|
Artigos
Artigos de
autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,
publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP
|
08/01/2008
O "Deus nos acuda" no trânsito
É grande a preocupação com acidentes de trânsito. Neste
período de férias, as mortes nas estradas aumentam. O
feriado de Natal foi triste neste aspecto. Retomo o
assunto abordado pela Professora Maria de Fátima neste
espaço semana passada.
Aumenta a cada dia a indisciplina no trânsito. Quando
atentos para observar o que acontece, ficamos pasmos.
Acontece de tudo. Todos têm consciência de que nesta
questão, a situação é péssima: um Deus nos acuda! Pesquisa
realizada pelo Correio Popular em outubro deste ano
perguntou: Você acha que os motoristas de Campinas dirigem
bem? Resposta: Não 92,2% e Sim 7,8%. Sem comentário.
É preciso promover educação, solidariedade e respeito no
trânsito. Um excelente subsídio para tal é a publicação
Orientações para a pastoral da estrada do Conselho
Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes,
organismo da Santa Sé. Estas orientações, transformadas
nos Dez Mandamentos do trânsito Seguro estão sendo
encampadas e divulgadas pela CNBB em parceria com o Detran
e outros organismos interessados em preservar vidas. Penso
valer a pena considerar estes dez mandamentos:
1) Não matar. O carro é instrumento a serviço da vida,
convivência e progresso e ao usa-lo se deve respeitar as
leis de trânsito para que isto aconteça.
2) A estrada e a rua deve ser para você instrumento de
ligação e comunhão entre as pessoas e não local de risco
de vida. As estradas são construídas para aproximar as
pessoas e favorecer a promoção humana. Não as transforme
em matadouros.
3) Cortesia, sinceridade e prudência ajudam você a superar
imprevistos. No trânsito é preciso manter o clima de
respeito e amor ao próximo. A sensibilidade nas relações
humanas é condição para as pequenas e grandes soluções da
vida.
4) Seja caridoso e ajude o próximo nas suas necessidade,
especialmente as vítimas de acidentes. Amor e justiça são
princípios indispensáveis para a convivência humana.
5) Que o carro não seja para você expressão de poder e
domínio nem ocasião para pecar. O bom uso do carro depende
das boas intenções do motorista: o que se passa no coração
se expressa nas relações.
6) Convença com caridade, os jovens e os que já não o são,
para que não dirijam quando estão sem condição de faze-lo.
Bom senso é princípio indispensável para discernir as
condições de dirigir. Se for o caso, aceitar os próprios
limites.
7) Ajude as famílias das vítimas de acidente. A
solidariedade é importante nas horas difíceis da vida.
Faça ao outro o que você gostaria que lhe fizessem neste
momento.
8) Reúna a vítima e o motorista agressor num momento
oportuno para que possam viver a experiência libertadora
do perdão. Fogo não se apaga com fogo nem violência com
violência. Só o perdão liberta e da paz.
9) Na estrada e na rua, proteja o mais vulnerável. Cuidado
pela vida dos mais fracos é expressão de grandeza.
10) Sinta-se responsável pelo outro. Ninguém é mais que
ninguém mas, todos somos menos sem o outro. Segundo a
Organização Mundial de Saúde morrem 1,2 milhão de pessoas
em acidentes por ano. Que nossa escolha seja promover a
vida! Boa viagem a todos.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
22/01/2008
O papa e a universidade
O que faz a Universidade ser universidade não é a ciência
propriamente dita, mas a orientação do pensamento para o
universal, para indagar sobre tudo e buscar as respostas
sobre as diversas questões que são propostas pelo próprio
homem desde sempre e a cada época. E assim tender para a
unidade do conjunto, já que a Universidade deve ser o
local onde as diversas informações se unificam e se
orientam para o todo. Se a Universidade deve estar desta
forma, aberta às interrogações e questões postas pelo
homem, pelo mundo, a questão de Deus também faz parte da
Universidade.
Sem a Filosofia e a Teologia, a Universidade pode se
identificar a um curso técnico, pois, não estaria aberta
ao que está além da técnica. Por isso vai escrever o sábio
reitor da Universidade de Dublin, John Henry Newman: “A
exclusão da teologia contraria o caráter de universidade
como instituição científica”.
A Universidade tem o compromisso de estar aberta a toda
informação e conhecimento disponível. Não pode haver neste
sentido, Universidade dominada por um pensamento único, de
um grupo, que queira impor-se a todos como absoluto, sem
respeitar a liberdade da consciência. Por isso, uma das
atitudes mais importantes e características de qualquer
Universidade é ouvir. Capacidade de escutar o que o outro
tem a dizer.
E foi justamente esta atitude fundamental para qualquer
Universidade que foi ferida, de forma escandalosa semana
passada, quando o Santo Padre Bento XVI teve de cancelar
sua palestra na Universidade de Roma La Sapienza. Diante
do protesto irreverente, e da intolerância antidemocrática
de um pequeno grupo da referida Universidade. Universidade
fundada em 1303 pelo seu predecessor o Papa Bonifácio
VIII. Palestra que tinha sido convidado a ministrar como
bispo da cidade de Roma. Ao aceitar o convite da direção,
o Papa pretendia demonstrar seu interesse e simpatia à
comunidade universitária. Não foi possível.
É evidente que este pequeno grupo, pequeno mas forte, não
representa a maioria das inteligências da instituição em
questão. Esta Universidade tempos atrás promoveu encontro
mundial de Reitores para elaborar “premissas para um novo
humanismo no terceiro milênio”. E certamente este novo
humanismo não inclui a intolerância. Por que este pequeno
grupo se impôs?
Sabemos, que em qualquer Universidade há um grupo de
fanáticos, que se julga dono da verdade. Não só faz
barulho, mas intimida. Isto porque busca, sobretudo o
poder para se impor: impor a sua verdade. Os membros
destes grupos de iluminados, que existem em qualquer
Universidade, se tornam extremamente utilitaristas:
verdade é o que lhes é útil para obter o poder, pois,
quando o obtiverem resolverão todos os problemas. Não se
impostam com isso, de trair o genuíno espírito da
Universidade, que inclui a tolerância e a capacidade de
ouvir o diferente.
A Universidade pode ser laica e estatal, mas a população a
que a universidade e o Estado devem servir conta com
pessoas religiosas e em certos locais de maioria cristã.
Têm o legítimo direito á liberdade religiosa, direito de
ver a Universidade pública tratar desta questão que lhes
interessa. Por isso, não pode prescindir de ouvir o
representante de uma Igreja que conta dois mil anos e tem
um tesouro de conhecimento e experiência ética como o
Papa. O fato de a Universidade ser laica não torna
automaticamente ateus seu corpo docente e seus alunos. A
questão da teologia está presente, a questão religiosa se
impõe, se a Universidade está realmente interessada na
busca da verdade.
O papa teve a gentileza de enviar à Universidade o texto
da palestra que deveria proferir pessoalmente. Texto que
pode ser lido pela internet e que se intitula Não venho
impor a fé mas pedir a coragem para a verdade. Vale a pena
ser lido pela erudição, profundidade e oportunidade das
questões que aborda. Entre outras coisas diz que a verdade
significa mais que saber, pois, só saber nos torna
tristes, a sabedoria verdadeira vem do conhecimento como
descoberta da bondade.
Que este incidente nos possa persuadir que realmente fé,
verdade e ciência nos devem tornar bons e não somente
sábios ou “sabidos”.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
05/02/2008
Oração e caridade
Viajando pelo Interior de Minas Gerais, cheguei a Baependi.
Cidade antiga, encarapitada na encosta de uma colina, como
só acontece no mar de morros que é Minas Gerais. Ali tomei
conhecimento da existência de Nhá Chica, nome com o qual
passou a ser conhecida Francisca de Paula de Jesus.
Nasceu em 1810 em S. João Del Rei, veio para Baependi com
10 anos mais um irmão e a mãe. Morrendo a mãe e tendo o
irmão se arrumado, a jovem resolveu seguir o conselho da
mãe: viver para a oração e a caridade. Recusando propostas
de casamento, morou a vida toda em casa modesta que ainda
hoje se conserva. Aí dedicou totalmente a fazer a todos
todo o bem possível.
Devota de Nossa Senhora da Conceição, viveu vida de
oração, baseada na sua grande fé. Era analfabeta, mas
procurou quem pudesse ler-lhe os Evangelhos. Modesta,
virtuosa, foi reconhecida como o anjo da cidade, gozando
de apreço e simpatia de todas as camadas populares. Mulher
pobre, mas rica de fé. Fé que agia através da caridade.
Era a mãe dos pobres.
Nhá Chica, ficou famosa em toda a região. Era procurada
por pessoas que lhe pediam oração ou uma palavra de
conforto e esperança. Através dela, Deus operava milagres.
Com o passar do tempo, vinham pessoas consultá-la. Despida
da ciência das escolas, tinha em alto grau a sabedoria de
Deus. Pessoas instruídas, até mesmo titulares do Império,
iam ouvir suas opiniões sempre ajuizadas.
Um médico e livre pensador, Dr. Henrique Monat, deixou
publicada uma entrevista que teve com Nhá Chica, segundo
ele “uma celebridade em todo o Sul de Minas” na época.
Faleceu aos 82 anos, foi sepultada, depois de cinco dias
de velório com grande afluência do povo, na Capela que
havia construído. Esta capela é hoje o santuário visitado
por pessoas do Brasil todo.
Em 1846, a princesa Isabel visitou Baependi e foi
protagonista de festividades esplêndidas. Hoje, nada na
cidade lembra este fato, nem mesmo uma placa. No entanto,
a cidade deixa transpirar o suave perfume desta mulher que
os bispos do Sul de Minas propuseram ao Vaticano como
candidata aos altares, já tendo iniciado o processo para
sua beatificação.
Nhá Chica era clarividente, deixa-nos o testemunho do
valor da oração. Jesus diz que é necessário orar sempre e
que a oração remove montanhas. A oração bem feita não só
nos aproxima de Deus, mas é fonte de equilíbrio porque nos
revela a nós mesmos.
Deixa-nos também o testemunho do valor da caridade como
realização pessoal. Ao ajudarmos os outros, podemos
concluir que, muito mais, ajudamos a nós mesmos. Quem faz
o bem fica cada vez mais bom, ao passo que nem sempre o
bem que se faz é aproveitado pelos outros.
Iniciando o tempo quaresmal, na Quarta-feira de Cinzas, a
Igreja nos convida a intensificar a oração e a caridade
que são caminho e termo, da conversão para Deus, no que
consiste nossa realização como pessoas.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
19/02/2008
Vida eterna
No dia-a-dia nossos afazeres e preocupações se
multiplicam. Preocupações com quê? Com a vida,
basicamente.
A Campanha da Fraternidade, muito bem articulada no seu
tema e proposta, nos quer fazer pensar sobre a vida.
Escolhe pois a vida! É o apelo que recebemos numa
realidade de morte, onde a violência crescente é
demonstração cabal de que o valor da vida está em baixa.
Refletindo sobre o material colocado à disposição para
viver esta campanha, percebi que se fala da vida de forma
magistral. A vida é valor supremo que temos, dom maior que
recebemos e devemos defender. Denuncia-se a cultura de
morte que coloca a ganância de bens materiais, sucesso e
individualismo como valores absolutos. A defesa da vida é
urgente!
No entanto, chamou-me a atenção foi o que se diz sobre a
morte: “Não existe vida sem morte e a morte persiste sendo
o grande desafio” (Texto-Base p.52). Diante do aumento de
suicídios em todo o mundo, a questão da morte se coloca
como contraponto para a questão da vida.
Para nossa cultura, a morte é assunto tabu, mas não
deveria. Quem se esquivar da discussão sobre a morte se
esquivará da discussão sobre o que chamamos vida. O
pensamento da morte está ligado à pergunta sobre o sentido
da vida.
Nas primeiras décadas do século passado, a morte ainda era
tratada com dignidade. O ato de morrer era um
acontecimento vivenciado por pessoas da família e amigos:
a morte e o morrer têm um sentido! Porém, nas últimas
décadas, a morte é vista como absurdo, um fim detestável,
do qual se tenta esquivar. É acontecimento privado: se
deve morrer escondido. O morto atrapalha a vida de todo
mundo. Na maioria das vezes morrer é interpretado como
falência da arte da medicina.
Com a morte sendo vista como absurdo também a vida se
torna absurda.
A vida humana é energia e nenhuma energia se acaba no
universo: se transforma. Assim sendo, a ciência não pode
negar o fato de a vida ter uma continuidade após a morte.
Porém nem mesmo aceitando uma vida após a morte desaparece
a indignação, o medo e a angústia diante da morte. E tudo
isso se reflete na vida: “Que divindade é esta, que, tendo
criado o ser humano, deixa-o, depois, tornar-se comida
para os vermes?”, indaga o filósofo cristão Kierkegaard.
Penso que junto com o empenho em favor da vida digna para
todos, deva haver um esforço para recuperar o sentido da
morte e do morrer para o ser humano. “A maneira pela qual
nossa sociedade nega a morte não traz esperança, somente
aumenta nosso medo e vontade de destruir”, afirma a Dra.
Kubler-Ross, estudiosa de tanatologia.
Devemos redescobrir o Deus da vida que se manifestou em
Jesus Cristo morto e ressuscitado, para que assim a morte
se transforme em vida, vida eterna e feliz.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
04/03/2008
Padre Vieira
Neste ano comemora-se o centenário da morte de Machado de
Assis, um dos maiores escritores da nossa língua. Mas é de
outro que desejo tratar aqui. O poeta Fernando Pessoa o
chamou de “imperador da língua portuguesa”. Trata-se do
Padre Antonio Vieira, cujos 400 anos de nascimento se
comemorou dia 6 de fevereiro passado. Foi um literato de
raciocínio engenhoso, missionário, historiador, diplomata:
não só erudito, mas também um sábio.
Nascido em Lisboa, com 6 anos de idade, veio com a família
para o Brasil. Radicado na Bahia, ingressa no colégio
jesuíta de Salvador. Em 1634 é ordenado padre tornando-se
um grande orador. Seus sermões o tornaram famoso em todo o
reino. Sua obra escrita, de modo especial seus 200
sermões, está impregnada de sabedoria, nela ele aborda
temas históricos e políticos de forma magistral. Fascina o
estilo, o domínio da língua, mas, sobretudo a exposição da
fé que impele à prática da caridade.
Foi homem de estudo e erudição e de ação, que enfrentou
com muita coragem as vicissitudes da vida, inclusive
processos ante a Inquisição, dos quais acabou anistiado.
Morreu em Salvador da Bahia em 1697. Suas atividades no
Brasil dizem respeito à defesa da liberdade dos indígenas,
à invasão holandesa e o empenho pelo desenvolvimento
econômico do País.
Existem muitos volumes impressos de suas obras e neste ano
se preparam tantas outras edições mais aprimoradas. São
inúmeros os temas abordados em seus sermões entre os quais
o mais famoso talvez seja o Sermão da Sexagésima de 1655.
Porém em um deles, há um tema utilíssimo, um tanto fora de
moda, que me chamou a atenção. Trata-se da omissão, que
ele aborda no sermão do primeiro domingo do advento no ano
de 1650. O sermão tem como eixo o juízo final, cito a
seguir um parágrafos referente à omissão dos governantes.
“Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se
vos há de pedir estreita conta do que fizestes; mas muito
mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizestes
se hão de condenar muitos, pelo que não fizeram todos. As
culpas porque se condenam os Reis são as que se contêm nos
relatórios das sentenças: ‘Apartai-vos de mim, malditos,
para o fogo eterno. E por quê? Porque tive fome e não me
destes de comer, tive sede e não me destes de beber,
porque não recolhestes, não visitastes, porque não
vestistes (Mt 25, 42-42)’. Em suma, que os pecados que
ultimamente hão de levar os condenados ao inferno, são os
pecados de omissão. Não se espantem os doutos de uma
proposição tão universal como esta; porque assim é
verdadeira em todo o rigor da Teologia... A omissão é o
pecado que com mais facilidade se comete, e com mais
dificuldade se conhece; e o que facilmente se comete e
dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A
omissão é um pecado que se faz não fazendo: e pecado que
nunca é má obra, e algumas vezes pode ser obra boa.”
Assim sendo, a corrupção, segundo Vieira, tão alastrada em
nosso meio e ampliada pelo famoso “jeitinho brasileiro” se
torna mais grave do que fazer o mal, pois faz o mal no
lugar do bem que devia fazer e não faz.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
18/03/2008
Pecado social?
“Não existe pecado do lado de lá do Equador...”, cantavam
na década de sessenta expressando o sentimento geral de
depreciação do pecado. Principalmente com o avanço da
psicologia e psiquiatria, estudadas nas faculdades e
aplicadas nos consultórios, o pecado caiu de moda. Deus
morreu, sentenciou Nietsche, o filósofo, ou teólogo-ateu
como o chamam alguns. Com seu desaparecimento, já que o
pecado é desobediência a Deus, o pecado acabou.
Esta é a reação a um moralismo excessivo, antievangélico
de tempos passados, no qual a idéia de pecado era usada
não raro, para que, através do medo, a obediência fosse
célere. Isto sim é hoje superado no ensinamento e pastoral
da Igreja. Necessitamos cautela ao falar da culpabilidade
da pessoa, levando-se em conta condicionamentos
psicológicos e sociais. A liberdade do indivíduo é um
mistério e por isso, Cristo nos proíbe de condenar as
ações dos outros: “Não julgueis e não sereis julgados”(Mt
7, 1).
Porém, o pecado existe, e a Bíblia, do começo ao fim seria
incompreensível, se não existisse o pecado como recusa do
homem ao amor de Deus. Jesus é apresentado como aquele que
tira o pecado do mundo (Jo l,29), ele diz que não veio
chamar justos mas pecadores (Mc 2,17). Mais que teorizar
sobre o pecado Jesus o enfrenta. Ele mostra que o pecado é
mal por excelência, corrompe a humanidade, fazendo as
pessoas se enfrentarem em lutas mortais, no esquecimento
de Deus.
Podemos caracterizar o pecado como “aversão a Deus e
conversão às criaturas”, as quais, acabam tomando o lugar
de Deus no coração do homem, degradando sua vida. Com esta
troca, instala-se uma frustração fundamental que arruína a
pessoa no seu ser moral, impossibilitando a convivência
feliz da pessoa consigo mesma, com os outros, com a
natureza e com Deus. Negando-se ao amor para o qual foi
criada a pessoa fica desequilibrada em todo o seu ser.
Fomos surpreendidos pela lista dos “novos” pecados
divulgada pela Santa Sé: “Fazer modificação genética,
Poluir o meio ambiente, causar in justiça social, causar
pobreza, tornar-se extremamente rico, usar drogas (cf.
Correio Popular, 11/03/08). Na grande Tradição da Igreja,
os pecados são resumidos na sua visibilidade e
conseqüências como capitais, ou seja, são sete cabeças:
soberba, vaidade, luxúria, ira, gula, preguiça, avareza.
Haveria uma “nova” lista? Na verdade o que há é uma
tradução para hoje destes pecados, um redimensionamento
com enfoque social.
Numa época de incrível inter-relacionamento e interação em
rede por todo o Planeta, na globalização, “é preciso
ressaltar que se ontem o pecado tinha dimensão mais
individualista hoje possui uma ressonância sobretudo
social”, reconhece a Santa Sé.
Assim, finalmente, o que a teologia latino-americana já
ensinava a quarenta anos, ganha dimensão universal na
Igreja. O documento de Medellín denunciava as “estruturas
de pecado” (2,1) e Puebla falava do “pecado social” (n.
28). Foram mal vistos pela teologia européia desconfiada,
acusados de se deixarem influenciar pelo marxismo. Nem
mesmo o uso destes conceitos por João Paulo II amenizou a
desconfiança: “Pecados sociais, são o fruto, a acumulação
e concentração de muitos pecados pessoais” (cf. in AAS 77
(1985) p. 217). E ainda: “Não será fora de propósito falar
de estruturas de pecado” (cf. SRS n.36).
Enfim, começa-se a ver um pouco além do “salve sua alma”,
da salvação do indivíduo, para pensar na salvação com
dimensões sociais: uma salvação integral que envolve não
só o indivíduo, mas a humanidade e toda a Criação.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
01/04/2008
Centenário da Arquidiocese
A Arquidiocese de Campinas vive seu “ano do centenário”.
Há cem anos foi criada a Diocese de Campinas pelo papa São
Pio X, que aos 7 de junho de 1908, assinou a bula de
criação intitulada Dioecesium nimiam amplitudinem, criando
a província eclesiástica de S. Paulo e a sede episcopal de
Campinas.
Até então todo o Estado de São Paulo era uma só diocese. A
instalação da diocese deu-se a 18 de outubro de 1908. O
primeiro bispo foi um campineiro, que por um bom tempo
tinha sido pároco de Campinas: d. João Batista Correa
Nery. Ele tomou posse em 1 de novembro de 1908.
Posteriormente, em 19 de abril de 1958 Campinas foi
elevada a arquidiocese.
A diocese é uma porção do povo de Deus confiada a um
bispo, sucessor dos apóstolos, que a pastoreia em
cooperação com o presbitério. Essa parcela eclesial,
congregada na força do Espírito Santo, se une em torno do
seu bispo mediante a palavra de Deus e os sacramentos,
mormente a Eucaristia. Numa diocese realmente reside e
opera a uma, santa, católica e apostólica Igreja de Jesus
Cristo.
O nome diocese é herdado dos primeiros séculos do Império
Romano. Era denominação de um agrupamento de províncias na
época do imperador Dioclesiano. Governadas por um vigário
sem funções militares, mas somente administrativas e
judiciais. Quando após as perseguições a Igreja se
estabelece de forma pública e legal, ela se organizou em
igrejas particulares que tomaram o nome de diocese. A
designação correta portanto é Igreja Particular no sentido
de Igreja que está em um lugar determinado.
Este centenário traz em si a evocação de muitíssimos fatos
que desde a criação da diocese de Campinas influíram na
vida da população. Sendo honesto, um historiador não
poderá contar a história de Campinas, sem atentar para a
importância da Igreja no desenvolvimento da cidade e
região.
É conhecida a vocação de nossa cidade para a solidariedade
e a promoção da educação. Nessas duas áreas destacou-se a
Diocese de Campinas pela ação de todos os seus membros a
partir da ação de seus bispos. Basta considerar aqui, pela
exigüidade de espaço, os dois primeiros.
D. Nery que tinha saído de Campinas, fora nomeado bispo do
Espírito Santo, como benfeitor da cidade quando da febre
amarela, ao retornar como seu primeiro bispo, intensificou
a ação evangelizadora, sempre acompanhada de obras. Em uma
cidade de 40 mil habitantes devastada pela doença e com
grande número de órfãos, d. Nery criou o Liceu de Artes e
Ofícios (Salesiano), a creche Bento Quirino, o Ginásio
Diocesano, a Escola Agrícola. Durante a epidemia de 1919
transformou o Ginásio Diocesano em hospital da Cruz
Vermelha e o Seminário Episcopal em pronto-socorro.
D. Francisco de Campos Barreto o segundo bispo foi também
um batalhador. Entre suas inúmeras iniciativas está a
criação da universidade católica. Na época a juventude
campineira tinha de estudar fora. Foi a diocese que se
preocupou em dar oportunidade para os jovens ficarem aqui
e estudar. A Unicamp viria algumas décadas depois pela
ação do Estado.
É uma efeméride que merece ser comemorada. O papel da
diocese na história de Campinas é significativo, ao ponto
de se poder dizer que, sem ela a história seria muito
diferente, para pior, com certeza.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
15/04/2008
Isabella e as outras
A menina Isabella foi morta e atirada pela janela.
Impossível não comentar mais este crime contra a criança.
Isabella e outras crianças sofreram e sofrem as
conseqüências de nossa cultura de morte na qual os fracos
não têm vez.
Inúmeros são os casos de crianças abortadas cujos corpos
servem para produzir sabonete, como denunciou Heitor Cony
na semana passada. Crianças exploradas sexualmente,
alavancando o turismo em regiões do Brasil. Crianças
abusadas por pedófilos de todas as classes sociais,
religiosos inclusive. Submetidas a trabalho estafante para
sobreviverem, torturadas em casas de família, colocadas
nas prisões com adultos, jogadas no lixo ou assassinadas
pelos pais. Estas são as notícias que relatam o calvário
das crianças. Vale observar que o infanticídio é comum em
muitas culturas. Certas tribos indígenas, no Brasil, cuja
cultura apresenta aspectos admiráveis não hesitavam (ou
hesitam) em matar crianças com defeitos físicos, ou
gêmeos, um deles.
A criança, que é solução de continuidade da vida,
tornou-se um problema. O que fazer com uma criança?
Alternam-se em relação a elas momentos em que são
festejadas, bajuladas, fotografadas, com momentos de
relacionamento nervoso, agressivo ou indiferente. É
evidente que neste relacionamento se mostram os
desequilíbrios dos adultos. O que fazer com adultos que
não cresceram?
A comoção com o caso Isabella indica que nos últimos
tempos, tem aumentado a sensibilidade da opinião pública
com o drama das crianças. São inúmeras as iniciativas da
sociedade para melhorar a vida delas. A CNBB numa Campanha
da Fraternidade (1987) apresentou a criança como esperança
para o povo. A Pastoral da Criança, reconhecida pela sua
eficiência, representa iniciativa exitosa da Igreja
Católica que salva inúmeras vidas.
A sabedoria do judaísmo e do cristianismo coloca na
gestação de uma criança três sócios: pai, mãe e Deus. Os
pais como sócios ativos, Deus como a silenciosa fonte da
vida. Daí a sacralidade de uma criança. A limitação da
vida humana é compensada com o consolo da descendência. A
criança constitui a surpresa do dom da vida. Ela é fraca,
impotente, por isso necessita do auxílio dos que a cercam.
Deve ser acolhida, amada e educada.
Como ideal de amor pelos pobres e fracos, os Evangelhos
apresentam preferência marcante pelas crianças. Jesus
valoriza a criança numa cultura que as desprezava (Mt 18,
2-3), traziam crianças e Ele as abençoava (Lc,18,15).
Coloca-se no lugar das crianças: “Quem receber uma criança
em meu nome está recebendo a mim”. E dizia: “Deixai vir a
mim os pequeninos”(Mc 10,14). Porém nenhuma advertência no
Evangelho é mais terrível que esta: “Seria melhor para
aquele que escandalizar um destes pequeninos, que lhe
amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no
mar”(Lc 17,2; Mt 18,6). Os pequeninos aqui são as
crianças, embora se possa entender também as “crianças na
fé”.
Não precisa escrever mais nada, é só refletir!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
29/04/2008
Crianças com vida nova
A moça se enfureceu, se alterou. Culpa do mal no mundo. É
muita maldade, me dizia! Onde está Deus que permite tal
descalabro? Estava nervosa devido às barbaridades que
acontecem com as crianças, conforme notícias veiculadas
diuturnamente nas últimas semanas. Se Deus existe, é um
sádico, o que não pode ser. Por isso, não existe Deus,
sentenciou, professando-se atéia.
Respeito as opiniões, respeito os ateus, mas sinceramente
não os invejo. No mundo do ateu não há a quem agradecer.
Não há gratidão, não existem mistérios e, portanto, não
tem poesia. Falta alegria, sobra amargura.
Coincidentemente, terminada a conversa com a moça, fui
visitar, a convite, o Núcleo 2 da Obra Social São João
Bosco, situada no bairro Vida Nova aqui em Campinas e
dirigida pelos salesianos na pessoa do Pe. Plínio Possobon.
Ali pude constatar que Deus faz muita coisa para ajudar as
crianças, muita mesmo, e o faz através das pessoas. Não se
pode esperar intervenções fantásticas de seres celestes
para fazer o que nós podemos fazer.
A Obra Social São João Bosco está enraizada em Campinas
desde o início do século passado, tendo sua sede no
Externato São João, no Centro da cidade. A árvore frondosa
ramificou com exuberância. O último ramo a florescer é o
Centro de Atendimento Socioeducativo Dom Bosquinho, que
atende 90 crianças de 3 a 5 anos em período integral, ali,
junto ao Externato São João.
Há o serviço socioeducativo para crianças e adolescentes,
atendendo 422 educandos, parte no Vida Nova, parte no
Parque Oziel. Há o serviço socioeducativo para
adolescentes e jovens com 587 educandos. O Centro de
Defesa da Criança e Adolescente, com 104 atendidos. O
Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas da Violência
Doméstica, com 102 atendidos; o Grupo União para famílias
extremamente pobres, com 357 atendidos; o projeto
Vivaleite, com 207 atendidos; o Projeto Liberdade
Assistida, com 164 atendidos; as Oficinas de Geração de
Renda e Trabalho, com 136 famílias atendidas. Há o serviço
de assistência a meninos fora da escola, aos quais é
oferecido o supletivo. A Creche Nave Mãe, com 500 crianças
do Vida Nova, é uma parceria da Obra Social São João Bosco
com a Prefeitura.
Todas essas coisas boas são feitas sob inspiração de Deus,
que é amor e inspira o amor no coração das pessoas,
geralmente propensas ao egoísmo, embora com capacidade de
amar. As maldades são por nossa conta, apesar de o mal ser
um problema indecifrável. Mas a novidade do cristianismo é
a fé na vitória da vida sobre a morte!
Como dizia G. K. Chesterton: “Um homem do tempo de
Voltaire não sabia que milagre a seguir ele teria de
repelir. E o homem do nosso tempo não sabe que milagre a
seguir ele terá de engolir”. Está aí, nessa Obra Social
São João Bosco, o milagre da fraternidade, que Deus quer
realizar através de nós. Poderíamos não só engolir, mas
colaborar.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
13/05/2008
Impunidade
Irmã Dorothy Stang foi assassinada por um pistoleiro, com
seis tiros. A arma que ela tinha nas mãos era a Bíblia,
com a qual tentou durante anos, animar pobres e excluídos
da região onde trabalhava como agente da pastoral social
da Igreja Católica.
Foram presos os pistoleiros que estavam refugiados nas
terras do fazendeiro Bida interessado na morte da freira.
Todos foram julgados e condenados. O fazendeiro,
reconhecido como mandante do crime, condenado a 30 anos de
prisão mediante provas apresentadas em juízo.
Quando todos acreditavam que a justiça estava feita, a
própria Justiça, o Judiciário com seu sistema intrincado e
os jurados, lembraram-se de um velho adágio popular que
não fora cumprido: “Quem rouba um tostão, mil anos de
prisão e quem rouba um milhão, mil anos de perdão”. Assim
resolveu-se por novo julgamento, pois, quando o crime é
grande e o criminoso tem dinheiro, status e bons advogados
para argumentar com juízes e jurados, deve ser absolvido.
Ademais não há nenhum mandante preso por morte no campo no
Estado do Pará.
Em novo julgamento, o fazendeiro, que neste ínterim pagou
dívida de R$ 100 mil para o assassino da freira, foi
absolvido. Mesmo sendo acusado de outros crimes ambientais
e exploração de trabalho escravo. Até o presidente da
República que desculpa crimes como o mensalão (todos fazem
isso) e elogia políticos cassados, se indignou com a
absolvição do fazendeiro e avaliou que esta absolvição
prejudica a imagem do País. Embora o ministro da defesa
tenha rebatido que o Brasil não toma decisões por imagem.
Deveria, no entanto, porque o País é signatário da Carta
dos Direitos Humanos da ONU e outros tratados
internacionais, tendo compromisso no conjunto das nações.
Ao ser libertado, o fazendeiro declarou que fora vítima da
morte da freira: a freira teve a infelicidade de ser
assassinada e esse assassinato o vitimou. Inocente, preso
por três anos, não pensa em processar o Estado. Resultado
final: a freira assassinada é a culpada, estava no lugar
errado na hora errada, e por isso ele teve de sofrer. Mas
enfim a compreende, até seria seu amigo. Eis um monumento
ao cinismo: a vítima transformada em algoz.
Muitos se perguntam: como pode acontecer isso? Em seu
livro sobre o assassinato de Cristo, Wilhelm Reich dá uma
explicação plausível: “Para livrar-se da sujeira é preciso
sujar a vítima” (p.173). Diz ainda que os homens preferem
Barrabás porque ele está de acordo com a maneira de viver
e pensar deles, o que não é o caso de Cristo.
Indo por esse caminho, em um mundo onde os fracos não têm
vez, a vítima será sempre a culpada. Assim sendo, é bem
provável que o veredito final no caso da menina Isabella,
seja o de que ela era uma menina difícil, irritou-se com
os pais dentro do carro, saiu furiosa, se feriu na testa,
subiu correndo de elevador e ao chagar em casa se esganou
e se atirou pela janela. Tudo isto por desobediência aos
pais, para contrariá-los e deixa-los em má situação.
Devidamente libertados, no entanto, os pais a perdoarão.
A justiça está inscrita no coração das pessoas, é
exigência para uma vida feliz. Está presente ao longo da
narrativa bíblica: Deus é justo e abomina a injustiça. As
injustiças cometidas por reis e juízes contra os pobres e
fracos, são ofensas á própria santidade de Deus clamam os
profetas (Am 2,6ss). Por isso, o próprio Deus fará justiça
a qual tarda, mas não falta. A justiça faz parte do ser
bondoso de Deus a impunidade faz parte da perversão da
justiça praticada pelos homens.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
27/05/2008
Campinas mariana
Faz um ano, reuniram-se os bispos latino-americanos em
Aparecida. Ali, junto ao santuário, constataram a fé dos
romeiros e a devoção à Maria. Eles deixaram escrito no nº
266 do documento final: “A máxima realização da existência
cristã nos é dada na Virgem Maria que, através de sua fé e
obediência à vontade de Deus, assim como por sua constante
meditação da Palavra e das ações de Jesus, é a discípula
mais perfeita do Senhor (cf. Lc 1, 38-45)”.
Ao longo da história de nossos povos, Maria, a mãe de
Jesus, o Filho de Deus, tem sido companheira constante,
mãe e amiga. Não existe uma nação na América Latina que
não tenha seu santuário mariano. Como na família, a
Igreja-família é gerada ao redor de uma mãe, que confere
ternura à convivência familiar. Maria atrai multidões à
comunhão com Jesus e sua Igreja.
No Norte do Brasil, é Nossa Senhora de Nazaré em Belém do
Pará e, no Sul do País, sob a denominação de Nossa Senhora
da Conceição Aparecida, é grande a veneração à Mãe de
Jesus. Aliás, ao longo da história do Brasil, ela é
presença constante e importante desde a chegada dos
portugueses, que trouxeram sua devoção. Assim como no
México foi Nossa Senhora de Guadalupe que reconstruiu a
nação devastada, aqui no Brasil foi a devoção a Nossa
Senhora Aparecida, a “negra Mariana” que deu força para os
escravos acreditarem na sua dignidade.
Também a história de Campinas está ligada à figura de
Maria desde seu início. Quando se criou a freguesia e se
fundou a cidade em 14 de julho de 1774, Maria foi
escolhida como padroeira com a invocação de Imaculada
Conceição. Era a devoção do Reino Português, do qual fora
declarada padroeira pelo Rei D. João IV em 1646.
Historiando a fundação de Campinas, escreve José Roberto
do Amaral Lapa em sua obra “A Cidade, os Cantos e os
Antros, à página 49: “O rocio foi doado pelo fundador
Francisco Barreto Leme, que cedeu parte de sua propriedade
à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. As suas
terras acredita-se que fossem de uma das primitivas
sesmarias, que pertencera a Antonio da Cunha de Abreu,
medindo uma légua em quadra e tendo como referência dessa
medição o local do campinho do meio, onde hoje se encontra
a Praça Bento Quirino e a Matriz do Carmo”. Mais adiante,
o mesmo historiador afirma que uma fundação como foi a de
Campinas “exige reserva de domínio e a propriedade plena
de uma área por parte de dois poderes, sem os quais aquela
vida não logra definir-se e evoluir”.
No Centro da cidade, os dois templos católicos são
dedicados a Maria: a monumental obra de arte que é a
catedral da Imaculada Conceição e a Basílica de Nossa
Senhora do Carmo. Sem se esquecer que havia a Igreja de
Nossa Senhora do Rosário, demolida para alargar a Avenida
Francisco Glicério. Está aí um dado da história da cidade
que não se pode negar, mesmo que não se queira aceitar.
Que a Mãe de Jesus vele pelo futuro de nossa cidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
10/06/2008
Cavaleiro do Apocalipse
O livro do Apocalipse nas inúmeras imagens que contém,
apresenta a figura dos quatro cavalos ou cavaleiros (Ap
cap. 6, 1-8). O cavalo, usado na antiguidade mais para
atividades guerreiras, simboliza violência, desastre e
julgamento divino sobre a maldade humana.
Estes quatro cavaleiros representam a história da
humanidade dominada pelo mal, sempre misterioso, mas que
tem sua fonte manifesta na ambição de poder (primeiro
cavaleiro — branco), que gera competição e guerra (segundo
cavaleiro — vermelho), cuja conseqüência é o racionamento
e a fome (terceiro cavaleiro — preto) e por fim a doença e
a morte (quarto cavaleiro — amarelo).
Apesar do grande, maravilhoso desenvolvimento que a
humanidade tem atingido nestes últimos anos, há um lado
obscuro e retrógrado que não se consegue superar.
Precisamos pensar sobre isso. O recente relatório da
Anistia Internacional (AI) referente aos direitos humanos
chega à conclusão de que o mundo ficou mais perigoso e
dividido: “A injustiça, a desigualdade e a impunidade são
hoje as marcas distintivas de nosso mundo”, afirma a
diretora Irene Khan.
Para completar o quadro, parece que está solto o terceiro
cavaleiro do Apocalipse: a fome ameaça a humanidade com
intensidade inesperada. A agravante é que a alta dos
preços dos alimentos, nunca ocorreu de forma tão acentuada
em tempos de paz como agora.
Aumenta o preço do petróleo e da comida. Por diversas
razões não é possível aumentar a produção nem de um nem de
outro para satisfazer o consumismo ilimitado que tomou
conta de tudo e de todos.
Assim, se os padrões de consumo não se acomodarem à
disponibilidade dos recursos naturais, se a produção de
bens não visar mais às necessidades básicas das pessoas
que o lucro, haverá conflitos geradores de escassez e
fome.
Alastrando a fome pelo mundo, teme a ONU que coloque em
risco não só o combate à pobreza, mas também a paz
mundial. Os Vicentinos aqui da paróquia distribuem todo
mês cestas básicas aos seus assistidos, já sentiram o
drama do aumento incomum da cesta básica nos últimos
meses.
Todos precisamos fazer alguma coisa que esteja ao nosso
alcance, quem sabe não explorando ao vender alimentos,
partilhando e com certeza, não desperdiçando comida,
costume tão difundido entre nós. Que Deus nos ajude a
deter esse terceiro cavaleiro do Apocalipse. Enquanto é
tempo!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
24/06/2008
Missa da Glória
Tive oportunidade de assistir, no Centro de Convivência, o
concerto lembrando os 150 anos de nascimento do compositor
Giacomo Puccini. A Orquestra Sinfônica Municipal de
Campinas se apresentou com dois corais: Collegium Vocale e
Meninos Cantores de Campinas. Este último canta na missa,
na Basílica do Carmo, um domingo por mês e foi a motivação
de minha presença nessa apresentação.
Com o auditório repleto, à hora marcada, o que não deixa
de ser admirável, sem discursos ou coisa do gênero,
iniciou-se o espetáculo. Após o intervalo, foi o momento
da peça principal da noite, motivo da presença de uma
platéia muito atenta. A orquestra e os corais, perfazendo
umas 130 pessoas no palco, apresentaram a Missa da Glória.
A apresentação foi esplêndida, os aplausos no final
fortes, assemelhando-se a algo represado que enfim se
solta. Um longo aplauso, emocionado e merecido. A platéia
teve o bom senso de não pedir bis. Os músicos e cantores
estavam exaustos pelo esforço de executarem uma peça tão
elaborada, com caráter operístico. A execução não perdeu
em nada à que pude assistir anos atrás em Lucca, cidade
natal de Puccini.
Durante a apresentação, observando a atitude reverente da
assistência, concentração dos músicos, ouvindo aquela
música sagrada e bem interpretada, pareceu-me estar em uma
catedral. Foram cantadas as várias partes da missa em um
latim bem pronunciado tanto pelos corais como pelos
solistas. Na parte do credo: “Et incarnatus est de Spiritu
Sancto ex Maria Virgine”, um menino, ali bem perto de mim,
que imitava o maestro, regendo com seus pequenos braços,
parou, ficou imóvel. A beleza da música o comoveu, a
atenção extrema da platéia o contagiou. É evidente que o
conteúdo das palavras lhe era desconhecido: E se encarnou
(Jesus) pelo Espírito Santo em Maria Virgem.
Foi uma “missa” na qual todos estavam reunidos e unidos
pela beleza. Uma típica “missa” de uma cidade secular, na
qual crentes e não crentes se unem para um encontro com o
sublime, a partir da arte e da beleza. Se Deus é a suprema
verdade, não podemos esquecer que é também a suprema
beleza. Podemos ir até Ele pelo caminho da verdade,
complicado de se trilhar. Muito mais, poderemos ir pelo
caminho da beleza, um caminho mais suave.
Li certa vez uma entrevista do Cardeal Dannels na qual
dizia: “O belo pode fazer a síntese do verdadeiro e do
bem. Verdade, bondade, beleza são três nomes de Deus e
três estradas de acesso a Ele. Até agora, no entanto, a
estrada da beleza tem sido muito pouco usada”. Santo
Agostinho com razão escreveu: “Tarde te amei, ó Beleza tão
antiga e tão nova, tarde te amei. Eis que estavas dentro e
eu fora de mim!”.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
08/07/2008
"Lei seca"
A lei nº 11.705, que proíbe dirigir alcoolizado, está
causando polêmica. Era de se esperar, dado a propaganda
maciça que se tem feito de bebidas alcoólicas nos meios de
comunicação. Os que são contrários à lei alegam o direito
de beber livremente e, ainda, o direito de dirigir
embriagado. Mas seria esse um direito? Poderia até ser, se
não trouxesse consideráveis desgraças para a coletividade.
Uma coisa é você sofrer sozinho as conseqüências de uma
bebedeira. Outra coisa quando as conseqüências afetam os
outros. Mesmo antes de existir o Estado que faz e regula
as leis visando ao bem comum, já existia o direito natural
à vida. Assim, é correto afirmar que ninguém tem direito
de dirigir embriagado, dado que isto prejudica a vida,
ameaça a coletividade.
Quem de nós já não presenciou ou teve notícia ao menos de
pessoas acidentadas, mortas no trânsito devido à
embriaguez? Que desperdício de sofrimento e recursos!
Exclamava um bombeiro ao socorrer pessoas acidentadas no
trânsito devido à irresponsabilidade de quem dirigia
embriagado. Aliás, o que era mais comum do que se pensava.
As estatísticas evidenciam a redução drástica de acidentes
nestes poucos dias de funcionamento da proibição, e da
fiscalização. De fato, beber e dirigir são atividades
incompatíveis.
Pais e educadores se preocupam com o alcoolismo que se
alastra entre nossos jovens. Eles são as maiores vítimas
da propaganda de bebidas. Ademais, o álcool acaba abrindo
as portas às outras drogas e multiplicando o número de
viciados. Uma vez instalado o vício de beber, o alcoólatra
vai sendo destruído por ele. Alcoolismo crônico é doença,
regada por grandes ou pequenas doses. Entra-se nele
geralmente com a finalidade de superar problemas, mas, na
realidade, criam-se outros, maiores.
A lei que proíbe dirigir alcoolizado deve ser aplaudida
por todos, pois dela todos se beneficiarão. A lei, que
protege a vida tanto nossa como dos demais, merece apoio.
Se eu fosse relatar os dramas que já presenciei, as
situações terríveis de pessoas e famílias, devidas ao
alcoolismo, nas quais já tive ocasião de interferir como
padre, para minorar os sofrimentos, precisaria muito
papel. Aqui na paróquia funcionam os grupos Ceread e
Al-Anon, ambos dedicados à recuperação de alcoólatras.
Eles provam que aqueles que se libertam da bebida adquirem
vida nova.
Vamos fazer um brinde à vida, apoiando essa lei que já
está evitando tanto sofrimento. Qualquer sacrifício para
cumpri-la vale a pena, dado que é uma lei em favor da vida
e quando a vida é defendida, todos saem lucrando.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
05/08/2008
Pão nosso
Quem de nós já não rezou a oração do “Pai nosso” na qual
pedimos o pão nosso de cada dia? Ou rezou, ou ouviu rezar.
O pão aparece freqüentemente na Bíblia com significado
todo especial. Não só é o alimento símbolo de todos os
demais alimentos, mas o próprio Deus se fez pão para nós:
“Jesus tomou o pão, abençoou e disse tomai e comei isto é
meu corpo” (Lc 24,30).
Pão, em todas as culturas é tema central. Na vida
cotidiana, sentimos a importância da alimentação. Às
vezes, a pessoa diz “estou morrendo de fome”. Não é só uma
expressão, é realidade: se não comermos por um tempo
prolongado, morremos. Nunca se produziu tanto alimento no
mundo como hoje e, no entanto a fome nunca foi tão fatal.
Os evangelhos narram também a multiplicação dos pães.
Grande multidão seguia Jesus. Estavam em um lugar longe
das cidades, entardecia e o povo tinha fome. Os apóstolos
questionam Jesus sobre o que fazer. Jesus lhes responde:
“Dai-lhes vós mesmo de comer” ( Mt 14,16). Eles procuram e
só encontram cinco pães e dois peixinhos que alguém ali
possuía e colocou à disposição. Jesus ora e abençoa
mandando distribuir. Todos comeram e ainda sobrou. O que
sobrou foi recolhido.
Neste acontecimento há um convite para imitar Jesus
realizando a multiplicação dos pães. Deus supremo doador
dá à natureza condições de produzir o alimento necessário,
mas confia ao ser humano a organização da produção e
distribuição dos alimentos. Assim, a lição que Jesus dá na
multiplicação dos pães é a lição da solidariedade que sabe
partilhar. Onde há partilha não há fome. Jesus sinaliza
neste episódio uma maneira diferente de organizar a
sociedade, na qual o egoísmo e a ganância não formam o
núcleo central do sistema mas sim a vida.
É certo que Jesus disse também que nem só de pão vive o
homem. Na verdade, se eu tenho fome, é um problema
material meu, mas se meu irmão tem fome, é um problema
espiritual meu. Ou seja, nós não vivemos bem só quando
estamos bem alimentados, mas vivemos bem quando todos
estão bem alimentados. O ser humano se alimenta do pão
material, imprescindível, e do amor que faz partilhar,
pensar nos outros.
O que sobrou foi recolhido. Com isso, o narrador do
milagre de Jesus quer nos dizer que também o desperdício
de comida provoca a fome. Isto merece uma reflexão à
parte.
Em nosso País é grande a produção de alimentos, inclusive
para exportação. Mas a fome é presença constante. As
campanhas desenvolvidas para contornar o problema da fome
são interessantes, “quebram o galho” mas não resolvem. O
projeto popular de vida plena para todos com dignidade,
ganhou o poder, mas não ganhou o Estado. Temos democracia
política, mas não democracia social.
Continuamos esperando o milagre da multiplicação dos pães
que Deus espera que nós realizemos na perspectiva do Reino
de Deus e que se chama distribuição de renda. Uma justa
distribuição de renda dará pão sem assistencialismo e sem
criar dependências.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
19/08/2008
Semana da família
Semana passada foi vivenciada pelas comunidades cristãs da
Igreja Católica, a semana da família. Foram realizadas
diversas atividades visando ressaltar o valor da família.
A partir deste evento, é sobre a família que desejo
discorrer com você meu caro leitor ou leitora.
A partir da revolução industrial do século 19 as
transformações da família aconteceram com mais
intensidade. A propagação do malthusianismo, teoria de
Robert Maltthus, economista e pastor inglês, tiveram
grande influência. Com base no perigo da explosão
demográfica, ele propunha o controle da natalidade,
juntamente com políticas “anticrianças e antimaternidade”
ao passo que responsabilizava os pobres pelos males
sociais. Também o marxismo colocou a família como
antagônica a seu projeto: ela seria instrumento da
burguesia; conservadora e empecilho à revolução.
Desta maneira, com inimigos à direita e à esquerda,
previa-se que a família estava fadada a desaparecer da
sociedade. No entanto, não é o que aconteceu. Pesquisa
recente de um dos maiores jornais do País revela que a
família é a instituição mais valorizada juntamente com a
religião. Dos entrevistados da classe A e B 79% consideram
a família “muito importante” e 59% da classe D e E deram a
mesma resposta. Pois é, a família continua muito viva,
mesmo que haja discussão ao redor do que se entende por
família.
Estudando o resultado da referida pesquisa, estudiosos
opinaram que os mesmos seriam reflexos do desejo de maior
segurança diante das incertezas da vida, em meio a uma
“sociedade de risco”. São opiniões bem fundamentadas,
porque já na pré-história o homem buscou segurança nas
cavernas diante de uma sociedade de extremo risco. E por
incrível que pareça, buscou viver em grupos. Podemos
concluir que a família é uma organização pré-social. Está
na base do ser social da espécie humana. Assim, família e
individualismo não rimam. A valorização da família pode
ser um contraponto ao individualismo reinante, o que
indica a vocação da espécie humana para a comunidade e não
para o isolamento.
Na sociedade deste início do século 21, existem diversos
arranjos familiares que compõem a nova realidade da
família. Apesar de tudo isso a família continuará sendo o
núcleo básico, essencial e estruturante do sujeito.
Podemos afirmar que a família delineia-se, no desígnio do
Criador (ou na realidade social, para quem não crê em um
Criador) como lugar primário da humanização da pessoa e da
sociedade, berço da vida e do amor.
A Pastoral Familiar da Arquidiocese de Campinas tem
trabalhado com serenidade e persistência em prol das
famílias. Tenta-se criar a convicção de que uma sociedade
mais justa e fraterna depende da atenção às famílias. A
desestruturação da sociedade cresce à proporção em que se
desestruturam os núcleos familiares. Com o fortalecimento
dos núcleos familiares, a sociedade só tem a ganhar.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
02/09/2008
Apagão (urbano) da memória
Campinas completou 243 anos de sua fundação em julho. O
evento mereceu destaque no Correio Popular, com o caderno
especial Faces da Metrópole. Aí se registra com a
competência de sua equipe de jornalistas, a identidade
própria da cidade, alicerçada “na vanguarda das pesquisas
e base tecnológica”. Tem em sua gente a força motriz da
transformação.
No penúltimo domingo de agosto, no entanto, outra
reportagem do Correio descrevia a “boca-do-lixo
campineira”, ou seja, o Centro da cidade e intitulava de
“apagão urbano” a situação na qual está mergulhado o
coração da cidade. A degradação do Centro mostra a
dificuldade das cidades para manter seu centro organizado,
mas, sobretudo, mostra o descaso com a memória. Parece que
no centro, onde a cidade começou, tudo pode ser
deteriorado que não faz diferença.
Nossa época é avessa à História. A tendência é esquecer o
que aconteceu e também não se interessar pelo futuro, a
não ser quando entram interesses econômicos. Predomina o
instante. Isto é bom? Penso que, se nos preocupamos com os
frutos de uma árvore, os quais representam o presente e
descuidamos das raízes da árvore, que representam o
passado, é ruim, pois, lá na frente, a árvore pode ser
prejudicada, embora se possa das sementes plantar outras
árvores, mas não será a mesma.
A História guarda a memória. Quando aparecem crises na
história de uma sociedade, é a memória histórica que ajuda
a superá-las. Alguém já disse que a memória é a melhor
bagagem de um viajante, ela não o deixa esquecer de onde
saiu, porque empreendeu a viagem, conseqüentemente ajuda-o
a alcançar a meta. Nas ruas e edifícios do Centro de
Campinas estão sua memória histórica.
A Praça Bento Quirino e a Basílica do Carmo aí situada, p.
ex., é o berço da cidade nascida no dia de seu “batismo”:
a primeira missa celebrada pelo primeiro pároco, Frei
Antonio de Pádua Teixeira, e a invocação da padroeira
escolhida: Nossa Senhora da Conceição. Conseqüentemente,
Campinas nasceu cristã. Se considerarmos a História da
cidade este fato significativo não deve ser esquecido,
mesmo porque, até hoje, cristã é a grande parte de sua
população. É evidente que na fundação de uma cidade entra
uma gama complexa de interesses socioeconômicos e
políticos. Mas não podemos simplificar na base do
materialismo histórico. O ser humano é também coração,
cultura e, no âmago desta, há o sentimento religioso, a
religião, a fé.
A Basílica, que por muitas décadas foi a matriz da cidade,
é um símbolo deste “berço cristão” de Campinas. Que ela
nos recorde a força da ética cristã, a qual pode nos
ajudar a superar o monstro da ganância patológica que
ataca nossas cidades, para instalar nelas a sombra do
medo, miséria e violência, que geram todo tipo de
degradação. Que a ética cristã possa nos ensinar o valor
da convivência pacífica e libertadora, inspiração para a
recuperação do coração doente de nossa cidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
16/09/2008
É a política
Pela cidade, nos meios de comunicação está correndo a
campanha política. Assistimos, ouvimos, analisamos as
propostas dos candidatos dos vários partidos. Não são
poucos os candidatos, para a vereança em Campinas são
centenas. É a política!
Política é uma realidade cheia de contrastes. É o conjunto
de ações pelas quais se busca uma forma de convivência
construtiva. O ser humano vive de relacionamentos. Eles
são vitais. Através deles pode-se construir uma sociedade
feliz ou infeliz, dependendo da direção que se der ao
dinamismo da vida econômica, cultural e social.
A política verdadeira é busca do bem comum, entendido como
o conjunto de condições concretas, que permite às pessoas
um nível de vida com dignidade. O Estado é responsável
pelo bem comum, que é sua razão de ser. A única
justificativa para se disputar um cargo público é o desejo
de buscar o bem comum e promover a dignidade das pessoas.
Analisando as propostas dos candidatos pode-se perceber
nas entrelinhas que o objetivo de muitos, na verdade é
conquistar posições, nas quais indivíduos e grupos possam,
mais facilmente, exercer domínio sobre os outros e daí
auferir dividendos. Na contramão deste vício dos políticos
que buscam eleger-se para levar vantagem em tudo, ensina o
papa Paulo VI: “a política é uma maneira exigente de viver
o compromisso cristão do serviço aos outros”.
A Igreja Católica está realizando um mutirão de
conscientização dos fiéis neste mês pré-eleitoral. Em
todas as missas do domingo se distribui e comenta um
folheto sobre política. Bem comum, dignidade da pessoa,
tem tudo a ver com a pregação de Jesus cujo núcleo é o
Reino de Deus, presente em uma sociedade justa e fraterna
cujo fruto é a paz. Será sonho? Sim é sonho da humanidade
em todas as épocas, mas também de Deus.
Existem políticos que desejam se eleger prometendo tudo de
bom para os animais. Nada contra animais, porém isto é o
avanço do atraso, em matéria de política. Se a população
da cidade estiver bem, se não estiver matando os filhos,
esquartejando e colocando no lixo, os animais serão bem
tratados e viverão bem. Bem cuidados pelos humanos que
estarão bem. Como o Brasil, que detém a taxa de 10% dos
homicídios de todo o mundo, poderá cuidar bem dos animais?
Na civilização do Egito Antigo os animais eram adorados:
eram deuses! Como a injustiça e opressão eram a regra,
esta civilização se finou em ruínas. Que, aliás, podem ser
visitadas pelos turistas. Política para os humanos em
primeiro lugar, para que possam tratar os animais com
humanidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
30/09/2008
Nossa Senhora Aparecida
Chegou a Primavera, estamos para iniciar o mês de outubro.
Na Igreja Católica, este é mês das missões. Há o convite
para refletir sobre a missão de Jesus em favor do Reino de
Deus, e nossa missão de seguidores seus, comprometidos em
anunciar o Reino. Essa missão tem implicações concretas na
realidade social, pois, “O Reino de Deus é justiça, paz e
alegria”, escreve o Apóstolo Paulo (Rm 14,17).
Nesse sentido, as eleições são uma ótima oportunidade de
crescer em cidadania, ajudando a eleger candidatos que
trabalhem pelos valores do Reino. Em especial, que
trabalhem para dar alegria ao povo, entristecido por tanta
violência e corrupção. Só temos duas armas para mudar a
Nação: a urna e o canhão. Usemos a urna, para banir da
vida pública os incompetentes e corruptores. É necessário
criar uma cultura da política de honestidade e trabalho em
favor do bem comum.
É nesse contexto que nossa Igreja se prepara para celebrar
a festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A
Mãe de Jesus foi discípula fiel de seu filho e sua última
palavra nos relatos bíblicos, indicam sua posição em
relação a Ele: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo.
2,5). Maria se faz missionária da Palavra viva que é
Jesus. E é isto que ela tem sido no Brasil ao longo dos
anos. Milhares na nossa história encontraram Jesus nos
braços de Maria, como os magos do Oriente conforme relatos
evangélicos.
Essa pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição que o
povo apelidou de Aparecida e cuja devoção começou em 1717
no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, tem um
significado especial para a maioria da população pobre,
excluída e escrava daquela época. E também nos séculos
seguintes. Escravizados pelos senhores, desprezados pelas
castas burocráticas e corporativistas do Brasil colonial,
imperial e republicano, o povo recorre a esta mãe bondosa.
Também sem poder encontrar na religião a força para
perceber o amor de Deus, o povo recorreu igualmente ao Bom
Jesus Sofredor e a sua Mãe Maria.
A Imaculada Conceição era padroeira do Reino de Portugal e
do Império Brasileiro, e continua sendo do Brasil de hoje
que a honra com este feriado. Nosso povo cristão deve
reunir-se ao redor desta mãe para se confraternizar. Maria
é ponto de união entre o céu e a terra, pois foi nesta
mulher que a Palavra se fez carne, deve ser também ponto
de união entre os seguidores de Jesus. Graças a Deus o
diálogo ecumênico tem possibilitado grandes progressos na
compreensão da figura de Maria, de quem Lutero foi devoto
fervoroso até o fim da vida. Por estes dias teve lugar no
santuário de Lourdes na França, a primeira peregrinação de
católicos e anglicanos. É Maria unindo os cristãos em
torno de Jesus!
Em Campinas, dia 12 de outubro, domingo, vamos celebrar o
Centenário com Maria. Neste ano, centenário da criação da
Arquidiocese, celebraremos Jesus Cristo, unidos à fé de
Maria sua Mãe, nossa companheira de caminhada. Na Praça
Arautos da Paz, no Taquaral, será celebrada a missa
presidida por d. Bruno, com a participação de todos os
católicos e os demais cristãos que desejarem participar.
Em festa de mãe não precisa convite, mas vale a lembrança.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
14/10/2008
Babel econômica
Não sendo economista, é provável que não teria credenciais
para falar da crise econômica que está aí. Porém,
parece-me que nem mesmo os economistas, ou pessoas do
mundo das finanças, estão compreendendo bem o que está
acontecendo. A impressão é que cada um, ao dar entrevista,
entende uma parte da confusão toda que se armou no sistema
financeiro internacional.
Minha reflexão é feita a partir da teologia; neste sentido
creio que posso emitir uma opinião sobre a situação. A
pergunta que se faz é a seguinte: qual o objetivo do
sistema financeiro? Toda a movimentação financeira que
ocupa tantas pessoas está a serviço de quem? Será que o
mundo das finanças, como está organizado, traz realização
para os que o movimentam e dele vivem? São essas perguntas
elementares que podem ser completadas por uma última, que
vai além de uma preocupação ética: será que tudo isto está
de acordo com a Palavra de Deus?
Não se pode simplesmente condenar a movimentação
financeira porque o comércio é atividade humana legítima,
colabora para o desenvolvimento e o sustento das pessoas.
Toda atividade comercial ou movimentação econômica e
financeira deve estar a serviço do bem-estar das pessoas.
O ser humano e, em última análise, a vida, deve ser o
objetivo primordial e último. Assim sendo, o trabalho
nesta área pode reverter em bem imenso para as pessoas,
para a produção de riquezas e sua distribuição.
Conseqüentemente, glorificaria o Criador.
O que acontece é que todo o sistema financeiro se desviou
de sua finalidade legítima para transformar-se, como disse
alguém, em uma fogueira das vaidades que arde nas brasas
do egoísmo. O lucro se torna “deus”, cultuado por uma
“liturgia” complexa, na qual se transformou o sistema
financeiro. Estar em estado de graça é ter dinheiro e
poder consumir à vontade: os bancos são as “catedrais”
onde o culto atinge seu ápice. O “herege” nessa “religião”
é o pobre. Evidentemente, essa idolatria gera violência,
pois o acúmulo de riquezas produz miséria na maioria da
população.
O comércio e a economia que teriam em si uma capacidade
enorme de unir, partilhar e harmonizar as pessoas,
promovendo a vida, se transformam em instrumento de
desespero e morte. E não me refiro somente à ganância
absurda, mas à corrupção e degradação a que a idolatria do
dinheiro leva o ser humano: orgia, corrupção, desperdício,
extravagância, esbórnia.
No deserto, quando Satanás, mostrando todas as riquezas
deste mundo, tenta Jesus, dizendo-lhe “Tudo isto te darei
se prostrado me adorares” (Mt 4,9). recebe Dele uma recusa
repulsiva: “Afaste-se, só a Deus adorarás”. Fazer o mundo
girar em torno do lucro transforma-o em mundo da mentira,
dominado pela fantasia (o que quer dizer 6 trilhões de
dólares? Quantos zeros tem? E a montanha de siglas do
sistema financeiro?). Perde-se assim o senso da realidade,
mergulha-se no vazio.
Se é necessária reformulação na economia, deve ser feita
no sentido de haver lucro e partilha para manter a vida de
todos. O cooperativismo deve vencer a concorrência
predadora.
O que estamos colhendo é fruto de uma economia sem
coração, que, por ter expulso Deus e a pessoa humana de
seu sistema, acaba na torre de Babel econômica.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
18/11/2008
Era do individualismo
Eu não quero, Eu não faço, Eu não gosto, Eu quero, Eu
faço, Eu gosto. Cada dia ouvimos estas palavras que
ressaltam a centralidade do Eu. Se a Bíblia precisasse ser
reescrita talvez começasse assim: “No princípio era o
Eu...”
Nada contra o valor do indivíduo, aliás, o reconhecimento
da individualidade é um dos pilares de sustentação da
cultura moderna surgida na Renascença. Uma mudança
significativa: o indivíduo vai revoltar-se contra o peso
da aparelhagem social demasiadamente rígida e
controladora.
Nada mais bonito, necessário, que a grandeza do indivíduo
reconhecido nos seus direitos, sendo o mais valioso deles,
a liberdade. Assim, é evidente que ressaltar e fazer valer
a individualidade são conquistas preciosas.
Porém, sempre há um porém, é hora de perguntar se a
exaltação do indivíduo, o individualismo, não começa a
prejudicar o próprio indivíduo. Emmanuel Mounier é de
opinião que estamos vivendo a era do individualismo e
escreve: “O individualismo é uma decadência do indivíduo
antes de ser um isolamento do indivíduo; isolou os homens
na medida em que os aviltou”.
Com a desarticulação da vida comunitária começando pela
família; com o dinheiro e o lucro ocupando o centro e a
meta de todos os empreendimentos; e ainda, com a negação
de uma ética de valores, o individualismo avilta porque
produz como resultado uma sociedade caótica. Tanto num
mundo regido pela tirania do social como num mundo regido
pela tirania do indivíduo, instala-se o caos e a
impossibilidade de vida digna para todos.
Os resultados do individualismo estão presentes nos
noticiários a cada dia. Basta andar pela cidade para ver
as conseqüências. Nem mesmo os sinais de trânsito são
respeitados. Cada um é lei para si mesmo e para os outros.
Predomina a vontade dos mais fortes em uma sociedade onde
os fracos não têm vez.
O individualismo alimenta o egoísmo e ambos alimentam a
violência a qual, por sua vez, progride com a impunidade.
Como violência gera violência, eis que estamos em um mundo
cada dia mais violento, porque cada vez mais egoísta.
E, no entanto, o ser humano é faminto de amor. Não vivendo
no amor e na comunhão com os outros, não consegue se
relacionar, ser pessoa. Aí bate a depressão que aumenta,
como aponta o crescimento de 40% na venda de
antidepressivos nos últimos anos.
Onde encontrar o amor? O amor é dom de si, é comunhão e
floresce na comunidade. Torna-se urgente restabelecer a
comunidade que desperta para a responsabilidade, o cuidado
com os outros e com a natureza e conseqüentemente nos
mantém a esperança.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
09/12/2008
Sinos de Natal
A ceia de Natal é uma festa que deseja comemorar o grande
presente que o céu nos envia: Jesus o Filho de Deus. As
famílias se reúnem em festa e a ceia será a expressão da
alegria por Deus nos ter enviado o Salvador. A ceia de
Natal é expressão do encontro entre Terra e Céu. Nas
igrejas será celebrada a Santa Missa, a ceia que supera
todas as outras, porque ali está o próprio Jesus presente
na Eucaristia. É vida com os irmãos em Cristo na alegria
da salvação universal. Os sinos anunciam tudo isto, são um
dos símbolos do Natal.
É impossível determinar o começo do uso do sino em
eventos, prédios públicos e principalmente nos cultos das
várias religiões, budismo e catolicismo, por exemplo. Os
sinos em sua musicalidade sóbria tornam-se símbolo da
comunidade reunida, símbolo da fé, símbolo da convocação
do povo de Deus para ouvir a sua Palavra e celebrar seus
mistérios.
Assim, os sinos anunciam com alegria o nascimento de Jesus
e o anúncio feito aos pobres pastores, os primeiros a
serem convidados a visitar o menino Jesus: “Não tenham
medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma
grande notícia para todo o povo: hoje na cidade de Davi
nasceu para vocês o Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc
2,10).
As histórias envolvendo os sinos sempre estão envoltas em
alegres anúncios de libertação, como a história do padre
Joaquim Anselmo de Oliveira, que foi pároco em Campinas a
partir de 1832, quando Campinas se chamava Vila de São
Carlos, e tinha um grande número de escravos em freqüente
revolta. Nem a instalação da cadeia pública e três forcas
na vila conseguiram coibir as rebeliões dos escravos.
O padre Anselmo, movido de compaixão e tomando a defesa
dos escravos, despertou a ira dos senhores latifundiários,
os quais procuravam ocasião para derruba-lo. O padre foi
acusado de roubo e levado a julgamento em 1835. Conta-se
que durante o julgamento, os sinos da matriz tocaram
sozinhos. O padre foi absolvido mediante a brilhante
defesa de seu advogado, Reginaldo de Moraes Sales. Por
isso, até hoje, tocam os sinos da matriz velha (Basílica
do Carmo) onde se deu este evento.
Os sinos tocam anunciando sempre a bondade de Deus,
sinalizando para nós a presença libertadora de Jesus
Cristo no sacrário que está ali na igreja. E no Natal eles
sinalizam o alegre anúncio da chegada do nosso redentor.
Dizem que os diabos não gostam de sinos, assim como não
gostam de água benta e nem de igreja. Ficam incomodados,
se revoltam. Não é para menos. Mas como diz o ditado
italiano: “In fine vita anche il diavolo diventa
sacristano” (no fim da vida, até o diabo se torna
sacristão), pode ser que até o diabo um dia goste de sino,
já que um dos ofícios do sacristão é tocar o sino.
Feliz Natal a todos, queridos leitores e leitoras. De
coração, vos desejo muita paz e alegria.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|
30/12/2008
Trevas, luzes e você
Conheci um padre que passou a vida lutando pelos direitos
humanos e no fim da vida repetia sempre: “Uma nuvem de
tristeza se abateu sobre o mundo”, e o dizia com amargura.
Pessimismo ou realismo? Penso que é realismo porque essa
nuvem de tristeza baixou sobre o mundo desde o início,
quando lá no Paraíso Terrestre o homem criado à imagem e
semelhança de Deus, recusou o próprio Deus e pecou. O que
é o pecado a não ser a recusa do amor? Amor que se abre
para o convívio fraternal com Deus, o próximo, a natureza
e para consigo mesmo?
Fechado no seu egoísmo como lembrava o papa Bento XVI, o
ser humano sofre, sofre porque se destrói, decai, se
avilta. E as notícias sucedem-se: as enchentes destroem e
matam em Santa Catarina, casas construídas de forma
precária, loteamentos mal feitos pela exploração
imobiliária, ajudam a tragédia a ficar maior; homem se
disfarça de Papai Noel, invada casa na hora da festa e põe
fogo; enchurrada leva lama aos bairros pobres de Campinas
e carros ficam presos nas crateras no meio das ruas;
violência nas cidades grandes aumenta mais que o
desenvolvimento técnico-científico; carpinteiro é preso
acusado de estupro contra a própria filha, etc... São
algumas notícias do jornal de um só dia.
Tudo isso temperado com a crise econômica cuja perspectiva
é agravar-se no próximo ano. Os “deuses” do sistema
econômico construíram a torre de Babel do sistema
financeiro internacional. Fizeram tudo sicut Deus non
daretur, como se Deus não existisse. Esqueceram da lição
bíblica (Gn 11, 1-9). O orgulho, gera a injustiça e essa
torna impossível a convivência pacífica entre as pessoas e
os povos. Nuvem de tristeza!
Mas, celebrando o Natal, somos convidados a superar esta
nuvem escura e perceber a outra nuvem maior, luminosa, que
baixou sobre o mundo. “Nasceu para vocês um Salvador, que
é o Messias, o Senhor”, diz o anjo aos pastores, é o
menino Jesus. Deus entra assim na humanidade, se fez um de
nós, veio compartilhar nossas alegrias e tristezas, nossas
trevas e luzes. Ele é a luz que brilhou nas trevas. Mesmo
que o sistema da nuvem de tristeza e trevas não o queira
receber, tudo será diferente.
Deus entrou na nossa história e isso muda tudo. Em Jesus
Deus está comprometido com a humanidade na sua trajetória.
Ele está no barco da humanidade que navega por mares
bravios. Esta presença afetiva e efetiva garante o final
feliz de nossas vidas. Tudo pode ser uma grande confusão,
mas que terminará bem, como dizia um filósofo cristão que
muito admiro.
Nesse panorama, o apelo da Sagrada Escritura é que
tenhamos fé, que recebamos com carinho e afeto a salvação
que Deus nos manda. Jesus disse: “Eu sou a luz, quem me
segue não anda nas trevas”. Não há tristeza, derrota ou
amargura para o cristão. Porque a exemplo de Jesus, o
cristão triunfa na derrota. Jesus, nosso Mestre, é o
vencedor vencido: morrendo destruiu a morte!
A situação humana é dialética, porém, você deve escolher a
nuvem da tristeza ou da luz! O pessimismo nunca foi o
forte dos cristãos de verdade, o bom humor sim, na base
do: “está escuro, mas eu canto”, como dizia o poeta. Canto
não para espantar a tristeza, mas para celebrar a aurora
luminosa que se aproxima.
Comecemos o ano novo com esta alegria dos redimidos: “Ele
está no meio de nós”. Feliz ano novo para todos. Meu
abraço agradecido por terem lido meus pobres escritos
durante este ano.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
Início
|
|