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Artigos
Artigos de
autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,
publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP
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02/01/2007
Gatos e lagartos
A Basílica do Carmo é um local por onde passam centenas de
pessoas todos os dias. Existe ali um serviço de acolhida
fraterna muito bom, levado avante por leigos e leigas
preparados. Atendem pessoas que ali chegam, buscando
palavras de conforto, desejando fazer um desabafo, enfim
querendo ser ouvidas. Como pároco e reitor da Basílica
também acolho os que ali vão, desejando falar com o padre.
O diálogo com o povo é sempre enriquecedor e gratificante.
Dia desses conversei com uma senhora de 83 anos, que
aparentava menos. Com postura respeitosa, olhar de quem já
viu quase tudo na vida, fala pausada e uma inteligência
perspicaz, ela foi falando. Vou chamá-la pelo nome
fictício de Eufrásia e relatar um pouco da conversa.
Reverendo, disse ela, agradeço por me receber. Na minha
terra chamam o padre de reverendo, mas aqui não usa, não
sei porque. Aliás, a educação parece que acabou. Antes a
educação era substância, hoje é enfeite, usa quem quer.
Pois é, disse-lhe, os tempos mudaram, os costumes também.
Ela, porém, retrucou que a violência está demais porque
ninguém mais tem educação, e que a guerra no mundo começa
com a falta de educação: da guerra pequena se passa pra
grande. E o que é a guerra, senão uma grande falta de
educação de todos contra todos? É a vitória do egoísmo,
sentenciou.
Foi dizendo que veio do Norte em um caminhão e trabalhou
quatro décadas, juntamente com o esposo para ter sua casa
e sua aposentadoria. Criou um filho, o esposo morreu. E
concluiu: a preguiça tomou conta do mundo, as pessoas não
gostam de trabalhar. Fui para minha terra e voltei
decepcionada, não se tem vontade de trabalhar. Eu lhe
disse que às vezes as pessoas estão doentes, outros não
acham emprego. Ela retrucou-me: reverendo, não é isso não,
é a Bolsa Família que o governo dá, acomodou as pessoas.
Tudo dado de mão-beijada. Para os doentes é bom, mas para
os que têm saúde tem que dar é trabalho.
Admirei-me que dona Eufrásia tivesse estas idéias e lhe
perguntei se havia estudado em algum lugar. Disse que não
freqüentou escola, só a da vida, e que estas idéias lhe
vêem de pensar e matutar muito. Somente agora é que
freqüentou o projeto Letra Viva, o qual lhe facultou ler
um pouco. E alegre acrescentou que já “pode ler o nome dos
ônibus”. Facilita, porém não tenho muito lugar para ir,
meus parentes já morreram todos, eu também já estou no fim
da linha, acrescentou.
Perguntei-lhe se assistia televisão. Dona Eufrásia disse
que hoje em dia sim, tem tempo, e que a TV é uma coisa
maravilhosa, traz muita novidade. Ultimamente tem
desanimado de assistir, porque além da violência tem muita
briga de políticos, corrupção. Segundo ela isto é um
atraso. Perguntei o que acha dos políticos corruptos. Dona
Eufrásia me respondeu que são pessoas sem piedade, não
crêem em Deus. Acham que nunca serão julgados por Deus e
que podem fazer o que bem entendem. Tudo passa e eles
também vão ser julgados e vão passar. Daqui a algum tempo
ninguém lembra deles. Olha o Getúlio Vargas, foi tão
importante e Campinas, deste tamanho não tem praça com o
nome dele, nem sei se tem uma rua.
Conversamos sobre religião e outros assuntos de fé, por
fim dona Eufrásia se despede pedindo a benção. Digo a ela
que também me abençoe para que eu seja, a seu exemplo,
lúcido, se chegar a sua idade. Ela me responde: se Deus
quiser, reverendo, o senhor chega. É só não se iludir com
quem tem poder, coisa boa só pode vir é de baixo: olha o
menino Jesus no presépio.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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16/01/2007
Religião e dinheiro
Lendo nos jornais, como aqui no Correio, sobre a prisão
dos dirigentes da igreja Renascer em Cristo, com dólares
até mesmo dentro da Bíblia, não só ficamos tristes, mas
indignados.
No século 16, Lutero iniciou o movimento da Reforma que
visava libertação do papado, àquela altura, mergulhado em
uma grave crise, provocada inclusive pela assim chamada
“venda de indulgências”. Em um ambiente triunfalista, ele
vai recordar à Igreja a teologia da cruz. Da Reforma
surgirão três grandes comunidades: luterana, calvinista e
anglicana, correntes do protestantismo tradicional. Destas
são derivadas centenas de sociedades menores: constituem o
protestantismo moderno. Este último distingue-se por sua
índole mais radical, mais livre da tradição cristã e certo
anti-intelectualismo. São os pentecostais e
neopentecostais.
Em meio ao pluralismo religioso que marca nossa época, as
pessoas escolhem ritos e normas que estejam de acordo com
sua própria necessidade. A crise ética atual reflete a
crise de sentido da vida. Então a cultura materialista e
hedonista faz do dinheiro o deus supremo, capaz de dar
tudo para fazer feliz. É aí então que se cai na tentação
da “Teologia da Prosperidade”. Propondo esta teologia,
muitas igrejas neopentecostais têm crescido bastante. É
intrigante como estas igrejas, últimos rebentos derivados
da Reforma, têm reproduzido todo tipo de comportamento
contra o qual Lutero protestou: o poder opressor
sustentado pelo dinheiro, o vale tudo por dinheiro.
Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo
tempo. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt
6,24). Estas igrejas querem servir a dois senhores ao
mesmo tempo, mais ainda, querem servir a Deus através do
dinheiro que abre as portas a todas as riquezas. É a
teologia da prosperidade: você louva a Deus dando dinheiro
a Ele (?!) e Ele te retribuirá dando o que você pede. O
dinheiro em si não é ruim, mas quando domina uma pessoa, a
escraviza e toma o lugar de Deus em sua vida. O dinheiro
serve bem para ser empregado, mas se virar patrão, acaba
arruinando a pessoa ou seus descendentes. A teologia da
prosperidade é o contrário da teologia da cruz. É abuso
extremado do conceito bíblico do dízimo, é um tomar o nome
de Deus em vão, abusando de suas palavras e promessas. É
desejo de submeter Deus ao desejo pessoal como tenta fazer
a magia. Por isso, não raro o feitiço se vira contra o
feiticeiro.
O livro de Jó é expressão acabada do combate á teologia da
prosperidade. Trata do justo que sofre, em uma época
dominada pela mentalidade da retribuição divina, com bens
materiais, à bondade da pessoa. A justiça divina nem
sempre age segundo nossos critérios e conceitos racionais,
está acima deles. O homem deve ter uma confiança ilimitada
em Deus. Deus que muitas vezes ajuda mais não atendendo
certas preces que se lhe faz. Livrando assim de muitas
encrencas, como por exemplo, processos e prisão por mau
uso das riquezas.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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30/01/2007
Fevereiro
O mês de fevereiro, a iniciar-se em breve, é o menor do
calendário, nem por isso deixa de ter sua riqueza,
assinalando datas importantes. Logo se pensa no Carnaval,
comemorado dia 20, e as pessoas costumam dizer que o
Brasil só funciona após o Carnaval. É idéia equivocada
porque a maioria da população está, desde o início do ano
trabalhando, e muito. O que podemos desejar é que os
festejos do Carnaval, esta bonita festa popular, tragam
alegria verdadeira, não só contentamento que passa rápido,
deixando angústia e desgosto de paixões mal vividas,
muitas vezes afogadas em bebida.
Algumas categorias de trabalhadores serão contempladas
neste mês: dia 1 é dia do publicitário, dia 7 dia do
gráfico, dia 10 do atleta. Sempre nos lembraremos de
alguns amigos e conhecidos para homenagear neste seu dia e
isto é bom.
É rico também o calendário religioso que assinala dia 2, o
de Nossa Senhora da Candelária, muito venerada em nossa
região, que apresenta Jesus luz do mundo; dia 2 São Braz,
que protege a garganta; dia 11, Nossa Senhora de Lourdes,
dia da bênção aos doentes, pois Lourdes é o maior centro
de peregrinações de doentes do mundo, e, dia 22, dia da
Cátedra de S. Pedro.
Mas é o dia 21, quarta feira de Cinzas, o mais importante.
Na minha agenda tem a seguinte frase neste dia:
“Tropeçamos sempre nas pedras pequenas, porque as grandes
sempre as enxergamos”. De fato, são tantas pedras pequenas
no nosso caminho que às vezes formam obstáculos
intransponíveis. E pensar que muitas destas pedras nós
mesmos as colocamos! A quarta-feira de Cinzas assinala o
início da Quaresma, tempo propício para refletir mais
demoradamente nas pedras do caminho que nos atrapalham em
nossa caminhada para Deus e para os irmãos. E procurar
removê-las.
Quaresma é tempo de penitência e isto parece anacrônico,
mas não, pois é aconselhada por muitos profissionais
admirados e seguidos. Não há penitência maior que o
autoconhecimento, aconselhado por psicólogos. Comer menos
e fazer exercícios, o que tira do comodismo é aconselhado
pelos médicos. Ter educação e cordialidade no trato é
aconselhado por qualquer agência de emprego. Deixar a
preguiça, trabalhar com honestidade é norma em qualquer
curso de capacitação. Paciência no trânsito é ensinada em
auto-escolas e assim por diante. Não fumar, não beber em
excesso é recomendado pelo Ministério da Saúde. Ensinar
crianças a ter disciplina é sinal de amor por elas, dizem
os pedagogos. Enfim, a penitência está na ordem do dia com
outro nome. Quando os profissionais prescrevem é qualidade
de vida. Quando a Igreja propõe com base no Evangelho é
atraso, repressão etc. A diferença é que para a pessoa
religiosa tudo isto deve ser feito por amor, como Jesus
recomenda e não por interesse ou segundas intenções.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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13/02/2007
Noite de agonia
Iniciam-se as aulas, a cidade fica repleta de jovens. Nos
cruzamentos, os carros param, os bichos pedem ajuda,
parece que os trotes estão mais humanizados: recolher
doações.
Refletir sobre a juventude se impõe. Nosso País ainda é um
País de jovens. A juventude contagia, ilumina, tem o dom
de revirar as coisas. Foi assim que no ano de 1968, a
“revolução dos jovens”, a partir de Paris, se espalhou
pelo planeta. Foram os primeiros a perceber que um mundo
velho estava terminando. E então se dizia: é proibido
proibir!
O potencial da juventude é imenso, os jovens são capazes
de generosidade incrível, de criatividade admirável,
quando unidos por uma causa. Foram os jovens que ajudaram
a exorcizar os demônios da ditadura militar, que por
longos anos amordaçou os anseio de liberdade e
participação. A campanha pelas diretas-já, o movimento
pelo impedimento de Collor (os caras-pintadas), foram
momentos da juventude unida mostrar seu potencial.
Ela é a fase da vida em que se concentram os maiores
desafios e problemas, mas também, a fase de maior energia,
criatividade, generosidade. As mudanças rápidas por que
passamos nestes últimos 20 anos, tem marcado profundamente
a juventude, não raro de forma negativa. A subjetividade
está na ordem do dia, ela faz o jovem substituir a
preocupação por um mundo melhor, pela preocupação com as
necessidades pessoais. A vivência religiosa, que inspirava
o desejo de justiça, foi substituída pela busca de
espiritualidade individualista. Os jovens antes viviam a
exaltação da razão, hoje acentua-se o primado das emoções.
É difícil para os jovens lidar com tantas mudanças em meio
a uma realidade na qual o dinheiro se tornou o valor único
que se impõe. Há uma marca de desânimo e desespero na
juventude que transparece na tristeza. É comum encontrar
jovens tristes, deprimidos, desanimados. Cresce o consumo
de álcool e drogas entre os jovens, conseqüentemente a
violência, da qual são autores e na maior parte das vezes
vítimas.
Reportemo-nos às chacinas de jovens em Rio das Pedras,
torturados e mortos, como nos informou reportagem do
Correio. E outra, ainda este mês, mais terrível, relatava
o caso de jovens assaltantes que roubam um carro e
arrastam preso ao veículo um menino de 6 anos, por sete
quilômetros. Estes fatos nos reportam a uma noite de
agonia que se abate sobre nós, no dizer de um velho padre
progressista que conheci.
O desafio de dar um sentido à vida é patente. A juventude
precisa reaver a esperança perdida. Voltar-se para Deus,
conhecer Jesus Cristo e seu Evangelho. Onde isso já
acontece percebe-se que um novo dia amanhece carregado de
alegria.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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06/03/2007
Grito da Terra
O verde das florestas, a natureza no seu encanto nos
agrada. O planeta Terra que deveria se chamar Água, esta
pérola azul sustentada no vazio do espaço sideral é nossa
casa comum. Deus criou o mundo e ficou contente, viu que
tudo era bom, diz a bíblia.
Sabemos que a bíblia não é livro de ciência, não tem
pretensão de explicar o universo do ponto de vista
científico. Sua mensagem é muito maior, responde-nos sobre
o que havia antes da criação do mundo, mundo como a
ciência o entende e descreve. A ciência com seu poder
fenomenal de investigar, desvendar e iluminar, só discursa
a partir do início da matéria, assim mesmo jogando com
hipóteses que não se podem provar.
Mas o que havia antes da matéria, da criação? Havia um
Amor infinito – Deus é amor (1Jo 4,16). Este amor é a
fonte da vida, é o Deus criador do qual fala a bíblia.
Crer nele significa aceitar que o mundo e o ser humano não
estão sem explicação e sentido, que têm valor e segurança
a partir de sua causa primeira: Deus.
Assim, só a fé em Deus criador pode nos levar como
cristãos a propor uma reflexão como a da Campanha da
Fraternidade deste ano. Fraternidade e Amazônia, o tema da
campanha toca na questão da ecologia, preservação da
natureza. A Terra está dando seus sinais de que a
destruição do ecossistema avança rápido. O grito da Terra
está presente por toda parte pedindo que a protejamos, do
contrário é bem capaz que ela nos acabe eliminando.
Deus colocou o ser humano na Terra para ser o jardineiro,
o zelador deste jardim maravilhoso. No entanto, levado por
ambição desmedida, ele a destrói. A Amazônia serve de
exemplo para constatar que o egoísmo na administração dos
bens da natureza é altamente destrutivo. Não se vê a Terra
como patrimônio de todos, mas “meu”, o pedaço que comprei
é meu e faço dele o que quero. Este é o caminho mais curto
para que não seja de ninguém, pois, se tornará inabitável.
Esta questão atinge o modelo de desenvolvimento e o estilo
de vida de todos. O ideal da modernidade, ainda
persistente, que é progresso sem fim a qualquer custo, se
esgotou. Somos convidados a caminhar por outro caminho, o
da preservação da vida. Cuidado e carinho para com a mãe
natureza a fim de que o futuro da humanidade seja feliz! A
vida sobre a Terra é um dom e nossa missão é preservá-la
não somente para sobreviver, mas porque isso é ato de
louvor e veneração a Deus criador.
Em Campinas temos pessoas competentes, como o professor
José Pedro Martins, que alertam com clareza sobre tudo
isto, devemos ouvir.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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20/03/2007
Exortação papal
Foi decretado que não existe mistério. Tudo se explica à
exaustão e a inteligência humana dá conta de saber tudo
sobre tudo. Aliás, foi decidido também que não existe mais
verdade, cada um faz a sua. Mas na verdade não é bem assim
fora da academia. O coração continua tendo razões que a
própria razão desconhece. Se há fome de pão, a fome de
Deus é maior. O ser humano sabe que foi criado para o
infinito e não se contenta com menos que Deus. Mesmo
quando se diz ateu, no fundo sussurra: sou ateu graças a
Deus!
Bento XVI acaba de publicar uma exortação que fala sobre o
mistério, este é o sentido da palavra sacramento. O
mistério do amor-caridade se intitula a exortação. O amor
de Deus envolve tudo, é “eletricidade que eu passeio sem
medo... se eu pisar este amor me mata” no dizer da poetiza
Adélia Prado, no seu poema intitulado Sítio. O amor de
Deus se manifestou totalmente em Jesus Cristo, o qual está
presente na Eucaristia.
A Eucaristia, a santa comunhão, é sacramento central para
a vida do cristão porque exprime o que seja amor em grau
máximo. É Jesus Cristo que dá sua vida por nós. A morte de
Cristo na cruz não foi fatalidade, mas entrega amorosa.
Deus nos ama ao ponto de se fazer nosso alimento:
“tendo-nos amado, amou até o fim”. Não há de fato amor
maior que dar a vida por quem se ama.
Falar sobre esse mistério de amor, em um mundo onde tudo
tem um preço e o individualismo se tornou regra de
sobrevivência, é questionador. O papa faz ligação entre a
Eucaristia e o matrimônio para recordar o que diz o
apóstolo Paulo na carta aos efésios: que o amor de dois
esposos é sagrado e sinaliza o amor de Deus pela
humanidade, o amor de Cristo pela Igreja.
Não diz novidade, desde o início a Bíblia, passando por
Jesus que o confirma, patenteia-se a sacralidade da união
entre um homem e uma mulher, com um vínculo fiel,
indissolúvel e exclusivo. O que a Bíblia afirma sobre o
casamento está em harmonia com o dado antropológico
primordial, segundo o qual o homem deve se unir de modo
definitivo com uma só mulher e vice-versa. Este dado
nenhuma Igreja que se funda na revelação bíblica, tem
autoridade para alterar. A igreja não fabrica verdades,
ela a recebe contida na Palavra de Deus.
O que choca é reafirmar estas coisas em uma cultura na
qual o sexo deixou de ser linguagem do amor. Está separado
da idéia de procriação, é só instrumento de prazer que
muitas vezes se vende e compra. O sexo se tornou
preocupação constante, ao ponto de, em nossa cultura a
pessoa ter que estar no cio o ano todo e a vida inteira,
ao contrário dos animais que tem seus ciclos. Diante
disso, o que o papa quer reafirmar nesta exortação ou
incomoda ou não tem sentido.
Algo que incomodou é o papa dizer que um segundo
casamento, após o divórcio, para os que se casaram na
Igreja é uma praga. Mas isto qualquer criança que vive a
separação dos pais pensa, mesmo que sofra as conseqüências
sem falar. O texto não despreza os casais em segunda
união, eles continuam fazendo parte da Igreja e o papa vai
dizer: “Todavia os divorciados re-casados, não obstante
sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os
acompanha com especial cuidado na esperança de que
continuem cooperando na vida da Igreja”.
Somente a leitura deste texto na íntegra, pode dar idéia
do que o papa quis dizer!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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03/04/2007
Sofrimento dos inocentes
Estamos na Semana Santa, o convite vai no sentido de
contemplar Jesus Crucificado. Ele encarna o sofrimento
humano no seu grau mais agudo. Por outro lado, somos
convidados a refletir no sofrimento que se instala na
nossa realidade social. Olhando ao redor defrontamos com
tanta dor e sofrimento que atingem a população de várias
formas. Os rostos sofridos do povo aparecem de várias
maneiras.
Nem toda dor tem a mesma causa. São tantas as causas:
ódio, exploração, vingança, doença, velhice, desastres,
engano, ignorância, desespero, injustiça, a dor que nasce
de um grande amor, etc, nunca acabaríamos de enumerá-las.
Todos os dias se pode ver, nas transmissões ao vivo pela
televisão, as dores do mundo, de forma mais dramática,
relatos de zonas de guerra onde o sofrimento é terrível.
Então surge a pergunta pelo sentido de tanto sofrimento.
Sem dúvida existem muitas explicações que apontam causas
econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas.
Elas devem ser feitas, ajudam a compreender muito dos
motivos de tanta dor. Porém não bastam, a dor é maior.
Estas explicações necessárias ajudam, mas não dão forças
para agüentar o sofrimento. As explicações se perdem
quando deparamos com o sofrimento do inocente, com o justo
que sofre.
É aí que a Palavra de Deus, contida na Bíblia indica a
figura do Servo de Javé. O profeta Isaías nos cânticos do
Servo, aponta para o sofrimento do Servo mergulhado na dor
e amargura, a ponto de não mais ter aparência de gente, no
entanto ele será vitorioso (Is 52,13-15). Em Jesus que
sofre podemos ter uma luz para iluminar o sofrimento do
inocente e dar-lhe um sentido.
A Igreja nascente vai encontrar nesta figura do Servo
Sofredor, a explicação para a paixão e morte de Jesus. As
profecias do Servo de Javé foram interpretadas pela Igreja
nascente aplicadas a Jesus Servo, visto no Apocalipse como
o Cordeiro de Deus, degolado, mas de pé, pois está vivo:
ressuscitou.
O sofrimento de Jesus na Cruz está unido ao sofrimento de
milhares de inocentes mergulhados na dor, que sabem serem
vítimas da maldade, mas que não fazem o mal, são
machucados, mas não machucam. Vivem do perdão e abandono
nas mãos de Deus. Este sofrimento tem um poder redentor,
tem um sentido misterioso. O sofrimento de Jesus na cruz é
um sofrimento solidário, sofreu sem precisar. Deu sua vida
em defesa da justiça que sempre pregou, carregou os males
da humanidade sobre si. Sem ódio ou revolta.
A Semana Santa nos convida a refletir sobre o sofrimento
solidário de Jesus Cristo. Ele nos questiona com seu
abandono ao Pai e o perdão que deu a seus torturadores. A
razão fica devendo uma explicação para isso. Duas coisas
que a cabeça não explica, mas o povo sofredor entende e
pratica como Jesus o fez, e assim redimiu o mundo. Feliz
Páscoa a todos!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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17/04/2007
Nossa irmã água
Na celebração da vigília pascal dentro da liturgia da
Igreja Católica a água tem um significado todo especial.
Nesta celebração abençoa-se a água que se usa para o
batismo. A oração proferida lembra que foi Deus que criou
a “água para fecundar a terra, lavar nossos corpos e
refazer nossas forças”. A água é símbolo da vida, da graça
de Deus e da alegria eterna. Recorda ainda que após as
águas do dilúvio surgiu uma nova humanidade, que os
hebreus livres da escravidão do Egito passaram através das
águas do Mar Vermelho e que Jesus foi batizado nas águas
do Rio Jordão.
Quanto simbolismo carrega “nossa irmã água tão casta e
pura” no dizer de São Francisco. Quando criança admirava
as águas do rio que passa no fundo do quintal da casa de
meus pais. O Rio São Miguel que à cinqüenta anos atrás
tinha tantos lambaris nas suas águas límpidas e que hoje
ainda está lá, sobrevivendo como um mutilado de guerra.
Nenhum animal bebe mais sua água poluída.
É triste ver sua transformação para pior, assim como é
triste perceber que a cada dia a situação da água no
planeta se agrava. Os cientistas acabam de dar o grito de
alerta através da segunda parte do relatório do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas promovido pela
ONU. De um lado as secas em vastas regiões que vão
alargando a aridez e a escassez de água e de outra parte
as inundações provocadas pelo derretimento das geleiras.
O aquecimento global provocado em última análise pela
ganância e prepotência do ser humano pode nos levar a uma
catástrofe sem precedentes. Como sempre a parte mais
pesada da tragédia caberá às regiões pobres as quais já
estão gravemente afetadas.
O Correio Popular tem prestado um benefício enorme à
população informando constantemente com destaque sobre a
situação agravada das bacias hidrográficas em nossa
região. Vamos esperar que continue. Temos necessidade de
vozes que clamam no deserto em que está se transformando
paulatinamente o planeta: salvemos a água, salvemos nossas
vidas, pois sem ela não há vida!
E existem pessoas que lavam as calçadas com água tratada
sem a menor consciência da tragédia anunciada. Vendo o
desperdício não podemos duvidar do que dizem os antigos:
“A primeira vez o mundo acabou pela água do dilúvio e a
segunda vez acabará pelo fogo”. Já começou o fim do mundo
pelo fogo do calor, do aquecimento e da seca... o fim
deste mundo pelo menos, organizado como está.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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01//05/2007
Confiar na Justiça?
Este mês pudemos ler aqui neste jornal, notícia do
linchamento de um jovem de 18 anos, ocorrido em Campinas,
era deficiente mental. Segundo a reportagem ele foi
cercado por um grupo de 50 pessoas num terreno baldio,
interrogado, em seguida julgado culpado e executado. Tudo
isso nos choca.
Recordei-me de fato semelhante, quando ao chegar em uma
capela de um bairro da paróquia onde era pároco, me
inteiraram de fato semelhante, ocorrido ali mesmo ao lado
da capela. Diante de meu espanto e reprovação me
responderam: fizemos Justiça, porque se não fizermos quem
vai fazer?
Esta falta de confiança na Justiça prejudica a evolução de
nossa sociedade, não raro faz involuir para a lei da
selva. A percepção de que o Brasil é dividido em dois
andares, o de cima no qual a lei é branda, e o de baixo no
qual a lei é rigorosa, se expressa em um ditado popular
sardônicos: “A quem rouba um milhão: mil anos de perdão, a
quem rouba um tostão: mil anos de prisão.”
É preciso recuperar a confiança da população na
administração da Justiça. Com certeza, a maioria dos
magistrados é exemplar e se esforça para que isso
aconteça. No entanto, a recente operação “Hurricane”
(furacão) deixa um misto de decepção e até confirmação
desta maneira distorcida como parcela da população vê a
Justiça.
“Infelizmente a corrupção também existe no Judiciário e no
Ministério público”, declarou em entrevista o ministro G.
Dipp do STJ. O mesmo ministro também afirma que o
Judiciário já trabalha para separar suas “maçãs podres”
(Folha de S. Paulo 23/04/07). É alentadora a franqueza e
humildade destas declarações que expressam realismo e bom
senso. Despertam esperança de termos no futuro uma Justiça
cada vez mais “justa” para todos. Nesta busca é inegável o
préstimo que a imprensa exerce em favor da verdade.
Fazer justiça é um atributo divino, pois só Deus é
perfeitamente justo e administra a justiça com perfeição
porque só Ele é saber total e absoluto. Deus é o “sol da
justiça” diz a Bíblia (Ml 3,20). Assim como o sol tudo
penetra e faz nascer, crescer, além de aquecer, a justiça
bem distribuída traz vida a uma nação.
Devemos confiar na justiça e ajudar que seja administrada
cada vez mais com propriedade. Nada de justiça com as
próprias mãos. Confiemos na Justiça, nos juízes e rezemos
por eles, para que sejam iluminados pelo sol da justiça e
sejam dignos de nossa confiança.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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15/05/2007
Bento XVI e Jesus
Muitas questões foram levantadas na passagem do papa pelo
Brasil. De tudo um pouco, sobre quase todos os aspectos da
vida. Pergunta-se: qual a questão fundamental? O que está
por detrás das questões religiosas, teológicas, éticas? O
que fica mais em evidência são questões pontuais de moral,
tais como aborto, sexo antes do casamento etc. Porém, a
questão de fundo é de ordem dogmática, é uma questão de
fé, uma questão espiritual. Ou seja, primeiro vem aquilo
que se crê (dogma), só depois o agir de acordo com o que
se crê (moral). Dependendo do teor da fé você tem um
direcionamento para a ação, para o comportamento. Sendo
assim, tenho por mim que a questão fundamental está no
âmbito da fé, e é relativa à pessoa de Jesus Cristo: quem
é Jesus?
Se, para a Igreja, Jesus for um homem somente, por mais
iluminado que seja, seus ensinamentos terão um peso
somente humano. Se Jesus, além de Homem, é Deus, o Filho
de Deus encarnado, seus ensinamentos terão um peso divino
e, como tal, podem se apresentar como verdade e vida.
Desde o início do cristianismo já há uma cristologia
completa expressa por São Paulo em sua carta aos
filipenses (Fil 2,5-11), que afirma a divindade de Jesus.
A Igreja vive de Jesus Cristo, Filho de Deus, este é o
fundamento irrenunciável.
Prestando atenção, constata-se que nestes últimos anos,
mais que em tempos anteriores, levanta-se um
questionamento tremendo sobre a pessoa de Jesus. A
proposta é rejeitar sua divindade e acolhê-lo somente como
homem, um como tantos outros. Um homem pecador, embora
mais iluminado que todos. Se a divindade de Jesus Cristo é
insuportável, o fato de ele ter morrido na cruz o é mais
ainda. Só a negação da filiação divina de Jesus o tornaria
aceitável à modernidade e pós-modernidade. Assim, seus
ensinamentos podem ser relativizados, manipulados. Mas que
seja Deus isto é insuportável, o torna digno de morte no
dizer de seus juízes (Jo 19,7), pois não se manipula a
Deus. Negando a divindade de Jesus se pode escolher
Barrabás, sem culpa.
É nesta perspectiva que se pode compreender como o papa,
homem esclarecido e plenamente consciente dos problemas do
mundo de hoje, reafirma com convicção as normas
comportamentais que um cristão deve seguir, a partir de
sua fé em Jesus Cristo Filho de Deus. A Igreja na América
Latina vai depender do aprofundamento da compreensão de
quem realmente é Jesus. E isto a Igreja pode fazê-lo
porque guarda a memória de Jesus initerruptamente a 2 mil
anos. Vai neste sentido o esforço do papa em lançar seu
livro Jesus de Nazaré, compartilhando sua busca pessoal na
compreensão sempre mais profunda de Jesus. Esforço que se
deve imitar. Conhecendo melhor Jesus o amor por ele se
torna autêntico e capaz não só de produzir entusiasmo
missionário, mas também o discernimento tão necessário
diante da realidade e dos embates da vida.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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29/05/2007
Como sofrer?
No meu ministério, devo encontrar quase todos os dias
pessoas que são atingidas pelo sofrimento. É doloroso
ouvir o relato de situações as mais atrozes, situações de
angústia e sofrimento, quer físicos ou morais! Isto me faz
refletir e a reflexão busca luzes na razão, também na fé.
O sofrimento é experiência básica da vida humana, nascemos
em meio à dor e morremos quase sempre com ela. Entre o
nascimento e a morte, ela vem nos visitar muitas vezes. O
coração humano aspira por um mundo sem sofrimento, mas ele
é nosso companheiro de viagem na existência.
Na civilização atual, há um estímulo grande ao conforto,
bem-estar. A busca por comodidade sempre maior se espanta
diante do sofrimento. Em nossos dias, diminui a
resistência à dor, ao sofrimento, isto aumenta duplamente
seu efeito quando nos acomete. No entanto o sofrimento
está presente como nunca, basta olhar à nossa volta, nem
precisamos falar em guerras.
Há uma grande luta para reduzir o sofrimento no mundo. A
dor é um alerta da natureza, anuncia que fomos atingidos
por um mal que precisamos enfrentar. Provavelmente, no
futuro se poderá eliminar toda dor, o que vai acabar
privando-nos deste sinal de alerta. Mas a luta maior é
para descobrir um sentido para o sofrimento.
A presença do sofrimento em nossa vida é tão dura que não
se é capaz de resistir a ele sem recorrer a um estímulo
maior, à religião que pode aproximar do mistério. Existem
áreas do sofrimento humano que faz a vida parecer absurda,
principalmente quando se trata do sofrimento do inocente.
Aqui, o sofrimento se torna mais incompreensível para quem
crê do que para quem se diz ateu. Para este o mal é
normal, o bem é que surpreende. Aquele que crê num Deus
providente e bom não pode deixar de se escandalizar diante
do sofrimento. Pois para o que crê em Deus, o mal e o
sofrimento são sempre uma anomalia.
Na Bíblia, tão repleta de relatos de sofrimentos e
alegrias, como a própria existência, destaca-se o relato
do livro de Jô, o homem sofredor. Mais que as teorias para
explicar seu sofrimento, o que conforta Jô no seu
sofrimento é a presença silenciosa e paciente de seu
amigo. A solidariedade é a chave para vencer o sofrimento
humano. Quantas vezes, em meio ao sofrimento mais amargo,
a presença amiga de alguém dá conforto e alívio!
Desta maneira, Deus responde às indagações nossas sobre o
sentido do sofrimento. Não com teorias, mas com a
solidariedade de quem veio até nós e mergulhou na nossa
dor. Jesus na cruz mergulha no sofrimento. Embora isto não
explique o sofrimento de forma teórica e racional, dá-lhe
um sentido. Em Jesus Cristo, Deus está presente no
sofrimento humano, fazendo companhia e espreitando o que
faremos com nosso sofrimento. Porque o problema maior do
sofrimento é o que fazer com ele.
É no Calvário que podemos nos basear para escolher como
sofrer. Temos três opções. Ou sofrer como o bandido,
revoltado que blasfema e nada aproveita de seu sofrimento:
o mau ladrão. Ou sofrer como penitente, que do fundo de
sua dor aprende a humildade e se liberta para ser acolhido
no paraíso: o bom ladrão. Ou sofrer como o inocente Jesus,
o qual sofrendo com amor e confiança no Pai, redime o
mundo com sua solidariedade. Escolhamos.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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12/06/2007
Hospital
Escreveu o poeta: “A vida é um hospital onde quase tudo
falta, por isso ninguém se cura e morrer é que é ter
alta”. Me desculpe Fernando Pessoa, mas estes versos
permeados de pessimismo, podem ter algo de real, mas nem
tanto. Nem a vida é um hospital ruim e nem todo hospital é
assim mau.
Dias deste acompanhei uma pessoa ao Hospital Dr. Celso
Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Fui justamente num dia em que, devido às paralisações em
outros hospitais da cidade, o referido hospital estava bem
concorrido. Apesar disso o atendimento foi muito bom.
Durante o tempo que ali estive pude perceber o esforço dos
funcionários, profissionais da saúde para agilizar o
atendimento e atenção aos pacientes. Fato curioso, foi a
presença do superintendente do hospital, dr. Antonio Celso
de Moraes, ser visto circulando pelo hospital visitando os
departamentos. Admirei-me, pois, é de nossa tradição
antiquada que os gerentes, sejam invisíveis e
inatingíveis.
O Hospital Dr. Celso Pierro é o único hospital que há
vários anos atende a parte da cidade mais necessitada.
Está situado próximo à região do Campo Grande, a qual se
movimenta para pleitear a separação do município de
Campinas, por se julgar malservida. Este hospital é um
marco referencial, atende não só esta população que de
outra forma deveria deslocar-se por quilômetros até o
outro lado da cidade, o lado privilegiado onde se
encontram os outros hospitais da cidade, mas atende também
pessoas vindas de outros municípios.
Sendo hospital particular e filantrópico, pertencente a
uma instituição de ensino sem fins lucrativos, não recebe
certamente as verbas destinadas aos hospitais públicos,
mesmo assim consegue cumprir seu papel social de forma
admirável, muitas vezes sem publicidade, porque a maioria
dos atendidos, a população de baixa renda não tem força
para acessar os veículos noticiosos.
Segue assim este hospital, desenvolvendo a longa tradição
da Igreja Católica, de cuidar dos doentes. A história nos
atesta que não só a universidade como instituição nasceu à
sombra das catedrais, do coração da Igreja, mas também as
instituições hospitalares, com sentido humanitário,
nasceram com a Igreja nos primeiros séculos do
cristianismo.
O mundo pagão tinha recolhimentos para doentes: cinosargos,
genúrios e xenodóquios. Mas nem de longe se assemelhavam
aos hospitais como casa, onde se acolhe o outro como
pessoa que deseja cuidado e cura. Isso somente o
cristianismo foi capaz de fazer porque trouxe consigo uma
mudança no conceito de pessoa.
No mundo pagão a pessoa valia tanto quanto sua riqueza,
assim, o Imperador era um Deus, mas o pobre era um objeto.
O Evangelho de Jesus convocou os cristãos a viver o
preceito da caridade em todos os sentidos. Diante de Deus
todos tem a mesma dignidade. E isso mudou a maneira de
tratar o indigente. Por muitos séculos o próprio Estado
deixou à Igreja o cuidado dos doentes.
Que o hospital da PUC como o povo o chama, possa crescer
sempre mais na valorização da vida.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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26/06/2007
Festa junina
Nossa vida às vezes é uma rotina tecida de trabalho,
preocupações. Em meio a tudo isso existem as festas,
momentos de alegria coletiva que anula, por assim dizer, o
peso dos deveres diários, quebrando a rotina. Nas grandes
cidades, as festas começaram a ser organizadas por
empresas especializadas. As metrópoles começam também a se
notabilizarem por festas que se tornaram tradicionais, ou
características daquela cidade. Assim, a festa do figo em
Valinhos, da uva em Vinhedo, Rodeio em Jaguariúna etc.
Campinas que dá vida a muitos eventos e festas o ano todo,
agora deseja notabilizar-se pela festa junina. Neste
sentido a Prefeitura promoveu na praça Arautos da Paz o
Arraial Nhô Tonico, evento que deseja resgatar a tradição
junina em Campinas. O nome homenageia Carlos Gomes, mas
também os santos: Antonio, João e Pedro.
Antonio é santo mais querido no Brasil depois de Nossa
Senhora Aparecida. Nasceu em Lisboa, morreu em Pádua aos
36 anos, em 1231. Foi franciscano, professor de teologia e
missionário popular. Notabilizou-se por pregar o evangelho
e defender o povo pobre. E por que casamenteiro? Porque
conseguiu mudar algumas leis no sentido de favorecer os
mais simples, como a lei que proibia casamento de moças
que não tinham dinheiro para o dote, obrigatório àquela
época, forçando muitas a ficarem sem casar.
São João Batista, primo, amigo e mentor de Jesus Cristo
que por ele foi batizado no Rio Jordão. Profeta e mártir
da Justiça. O rei Herodes mandou decapitá-lo porque
juntamente com sua corte, não estava de acordo com sua
pregação. Convidou as pessoas à conversão porque o Reinado
de Deus estava chegando. Conversão para ele era preparar
um mundo novo sem corrupção e injustiças. E por que a
fogueira? Porque São João anunciou Jesus como cordeiro de
Deus. Os cordeiros eram vigiados pelos pastores que
acendiam fogueiras para se aquecerem no inverso.
São Pedro, chefe dos apóstolos, foi pescador, pai de
família, escolhido por Jesus para ser a pedra de fundação
da sua nova família: a Igreja. Após a morte de Jesus morou
em Jerusalém, depois Antioquia e Roma, onde foi
martirizado, provavelmente, no ano 67 na colina do
Vaticano. Ali foi construída uma Basílica sobre o
cemitério no qual Pedro foi sepultado. Por que a chave?
Porque Jesus lhe disse: “Eu te darei a chave do Reino dos
céus”, significando o serviço de pastor supremo da Igreja.
Que o Arraial do Nhô Tonico tenha êxito e se consolide
como festa popular da cidade. E que os santos de junho nos
recordem que a verdadeira festa é o amor de Deus agindo em
nossos corações como agiu e continua agindo no deles por
toda a eternidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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10/07/2007
Pajelança
É inegável que estamos numa mudança de época, mais que em
época de mudanças. Assistimos a transformações
significativas na maneira de viver, ver e entender a
realidade. E tudo rapidamente. As maravilhas do progresso
tecnológico e científico são bem-vindas, ajudam a viver e
não há como deixar de agradecer por isso.
Porém, não se pode dizer o mesmo quanto ao progresso
humano. Refiro-me à “humanidade”, àquilo que é mais
profundamente próprio do ser humano: raciocinar e sentir
em relação com os outros. O homem deve ser pessoa e pessoa
é um nó de relações. Neste quesito, relações, a humanidade
não pode contabilizar tanto sucesso.
Estamos preocupados com o aquecimento global, com razão. A
destruição da natureza se opera fora das pessoas. É,
porém, paradigma da destruição que se está operando por
dentro das pessoas em termo de degradação da ética. Nem
falemos das guerras em curso. A corrupção em nosso meio
ultrapassou o que se poderia imaginar. É fruto podre da
ambição desmedida de riqueza e poder. A impunidade parece
indicar a impossibilidade de aplicar a justiça. O sistema
econômico gera riqueza para poucos e pobreza para a
maioria.
A violência assusta porque aumenta à medida em que o crime
se organiza. O pan-sexualismo erotiza cada atividade que
pretenda ter sucesso. A impressão é que desaparecerá a
noção de crime: tudo será permitido, já que tudo é
relativo. Grande parte da juventude sem perspectivas,
refugia-se no álcool e outras drogas. Como a jovem que,
citando um poeta, me disse: “O meu coração quebrou-se,
como bocado de vidro, quis viver e enganou-se...”.
Enquanto isso, os idosos afirmam: “Passo mal em ver tantas
coisas tristes, descaradas...”.
Nosso povo não está bem. O povo brasileiro precisa
recuperar a esperança, afirmam os bispos brasileiros em
recente manifesto. Sem Deus não há esperança, por isso,
adquirir esperança é voltar-se para Deus. Todas as
religiões reconhecem que Deus está presente na realidade,
nós é que não estamos presentes a Ele. Não se pode fazer e
acontecer como se Deus não existisse. Decretada a morte de
Deus, está decretada a morte do homem. Sem Deus, o homem
não sobrevive, se destrói. É esta a mensagem da Bíblia.
Lembro-me de um filme a que assisti. Havia grande
catástrofe numa região povoada por muitas tribos
indígenas. Reuniram-se os caciques e chegaram à conclusão
que a situação exigia soluções que iam além de medidas
socioeconômicas e políticas. Convocaram-se os pajés para
fazerem uma pajelança. Reconheciam todos que, sem o
auxilio de Tupã, não encontrariam iluminação para
resolverem a crise.
É o que devíamos fazer. A oração coloca-nos em contato com
a dimensão mais profunda da existência, toca as raízes do
ser e alcança a iluminação que vem de Deus. Gandhi, homem
de oração, bem o compreendeu, por isso fez o que fez.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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18/07/2007
Fuga nas drogas
O Relatório
Mundial de Drogas – 2006, das Nações Unidas, foi divulgado dia
26 do mês passado, dia internacional de prevenção às drogas.
Consta nele existir no mundo 200 milhões de consumidores de
drogas. Cerca de 110 milhões as consomem com regularidade e 90
milhões são consumidores ocasionais.
Pela primeira
vez em 25 anos, o número de consumidores ficou estável. A idade
das pessoas pesquisadas vai de 15 a 64 anos, embora se saiba que
existem crianças de 10 ou 11 anos metidas no tráfico e já
viciadas, muitas das quais acabam assassinadas. Os usuários de
drogas estão bem abaixo dos fumantes e dos que abusam do álcool,
mas sabemos que tanto o cigarro como o álcool são drogas que
funcionam como portas abertas para as drogas mais pesadas, tais
como maconha e haxixe, as de maior consumo.
Com maior ou
menor rigor, as drogas são combatidas em todo o mundo. Nalguns
países até com pena de morte. Os resultados são pouco
animadores, pois a fiscalização se mostra ineficiente, e a
apreensão não consegue reter mais que 20% da droga que circula.
Existem ainda os interesses poderosos decorrentes da
movimentação financeira proveniente do lucro com o comércio de
drogas. É todo um emaranhado complexo e tétrico.
Todos parecem
concordar que é impossível acabar com as drogas. Para muitos, a
proibição não é o melhor caminho, valendo mais o jogo aberto no
qual é mais fácil perceber quem trafica. Até mesmo o governo
ganharia, pois não teria que gastar com o controle e ganharia
com os impostos. É um debate sem fim!
Porém, o
problema da droga não é um problema de polícia ou um problema
clínico somente. Sem desconsiderar as causas sociais que induzem
à droga, a meu ver, a dependência química é, sobretudo, na sua
origem, um problema antropológico. Finca suas raízes no vazio de
respostas, quando se pergunta pelo sentido da vida. A falta de
um lar, a falta de amor, a insegurança e a fragilidade diante do
desamparo da vida, fazem com que a droga funcione como um
refúgio.
Recordo aqui
o filósofo Heidegger falando do homem como “ser-para-a-morte”.
Somente enfrentando a realidade da própria finitude, assumindo a
vocação para ter consciência de si, de quem se é e qual seu
destino, assumindo a própria realidade com coragem, é que se
pode ser livre. A partir daí é que poderemos nos projetar para
fora de nós mesmos, numa vida com sentido. E acrescento, se
existe fé em Deus, uma vida não só com sentido, mas uma vida em
plenitude. É a fuga das drogas.
Sem este
acerto interior para que no íntimo do coração se ajustem os
ponteiros na descoberta do sentido da vida, o ser humano não
amadurece, continuará tendo medo, continuará precisando fugir e,
infelizmente, continuará precisando de todo tipo de drogas. É a
fuga nas drogas.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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24/07/2007
Nossa Padroeira
No mês de julho, dia 16, comemora-se Nossa Senhora do
Monte Carmelo ou do Carmo. Essa devoção apareceu nos
primeiros séculos do cristianismo. Terminadas as
perseguições aos cristãos em 313, surgiram grupos de
monges e eremitas que iam para o deserto a fim de
“derramar o sangue da alma”, ou seja, ter uma vida de
oração e penitência.
Um desses grupos estabeleceu-se no Monte Carmelo, na
Palestina. No século 11 construíram uma capelinha dedicada
à Virgem Maria. O bispo de Jerusalém, Santo Alberto, deu a
eles uma regra de vida. Assim formou-se a ordem dos
carmelitas. Em 1251, durante graves dificuldades, o
superior da Ordem, S. Simão Stock, intercedendo em suas
orações, recebe de Nossa Senhora o Escapulário como sinal
de proteção à Ordem e a quem o usasse. Esta devoção
espalhou-se pelo mundo todo e, segundo o papa Paulo VI,
pode ser incluída entre as devoções verdadeiramente
marianas.
Carmelo significa jardim ou pomar. O Monte Carmelo está
presente em inúmeras passagens da Bíblia, em especial ao
mencionar o profeta Elias, que ali morou com seus
discípulos (1Rs 18,20-40). Por isso, os monges que ali se
estabeleceram se entenderam como herdeiros do profeta
Elias. Assim, a devoção carmelita tem como patronos Nossa
Senhora, a profetiza do Magnificat e o profeta Elias. Há
nela um cunho profético: anúncio de Jesus Cristo como
concretização do Reino de Deus, Reino de justiça e paz, e
denúncia de tudo aquilo que atenta contra os “direitos” do
Deus da vida.
Nossa igreja matriz, hoje Basílica, situa-se na praça
Bento Quirino e juntamente com esta praça é tombada como
patrimônio histórico da cidade. Campinas surgiu ali. A
Basílica está no local da primeira igreja da cidade, a
qual era sede da paróquia Imaculada Conceição. Após a
transferência da mesma para a Catedral, em 1870, continuou
a ser paróquia, com o nome de Santa Cruz, tendo como
padroeira Nossa Senhora do Carmo. Nela está enterrado o
fundador de Campinas: Francisco Barreto Leme. Em 1909, por
iniciativa do pároco, foi fundada a Ordem Terceira do
Carmo, que reúne leigos desejosos de viver a
espiritualidade carmelita.
Assim como Jesus foi transfigurado no Monte Tabor, podemos
dizer que Maria também foi transfigurada no Monte Carmelo.
Monte que é figura de Jesus Cristo. Nele se deve subir com
o auxílio de Maria. Milhões de pessoas usam o escapulário,
são todos carmelitas, consagrados a imitar Maria, que
soube ouvir e praticar a Palavra de Deus.
Neste último dia 16, milhares de pessoas passaram pela
Basílica para rezar e receber o escapulário, que não é
superstição, mas devoção. Símbolo do compromisso do
cristão em seguir Jesus imitando sua fiel discípula, sua
mãe Maria. Consultando nosso site (www.basilicadocarmocampinas.org.br),
saiba mais sobre Nossa Senhora do Carmo, o escapulário e a
Basílica do Carmo.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
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07/08/2007
Ecumenismo
Em documento de circulação interna, com aprovação de Bento
XVI, a Congregação para a Doutrina da Fé, organismo da
Cúria Romana, a qual assessora o papa, fez uma declaração,
considerando a realidade da Igreja Católica em relação a
outras denominações religiosas. Isso provocou muitos
pronunciamentos, sendo alguns irados, outros irônicos.
Passados os primeiros momentos, se pode perceber melhor o
ocorrido. Sem o fragor das paixões, há condições de uma
compreensão mais criteriosa dos fatos. Somente uma visão
dos acontecimentos serena, sem preconceitos, pode fazer
progresso na sua compreensão e tirar proveito.
“A Igreja Católica Apostólica Romana, por sua estreita e
ininterrupta ligação com Jesus Cristo a quem ela prega,
conserva e vive em seus sacramentos e ministérios, e por
quem se deixa continuamente criticar, pode e deve ser
considerada como a mais excelente articulação
institucional do cristianismo. Nela se logrou a mais
límpida interpretação do mistério de Deus, do homem e de
sua mútua interpretação. Nela se encontra a totalidade dos
meios de salvação.” É isso que afirma o teólogo Leonardo
Boff em sua obra Jesus Cristo Libertador (cf. Ed. Vozes,
Rio,1972,2ed, pp278-279).
Como se pode ver, as afirmações da declaração não trazem
novidade. Ao ler o que escreve L. Boff, alguém não avisado
pode até pensar que seja um texto da declaração em
questão. O mesmo L. Boff prossegue: “Ela, a Igreja
Católica não esgota a estrutura crística, nem se
identifica pura e simplesmente com o cristianismo. Mas é
sua objetivação e concretização institucional mais
perfeita e acabada, de tal forma que nela já se realiza,
em germe, o próprio reino de Deus. Com isso, porém, não se
nega o valor religioso e salvífico das demais religiões”.
Prossegue, portanto, a marcha do ecumenismo, o qual
procura realizar o desejo de Jesus Cristo: “que todos
sejam um”. Trabalhar pela união dos cristãos é compromisso
de Bento XVI, que o expressou logo no ínício de seu
pontificado.
O ecumenismo se faz com a conversão, o diálogo, o amor que
crê, espera, tem paciência, mas, sobretudo se regozija com
a verdade. A Igreja Católica não está contra, nem se julga
maior. Simplesmente não pode renunciar realidades básicas
de fé, que ela não inventou, mas recebeu de Cristo como
consta nos evangelhos, como a sucessão apostólica e a
eucaristia. Assim foi, durante mil e quinhentos anos.
Antes de surgirem denominações religiosas modernas. Há que
se dialogar!
Muito já se caminhou e frutos foram dados. Recorde-se o
acordo assinado pela Igreja Católica e a Federação
Luterana Mundial em 1999. Foi uma declaração conjunta
sobre a doutrina da justificação.
O teólogo luterano Walter Altmann, membro do comitê
executivo do Conselho Mundial das Igrejas, ressaltou que
não se surpreendeu com a declaração: “Agora é que o
diálogo vai se intensificar. Se temos diferenças, vamos
encará-las”, declarou. Essa é a reação de um cristão
esclarecido e sereno, que compreendeu que o debate sobre
doutrinas tem a idade do cristianismo, e que o propósito
da busca ecumênica é unir a humanidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
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21/08/2007
Família: amor e liberdade
De uma maneira ou outra todos temos família. Viemos de uma
família por mais pequena que seja. Neste mês de agosto se
comemora a Semana da Família e ficamos pensando se ainda é
possível olhar com serenidade e simpatia, este grupo de
pessoas que estabelece relações tão íntimas e dependentes.
Em sua obra, Era dos Extremos, sobre o século 20, o
historiador inglês, Heric Hobsbaum escreve que “as
instituições mais severamente solapadas pelo novo
individualismo moral foram a família e as Igrejas
organizadas no Ocidente”. Podemos deduzir assim que, a
causa mais profunda desta crise da família é o
individualismo.
Em nossa época, as pessoas prezam, sobretudo a liberdade
como independência de tudo e de todos. O sujeito com sua
liberdade ilimitada, o indivíduo livre! É esta a nova
“utopia” ou seja, o desejo-projeto de felicidade, que cada
um alimenta para si. Não depender de nada e de ninguém
numa autonomia total, eis o ideal. Mas será que isto é
possível ao ser humano?
Este projeto individualista proposto como meio de vida
feliz é ilusório. São muitos os condicionamentos sociais e
mecanismos que regem de forma invisível a sociedade, de
tal modo imperceptíveis, que criam a ilusão de que é
possível uma vida independente de tudo e de todos. Basta
pensar no: “sorria você está sendo filmado”, cada vez mais
presente em tantos lugares.
Tal individualismo é ilusório. A realidade não está
constituída de indivíduos auto-suficientes, que
estabelecem relações sociais somente de acordo com sua
vontade, determinando sozinhos e por própria conta, com
plena autonomia, todos os aspectos da vida. Percebemos que
deve haver contrato em qualquer sociedade, nelas os
relacionamentos tem prazo para terminar. E os vínculos
contratuais são funcionais.
A família, no entanto, não é uma mera sociedade, é uma
“comunidade”. A família é comunidade porque não se baseia
na ficção de uma auto-suficiência ilusória, mas se funda
na busca conjunta da auto-realização, no amor.
Nenhum ser humano é uma ilha. Por mais que as novelas na
TV mostrem às vezes a família de forma depreciativa, quase
todas terminam em um belo casamento. Casamento no qual se
retoma a utopia verdadeira que é a união das pessoas para
juntas buscarem a auto-realização, a qual não está no
individualismo, no sujeito egoísta fechado sobre si mesmo,
mas no amor que se comunica e gera vida. No amor que
realmente liberta. Na prática, a verdadeira liberdade não
está separada do amor.
A família é invenção de Deus como relata a Bíblia, é o
“santuário da vida”. Mais que nunca devemos admitir, por
muitos motivos, que o futuro da humanidade passa pela
família.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
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04/09/2007
O Deus dos ateus
Penso que as pessoas não são atéias. O homem pode ser ateu
em relação a certas imagens de Deus, mas no fundo admite
em segredo: sou ateu graças a Deus! Freqüentemente o que
acontece é que ao encontrar-se com o sentimento de
finitude, nada, existência para a morte, absurdo da vida,
o homem possa tomar o caminho do desespero que leva à
loucura (Nietzche) ou da realização na santidade (Gandhi).
O número dos que se declaram ateus no Brasil aumentou no
último senso, passavam um pouco de 7%. E, ultimamente,
alguns autores trouxeram o tema novamente á baila: Daniel
Dennet, Sam Harris, Michel Onfray, Hitchens Christopher e
Richard Dawkins.
Pode-se duvidar de Deus. Mas, com certeza, o ser humano
busca amar e ser amado. Não experimentando amor, é
impossível admitir a existência de Deus. Principalmente em
nossa cultura, que esvaziou os símbolos do Pai a tal ponto
que a figura do Pai entrou em colapso. O evento que
preparou a hominização — o homo sapiens — não foi o
assassinato do pai, mas o nascimento do pai, afirma E.
Morin. O movimento hoje parece ser o contrário. Estamos a
caminho de uma animalidade sem pai como afirma o psicólogo
L. Zoja. Da morte do pai à morte de Deus é um passo.
Deixando para trás o refrão marxista que entende a
religião como “ópio do povo”, os ataques passam agora, da
religião para a própria possibilidade da existência de
Deus: uma ilusão maléfica para o ser humano. Todos eles
concordam que o pior na religião é a fé na existência de
Deus. Assim, o zoólogo R. Dawkins, professor de Oxford, na
Inglaterra, chega a afirmar que seu sonho é a completa
destruição de todas as religiões.
Antes os ateus iam para a fogueira da Inquisição. Será que
agora serão os crentes que irão para as fogueiras acesas
por cientistas? Ao menos a fogueira das vaidades já foi
acesa com esses discursos prepotentes sobre a fé.
Essa agressividade desses cientistas contra Deus, a
religião, mostra o desapontamento com a persistência da fé
em nossos dias, quando se esperava que Deus estivesse
morto e sepultado. Mais que nunca, hoje o homem deseja
colocar-se no lugar de Deus. A tecnociência reivindica
pela boca de seus “profetas” o lugar de Deus. Enquanto
parte da intelectualidade científica da Europa repropõe a
morte de Deus, como avanço, a Europa como um todo se
espanta com as contínuas conversões ao islamismo de um
lado e de outro o niilismo e o crescimento dos cultos
satânicos.
Porém, sem Deus, o mundo e o ser humano não se explicam.
Podemos afirmar, sim, que é possível crer depois de Freud.
A própria existência do homem impele a crer na existência
de Deus. O físico e matemático B. Pascal, inventor da
máquina de calcular escreve: “O momento mais sublime da
razão é quando ela aceita que não pode explicar tudo”.
Para ele, somente a religião e a fé podem ultrapassar o
ponto em que a pesquisa científica se choca com o
inexplicável.
Nem todos os cientistas concordam com teses atéias. O
biólogo Francis Collins, diretor do Projeto Genoma, em
livro lançado recentemente intitulado A Linguagem de Deus,
apresenta as evidências de que Deus existe. Afirma que a
ciência e a fé devem caminhar juntas e uma não tem nada a
temer da outra. Precisa-se da humildade de Collins, um
ex-ateu, para crer.
A fé nunca fecha-nos o caminho que conduz à descrença,
deixa-nos livres. Crer é apenas arriscar-se a ler a
realidade para além do empírico, do perceptível, em chave
de símbolo. E não existe contradição com a ciência se
houver diálogo.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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18/09/2007
80 anos de integridade
O Correio Popular completou este mês seu octogésimo
aniversário. Motivo de júbilo para Campinas, que tem a
satisfação de ser bem informada por este veículo de
comunicação, que faz parte da vida de tantos cidadãos
leitores como eu.
A informação é matéria-prima de todos os setores chave da
sociedade, mormente o econômico. Estar certo de ser bem
informado não é, portanto, pouca coisa. E informar bem é
uma tarefa que o Correio Popular tem cumprido de maneira
exemplar.
Admiro o trabalho dos profissionais da comunicação que
confeccionam o jornal. Formam uma equipe entrosada. O
resultado é um jornal solidário com os cidadãos. Um jornal
que não só veicula notícias, mas é agente de transformação
da sociedade: quer encontrar caminhos para uma vida com
dignidade para todos. Destaco ainda a defesa da democracia
e a independência, apanágios que se fazem sentir com
facilidade quando constatamos a pluralidade de idéias que
são veiculadas.
O primeiro artigo que escrevi nas páginas deste jornal em
novembro de 1993, foi fruto desta admiração pelo bom
jornalismo nele encontrado. Foi quando o Correio Popular
estava sofrendo censura, por ter aberto suas páginas para
que os cidadãos se expressassem sobre a corrupção. O
jornal cumpria seu dever de colaborar para o crescimento
da consciência e a coibição da impunidade, fato que
incomodou muita gente. Foi uma defesa da altivez do jornal
que não se intimidou no cumprimento de seu objetivo de
zelar pelo direito coletivo.
Como bem enfatizou o presidente da RAC, Dr. Sylvino de
Godoy Neto em discurso na Assembléia Legislativa do Estado
de São Paulo durante homenagem pelos 80 anos do jornal:
“Como se vê, os defensores da legalidade passam por maus
bocados. Mas esse é o preço da integridade, qualidade
indispensável para o exercício da boa política e do bom
jornalismo”. Penso que a raiz do sucesso está aí, na
integridade. Derivada do latim, a palavra integridade
expressa a idéia de correção, imparcialidade, inteireza,
lucidez e honradez entre tantos atributos.
Que o Correio Popular continue sendo um jornal íntegro,
que não se vergue diante da força do poder político ou
econômico. Mas se vergue sim, ante o ideal proposto de
“sermos vigilantes fiscais da administração pública e
zeladores intransigentes do direito coletivo”. Nosso pais
que presencia o triste espetáculo da falta de integridade
de tantos políticos e homens públicos em geral, que
deveriam dar exemplo, precisa de um veículo de comunicação
assim. Parabéns! Vida longa!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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02/10/2007
Sete pecados
Um sujeito trabalhando duro, vê outro deitado numa rede na
maior folga e diz: “Sabe que preguiça é um dos sete pecado
capitais?” E o outro responde: “Pois é, a inveja também!”
Os pecados capitais são conhecidos, pois servem para fazer
piada. O que não dá piada não é popular.
A atual novela da qual este artigo empresta o título,
explicita os sete pecados capitais que se devem evitar,
como aparecem nos ensinamentos éticos do cristianismo.
Capitais porque são cabeça, deles procedem os demais. Mais
que pecados são tendências que podem levar a pecar.
Brasileiro gosta de novelas. Através delas muito se
divulga de costumes e atitudes, construtivas ou
destrutivas muitas vezes.
Em nossa mentalidade onde tudo se explica pela ciência e
em se tratando de comportamento, pela psicologia, a noção
de pecado é rejeitada pelo mundo bem pensante. Porém, a
maior parte da população tem boa intuição, não se engana.
Sabe que pecado é como atirar e errar o alvo, é algo que
dá satisfação, mas não alegria, dá prazer mas não
felicidade. É algo incompleto, como um botão de rosa que
sempre fechado guarda tudo para si, não se abre. Em seu
egoísmo não serve para ninguém, nem mesmo para si, não se
desenvolverá, não produzirá sementes. Consideremos
sucintamente os sete pecados capitais.
Primeiro, o orgulho que leva a pessoa a se colocar como
princípio de tudo. Negando a existência de Deus a pessoa
se coloca no seu lugar. É como um motorista que ao dirigir
o carro, nega a existência das rodas por não vê-las.
Esqueceu que são elas que fazem o carro andar e não ele.
Elas sustem o carro assim como Deus sustenta o mundo.
A inveja é a tendência a entristecer-se com o bem dos
outros. O invejoso só sofre, nunca está contente com o que
tem e fica triste com o que os outros têm. Não tolera
pessoas com dons diferentes, ou que fazem as coisas
melhores que ele. O invejoso não é só um tormento para os
outros, mas principalmente para sí mesmo.
A ira é o descontrole que ofende os outros com facilidade.
Em geral, o inseguro é iracundo porque a ira é o exagero
do sentimento instintivo que leva a pessoa a se defender
dos perigos. É reação violenta, exagerada e também desejo
de castigar quem ofende ou agride. A ira desconhece que só
se vence o mal pelo bem.
A gula é o abuso do prazer legítimo que acompanha o comer
e beber. A malícia da gula é que ela escraviza a pessoa a
seu corpo. Ela é fonte de doenças. Não só fome mata, mas a
gula também!
A luxúria é a absolutização do sexo, redução do amor ao
erótico, ou seja, desligar sexo do amor o qual é
compromisso de vida com outra pessoa. A erotização da
sociedade torna a pessoa objeto de cama e mesa. Daí pode
vir muito prazer, mas será que vem satisfação e
felicidade? Em geral se esquece que formas sublimes de
amor não incluem sexo: amor aos pais, a Deus, amigos,
filhos etc.
A preguiça é a tendência a evitar qualquer esforço, torna
a pessoa um parasita que se irrita quando querem tirá-lo
de sua inércia. A lei do menor esforço é a lei do
preguiçoso, indolente.
A avareza. É o vício dominante no mundo de hoje regido
pelo sistema neoliberal centrado no econômico. As pessoas
são levadas a pensar em ganhar dinheiro noite e dia para
poder gastar e consumir. O ter é que vale e não o ser.
Enfim, para quem começou a escrever achando que o assunto
era fraco, até que escrevi demais. Talvez seja um oitavo
vício, o de quem escreve, quem sabe?
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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16/10/2007
Tropa
No momento o filme que causa sensação e um pouco de
discussão é Tropa de Elite, em cartaz pelo País todo. O
filme retrata o dia-a-dia de policiais da cidade do Rio de
Janeiro, em especial do grupo de operações especiais da
polícia (Bope). As opiniões se dividem: para uns, o filme
faz apologia da polícia violenta que usa métodos
fascistas; para outros, faz refletir sobre a violência
crescente e a situação precária da segurança pública no
Brasil.
O filme é sério, mais do que drama, retrata a tragédia na
qual estão mergulhadas as cidades brasileiras, a tragédia
de uma violência crescente e incontrolável. Ele retrata
como já foi dito, a “bestialização” da vida brasileira por
causa de múltiplos fatores. Nos sentimos impotentes e até
desiludidos diante da violência como que
institucionalizada. O grande contributo desse filme, no
entanto, é fazer refletir!
A violência urbana muda a função da cidade. Ao invés de
ser um lugar de liberdade e convivência pacífica onde a
vida melhora, as cidades se tornaram lugar perigoso. As
noções de segurança, vida comunitária foram substituídas
pelo sentimento de insegurança e de isolamento que o medo
impõe. A criminalidade vai aumentando e se diversificando.
Parece que o crime está passando por completa
transformação por causa do avanço da tecnologia. Mas
conforme retrata o filme em questão, o avanço tecnológico
é notado, sobretudo, nos armamentos usados tanto pelos
criminosos como pela polícia.
A ação se desenvolve no Rio, cidade maravilhosa, que
mostra de maneira privilegiada quais são os frutos de uma
política social voltada para o endeusamento do mercado:
aumento da pobreza, uso abusivo de drogas e crescimento da
violência. Fica evidente o elo entre a exclusão social e a
criminalidade. Porém, a reflexão que faço é que o pano de
fundo do filme, seu tema verdadeiro, não é a violência,
mas a corrupção que aparece em todos os lugares e
momentos.
Se a pergunta é: quem mais mata no filme? Responderia que
é a corrupção. Além de tudo o que se queira ponderar, é
ela a causa principal de toda a violência mostrada. Desde
a corrupção interna da polícia, a corrupção nas favelas, a
corrupção dos políticos, do sistema de saber, que são
mostradas, até a corrupção, a macro-corrupção que o filme
não mostra, e que é praticada nas altas esferas do poder
nacional e internacional.
A corrupção é um dos maiores impedimentos para o
crescimento e desenvolvimento de países como o nosso. É o
que diz o Compêndio de Doutrina social da Igreja (n. 477).
Nisto faz eco ao documento de Puebla: “Os contrastes
cruéis de luxo e extrema pobreza, tão visíveis em todo o
Continente, agravados pela corrupção que invade a vida
pública e profissional, manifestam até que ponto nossos
países se encontram sob o domínio do ídolo da riqueza”(P
494). Na década de 50 se dizia: ou o Brasil acaba com a
saúva ou ela acaba com o Brasil! Hoje se pode dizer: ou o
Brasil acaba com a corrupção ou ela acaba com o Brasil.
A corrupção mata, essa poderia ser a conclusão a que se
chega vendo este filme. Há esperança? Sim, o filme dá
esperança: quando nasce um menino. No dizer do poeta da
peça Vida e Morte Severina: “Nasceu uma criança, o mundo
volta a começar”. Temos que começar um mundo novo sem
corrupção. Talvez venha a ser uma questão de sobrevivência
para todos.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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23/10/2007
Como tirar proveito de seus
inimigos
Tenho um aluno de filosofia da PUC-Campinas, que está
escrevendo sua monografia cientifica sobre o filósofo
Plutarco. Um de seus livros leva o curioso título Como
Tirar Proveito de seus Inimigos. Fiquei instigado e fui
ler o pequeno texto.
Plutarco nasceu em 46 DC, em Queronéia, cidade da Beócia
próximo a Delfos. Filho de família abastada, estudou em
Queronéia e depois em Atenas. Aos vinte anos já ouvia as
lições do médico Onesícrates, do orador Emiliano e do
filósofo platônico Amônio. Ao dedicar o pequeno livro ao
seu amigo Cornélio Pulquério, Plutarco afirma que pode-se
encontrar um país onde não haja animais ferozes, mas
encontrar uma administração política que não tenha exposto
aqueles que a exercem ao ciúme de seus rivais, a inveja e
a concorrência é muito difícil. Visto que é impossível não
ter inimigos, Plutarco citando Xenofonte, afirma que
deveria ser próprio de um homem “ponderado” (sobretudo
daqueles que exercer cargos administrativos) tirar
proveito de seus inimigos.
Mas, como? Diz o nosso filósofo que os primeiros homens
limitavam-se a não cair nas garras dos animais selvagens.
Depois seus descendentes aprenderam a utilizá-los. O fogo
queima quem o toca, mas fornece luz e calor e ainda pode
servir para muitas outras coisas. Plutarco solicita que
examinemos nossos inimigos e coloca a seguinte
interrogação: Será que não poderemos tirar deles algum
benefício em particular? Certas pessoas não convertem sua
doença numa doce inação física? Outros se fortificam e se
tornam resistentes sob o império das provocações que
tiveram de sofrer. Para Plutarco os imbecis maltratam suas
amizades, enquanto os homens sensatos sabem dirigir para
seu proveito mesmo as inimizades.
Afirma nosso autor: “Visto que nosso inimigo observa
curiosamente nossas ações, é necessário que estejamos
atentos a nós mesmos e, essa vigilância deve se
transformar insensivelmente em hábito de virtude”. Deste
modo, o mais prejudicial na inimizade pode tornar-se o
mais proveitoso. Afirma Plutarco: “Teu inimigo
continuamente atento espia tuas ações, na expectativa da
menor falha, fica à espreita, em torno de tua vida,
através dos pequenos detalhes. Isso nos obriga a viver com
cautela, prestar atenção em si, a nada fazer nem nada
dizer de forma irrefletida”.
De fato, essa maneira reservada, que controla as paixões
da alma e refreia os desvios do raciocínio, inspira o
cuidado e a vontade de viver de maneira virtuosa e
irrepreensível. Para Plutarco aquele que sabe que seu
inimigo é um concorrente, tanto no plano da conduta como
no da reputação, presta mais atenção em si, olha o efeito
de seus atos com circunspecção, regula melhor sua conduta.
Assim, a inveja de nossos inimigos é um contrapeso à nossa
negligencia. Além disso, nós nos vingamos utilmente de um
inimigo afligindo-o com nosso próprio aperfeiçoamento
moral. Plutarco interroga: “Que sucederá, em tua opinião,
se dás prova de equidade, de bom senso, de solicitude, de
probidade nos discursos, de integridade em teus atos, de
decência em tua conduta? Vencidos os inimigos, serão
acorrentados ao seu mutismo”. Pergunta, ainda, Plutarco:
“Queres modificar aquele que te odeia? Não o trates de
dissoluto, mas comporta-te como homem, se moderado, diz a
verdade, procede humanamente e com justiça. Redobra em ti
o ardor pelo trabalho e o gosto pelas ciências”. Então,
como tirar proveito de seus inimigos? Tratando-os com
doçura, ouvindo as criticas, aprimorando comportamentos,
mas, sobretudo procurando ser melhor do que eles. A vida
de muitas pessoas que conheço é um testemunho dessa
verdade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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30/10/2007
Todos os santos
Dia 1º de novembro comemora-se o dia de todos os santos. A
santidade fascina e atrai, como o mel atrai a abelha.
Todos sabem que santo é quem encontrou o caminho da
felicidade verdadeira no meio das contradições da vida.
A Bíblia ensina que só Deus é santo. Ele, porém, comunica
a santidade, é um Deus santificador, deseja um povo santo:
“Sede santos, porque eu sou santo”(Lv. 19,2;20,26). A
santidade de Jesus é idêntica à de seu Pai Santo (Jo
17,11). Jesus santifica os cristãos pela força do Espírito
Santo. Ele recomenda: “Sede perfeitos como vosso Pai
celeste é perfeito” (Mt. 5,48). Portanto, a santidade é
vocação de todo cristão: “A vontade de Deus é esta: a
vossa santificação”(1Tes.4,3).
Ser santo segundo a Bíblia é cumprir a vontade de Deus e
assim realizar-se como ser humano. Eles não ocupam o lugar
de Deus, nem são inventados pelos homens, são criaturas de
Deus, a quem Ele privilegiou com amor especial, e viu este
amor ser correspondido. Eles são reconhecidos como santos,
porque foram amigos íntimos de Deus que os santificou. Os
santos são heróis da fé vivida no amor. É o amor que
santifica e salva.
No catolicismo não se adoram santos, mas se respeita e
venera, como amigos de Deus. Esta atitude vem da fé na
ressurreição, já que, os que morrem no Senhor estão com
Ele. Reinam com Ele (Ap 4,4) e intercedem por nós (Ap
5,8).
A Bíblia mostra que Deus opera milagres pela intercessão
dos santos. Um exemplo é a cura do coxo operada por São
Pedro e São João: “Não tenho nem ouro nem prata, mas o que
tenho isto te dou. Em nome de Jesus Cristo levanta-te e
anda” (At. 3,1-9). Nos apresenta outros exemplos,
afirmando que “Deus fazia não poucos prodígios por meio de
Paulo” (At. 19,11-12). No entanto, Jesus é o único
mediador entre Deus e os Homens: “O Pai dará a vocês tudo
o que pedirdes em meu nome” (Jo15,16).
Um santo opera em nome de Jesus porque só Nele está a
fonte da graça e da força. Os santos colocam em evidência
a glória e santidade de Cristo, cabeça da Igreja. Pois foi
Ele mesmo que afirmou: “Eu garanto a vocês: quem crer em
mim, fará as obras que eu faço, e fará maiores do que
estas” (Jo 14,12). Ninguém pode ser santificado sem
entregar sua vida a Jesus presente nos irmãos. Honrar um
santo é reconhecer a força transformadora da Palavra de
Deus que santifica quem a aceita e a coloca em prática.
O santo é para o cristão exemplo de quem testemunhou sua
fé no seguimento de Jesus. O cristão tem a alegria de
abrir o álbum de família — a família na fé — e contemplar
uma fileira de heróis: os santos, nossos irmãos e amigos.
Conseguiram servir a Deus com fidelidade e junto de Deus
pedem por nós.
Os santos formam a multidão dos que souberam permanecer
despertos, alertas, livrando-se das ilusões e alienações.
Foram capazes de renunciarem a si mesmos, ou seja, o seu
ego, seu egoísmo suas máscaras, e fazerem a viagem que
importa: a viagem para o “centro da alma”, onde Deus nos
espera (Jo14,23) para se revelar a nós e revelar-nos a nós
mesmos. Santos e santas, rogai a Deus por nós!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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13/11/2007
Escuta cristã
São milhares de pessoas que já se beneficiaram deste
serviço chamado “Escuta Cristã”, existente em algumas
paróquias de Campinas, como a Catedral e a Basílica do
Carmo. Neste mês, o serviço completou dez anos, devolvendo
a alegria e infundindo coragem a pessoas desanimadas ou
desesperadas que buscam quem as acolham e ouçam.
A vida na cidade se torna complexa a cada dia. A mudança
de época, os muitos problemas de uma metrópole, machucam
as pessoas deixando muitas delas desorientadas. De um
lado, a pessoa moderna típica da cidade sofre a
necessidade de conhecer e controlar tudo para sentir-se
segura e livre. De outro lado, a pressa, sobrecarga de
trabalho, medo, vão fragilizando os laços entre as
pessoas. Ninguém tem tempo, já não há quem possa
ouvir-nos! Num clima de tensão destes, muitas vezes
agravado pela pobreza ou solidão, as pessoas se
desequilibram.
No desejo de encontrar caminhos para ajudar, os organismos
de articulação da pastoral da Arquidiocese de Campinas
chegaram à conclusão que se tornava necessário implantar
um serviço que disponibilizasse pessoas nas igrejas para
acolher e ouvir. Assim surgiu esse serviço, levado avante
por um grupo significativo de pessoas que se prepararam
para exercer este trabalho, que a cada dia se revela mais
importante.
A solução para nossos problemas pessoais e comunitários
encontra-se, em princípio, não em programas sociais de
vários tipos, que são necessários, mas na restauração do
equilíbrio interior das pessoas. E isso começa pelo
ouvi-las, o que as ajuda a ouvirem-se. Na “Escuta Cristã”,
esse ouvir não é um ouvir profissional, mas um ouvir
amoroso, gratuito, cheio de empatia e compaixão, valores
básicos do cristianismo. Por isso se chama “Escuta
Cristã”.
Tanto o judaísmo como o cristianismo são religiões da
escuta. “Ouve ó Israel, o Senhor teu Deus vai falar” (Dt
6,4). O convite para ouvir a voz de Deus é freqüente na
Bíblia. Também Deus ouve constantemente: “Eu ouvi o clamor
do meu povo, conheço seus sofrimentos e desci para
liberta-lo” (Ex 3, 7). Nos Evangelhos o mesmo convite:
“Este é meu Filho amado: ouvi-o” (Mt 17,5), Jesus é o
pastor e as suas ovelhas “ouvem a sua voz”" (Jo 10,3). O
convite a ouvir é tão freqüente que S. Paulo escreve que
“a fé entra pelos ouvidos” (Rm 10, 17). A fé é ouvir a
Deus e a caridade é ouvir os irmãos, pois, “a fé age pela
caridade” (Gl 5,6).
Ver e ouvir são manifestamente os meios fundamentais da
experiência humana, são os portais pelos quais o mundo
penetra em nosso íntimo. São as maneiras pelas quais
abrindo-se à realidade aceitamos o encontro com ela. Nossa
civilização é mais propensa a ver, contemplar imagens que
ouvir ou ler. Parece que somos hoje transformados de
pessoas do ouvido e da palavra em pessoas dos olhos e do
ver. Surge constantemente muito palavreado vazio e imagens
igualmente vazias diante de nós. Por isso, somos
convidados hoje a reaprender a ver e principalmente a
ouvir.
É Jesus que nos ensina o aprendizado da escuta (Lc 16,29).
O rico não ouviu o pobre Lázaro, faminto à porta de sua
casa enquanto ele se banqueteava. Isolado e insensível o
rico não conseguia ouvir com os ouvidos do amor. São estes
os únicos ouvidos que captam o mistério e o sentido de
todas as coisas. Parabéns à Escuta Cristã e todos as
pessoas envolvidas nesta pastoral que ouve com os ouvidos
do amor.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
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27/11/2007
Não ao aborto: sim à vida (I)
A 13ª Conferência Nacional de Saúde, que reuniu
representantes da sociedade civil, profissionais da área e
gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), rejeitou, no
último dia 18, a descriminalização do aborto: 70% dos
representantes votaram contra a proposta defendida pelo
Ministério da Saúde.
Fica provado mais uma vez que o brasileiro é contra o
aborto. Em recente pesquisa divulgada em importantes
jornais do País, constatou-se a rejeição do aborto pela
população. Dos entrevistados, 87% são de opinião de que
fazer aborto é moralmente errado.
O governo Lula, por meio do Ministério da Saúde e de
políticos do PT, tem projetos favoráveis à aprovação da
descriminalização do aborto. É preciso que fique claro que
não é legalização, porque ninguém pode legalizar tal
procedimento, dado que o direito à vida é uma cláusula
pétrea da Constituição (Art. 5). O aborto é a violação do
direito à vida do nascituro. Não vou entrar no emaranhado
da ficção jurídica de cunho utilitarista, eivada de
eufemismos, feito para negar ou amenizar a violação do
direito à vida do nascituro.
As campanhas do governo em favor do aborto, que reduzem a
questão somente a um de seus aspectos, qual seja, a saúde,
estão de costas para o povo, com a astuta falácia de que
defendem o próprio povo, que a uma altura destas precisa
ser tutelado. E a democracia? Aliás, não existe democracia
sem respeito à dignidade da pessoa humana. A pedra
fundamental da dignidade humana é o direito à vida, sua
defesa onde se encontra ameaçada. Ameaçada, justo ali onde
não há como se defender.
Em um país como o nosso, no qual os ricos gastam dez vezes
mais que os pobres, país que coloca sete jovens por hora
nas prisões, a maioria desempregados, o favorecimento da
prática do aborto, parece mais um subterfúgio, para
resolver, passando por um atalho perverso, a má
distribuição de renda e a desigualdade social escandalosa
na qual vivemos. Por que as soluções para os problemas
sociais devem passar sempre pela morte, em geral dos mais
fracos, e não pela promoção da vida? Por que não usar a
mesma presteza que se usa para aprovar a descriminalização
do aborto, para aprovar leis urgentes, que destinem verbas
para a educação e distribuam melhor a riqueza?
Poder-se-ia enumerar todo um arrazoado
técnico-científico-social a favor do aborto. São opiniões
que têm o direito de existir. Porém, não podem negar que o
aborto é grave. É matar o feto, que sente alegria, dor e
treme diante do bisturi. E diante do Deus da vida, é um
crime, um pecado. Pode-se descriminalizar o aborto no
papel, nas leis, mas não na consciência porque nem tudo
que é legal é justo.
A despenalização material do aborto pela sociedade não
elimina nem evita que a voz da consciência continue
perguntando como perguntou a Cain: “Onde está teu irmão?”.
O discurso deveria ser sobre como diminuir mortes por
abortos e não como legalizar uma realidade de morte.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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11/12/2007
Não ao aborto: sim à vida (II)
O Natal nos fala do mistério de uma gravidez inesperada
por parte da mãe, Maria, e até certo ponto, indesejada
pelo noivo dela, José, que pensou em deixá-la em segredo
(Mt 1, 18-24). Sabemos como foi o desfecho do drama, como
a criança nasceu. Se tivesse aborto nesta história, não
haveria Natal. Mas foi o amor que venceu. Continuo assim
minha reflexão sobre o aborto iniciada em meu artigo
precedente.
Maria, mulher pobre de Nazaré, assumiu a gravidez, sem
entrar na discussão prepotente de ser ou não ser dona do
próprio corpo, fazendo dele o que desejar como se faz com
mercadoria. Opta pela vida, coloca seu corpo a favor da
vida. De sua vida brota outra vida que ela acolhe. Nisso
se torna mulher grandiosa, perfeita.
Há valores que não se podem desprezar sob pena de se pagar
um preço alto. Não matar é um mandamento ontológico
inscrito na consciência de cada membro da humanidade. É
sol que ilumina o ser humano de dentro. Não se pode
cancelá-lo. Se a vontade do povo, o capricho de alguns, o
interesse de poucos constituísse o direito, poderíamos
então criar o direito ao roubo, latrocínio etc. Aqui é
preciso considerar que a luz de milhões de velas não
corresponde à luz de um único sol.
Como é esdrúxula a reclamação de certas mulheres, de que
os homens são os principais participantes da discussão
sobre o aborto. É muito natural que assim seja, pois eles,
se desejam continuar nascendo, dependem das mulheres já
que todo homem ao nascer tem sangue de mulher nas veias.
Achar que a disseminação do aborto diminui a violência é
outra das teorias vindas dos EUA. Aliás, muito bem aceitas
por grupos de cientistas e estudiosos que trabalham a peso
de ouro, para instituições internacionais, interessadas em
divulgar o aborto como solução. E vem o demógrafo Paul
Ehrlich dizendo que a Terra tem gente demais etc. O IBGE
já deixou claro que aborto não combate a violência e a
demógrafa Susana Covenaghi disse muito bem: “Alguns querem
acabar com a pobreza. Outros querem acabar com os pobres.”
Em 30 de outubro de 2005, o Correio Popular publicou uma
pesquisa mostrando que o campineiro é contra o aborto. O
que isto demonstra? Atraso? A pesquisa auferiu que 77,3%
da população de Campinas é contra o aborto. Isto mostra o
espírito solidário que sempre permeou a história da
cidade. Uma cidade que quase foi extinta pela febre
amarela e teve que conviver muito com a morte. Mas
Campinas optou pela vida, aprendeu que a solução passa
pela vida e não pela morte.
O óvulo fecundado pertence ao gênero humano, tem código
genético diferente de seus genitores, por isso a tradição
jurídica proclama que o nacituro é pessoa humana e tem
direito à vida. Na tradição cristã aurida na Bíblia vemos
Isabel que saúda Maria grávida como a “mãe do meu Senhor”
(Lc 1,43). Antes de Nascer, Jesus já operava a redenção,
já recebia a profissão de fé que fundamenta o
cristianismo: Ele é o Senhor! Que Ele nos ilumine neste
Natal!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
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25/12/2007
Menino Jesus
É Natal! Por um instante vivemos um momento mágico de
ternura e alegria. Mesmo quem não sabe ao certo se Natal é
festa de Jesus ou se é festa do Papai Noel, sente-se
tocado, o Natal é hoje uma festa universal tocando várias
religiões. A noite se iluminou. Ao redor de uma criança o
mundo gira em seu eixo agora reencontrado. Tudo que não é
bondade perde seu sentido. Emerge das profundezas de um
mundo de pecado, a certeza de que há primeiro uma
inocência original que pode ser constatada na gruta de
Belém.
No presépio José e Maria adoram o menino Jesus. Nele, Deus
sai de sua onipotência, entra na fragilidade humana. Deus
é amor e o amor sente necessidade de se comunicar. Como é
Deus que ama primeiro, Ele se comunica conosco em Jesus, o
qual é a imagem do Deus vivo. Esta comunicação se dá na
fragilidade de uma criança, para que ninguém tenha medo ou
se sinta excluído.
O menino que nasce em Belém traz uma mensagem: tudo tem um
sentido! A miséria de nosso mundo visitado por Deus neste
menino, tem uma saída. Tudo terminará bem, pois, agora
Deus mesmo faz parte da humanidade.
Nas mitologias dos povos antigos, gregos em especial,
muitos deuses se tornaram humanos. Quiseram ser tão
humanos ao ponto de assumir nossas mazelas e vícios. A
fragilidade destes deuses era fraqueza porque regidos pelo
“destino”. Aqui é diferente: Jesus, filho de Deus, se faz
homem para que nós humanos, sejamos divinizados. Desta
forma, ele é em tudo semelhante a nós, menos no pecado.
Sua fragilidade não é fraqueza mas humildade porque ele é
regido pelo “amor”.
Olhando a imagem do menino Jesus, no presépio tão bonito
aqui da Igreja do Carmo, penso nas crianças. Sempre foi
difícil ser criança, hoje talvez o seja mais. Não há
acolhida para as crianças. Muitos casais comemoram como
uma vantagem o fato de não terem filhos. Volta e meia
narram-se dramas envolvendo crianças. É o caso recente do
menino Bruno, de cinco anos, morto a semana passada aqui
em Campinas com marcas de espancamento. É de cortar o
coração! Neste ano, o Centro Regional de Atenção aos
Maus-Tratos na Infância (Crami) já contabiliza 562 vítimas
em nossa cidade.
Para educar a criança é necessário paciência, energia, não
maltratar, nada de violência. Mas também, não sufocá-la
com um amor que, às vezes, é sentimento de culpa. A
correria e o trabalho não permitem a muitos pais dar à
criança a atenção que ela tem direito, mas o amor sabe
fazer o impossível. Não se deve desanimar diante da tarefa
de educar, mas assumir a missão.
Vamos celebrar o Natal, que este celebrar ultrapasse o
saber e o refletir para se tornar uma abertura do coração.
Abertura ao mistério. Para celebrar, deixemos de lado todo
medo para mergulharmos na alegria. É essa, aliás, a
mensagem dos anjos: “Não tenham medo, anuncio-vos uma
grande alegria: nasceu Jesus salvador!”
No Natal vamos deixar transparecer a criança que cada um
carrega no seu interior. Procuremos ser bons e fazer de
cada pessoa um próximo e de cada próximo um irmão.
Feliz Natal a todos!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo
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