Para nossa cultura, a morte é assunto tabu, mas não deveria. Quem se esquivar da discussão sobre a morte se esquivará da discussão sobre o que chamamos vida. O pensamento da morte está ligado à pergunta sobre o sentido da vida.

Nas primeiras décadas do século passado, a morte ainda era tratada com dignidade. O ato de morrer era um acontecimento vivenciado por pessoas da família e amigos: a morte e o morrer têm um sentido! Porém, nas últimas décadas, a morte é vista como absurdo, um fim detestável, do qual se tenta esquivar. É acontecimento privado: se deve morrer escondido. O morto atrapalha a vida de todo mundo. Na maioria das vezes morrer é interpretado como falência da arte da medicina.

Com a morte sendo vista como absurdo também a vida se torna absurda.

A vida humana é energia e nenhuma energia se acaba no universo: se transforma. Assim sendo, a ciência não pode negar o fato de a vida ter uma continuidade após a morte. Porém nem mesmo aceitando uma vida após a morte desaparece a indignação, o medo e a angústia diante da morte. E tudo isso se reflete na vida: “Que divindade é esta, que, tendo criado o ser humano, deixa-o, depois, tornar-se comida para os vermes?”, indaga o filósofo cristão Kierkegaard.

Penso que junto com o empenho em favor da vida digna para todos, deva haver um esforço para recuperar o sentido da morte e do morrer para o ser humano. “A maneira pela qual nossa sociedade nega a morte não traz esperança, somente aumenta nosso medo e vontade de destruir”, afirma a Dra. Kubler-Ross, estudiosa de tanatologia.

Devemos redescobrir o Deus da vida que se manifestou em Jesus Cristo morto e ressuscitado, para que assim a morte se transforme em vida, vida eterna e feliz.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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04/03/2008

Padre Vieira

 

Neste ano comemora-se o centenário da morte de Machado de Assis, um dos maiores escritores da nossa língua. Mas é de outro que desejo tratar aqui. O poeta Fernando Pessoa o chamou de “imperador da língua portuguesa”. Trata-se do Padre Antonio Vieira, cujos 400 anos de nascimento se comemorou dia 6 de fevereiro passado. Foi um literato de raciocínio engenhoso, missionário, historiador, diplomata: não só erudito, mas também um sábio.

Nascido em Lisboa, com 6 anos de idade, veio com a família para o Brasil. Radicado na Bahia, ingressa no colégio jesuíta de Salvador. Em 1634 é ordenado padre tornando-se um grande orador. Seus sermões o tornaram famoso em todo o reino. Sua obra escrita, de modo especial seus 200 sermões, está impregnada de sabedoria, nela ele aborda temas históricos e políticos de forma magistral. Fascina o estilo, o domínio da língua, mas, sobretudo a exposição da fé que impele à prática da caridade.

Foi homem de estudo e erudição e de ação, que enfrentou com muita coragem as vicissitudes da vida, inclusive processos ante a Inquisição, dos quais acabou anistiado. Morreu em Salvador da Bahia em 1697. Suas atividades no Brasil dizem respeito à defesa da liberdade dos indígenas, à invasão holandesa e o empenho pelo desenvolvimento econômico do País.

Existem muitos volumes impressos de suas obras e neste ano se preparam tantas outras edições mais aprimoradas. São inúmeros os temas abordados em seus sermões entre os quais o mais famoso talvez seja o Sermão da Sexagésima de 1655. Porém em um deles, há um tema utilíssimo, um tanto fora de moda, que me chamou a atenção. Trata-se da omissão, que ele aborda no sermão do primeiro domingo do advento no ano de 1650. O sermão tem como eixo o juízo final, cito a seguir um parágrafos referente à omissão dos governantes.

“Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizestes se hão de condenar muitos, pelo que não fizeram todos. As culpas porque se condenam os Reis são as que se contêm nos relatórios das sentenças: ‘Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. E por quê? Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, porque não recolhestes, não visitastes, porque não vestistes (Mt 25, 42-42)’. Em suma, que os pecados que ultimamente hão de levar os condenados ao inferno, são os pecados de omissão. Não se espantem os doutos de uma proposição tão universal como esta; porque assim é verdadeira em todo o rigor da Teologia... A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete, e com mais dificuldade se conhece; e o que facilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo: e pecado que nunca é má obra, e algumas vezes pode ser obra boa.”

Assim sendo, a corrupção, segundo Vieira, tão alastrada em nosso meio e ampliada pelo famoso “jeitinho brasileiro” se torna mais grave do que fazer o mal, pois faz o mal no lugar do bem que devia fazer e não faz.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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18/03/2008

Pecado social?

 

“Não existe pecado do lado de lá do Equador...”, cantavam na década de sessenta expressando o sentimento geral de depreciação do pecado. Principalmente com o avanço da psicologia e psiquiatria, estudadas nas faculdades e aplicadas nos consultórios, o pecado caiu de moda. Deus morreu, sentenciou Nietsche, o filósofo, ou teólogo-ateu como o chamam alguns. Com seu desaparecimento, já que o pecado é desobediência a Deus, o pecado acabou.

Esta é a reação a um moralismo excessivo, antievangélico de tempos passados, no qual a idéia de pecado era usada não raro, para que, através do medo, a obediência fosse célere. Isto sim é hoje superado no ensinamento e pastoral da Igreja. Necessitamos cautela ao falar da culpabilidade da pessoa, levando-se em conta condicionamentos psicológicos e sociais. A liberdade do indivíduo é um mistério e por isso, Cristo nos proíbe de condenar as ações dos outros: “Não julgueis e não sereis julgados”(Mt 7, 1).

Porém, o pecado existe, e a Bíblia, do começo ao fim seria incompreensível, se não existisse o pecado como recusa do homem ao amor de Deus. Jesus é apresentado como aquele que tira o pecado do mundo (Jo l,29), ele diz que não veio chamar justos mas pecadores (Mc 2,17). Mais que teorizar sobre o pecado Jesus o enfrenta. Ele mostra que o pecado é mal por excelência, corrompe a humanidade, fazendo as pessoas se enfrentarem em lutas mortais, no esquecimento de Deus.

Podemos caracterizar o pecado como “aversão a Deus e conversão às criaturas”, as quais, acabam tomando o lugar de Deus no coração do homem, degradando sua vida. Com esta troca, instala-se uma frustração fundamental que arruína a pessoa no seu ser moral, impossibilitando a convivência feliz da pessoa consigo mesma, com os outros, com a natureza e com Deus. Negando-se ao amor para o qual foi criada a pessoa fica desequilibrada em todo o seu ser.

Fomos surpreendidos pela lista dos “novos” pecados divulgada pela Santa Sé: “Fazer modificação genética, Poluir o meio ambiente, causar in justiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico, usar drogas (cf. Correio Popular, 11/03/08). Na grande Tradição da Igreja, os pecados são resumidos na sua visibilidade e conseqüências como capitais, ou seja, são sete cabeças: soberba, vaidade, luxúria, ira, gula, preguiça, avareza. Haveria uma “nova” lista? Na verdade o que há é uma tradução para hoje destes pecados, um redimensionamento com enfoque social.

Numa época de incrível inter-relacionamento e interação em rede por todo o Planeta, na globalização, “é preciso ressaltar que se ontem o pecado tinha dimensão mais individualista hoje possui uma ressonância sobretudo social”, reconhece a Santa Sé.

Assim, finalmente, o que a teologia latino-americana já ensinava a quarenta anos, ganha dimensão universal na Igreja. O documento de Medellín denunciava as “estruturas de pecado” (2,1) e Puebla falava do “pecado social” (n. 28). Foram mal vistos pela teologia européia desconfiada, acusados de se deixarem influenciar pelo marxismo. Nem mesmo o uso destes conceitos por João Paulo II amenizou a desconfiança: “Pecados sociais, são o fruto, a acumulação e concentração de muitos pecados pessoais” (cf. in AAS 77 (1985) p. 217). E ainda: “Não será fora de propósito falar de estruturas de pecado” (cf. SRS n.36).

Enfim, começa-se a ver um pouco além do “salve sua alma”, da salvação do indivíduo, para pensar na salvação com dimensões sociais: uma salvação integral que envolve não só o indivíduo, mas a humanidade e toda a Criação.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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01/04/2008

Centenário da Arquidiocese

 

A Arquidiocese de Campinas vive seu “ano do centenário”. Há cem anos foi criada a Diocese de Campinas pelo papa São Pio X, que aos 7 de junho de 1908, assinou a bula de criação intitulada Dioecesium nimiam amplitudinem, criando a província eclesiástica de S. Paulo e a sede episcopal de Campinas.

Até então todo o Estado de São Paulo era uma só diocese. A instalação da diocese deu-se a 18 de outubro de 1908. O primeiro bispo foi um campineiro, que por um bom tempo tinha sido pároco de Campinas: d. João Batista Correa Nery. Ele tomou posse em 1 de novembro de 1908. Posteriormente, em 19 de abril de 1958 Campinas foi elevada a arquidiocese.

A diocese é uma porção do povo de Deus confiada a um bispo, sucessor dos apóstolos, que a pastoreia em cooperação com o presbitério. Essa parcela eclesial, congregada na força do Espírito Santo, se une em torno do seu bispo mediante a palavra de Deus e os sacramentos, mormente a Eucaristia. Numa diocese realmente reside e opera a uma, santa, católica e apostólica Igreja de Jesus Cristo.

O nome diocese é herdado dos primeiros séculos do Império Romano. Era denominação de um agrupamento de províncias na época do imperador Dioclesiano. Governadas por um vigário sem funções militares, mas somente administrativas e judiciais. Quando após as perseguições a Igreja se estabelece de forma pública e legal, ela se organizou em igrejas particulares que tomaram o nome de diocese. A designação correta portanto é Igreja Particular no sentido de Igreja que está em um lugar determinado.

Este centenário traz em si a evocação de muitíssimos fatos que desde a criação da diocese de Campinas influíram na vida da população. Sendo honesto, um historiador não poderá contar a história de Campinas, sem atentar para a importância da Igreja no desenvolvimento da cidade e região.

É conhecida a vocação de nossa cidade para a solidariedade e a promoção da educação. Nessas duas áreas destacou-se a Diocese de Campinas pela ação de todos os seus membros a partir da ação de seus bispos. Basta considerar aqui, pela exigüidade de espaço, os dois primeiros.

D. Nery que tinha saído de Campinas, fora nomeado bispo do Espírito Santo, como benfeitor da cidade quando da febre amarela, ao retornar como seu primeiro bispo, intensificou a ação evangelizadora, sempre acompanhada de obras. Em uma cidade de 40 mil habitantes devastada pela doença e com grande número de órfãos, d. Nery criou o Liceu de Artes e Ofícios (Salesiano), a creche Bento Quirino, o Ginásio Diocesano, a Escola Agrícola. Durante a epidemia de 1919 transformou o Ginásio Diocesano em hospital da Cruz Vermelha e o Seminário Episcopal em pronto-socorro.

D. Francisco de Campos Barreto o segundo bispo foi também um batalhador. Entre suas inúmeras iniciativas está a criação da universidade católica. Na época a juventude campineira tinha de estudar fora. Foi a diocese que se preocupou em dar oportunidade para os jovens ficarem aqui e estudar. A Unicamp viria algumas décadas depois pela ação do Estado.

É uma efeméride que merece ser comemorada. O papel da diocese na história de Campinas é significativo, ao ponto de se poder dizer que, sem ela a história seria muito diferente, para pior, com certeza.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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15/04/2008

Isabella e as outras

 

A menina Isabella foi morta e atirada pela janela. Impossível não comentar mais este crime contra a criança. Isabella e outras crianças sofreram e sofrem as conseqüências de nossa cultura de morte na qual os fracos não têm vez.

Inúmeros são os casos de crianças abortadas cujos corpos servem para produzir sabonete, como denunciou Heitor Cony na semana passada. Crianças exploradas sexualmente, alavancando o turismo em regiões do Brasil. Crianças abusadas por pedófilos de todas as classes sociais, religiosos inclusive. Submetidas a trabalho estafante para sobreviverem, torturadas em casas de família, colocadas nas prisões com adultos, jogadas no lixo ou assassinadas pelos pais. Estas são as notícias que relatam o calvário das crianças. Vale observar que o infanticídio é comum em muitas culturas. Certas tribos indígenas, no Brasil, cuja cultura apresenta aspectos admiráveis não hesitavam (ou hesitam) em matar crianças com defeitos físicos, ou gêmeos, um deles.

A criança, que é solução de continuidade da vida, tornou-se um problema. O que fazer com uma criança? Alternam-se em relação a elas momentos em que são festejadas, bajuladas, fotografadas, com momentos de relacionamento nervoso, agressivo ou indiferente. É evidente que neste relacionamento se mostram os desequilíbrios dos adultos. O que fazer com adultos que não cresceram?

A comoção com o caso Isabella indica que nos últimos tempos, tem aumentado a sensibilidade da opinião pública com o drama das crianças. São inúmeras as iniciativas da sociedade para melhorar a vida delas. A CNBB numa Campanha da Fraternidade (1987) apresentou a criança como esperança para o povo. A Pastoral da Criança, reconhecida pela sua eficiência, representa iniciativa exitosa da Igreja Católica que salva inúmeras vidas.

A sabedoria do judaísmo e do cristianismo coloca na gestação de uma criança três sócios: pai, mãe e Deus. Os pais como sócios ativos, Deus como a silenciosa fonte da vida. Daí a sacralidade de uma criança. A limitação da vida humana é compensada com o consolo da descendência. A criança constitui a surpresa do dom da vida. Ela é fraca, impotente, por isso necessita do auxílio dos que a cercam. Deve ser acolhida, amada e educada.

Como ideal de amor pelos pobres e fracos, os Evangelhos apresentam preferência marcante pelas crianças. Jesus valoriza a criança numa cultura que as desprezava (Mt 18, 2-3), traziam crianças e Ele as abençoava (Lc,18,15). Coloca-se no lugar das crianças: “Quem receber uma criança em meu nome está recebendo a mim”. E dizia: “Deixai vir a mim os pequeninos”(Mc 10,14). Porém nenhuma advertência no Evangelho é mais terrível que esta: “Seria melhor para aquele que escandalizar um destes pequeninos, que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar”(Lc 17,2; Mt 18,6). Os pequeninos aqui são as crianças, embora se possa entender também as “crianças na fé”.

Não precisa escrever mais nada, é só refletir!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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29/04/2008

Crianças com vida nova

 

A moça se enfureceu, se alterou. Culpa do mal no mundo. É muita maldade, me dizia! Onde está Deus que permite tal descalabro? Estava nervosa devido às barbaridades que acontecem com as crianças, conforme notícias veiculadas diuturnamente nas últimas semanas. Se Deus existe, é um sádico, o que não pode ser. Por isso, não existe Deus, sentenciou, professando-se atéia.

Respeito as opiniões, respeito os ateus, mas sinceramente não os invejo. No mundo do ateu não há a quem agradecer. Não há gratidão, não existem mistérios e, portanto, não tem poesia. Falta alegria, sobra amargura.

Coincidentemente, terminada a conversa com a moça, fui visitar, a convite, o Núcleo 2 da Obra Social São João Bosco, situada no bairro Vida Nova aqui em Campinas e dirigida pelos salesianos na pessoa do Pe. Plínio Possobon. Ali pude constatar que Deus faz muita coisa para ajudar as crianças, muita mesmo, e o faz através das pessoas. Não se pode esperar intervenções fantásticas de seres celestes para fazer o que nós podemos fazer.

A Obra Social São João Bosco está enraizada em Campinas desde o início do século passado, tendo sua sede no Externato São João, no Centro da cidade. A árvore frondosa ramificou com exuberância. O último ramo a florescer é o Centro de Atendimento Socioeducativo Dom Bosquinho, que atende 90 crianças de 3 a 5 anos em período integral, ali, junto ao Externato São João.

Há o serviço socioeducativo para crianças e adolescentes, atendendo 422 educandos, parte no Vida Nova, parte no Parque Oziel. Há o serviço socioeducativo para adolescentes e jovens com 587 educandos. O Centro de Defesa da Criança e Adolescente, com 104 atendidos. O Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas da Violência Doméstica, com 102 atendidos; o Grupo União para famílias extremamente pobres, com 357 atendidos; o projeto Vivaleite, com 207 atendidos; o Projeto Liberdade Assistida, com 164 atendidos; as Oficinas de Geração de Renda e Trabalho, com 136 famílias atendidas. Há o serviço de assistência a meninos fora da escola, aos quais é oferecido o supletivo. A Creche Nave Mãe, com 500 crianças do Vida Nova, é uma parceria da Obra Social São João Bosco com a Prefeitura.

Todas essas coisas boas são feitas sob inspiração de Deus, que é amor e inspira o amor no coração das pessoas, geralmente propensas ao egoísmo, embora com capacidade de amar. As maldades são por nossa conta, apesar de o mal ser um problema indecifrável. Mas a novidade do cristianismo é a fé na vitória da vida sobre a morte!

Como dizia G. K. Chesterton: “Um homem do tempo de Voltaire não sabia que milagre a seguir ele teria de repelir. E o homem do nosso tempo não sabe que milagre a seguir ele terá de engolir”. Está aí, nessa Obra Social São João Bosco, o milagre da fraternidade, que Deus quer realizar através de nós. Poderíamos não só engolir, mas colaborar.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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13/05/2008

Impunidade

 

Irmã Dorothy Stang foi assassinada por um pistoleiro, com seis tiros. A arma que ela tinha nas mãos era a Bíblia, com a qual tentou durante anos, animar pobres e excluídos da região onde trabalhava como agente da pastoral social da Igreja Católica.

Foram presos os pistoleiros que estavam refugiados nas terras do fazendeiro Bida interessado na morte da freira. Todos foram julgados e condenados. O fazendeiro, reconhecido como mandante do crime, condenado a 30 anos de prisão mediante provas apresentadas em juízo.

Quando todos acreditavam que a justiça estava feita, a própria Justiça, o Judiciário com seu sistema intrincado e os jurados, lembraram-se de um velho adágio popular que não fora cumprido: “Quem rouba um tostão, mil anos de prisão e quem rouba um milhão, mil anos de perdão”. Assim resolveu-se por novo julgamento, pois, quando o crime é grande e o criminoso tem dinheiro, status e bons advogados para argumentar com juízes e jurados, deve ser absolvido. Ademais não há nenhum mandante preso por morte no campo no Estado do Pará.

Em novo julgamento, o fazendeiro, que neste ínterim pagou dívida de R$ 100 mil para o assassino da freira, foi absolvido. Mesmo sendo acusado de outros crimes ambientais e exploração de trabalho escravo. Até o presidente da República que desculpa crimes como o mensalão (todos fazem isso) e elogia políticos cassados, se indignou com a absolvição do fazendeiro e avaliou que esta absolvição prejudica a imagem do País. Embora o ministro da defesa tenha rebatido que o Brasil não toma decisões por imagem. Deveria, no entanto, porque o País é signatário da Carta dos Direitos Humanos da ONU e outros tratados internacionais, tendo compromisso no conjunto das nações.

Ao ser libertado, o fazendeiro declarou que fora vítima da morte da freira: a freira teve a infelicidade de ser assassinada e esse assassinato o vitimou. Inocente, preso por três anos, não pensa em processar o Estado. Resultado final: a freira assassinada é a culpada, estava no lugar errado na hora errada, e por isso ele teve de sofrer. Mas enfim a compreende, até seria seu amigo. Eis um monumento ao cinismo: a vítima transformada em algoz.

Muitos se perguntam: como pode acontecer isso? Em seu livro sobre o assassinato de Cristo, Wilhelm Reich dá uma explicação plausível: “Para livrar-se da sujeira é preciso sujar a vítima” (p.173). Diz ainda que os homens preferem Barrabás porque ele está de acordo com a maneira de viver e pensar deles, o que não é o caso de Cristo.

Indo por esse caminho, em um mundo onde os fracos não têm vez, a vítima será sempre a culpada. Assim sendo, é bem provável que o veredito final no caso da menina Isabella, seja o de que ela era uma menina difícil, irritou-se com os pais dentro do carro, saiu furiosa, se feriu na testa, subiu correndo de elevador e ao chagar em casa se esganou e se atirou pela janela. Tudo isto por desobediência aos pais, para contrariá-los e deixa-los em má situação. Devidamente libertados, no entanto, os pais a perdoarão.

A justiça está inscrita no coração das pessoas, é exigência para uma vida feliz. Está presente ao longo da narrativa bíblica: Deus é justo e abomina a injustiça. As injustiças cometidas por reis e juízes contra os pobres e fracos, são ofensas á própria santidade de Deus clamam os profetas (Am 2,6ss). Por isso, o próprio Deus fará justiça a qual tarda, mas não falta. A justiça faz parte do ser bondoso de Deus a impunidade faz parte da perversão da justiça praticada pelos homens.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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27/05/2008

Campinas mariana

 

Faz um ano, reuniram-se os bispos latino-americanos em Aparecida. Ali, junto ao santuário, constataram a fé dos romeiros e a devoção à Maria. Eles deixaram escrito no nº 266 do documento final: “A máxima realização da existência cristã nos é dada na Virgem Maria que, através de sua fé e obediência à vontade de Deus, assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus, é a discípula mais perfeita do Senhor (cf. Lc 1, 38-45)”.

Ao longo da história de nossos povos, Maria, a mãe de Jesus, o Filho de Deus, tem sido companheira constante, mãe e amiga. Não existe uma nação na América Latina que não tenha seu santuário mariano. Como na família, a Igreja-família é gerada ao redor de uma mãe, que confere ternura à convivência familiar. Maria atrai multidões à comunhão com Jesus e sua Igreja.

No Norte do Brasil, é Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará e, no Sul do País, sob a denominação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, é grande a veneração à Mãe de Jesus. Aliás, ao longo da história do Brasil, ela é presença constante e importante desde a chegada dos portugueses, que trouxeram sua devoção. Assim como no México foi Nossa Senhora de Guadalupe que reconstruiu a nação devastada, aqui no Brasil foi a devoção a Nossa Senhora Aparecida, a “negra Mariana” que deu força para os escravos acreditarem na sua dignidade.

Também a história de Campinas está ligada à figura de Maria desde seu início. Quando se criou a freguesia e se fundou a cidade em 14 de julho de 1774, Maria foi escolhida como padroeira com a invocação de Imaculada Conceição. Era a devoção do Reino Português, do qual fora declarada padroeira pelo Rei D. João IV em 1646.

Historiando a fundação de Campinas, escreve José Roberto do Amaral Lapa em sua obra “A Cidade, os Cantos e os Antros, à página 49: “O rocio foi doado pelo fundador Francisco Barreto Leme, que cedeu parte de sua propriedade à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. As suas terras acredita-se que fossem de uma das primitivas sesmarias, que pertencera a Antonio da Cunha de Abreu, medindo uma légua em quadra e tendo como referência dessa medição o local do campinho do meio, onde hoje se encontra a Praça Bento Quirino e a Matriz do Carmo”. Mais adiante, o mesmo historiador afirma que uma fundação como foi a de Campinas “exige reserva de domínio e a propriedade plena de uma área por parte de dois poderes, sem os quais aquela vida não logra definir-se e evoluir”.

No Centro da cidade, os dois templos católicos são dedicados a Maria: a monumental obra de arte que é a catedral da Imaculada Conceição e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo. Sem se esquecer que havia a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, demolida para alargar a Avenida Francisco Glicério. Está aí um dado da história da cidade que não se pode negar, mesmo que não se queira aceitar. Que a Mãe de Jesus vele pelo futuro de nossa cidade.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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10/06/2008

Cavaleiro do Apocalipse

 

O livro do Apocalipse nas inúmeras imagens que contém, apresenta a figura dos quatro cavalos ou cavaleiros (Ap cap. 6, 1-8). O cavalo, usado na antiguidade mais para atividades guerreiras, simboliza violência, desastre e julgamento divino sobre a maldade humana.

Estes quatro cavaleiros representam a história da humanidade dominada pelo mal, sempre misterioso, mas que tem sua fonte manifesta na ambição de poder (primeiro cavaleiro — branco), que gera competição e guerra (segundo cavaleiro — vermelho), cuja conseqüência é o racionamento e a fome (terceiro cavaleiro — preto) e por fim a doença e a morte (quarto cavaleiro — amarelo).

Apesar do grande, maravilhoso desenvolvimento que a humanidade tem atingido nestes últimos anos, há um lado obscuro e retrógrado que não se consegue superar. Precisamos pensar sobre isso. O recente relatório da Anistia Internacional (AI) referente aos direitos humanos chega à conclusão de que o mundo ficou mais perigoso e dividido: “A injustiça, a desigualdade e a impunidade são hoje as marcas distintivas de nosso mundo”, afirma a diretora Irene Khan.

Para completar o quadro, parece que está solto o terceiro cavaleiro do Apocalipse: a fome ameaça a humanidade com intensidade inesperada. A agravante é que a alta dos preços dos alimentos, nunca ocorreu de forma tão acentuada em tempos de paz como agora.

Aumenta o preço do petróleo e da comida. Por diversas razões não é possível aumentar a produção nem de um nem de outro para satisfazer o consumismo ilimitado que tomou conta de tudo e de todos.

Assim, se os padrões de consumo não se acomodarem à disponibilidade dos recursos naturais, se a produção de bens não visar mais às necessidades básicas das pessoas que o lucro, haverá conflitos geradores de escassez e fome.

Alastrando a fome pelo mundo, teme a ONU que coloque em risco não só o combate à pobreza, mas também a paz mundial. Os Vicentinos aqui da paróquia distribuem todo mês cestas básicas aos seus assistidos, já sentiram o drama do aumento incomum da cesta básica nos últimos meses.

Todos precisamos fazer alguma coisa que esteja ao nosso alcance, quem sabe não explorando ao vender alimentos, partilhando e com certeza, não desperdiçando comida, costume tão difundido entre nós. Que Deus nos ajude a deter esse terceiro cavaleiro do Apocalipse. Enquanto é tempo!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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24/06/2008

Missa da Glória

 

Tive oportunidade de assistir, no Centro de Convivência, o concerto lembrando os 150 anos de nascimento do compositor Giacomo Puccini. A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas se apresentou com dois corais: Collegium Vocale e Meninos Cantores de Campinas. Este último canta na missa, na Basílica do Carmo, um domingo por mês e foi a motivação de minha presença nessa apresentação.

Com o auditório repleto, à hora marcada, o que não deixa de ser admirável, sem discursos ou coisa do gênero, iniciou-se o espetáculo. Após o intervalo, foi o momento da peça principal da noite, motivo da presença de uma platéia muito atenta. A orquestra e os corais, perfazendo umas 130 pessoas no palco, apresentaram a Missa da Glória.

A apresentação foi esplêndida, os aplausos no final fortes, assemelhando-se a algo represado que enfim se solta. Um longo aplauso, emocionado e merecido. A platéia teve o bom senso de não pedir bis. Os músicos e cantores estavam exaustos pelo esforço de executarem uma peça tão elaborada, com caráter operístico. A execução não perdeu em nada à que pude assistir anos atrás em Lucca, cidade natal de Puccini.

Durante a apresentação, observando a atitude reverente da assistência, concentração dos músicos, ouvindo aquela música sagrada e bem interpretada, pareceu-me estar em uma catedral. Foram cantadas as várias partes da missa em um latim bem pronunciado tanto pelos corais como pelos solistas. Na parte do credo: “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine”, um menino, ali bem perto de mim, que imitava o maestro, regendo com seus pequenos braços, parou, ficou imóvel. A beleza da música o comoveu, a atenção extrema da platéia o contagiou. É evidente que o conteúdo das palavras lhe era desconhecido: E se encarnou (Jesus) pelo Espírito Santo em Maria Virgem.

Foi uma “missa” na qual todos estavam reunidos e unidos pela beleza. Uma típica “missa” de uma cidade secular, na qual crentes e não crentes se unem para um encontro com o sublime, a partir da arte e da beleza. Se Deus é a suprema verdade, não podemos esquecer que é também a suprema beleza. Podemos ir até Ele pelo caminho da verdade, complicado de se trilhar. Muito mais, poderemos ir pelo caminho da beleza, um caminho mais suave.

Li certa vez uma entrevista do Cardeal Dannels na qual dizia: “O belo pode fazer a síntese do verdadeiro e do bem. Verdade, bondade, beleza são três nomes de Deus e três estradas de acesso a Ele. Até agora, no entanto, a estrada da beleza tem sido muito pouco usada”. Santo Agostinho com razão escreveu: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Eis que estavas dentro e eu fora de mim!”.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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08/07/2008

"Lei seca"

 

A lei nº 11.705, que proíbe dirigir alcoolizado, está causando polêmica. Era de se esperar, dado a propaganda maciça que se tem feito de bebidas alcoólicas nos meios de comunicação. Os que são contrários à lei alegam o direito de beber livremente e, ainda, o direito de dirigir embriagado. Mas seria esse um direito? Poderia até ser, se não trouxesse consideráveis desgraças para a coletividade.

Uma coisa é você sofrer sozinho as conseqüências de uma bebedeira. Outra coisa quando as conseqüências afetam os outros. Mesmo antes de existir o Estado que faz e regula as leis visando ao bem comum, já existia o direito natural à vida. Assim, é correto afirmar que ninguém tem direito de dirigir embriagado, dado que isto prejudica a vida, ameaça a coletividade.

Quem de nós já não presenciou ou teve notícia ao menos de pessoas acidentadas, mortas no trânsito devido à embriaguez? Que desperdício de sofrimento e recursos! Exclamava um bombeiro ao socorrer pessoas acidentadas no trânsito devido à irresponsabilidade de quem dirigia embriagado. Aliás, o que era mais comum do que se pensava. As estatísticas evidenciam a redução drástica de acidentes nestes poucos dias de funcionamento da proibição, e da fiscalização. De fato, beber e dirigir são atividades incompatíveis.

Pais e educadores se preocupam com o alcoolismo que se alastra entre nossos jovens. Eles são as maiores vítimas da propaganda de bebidas. Ademais, o álcool acaba abrindo as portas às outras drogas e multiplicando o número de viciados. Uma vez instalado o vício de beber, o alcoólatra vai sendo destruído por ele. Alcoolismo crônico é doença, regada por grandes ou pequenas doses. Entra-se nele geralmente com a finalidade de superar problemas, mas, na realidade, criam-se outros, maiores.

A lei que proíbe dirigir alcoolizado deve ser aplaudida por todos, pois dela todos se beneficiarão. A lei, que protege a vida tanto nossa como dos demais, merece apoio.

Se eu fosse relatar os dramas que já presenciei, as situações terríveis de pessoas e famílias, devidas ao alcoolismo, nas quais já tive ocasião de interferir como padre, para minorar os sofrimentos, precisaria muito papel. Aqui na paróquia funcionam os grupos Ceread e Al-Anon, ambos dedicados à recuperação de alcoólatras. Eles provam que aqueles que se libertam da bebida adquirem vida nova.

Vamos fazer um brinde à vida, apoiando essa lei que já está evitando tanto sofrimento. Qualquer sacrifício para cumpri-la vale a pena, dado que é uma lei em favor da vida e quando a vida é defendida, todos saem lucrando.
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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05/08/2008

Pão nosso

 

Quem de nós já não rezou a oração do “Pai nosso” na qual pedimos o pão nosso de cada dia? Ou rezou, ou ouviu rezar. O pão aparece freqüentemente na Bíblia com significado todo especial. Não só é o alimento símbolo de todos os demais alimentos, mas o próprio Deus se fez pão para nós: “Jesus tomou o pão, abençoou e disse tomai e comei isto é meu corpo” (Lc 24,30).

Pão, em todas as culturas é tema central. Na vida cotidiana, sentimos a importância da alimentação. Às vezes, a pessoa diz “estou morrendo de fome”. Não é só uma expressão, é realidade: se não comermos por um tempo prolongado, morremos. Nunca se produziu tanto alimento no mundo como hoje e, no entanto a fome nunca foi tão fatal.

Os evangelhos narram também a multiplicação dos pães. Grande multidão seguia Jesus. Estavam em um lugar longe das cidades, entardecia e o povo tinha fome. Os apóstolos questionam Jesus sobre o que fazer. Jesus lhes responde: “Dai-lhes vós mesmo de comer” ( Mt 14,16). Eles procuram e só encontram cinco pães e dois peixinhos que alguém ali possuía e colocou à disposição. Jesus ora e abençoa mandando distribuir. Todos comeram e ainda sobrou. O que sobrou foi recolhido.

Neste acontecimento há um convite para imitar Jesus realizando a multiplicação dos pães. Deus supremo doador dá à natureza condições de produzir o alimento necessário, mas confia ao ser humano a organização da produção e distribuição dos alimentos. Assim, a lição que Jesus dá na multiplicação dos pães é a lição da solidariedade que sabe partilhar. Onde há partilha não há fome. Jesus sinaliza neste episódio uma maneira diferente de organizar a sociedade, na qual o egoísmo e a ganância não formam o núcleo central do sistema mas sim a vida.

É certo que Jesus disse também que nem só de pão vive o homem. Na verdade, se eu tenho fome, é um problema material meu, mas se meu irmão tem fome, é um problema espiritual meu. Ou seja, nós não vivemos bem só quando estamos bem alimentados, mas vivemos bem quando todos estão bem alimentados. O ser humano se alimenta do pão material, imprescindível, e do amor que faz partilhar, pensar nos outros.

O que sobrou foi recolhido. Com isso, o narrador do milagre de Jesus quer nos dizer que também o desperdício de comida provoca a fome. Isto merece uma reflexão à parte.

Em nosso País é grande a produção de alimentos, inclusive para exportação. Mas a fome é presença constante. As campanhas desenvolvidas para contornar o problema da fome são interessantes, “quebram o galho” mas não resolvem. O projeto popular de vida plena para todos com dignidade, ganhou o poder, mas não ganhou o Estado. Temos democracia política, mas não democracia social.

Continuamos esperando o milagre da multiplicação dos pães que Deus espera que nós realizemos na perspectiva do Reino de Deus e que se chama distribuição de renda. Uma justa distribuição de renda dará pão sem assistencialismo e sem criar dependências.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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19/08/2008

Semana da família

 

Semana passada foi vivenciada pelas comunidades cristãs da Igreja Católica, a semana da família. Foram realizadas diversas atividades visando ressaltar o valor da família. A partir deste evento, é sobre a família que desejo discorrer com você meu caro leitor ou leitora.

A partir da revolução industrial do século 19 as transformações da família aconteceram com mais intensidade. A propagação do malthusianismo, teoria de Robert Maltthus, economista e pastor inglês, tiveram grande influência. Com base no perigo da explosão demográfica, ele propunha o controle da natalidade, juntamente com políticas “anticrianças e antimaternidade” ao passo que responsabilizava os pobres pelos males sociais. Também o marxismo colocou a família como antagônica a seu projeto: ela seria instrumento da burguesia; conservadora e empecilho à revolução.

Desta maneira, com inimigos à direita e à esquerda, previa-se que a família estava fadada a desaparecer da sociedade. No entanto, não é o que aconteceu. Pesquisa recente de um dos maiores jornais do País revela que a família é a instituição mais valorizada juntamente com a religião. Dos entrevistados da classe A e B 79% consideram a família “muito importante” e 59% da classe D e E deram a mesma resposta. Pois é, a família continua muito viva, mesmo que haja discussão ao redor do que se entende por família.

Estudando o resultado da referida pesquisa, estudiosos opinaram que os mesmos seriam reflexos do desejo de maior segurança diante das incertezas da vida, em meio a uma “sociedade de risco”. São opiniões bem fundamentadas, porque já na pré-história o homem buscou segurança nas cavernas diante de uma sociedade de extremo risco. E por incrível que pareça, buscou viver em grupos. Podemos concluir que a família é uma organização pré-social. Está na base do ser social da espécie humana. Assim, família e individualismo não rimam. A valorização da família pode ser um contraponto ao individualismo reinante, o que indica a vocação da espécie humana para a comunidade e não para o isolamento.

Na sociedade deste início do século 21, existem diversos arranjos familiares que compõem a nova realidade da família. Apesar de tudo isso a família continuará sendo o núcleo básico, essencial e estruturante do sujeito. Podemos afirmar que a família delineia-se, no desígnio do Criador (ou na realidade social, para quem não crê em um Criador) como lugar primário da humanização da pessoa e da sociedade, berço da vida e do amor.

A Pastoral Familiar da Arquidiocese de Campinas tem trabalhado com serenidade e persistência em prol das famílias. Tenta-se criar a convicção de que uma sociedade mais justa e fraterna depende da atenção às famílias. A desestruturação da sociedade cresce à proporção em que se desestruturam os núcleos familiares. Com o fortalecimento dos núcleos familiares, a sociedade só tem a ganhar.
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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02/09/2008

Apagão (urbano) da memória

 

Campinas completou 243 anos de sua fundação em julho. O evento mereceu destaque no Correio Popular, com o caderno especial Faces da Metrópole. Aí se registra com a competência de sua equipe de jornalistas, a identidade própria da cidade, alicerçada “na vanguarda das pesquisas e base tecnológica”. Tem em sua gente a força motriz da transformação.

No penúltimo domingo de agosto, no entanto, outra reportagem do Correio descrevia a “boca-do-lixo campineira”, ou seja, o Centro da cidade e intitulava de “apagão urbano” a situação na qual está mergulhado o coração da cidade. A degradação do Centro mostra a dificuldade das cidades para manter seu centro organizado, mas, sobretudo, mostra o descaso com a memória. Parece que no centro, onde a cidade começou, tudo pode ser deteriorado que não faz diferença.

Nossa época é avessa à História. A tendência é esquecer o que aconteceu e também não se interessar pelo futuro, a não ser quando entram interesses econômicos. Predomina o instante. Isto é bom? Penso que, se nos preocupamos com os frutos de uma árvore, os quais representam o presente e descuidamos das raízes da árvore, que representam o passado, é ruim, pois, lá na frente, a árvore pode ser prejudicada, embora se possa das sementes plantar outras árvores, mas não será a mesma.

A História guarda a memória. Quando aparecem crises na história de uma sociedade, é a memória histórica que ajuda a superá-las. Alguém já disse que a memória é a melhor bagagem de um viajante, ela não o deixa esquecer de onde saiu, porque empreendeu a viagem, conseqüentemente ajuda-o a alcançar a meta. Nas ruas e edifícios do Centro de Campinas estão sua memória histórica.

A Praça Bento Quirino e a Basílica do Carmo aí situada, p. ex., é o berço da cidade nascida no dia de seu “batismo”: a primeira missa celebrada pelo primeiro pároco, Frei Antonio de Pádua Teixeira, e a invocação da padroeira escolhida: Nossa Senhora da Conceição. Conseqüentemente, Campinas nasceu cristã. Se considerarmos a História da cidade este fato significativo não deve ser esquecido, mesmo porque, até hoje, cristã é a grande parte de sua população. É evidente que na fundação de uma cidade entra uma gama complexa de interesses socioeconômicos e políticos. Mas não podemos simplificar na base do materialismo histórico. O ser humano é também coração, cultura e, no âmago desta, há o sentimento religioso, a religião, a fé.

A Basílica, que por muitas décadas foi a matriz da cidade, é um símbolo deste “berço cristão” de Campinas. Que ela nos recorde a força da ética cristã, a qual pode nos ajudar a superar o monstro da ganância patológica que ataca nossas cidades, para instalar nelas a sombra do medo, miséria e violência, que geram todo tipo de degradação. Que a ética cristã possa nos ensinar o valor da convivência pacífica e libertadora, inspiração para a recuperação do coração doente de nossa cidade.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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16/09/2008

É a política

 

Pela cidade, nos meios de comunicação está correndo a campanha política. Assistimos, ouvimos, analisamos as propostas dos candidatos dos vários partidos. Não são poucos os candidatos, para a vereança em Campinas são centenas. É a política!

Política é uma realidade cheia de contrastes. É o conjunto de ações pelas quais se busca uma forma de convivência construtiva. O ser humano vive de relacionamentos. Eles são vitais. Através deles pode-se construir uma sociedade feliz ou infeliz, dependendo da direção que se der ao dinamismo da vida econômica, cultural e social.

A política verdadeira é busca do bem comum, entendido como o conjunto de condições concretas, que permite às pessoas um nível de vida com dignidade. O Estado é responsável pelo bem comum, que é sua razão de ser. A única justificativa para se disputar um cargo público é o desejo de buscar o bem comum e promover a dignidade das pessoas.

Analisando as propostas dos candidatos pode-se perceber nas entrelinhas que o objetivo de muitos, na verdade é conquistar posições, nas quais indivíduos e grupos possam, mais facilmente, exercer domínio sobre os outros e daí auferir dividendos. Na contramão deste vício dos políticos que buscam eleger-se para levar vantagem em tudo, ensina o papa Paulo VI: “a política é uma maneira exigente de viver o compromisso cristão do serviço aos outros”.

A Igreja Católica está realizando um mutirão de conscientização dos fiéis neste mês pré-eleitoral. Em todas as missas do domingo se distribui e comenta um folheto sobre política. Bem comum, dignidade da pessoa, tem tudo a ver com a pregação de Jesus cujo núcleo é o Reino de Deus, presente em uma sociedade justa e fraterna cujo fruto é a paz. Será sonho? Sim é sonho da humanidade em todas as épocas, mas também de Deus.

Existem políticos que desejam se eleger prometendo tudo de bom para os animais. Nada contra animais, porém isto é o avanço do atraso, em matéria de política. Se a população da cidade estiver bem, se não estiver matando os filhos, esquartejando e colocando no lixo, os animais serão bem tratados e viverão bem. Bem cuidados pelos humanos que estarão bem. Como o Brasil, que detém a taxa de 10% dos homicídios de todo o mundo, poderá cuidar bem dos animais?

Na civilização do Egito Antigo os animais eram adorados: eram deuses! Como a injustiça e opressão eram a regra, esta civilização se finou em ruínas. Que, aliás, podem ser visitadas pelos turistas. Política para os humanos em primeiro lugar, para que possam tratar os animais com humanidade.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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30/09/2008

Nossa Senhora Aparecida

 

Chegou a Primavera, estamos para iniciar o mês de outubro. Na Igreja Católica, este é mês das missões. Há o convite para refletir sobre a missão de Jesus em favor do Reino de Deus, e nossa missão de seguidores seus, comprometidos em anunciar o Reino. Essa missão tem implicações concretas na realidade social, pois, “O Reino de Deus é justiça, paz e alegria”, escreve o Apóstolo Paulo (Rm 14,17).

Nesse sentido, as eleições são uma ótima oportunidade de crescer em cidadania, ajudando a eleger candidatos que trabalhem pelos valores do Reino. Em especial, que trabalhem para dar alegria ao povo, entristecido por tanta violência e corrupção. Só temos duas armas para mudar a Nação: a urna e o canhão. Usemos a urna, para banir da vida pública os incompetentes e corruptores. É necessário criar uma cultura da política de honestidade e trabalho em favor do bem comum.

É nesse contexto que nossa Igreja se prepara para celebrar a festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A Mãe de Jesus foi discípula fiel de seu filho e sua última palavra nos relatos bíblicos, indicam sua posição em relação a Ele: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo. 2,5). Maria se faz missionária da Palavra viva que é Jesus. E é isto que ela tem sido no Brasil ao longo dos anos. Milhares na nossa história encontraram Jesus nos braços de Maria, como os magos do Oriente conforme relatos evangélicos.

Essa pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição que o povo apelidou de Aparecida e cuja devoção começou em 1717 no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, tem um significado especial para a maioria da população pobre, excluída e escrava daquela época. E também nos séculos seguintes. Escravizados pelos senhores, desprezados pelas castas burocráticas e corporativistas do Brasil colonial, imperial e republicano, o povo recorre a esta mãe bondosa. Também sem poder encontrar na religião a força para perceber o amor de Deus, o povo recorreu igualmente ao Bom Jesus Sofredor e a sua Mãe Maria.

A Imaculada Conceição era padroeira do Reino de Portugal e do Império Brasileiro, e continua sendo do Brasil de hoje que a honra com este feriado. Nosso povo cristão deve reunir-se ao redor desta mãe para se confraternizar. Maria é ponto de união entre o céu e a terra, pois foi nesta mulher que a Palavra se fez carne, deve ser também ponto de união entre os seguidores de Jesus. Graças a Deus o diálogo ecumênico tem possibilitado grandes progressos na compreensão da figura de Maria, de quem Lutero foi devoto fervoroso até o fim da vida. Por estes dias teve lugar no santuário de Lourdes na França, a primeira peregrinação de católicos e anglicanos. É Maria unindo os cristãos em torno de Jesus!

Em Campinas, dia 12 de outubro, domingo, vamos celebrar o Centenário com Maria. Neste ano, centenário da criação da Arquidiocese, celebraremos Jesus Cristo, unidos à fé de Maria sua Mãe, nossa companheira de caminhada. Na Praça Arautos da Paz, no Taquaral, será celebrada a missa presidida por d. Bruno, com a participação de todos os católicos e os demais cristãos que desejarem participar. Em festa de mãe não precisa convite, mas vale a lembrança.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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14/10/2008

Babel econômica

 

Não sendo economista, é provável que não teria credenciais para falar da crise econômica que está aí. Porém, parece-me que nem mesmo os economistas, ou pessoas do mundo das finanças, estão compreendendo bem o que está acontecendo. A impressão é que cada um, ao dar entrevista, entende uma parte da confusão toda que se armou no sistema financeiro internacional.

Minha reflexão é feita a partir da teologia; neste sentido creio que posso emitir uma opinião sobre a situação. A pergunta que se faz é a seguinte: qual o objetivo do sistema financeiro? Toda a movimentação financeira que ocupa tantas pessoas está a serviço de quem? Será que o mundo das finanças, como está organizado, traz realização para os que o movimentam e dele vivem? São essas perguntas elementares que podem ser completadas por uma última, que vai além de uma preocupação ética: será que tudo isto está de acordo com a Palavra de Deus?

Não se pode simplesmente condenar a movimentação financeira porque o comércio é atividade humana legítima, colabora para o desenvolvimento e o sustento das pessoas. Toda atividade comercial ou movimentação econômica e financeira deve estar a serviço do bem-estar das pessoas. O ser humano e, em última análise, a vida, deve ser o objetivo primordial e último. Assim sendo, o trabalho nesta área pode reverter em bem imenso para as pessoas, para a produção de riquezas e sua distribuição. Conseqüentemente, glorificaria o Criador.

O que acontece é que todo o sistema financeiro se desviou de sua finalidade legítima para transformar-se, como disse alguém, em uma fogueira das vaidades que arde nas brasas do egoísmo. O lucro se torna “deus”, cultuado por uma “liturgia” complexa, na qual se transformou o sistema financeiro. Estar em estado de graça é ter dinheiro e poder consumir à vontade: os bancos são as “catedrais” onde o culto atinge seu ápice. O “herege” nessa “religião” é o pobre. Evidentemente, essa idolatria gera violência, pois o acúmulo de riquezas produz miséria na maioria da população.

O comércio e a economia que teriam em si uma capacidade enorme de unir, partilhar e harmonizar as pessoas, promovendo a vida, se transformam em instrumento de desespero e morte. E não me refiro somente à ganância absurda, mas à corrupção e degradação a que a idolatria do dinheiro leva o ser humano: orgia, corrupção, desperdício, extravagância, esbórnia.

No deserto, quando Satanás, mostrando todas as riquezas deste mundo, tenta Jesus, dizendo-lhe “Tudo isto te darei se prostrado me adorares” (Mt 4,9). recebe Dele uma recusa repulsiva: “Afaste-se, só a Deus adorarás”. Fazer o mundo girar em torno do lucro transforma-o em mundo da mentira, dominado pela fantasia (o que quer dizer 6 trilhões de dólares? Quantos zeros tem? E a montanha de siglas do sistema financeiro?). Perde-se assim o senso da realidade, mergulha-se no vazio.

Se é necessária reformulação na economia, deve ser feita no sentido de haver lucro e partilha para manter a vida de todos. O cooperativismo deve vencer a concorrência predadora.

O que estamos colhendo é fruto de uma economia sem coração, que, por ter expulso Deus e a pessoa humana de seu sistema, acaba na torre de Babel econômica.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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18/11/2008

Era do individualismo

 

Eu não quero, Eu não faço, Eu não gosto, Eu quero, Eu faço, Eu gosto. Cada dia ouvimos estas palavras que ressaltam a centralidade do Eu. Se a Bíblia precisasse ser reescrita talvez começasse assim: “No princípio era o Eu...”

Nada contra o valor do indivíduo, aliás, o reconhecimento da individualidade é um dos pilares de sustentação da cultura moderna surgida na Renascença. Uma mudança significativa: o indivíduo vai revoltar-se contra o peso da aparelhagem social demasiadamente rígida e controladora.

Nada mais bonito, necessário, que a grandeza do indivíduo reconhecido nos seus direitos, sendo o mais valioso deles, a liberdade. Assim, é evidente que ressaltar e fazer valer a individualidade são conquistas preciosas.

Porém, sempre há um porém, é hora de perguntar se a exaltação do indivíduo, o individualismo, não começa a prejudicar o próprio indivíduo. Emmanuel Mounier é de opinião que estamos vivendo a era do individualismo e escreve: “O individualismo é uma decadência do indivíduo antes de ser um isolamento do indivíduo; isolou os homens na medida em que os aviltou”.

Com a desarticulação da vida comunitária começando pela família; com o dinheiro e o lucro ocupando o centro e a meta de todos os empreendimentos; e ainda, com a negação de uma ética de valores, o individualismo avilta porque produz como resultado uma sociedade caótica. Tanto num mundo regido pela tirania do social como num mundo regido pela tirania do indivíduo, instala-se o caos e a impossibilidade de vida digna para todos.

Os resultados do individualismo estão presentes nos noticiários a cada dia. Basta andar pela cidade para ver as conseqüências. Nem mesmo os sinais de trânsito são respeitados. Cada um é lei para si mesmo e para os outros. Predomina a vontade dos mais fortes em uma sociedade onde os fracos não têm vez.

O individualismo alimenta o egoísmo e ambos alimentam a violência a qual, por sua vez, progride com a impunidade. Como violência gera violência, eis que estamos em um mundo cada dia mais violento, porque cada vez mais egoísta.

E, no entanto, o ser humano é faminto de amor. Não vivendo no amor e na comunhão com os outros, não consegue se relacionar, ser pessoa. Aí bate a depressão que aumenta, como aponta o crescimento de 40% na venda de antidepressivos nos últimos anos.

Onde encontrar o amor? O amor é dom de si, é comunhão e floresce na comunidade. Torna-se urgente restabelecer a comunidade que desperta para a responsabilidade, o cuidado com os outros e com a natureza e conseqüentemente nos mantém a esperança.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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09/12/2008

Sinos de Natal

 

A ceia de Natal é uma festa que deseja comemorar o grande presente que o céu nos envia: Jesus o Filho de Deus. As famílias se reúnem em festa e a ceia será a expressão da alegria por Deus nos ter enviado o Salvador. A ceia de Natal é expressão do encontro entre Terra e Céu. Nas igrejas será celebrada a Santa Missa, a ceia que supera todas as outras, porque ali está o próprio Jesus presente na Eucaristia. É vida com os irmãos em Cristo na alegria da salvação universal. Os sinos anunciam tudo isto, são um dos símbolos do Natal.

É impossível determinar o começo do uso do sino em eventos, prédios públicos e principalmente nos cultos das várias religiões, budismo e catolicismo, por exemplo. Os sinos em sua musicalidade sóbria tornam-se símbolo da comunidade reunida, símbolo da fé, símbolo da convocação do povo de Deus para ouvir a sua Palavra e celebrar seus mistérios.

Assim, os sinos anunciam com alegria o nascimento de Jesus e o anúncio feito aos pobres pastores, os primeiros a serem convidados a visitar o menino Jesus: “Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande notícia para todo o povo: hoje na cidade de Davi nasceu para vocês o Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,10).

As histórias envolvendo os sinos sempre estão envoltas em alegres anúncios de libertação, como a história do padre Joaquim Anselmo de Oliveira, que foi pároco em Campinas a partir de 1832, quando Campinas se chamava Vila de São Carlos, e tinha um grande número de escravos em freqüente revolta. Nem a instalação da cadeia pública e três forcas na vila conseguiram coibir as rebeliões dos escravos.

O padre Anselmo, movido de compaixão e tomando a defesa dos escravos, despertou a ira dos senhores latifundiários, os quais procuravam ocasião para derruba-lo. O padre foi acusado de roubo e levado a julgamento em 1835. Conta-se que durante o julgamento, os sinos da matriz tocaram sozinhos. O padre foi absolvido mediante a brilhante defesa de seu advogado, Reginaldo de Moraes Sales. Por isso, até hoje, tocam os sinos da matriz velha (Basílica do Carmo) onde se deu este evento.

Os sinos tocam anunciando sempre a bondade de Deus, sinalizando para nós a presença libertadora de Jesus Cristo no sacrário que está ali na igreja. E no Natal eles sinalizam o alegre anúncio da chegada do nosso redentor.

Dizem que os diabos não gostam de sinos, assim como não gostam de água benta e nem de igreja. Ficam incomodados, se revoltam. Não é para menos. Mas como diz o ditado italiano: “In fine vita anche il diavolo diventa sacristano” (no fim da vida, até o diabo se torna sacristão), pode ser que até o diabo um dia goste de sino, já que um dos ofícios do sacristão é tocar o sino.

Feliz Natal a todos, queridos leitores e leitoras. De coração, vos desejo muita paz e alegria.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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30/12/2008

Trevas, luzes e você

 

Conheci um padre que passou a vida lutando pelos direitos humanos e no fim da vida repetia sempre: “Uma nuvem de tristeza se abateu sobre o mundo”, e o dizia com amargura. Pessimismo ou realismo? Penso que é realismo porque essa nuvem de tristeza baixou sobre o mundo desde o início, quando lá no Paraíso Terrestre o homem criado à imagem e semelhança de Deus, recusou o próprio Deus e pecou. O que é o pecado a não ser a recusa do amor? Amor que se abre para o convívio fraternal com Deus, o próximo, a natureza e para consigo mesmo?

Fechado no seu egoísmo como lembrava o papa Bento XVI, o ser humano sofre, sofre porque se destrói, decai, se avilta. E as notícias sucedem-se: as enchentes destroem e matam em Santa Catarina, casas construídas de forma precária, loteamentos mal feitos pela exploração imobiliária, ajudam a tragédia a ficar maior; homem se disfarça de Papai Noel, invada casa na hora da festa e põe fogo; enchurrada leva lama aos bairros pobres de Campinas e carros ficam presos nas crateras no meio das ruas; violência nas cidades grandes aumenta mais que o desenvolvimento técnico-científico; carpinteiro é preso acusado de estupro contra a própria filha, etc... São algumas notícias do jornal de um só dia.

Tudo isso temperado com a crise econômica cuja perspectiva é agravar-se no próximo ano. Os “deuses” do sistema econômico construíram a torre de Babel do sistema financeiro internacional. Fizeram tudo sicut Deus non daretur, como se Deus não existisse. Esqueceram da lição bíblica (Gn 11, 1-9). O orgulho, gera a injustiça e essa torna impossível a convivência pacífica entre as pessoas e os povos. Nuvem de tristeza!

Mas, celebrando o Natal, somos convidados a superar esta nuvem escura e perceber a outra nuvem maior, luminosa, que baixou sobre o mundo. “Nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor”, diz o anjo aos pastores, é o menino Jesus. Deus entra assim na humanidade, se fez um de nós, veio compartilhar nossas alegrias e tristezas, nossas trevas e luzes. Ele é a luz que brilhou nas trevas. Mesmo que o sistema da nuvem de tristeza e trevas não o queira receber, tudo será diferente.

Deus entrou na nossa história e isso muda tudo. Em Jesus Deus está comprometido com a humanidade na sua trajetória. Ele está no barco da humanidade que navega por mares bravios. Esta presença afetiva e efetiva garante o final feliz de nossas vidas. Tudo pode ser uma grande confusão, mas que terminará bem, como dizia um filósofo cristão que muito admiro.

Nesse panorama, o apelo da Sagrada Escritura é que tenhamos fé, que recebamos com carinho e afeto a salvação que Deus nos manda. Jesus disse: “Eu sou a luz, quem me segue não anda nas trevas”. Não há tristeza, derrota ou amargura para o cristão. Porque a exemplo de Jesus, o cristão triunfa na derrota. Jesus, nosso Mestre, é o vencedor vencido: morrendo destruiu a morte!

A situação humana é dialética, porém, você deve escolher a nuvem da tristeza ou da luz! O pessimismo nunca foi o forte dos cristãos de verdade, o bom humor sim, na base do: “está escuro, mas eu canto”, como dizia o poeta. Canto não para espantar a tristeza, mas para celebrar a aurora luminosa que se aproxima.

Comecemos o ano novo com esta alegria dos redimidos: “Ele está no meio de nós”. Feliz ano novo para todos. Meu abraço agradecido por terem lido meus pobres escritos durante este ano.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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