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Artigos

 

Artigos de autoria do Pároco - Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

02/01/2007

Gatos e lagartos

 

A Basílica do Carmo é um local por onde passam centenas de pessoas todos os dias. Existe ali um serviço de acolhida fraterna muito bom, levado avante por leigos e leigas preparados. Atendem pessoas que ali chegam, buscando palavras de conforto, desejando fazer um desabafo, enfim querendo ser ouvidas. Como pároco e reitor da Basílica também acolho os que ali vão, desejando falar com o padre. O diálogo com o povo é sempre enriquecedor e gratificante.

Dia desses conversei com uma senhora de 83 anos, que aparentava menos. Com postura respeitosa, olhar de quem já viu quase tudo na vida, fala pausada e uma inteligência perspicaz, ela foi falando. Vou chamá-la pelo nome fictício de Eufrásia e relatar um pouco da conversa.

Reverendo, disse ela, agradeço por me receber. Na minha terra chamam o padre de reverendo, mas aqui não usa, não sei porque. Aliás, a educação parece que acabou. Antes a educação era substância, hoje é enfeite, usa quem quer. Pois é, disse-lhe, os tempos mudaram, os costumes também. Ela, porém, retrucou que a violência está demais porque ninguém mais tem educação, e que a guerra no mundo começa com a falta de educação: da guerra pequena se passa pra grande. E o que é a guerra, senão uma grande falta de educação de todos contra todos? É a vitória do egoísmo, sentenciou.

Foi dizendo que veio do Norte em um caminhão e trabalhou quatro décadas, juntamente com o esposo para ter sua casa e sua aposentadoria. Criou um filho, o esposo morreu. E concluiu: a preguiça tomou conta do mundo, as pessoas não gostam de trabalhar. Fui para minha terra e voltei decepcionada, não se tem vontade de trabalhar. Eu lhe disse que às vezes as pessoas estão doentes, outros não acham emprego. Ela retrucou-me: reverendo, não é isso não, é a Bolsa Família que o governo dá, acomodou as pessoas. Tudo dado de mão-beijada. Para os doentes é bom, mas para os que têm saúde tem que dar é trabalho.

Admirei-me que dona Eufrásia tivesse estas idéias e lhe perguntei se havia estudado em algum lugar. Disse que não freqüentou escola, só a da vida, e que estas idéias lhe vêem de pensar e matutar muito. Somente agora é que freqüentou o projeto Letra Viva, o qual lhe facultou ler um pouco. E alegre acrescentou que já “pode ler o nome dos ônibus”. Facilita, porém não tenho muito lugar para ir, meus parentes já morreram todos, eu também já estou no fim da linha, acrescentou.

Perguntei-lhe se assistia televisão. Dona Eufrásia disse que hoje em dia sim, tem tempo, e que a TV é uma coisa maravilhosa, traz muita novidade. Ultimamente tem desanimado de assistir, porque além da violência tem muita briga de políticos, corrupção. Segundo ela isto é um atraso. Perguntei o que acha dos políticos corruptos. Dona Eufrásia me respondeu que são pessoas sem piedade, não crêem em Deus. Acham que nunca serão julgados por Deus e que podem fazer o que bem entendem. Tudo passa e eles também vão ser julgados e vão passar. Daqui a algum tempo ninguém lembra deles. Olha o Getúlio Vargas, foi tão importante e Campinas, deste tamanho não tem praça com o nome dele, nem sei se tem uma rua.

Conversamos sobre religião e outros assuntos de fé, por fim dona Eufrásia se despede pedindo a benção. Digo a ela que também me abençoe para que eu seja, a seu exemplo, lúcido, se chegar a sua idade. Ela me responde: se Deus quiser, reverendo, o senhor chega. É só não se iludir com quem tem poder, coisa boa só pode vir é de baixo: olha o menino Jesus no presépio.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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16/01/2007

Religião e dinheiro

 

Lendo nos jornais, como aqui no Correio, sobre a prisão dos dirigentes da igreja Renascer em Cristo, com dólares até mesmo dentro da Bíblia, não só ficamos tristes, mas indignados.

No século 16, Lutero iniciou o movimento da Reforma que visava libertação do papado, àquela altura, mergulhado em uma grave crise, provocada inclusive pela assim chamada “venda de indulgências”. Em um ambiente triunfalista, ele vai recordar à Igreja a teologia da cruz. Da Reforma surgirão três grandes comunidades: luterana, calvinista e anglicana, correntes do protestantismo tradicional. Destas são derivadas centenas de sociedades menores: constituem o protestantismo moderno. Este último distingue-se por sua índole mais radical, mais livre da tradição cristã e certo anti-intelectualismo. São os pentecostais e neopentecostais.

Em meio ao pluralismo religioso que marca nossa época, as pessoas escolhem ritos e normas que estejam de acordo com sua própria necessidade. A crise ética atual reflete a crise de sentido da vida. Então a cultura materialista e hedonista faz do dinheiro o deus supremo, capaz de dar tudo para fazer feliz. É aí então que se cai na tentação da “Teologia da Prosperidade”. Propondo esta teologia, muitas igrejas neopentecostais têm crescido bastante. É intrigante como estas igrejas, últimos rebentos derivados da Reforma, têm reproduzido todo tipo de comportamento contra o qual Lutero protestou: o poder opressor sustentado pelo dinheiro, o vale tudo por dinheiro.

Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Estas igrejas querem servir a dois senhores ao mesmo tempo, mais ainda, querem servir a Deus através do dinheiro que abre as portas a todas as riquezas. É a teologia da prosperidade: você louva a Deus dando dinheiro a Ele (?!) e Ele te retribuirá dando o que você pede. O dinheiro em si não é ruim, mas quando domina uma pessoa, a escraviza e toma o lugar de Deus em sua vida. O dinheiro serve bem para ser empregado, mas se virar patrão, acaba arruinando a pessoa ou seus descendentes. A teologia da prosperidade é o contrário da teologia da cruz. É abuso extremado do conceito bíblico do dízimo, é um tomar o nome de Deus em vão, abusando de suas palavras e promessas. É desejo de submeter Deus ao desejo pessoal como tenta fazer a magia. Por isso, não raro o feitiço se vira contra o feiticeiro.

O livro de Jó é expressão acabada do combate á teologia da prosperidade. Trata do justo que sofre, em uma época dominada pela mentalidade da retribuição divina, com bens materiais, à bondade da pessoa. A justiça divina nem sempre age segundo nossos critérios e conceitos racionais, está acima deles. O homem deve ter uma confiança ilimitada em Deus. Deus que muitas vezes ajuda mais não atendendo certas preces que se lhe faz. Livrando assim de muitas encrencas, como por exemplo, processos e prisão por mau uso das riquezas.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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30/01/2007

Fevereiro

 

O mês de fevereiro, a iniciar-se em breve, é o menor do calendário, nem por isso deixa de ter sua riqueza, assinalando datas importantes. Logo se pensa no Carnaval, comemorado dia 20, e as pessoas costumam dizer que o Brasil só funciona após o Carnaval. É idéia equivocada porque a maioria da população está, desde o início do ano trabalhando, e muito. O que podemos desejar é que os festejos do Carnaval, esta bonita festa popular, tragam alegria verdadeira, não só contentamento que passa rápido, deixando angústia e desgosto de paixões mal vividas, muitas vezes afogadas em bebida.

Algumas categorias de trabalhadores serão contempladas neste mês: dia 1 é dia do publicitário, dia 7 dia do gráfico, dia 10 do atleta. Sempre nos lembraremos de alguns amigos e conhecidos para homenagear neste seu dia e isto é bom.

É rico também o calendário religioso que assinala dia 2, o de Nossa Senhora da Candelária, muito venerada em nossa região, que apresenta Jesus luz do mundo; dia 2 São Braz, que protege a garganta; dia 11, Nossa Senhora de Lourdes, dia da bênção aos doentes, pois Lourdes é o maior centro de peregrinações de doentes do mundo, e, dia 22, dia da Cátedra de S. Pedro.

Mas é o dia 21, quarta feira de Cinzas, o mais importante. Na minha agenda tem a seguinte frase neste dia: “Tropeçamos sempre nas pedras pequenas, porque as grandes sempre as enxergamos”. De fato, são tantas pedras pequenas no nosso caminho que às vezes formam obstáculos intransponíveis. E pensar que muitas destas pedras nós mesmos as colocamos! A quarta-feira de Cinzas assinala o início da Quaresma, tempo propício para refletir mais demoradamente nas pedras do caminho que nos atrapalham em nossa caminhada para Deus e para os irmãos. E procurar removê-las.

Quaresma é tempo de penitência e isto parece anacrônico, mas não, pois é aconselhada por muitos profissionais admirados e seguidos. Não há penitência maior que o autoconhecimento, aconselhado por psicólogos. Comer menos e fazer exercícios, o que tira do comodismo é aconselhado pelos médicos. Ter educação e cordialidade no trato é aconselhado por qualquer agência de emprego. Deixar a preguiça, trabalhar com honestidade é norma em qualquer curso de capacitação. Paciência no trânsito é ensinada em auto-escolas e assim por diante. Não fumar, não beber em excesso é recomendado pelo Ministério da Saúde. Ensinar crianças a ter disciplina é sinal de amor por elas, dizem os pedagogos. Enfim, a penitência está na ordem do dia com outro nome. Quando os profissionais prescrevem é qualidade de vida. Quando a Igreja propõe com base no Evangelho é atraso, repressão etc. A diferença é que para a pessoa religiosa tudo isto deve ser feito por amor, como Jesus recomenda e não por interesse ou segundas intenções.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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13/02/2007

Noite de agonia

 

Iniciam-se as aulas, a cidade fica repleta de jovens. Nos cruzamentos, os carros param, os bichos pedem ajuda, parece que os trotes estão mais humanizados: recolher doações.

Refletir sobre a juventude se impõe. Nosso País ainda é um País de jovens. A juventude contagia, ilumina, tem o dom de revirar as coisas. Foi assim que no ano de 1968, a “revolução dos jovens”, a partir de Paris, se espalhou pelo planeta. Foram os primeiros a perceber que um mundo velho estava terminando. E então se dizia: é proibido proibir!

O potencial da juventude é imenso, os jovens são capazes de generosidade incrível, de criatividade admirável, quando unidos por uma causa. Foram os jovens que ajudaram a exorcizar os demônios da ditadura militar, que por longos anos amordaçou os anseio de liberdade e participação. A campanha pelas diretas-já, o movimento pelo impedimento de Collor (os caras-pintadas), foram momentos da juventude unida mostrar seu potencial.

Ela é a fase da vida em que se concentram os maiores desafios e problemas, mas também, a fase de maior energia, criatividade, generosidade. As mudanças rápidas por que passamos nestes últimos 20 anos, tem marcado profundamente a juventude, não raro de forma negativa. A subjetividade está na ordem do dia, ela faz o jovem substituir a preocupação por um mundo melhor, pela preocupação com as necessidades pessoais. A vivência religiosa, que inspirava o desejo de justiça, foi substituída pela busca de espiritualidade individualista. Os jovens antes viviam a exaltação da razão, hoje acentua-se o primado das emoções.

É difícil para os jovens lidar com tantas mudanças em meio a uma realidade na qual o dinheiro se tornou o valor único que se impõe. Há uma marca de desânimo e desespero na juventude que transparece na tristeza. É comum encontrar jovens tristes, deprimidos, desanimados. Cresce o consumo de álcool e drogas entre os jovens, conseqüentemente a violência, da qual são autores e na maior parte das vezes vítimas.

Reportemo-nos às chacinas de jovens em Rio das Pedras, torturados e mortos, como nos informou reportagem do Correio. E outra, ainda este mês, mais terrível, relatava o caso de jovens assaltantes que roubam um carro e arrastam preso ao veículo um menino de 6 anos, por sete quilômetros. Estes fatos nos reportam a uma noite de agonia que se abate sobre nós, no dizer de um velho padre progressista que conheci.

O desafio de dar um sentido à vida é patente. A juventude precisa reaver a esperança perdida. Voltar-se para Deus, conhecer Jesus Cristo e seu Evangelho. Onde isso já acontece percebe-se que um novo dia amanhece carregado de alegria.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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06/03/2007

Grito da Terra

 

O verde das florestas, a natureza no seu encanto nos agrada. O planeta Terra que deveria se chamar Água, esta pérola azul sustentada no vazio do espaço sideral é nossa casa comum. Deus criou o mundo e ficou contente, viu que tudo era bom, diz a bíblia.

Sabemos que a bíblia não é livro de ciência, não tem pretensão de explicar o universo do ponto de vista científico. Sua mensagem é muito maior, responde-nos sobre o que havia antes da criação do mundo, mundo como a ciência o entende e descreve. A ciência com seu poder fenomenal de investigar, desvendar e iluminar, só discursa a partir do início da matéria, assim mesmo jogando com hipóteses que não se podem provar.

Mas o que havia antes da matéria, da criação? Havia um Amor infinito – Deus é amor (1Jo 4,16). Este amor é a fonte da vida, é o Deus criador do qual fala a bíblia. Crer nele significa aceitar que o mundo e o ser humano não estão sem explicação e sentido, que têm valor e segurança a partir de sua causa primeira: Deus.

Assim, só a fé em Deus criador pode nos levar como cristãos a propor uma reflexão como a da Campanha da Fraternidade deste ano. Fraternidade e Amazônia, o tema da campanha toca na questão da ecologia, preservação da natureza. A Terra está dando seus sinais de que a destruição do ecossistema avança rápido. O grito da Terra está presente por toda parte pedindo que a protejamos, do contrário é bem capaz que ela nos acabe eliminando.

Deus colocou o ser humano na Terra para ser o jardineiro, o zelador deste jardim maravilhoso. No entanto, levado por ambição desmedida, ele a destrói. A Amazônia serve de exemplo para constatar que o egoísmo na administração dos bens da natureza é altamente destrutivo. Não se vê a Terra como patrimônio de todos, mas “meu”, o pedaço que comprei é meu e faço dele o que quero. Este é o caminho mais curto para que não seja de ninguém, pois, se tornará inabitável.

Esta questão atinge o modelo de desenvolvimento e o estilo de vida de todos. O ideal da modernidade, ainda persistente, que é progresso sem fim a qualquer custo, se esgotou. Somos convidados a caminhar por outro caminho, o da preservação da vida. Cuidado e carinho para com a mãe natureza a fim de que o futuro da humanidade seja feliz! A vida sobre a Terra é um dom e nossa missão é preservá-la não somente para sobreviver, mas porque isso é ato de louvor e veneração a Deus criador.

Em Campinas temos pessoas competentes, como o professor José Pedro Martins, que alertam com clareza sobre tudo isto, devemos ouvir.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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20/03/2007

Exortação papal

 

Foi decretado que não existe mistério. Tudo se explica à exaustão e a inteligência humana dá conta de saber tudo sobre tudo. Aliás, foi decidido também que não existe mais verdade, cada um faz a sua. Mas na verdade não é bem assim fora da academia. O coração continua tendo razões que a própria razão desconhece. Se há fome de pão, a fome de Deus é maior. O ser humano sabe que foi criado para o infinito e não se contenta com menos que Deus. Mesmo quando se diz ateu, no fundo sussurra: sou ateu graças a Deus!

Bento XVI acaba de publicar uma exortação que fala sobre o mistério, este é o sentido da palavra sacramento. O mistério do amor-caridade se intitula a exortação. O amor de Deus envolve tudo, é “eletricidade que eu passeio sem medo... se eu pisar este amor me mata” no dizer da poetiza Adélia Prado, no seu poema intitulado Sítio. O amor de Deus se manifestou totalmente em Jesus Cristo, o qual está presente na Eucaristia.

A Eucaristia, a santa comunhão, é sacramento central para a vida do cristão porque exprime o que seja amor em grau máximo. É Jesus Cristo que dá sua vida por nós. A morte de Cristo na cruz não foi fatalidade, mas entrega amorosa. Deus nos ama ao ponto de se fazer nosso alimento: “tendo-nos amado, amou até o fim”. Não há de fato amor maior que dar a vida por quem se ama.

Falar sobre esse mistério de amor, em um mundo onde tudo tem um preço e o individualismo se tornou regra de sobrevivência, é questionador. O papa faz ligação entre a Eucaristia e o matrimônio para recordar o que diz o apóstolo Paulo na carta aos efésios: que o amor de dois esposos é sagrado e sinaliza o amor de Deus pela humanidade, o amor de Cristo pela Igreja.

Não diz novidade, desde o início a Bíblia, passando por Jesus que o confirma, patenteia-se a sacralidade da união entre um homem e uma mulher, com um vínculo fiel, indissolúvel e exclusivo. O que a Bíblia afirma sobre o casamento está em harmonia com o dado antropológico primordial, segundo o qual o homem deve se unir de modo definitivo com uma só mulher e vice-versa. Este dado nenhuma Igreja que se funda na revelação bíblica, tem autoridade para alterar. A igreja não fabrica verdades, ela a recebe contida na Palavra de Deus.

O que choca é reafirmar estas coisas em uma cultura na qual o sexo deixou de ser linguagem do amor. Está separado da idéia de procriação, é só instrumento de prazer que muitas vezes se vende e compra. O sexo se tornou preocupação constante, ao ponto de, em nossa cultura a pessoa ter que estar no cio o ano todo e a vida inteira, ao contrário dos animais que tem seus ciclos. Diante disso, o que o papa quer reafirmar nesta exortação ou incomoda ou não tem sentido.

Algo que incomodou é o papa dizer que um segundo casamento, após o divórcio, para os que se casaram na Igreja é uma praga. Mas isto qualquer criança que vive a separação dos pais pensa, mesmo que sofra as conseqüências sem falar. O texto não despreza os casais em segunda união, eles continuam fazendo parte da Igreja e o papa vai dizer: “Todavia os divorciados re-casados, não obstante sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial cuidado na esperança de que continuem cooperando na vida da Igreja”.

Somente a leitura deste texto na íntegra, pode dar idéia do que o papa quis dizer!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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03/04/2007

Sofrimento dos inocentes

 

Estamos na Semana Santa, o convite vai no sentido de contemplar Jesus Crucificado. Ele encarna o sofrimento humano no seu grau mais agudo. Por outro lado, somos convidados a refletir no sofrimento que se instala na nossa realidade social. Olhando ao redor defrontamos com tanta dor e sofrimento que atingem a população de várias formas. Os rostos sofridos do povo aparecem de várias maneiras.

Nem toda dor tem a mesma causa. São tantas as causas: ódio, exploração, vingança, doença, velhice, desastres, engano, ignorância, desespero, injustiça, a dor que nasce de um grande amor, etc, nunca acabaríamos de enumerá-las. Todos os dias se pode ver, nas transmissões ao vivo pela televisão, as dores do mundo, de forma mais dramática, relatos de zonas de guerra onde o sofrimento é terrível. Então surge a pergunta pelo sentido de tanto sofrimento.

Sem dúvida existem muitas explicações que apontam causas econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas. Elas devem ser feitas, ajudam a compreender muito dos motivos de tanta dor. Porém não bastam, a dor é maior. Estas explicações necessárias ajudam, mas não dão forças para agüentar o sofrimento. As explicações se perdem quando deparamos com o sofrimento do inocente, com o justo que sofre.

É aí que a Palavra de Deus, contida na Bíblia indica a figura do Servo de Javé. O profeta Isaías nos cânticos do Servo, aponta para o sofrimento do Servo mergulhado na dor e amargura, a ponto de não mais ter aparência de gente, no entanto ele será vitorioso (Is 52,13-15). Em Jesus que sofre podemos ter uma luz para iluminar o sofrimento do inocente e dar-lhe um sentido.

A Igreja nascente vai encontrar nesta figura do Servo Sofredor, a explicação para a paixão e morte de Jesus. As profecias do Servo de Javé foram interpretadas pela Igreja nascente aplicadas a Jesus Servo, visto no Apocalipse como o Cordeiro de Deus, degolado, mas de pé, pois está vivo: ressuscitou.

O sofrimento de Jesus na Cruz está unido ao sofrimento de milhares de inocentes mergulhados na dor, que sabem serem vítimas da maldade, mas que não fazem o mal, são machucados, mas não machucam. Vivem do perdão e abandono nas mãos de Deus. Este sofrimento tem um poder redentor, tem um sentido misterioso. O sofrimento de Jesus na cruz é um sofrimento solidário, sofreu sem precisar. Deu sua vida em defesa da justiça que sempre pregou, carregou os males da humanidade sobre si. Sem ódio ou revolta.

A Semana Santa nos convida a refletir sobre o sofrimento solidário de Jesus Cristo. Ele nos questiona com seu abandono ao Pai e o perdão que deu a seus torturadores. A razão fica devendo uma explicação para isso. Duas coisas que a cabeça não explica, mas o povo sofredor entende e pratica como Jesus o fez, e assim redimiu o mundo. Feliz Páscoa a todos!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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17/04/2007

Nossa irmã água

 

Na celebração da vigília pascal dentro da liturgia da Igreja Católica a água tem um significado todo especial. Nesta celebração abençoa-se a água que se usa para o batismo. A oração proferida lembra que foi Deus que criou a “água para fecundar a terra, lavar nossos corpos e refazer nossas forças”. A água é símbolo da vida, da graça de Deus e da alegria eterna. Recorda ainda que após as águas do dilúvio surgiu uma nova humanidade, que os hebreus livres da escravidão do Egito passaram através das águas do Mar Vermelho e que Jesus foi batizado nas águas do Rio Jordão.

Quanto simbolismo carrega “nossa irmã água tão casta e pura” no dizer de São Francisco. Quando criança admirava as águas do rio que passa no fundo do quintal da casa de meus pais. O Rio São Miguel que à cinqüenta anos atrás tinha tantos lambaris nas suas águas límpidas e que hoje ainda está lá, sobrevivendo como um mutilado de guerra. Nenhum animal bebe mais sua água poluída.

É triste ver sua transformação para pior, assim como é triste perceber que a cada dia a situação da água no planeta se agrava. Os cientistas acabam de dar o grito de alerta através da segunda parte do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas promovido pela ONU. De um lado as secas em vastas regiões que vão alargando a aridez e a escassez de água e de outra parte as inundações provocadas pelo derretimento das geleiras.

O aquecimento global provocado em última análise pela ganância e prepotência do ser humano pode nos levar a uma catástrofe sem precedentes. Como sempre a parte mais pesada da tragédia caberá às regiões pobres as quais já estão gravemente afetadas.

O Correio Popular tem prestado um benefício enorme à população informando constantemente com destaque sobre a situação agravada das bacias hidrográficas em nossa região. Vamos esperar que continue. Temos necessidade de vozes que clamam no deserto em que está se transformando paulatinamente o planeta: salvemos a água, salvemos nossas vidas, pois sem ela não há vida!

E existem pessoas que lavam as calçadas com água tratada sem a menor consciência da tragédia anunciada. Vendo o desperdício não podemos duvidar do que dizem os antigos: “A primeira vez o mundo acabou pela água do dilúvio e a segunda vez acabará pelo fogo”. Já começou o fim do mundo pelo fogo do calor, do aquecimento e da seca... o fim deste mundo pelo menos, organizado como está.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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01//05/2007

Confiar na Justiça?

 

Este mês pudemos ler aqui neste jornal, notícia do linchamento de um jovem de 18 anos, ocorrido em Campinas, era deficiente mental. Segundo a reportagem ele foi cercado por um grupo de 50 pessoas num terreno baldio, interrogado, em seguida julgado culpado e executado. Tudo isso nos choca.

Recordei-me de fato semelhante, quando ao chegar em uma capela de um bairro da paróquia onde era pároco, me inteiraram de fato semelhante, ocorrido ali mesmo ao lado da capela. Diante de meu espanto e reprovação me responderam: fizemos Justiça, porque se não fizermos quem vai fazer?

Esta falta de confiança na Justiça prejudica a evolução de nossa sociedade, não raro faz involuir para a lei da selva. A percepção de que o Brasil é dividido em dois andares, o de cima no qual a lei é branda, e o de baixo no qual a lei é rigorosa, se expressa em um ditado popular sardônicos: “A quem rouba um milhão: mil anos de perdão, a quem rouba um tostão: mil anos de prisão.”

É preciso recuperar a confiança da população na administração da Justiça. Com certeza, a maioria dos magistrados é exemplar e se esforça para que isso aconteça. No entanto, a recente operação “Hurricane” (furacão) deixa um misto de decepção e até confirmação desta maneira distorcida como parcela da população vê a Justiça.

“Infelizmente a corrupção também existe no Judiciário e no Ministério público”, declarou em entrevista o ministro G. Dipp do STJ. O mesmo ministro também afirma que o Judiciário já trabalha para separar suas “maçãs podres” (Folha de S. Paulo 23/04/07). É alentadora a franqueza e humildade destas declarações que expressam realismo e bom senso. Despertam esperança de termos no futuro uma Justiça cada vez mais “justa” para todos. Nesta busca é inegável o préstimo que a imprensa exerce em favor da verdade.

Fazer justiça é um atributo divino, pois só Deus é perfeitamente justo e administra a justiça com perfeição porque só Ele é saber total e absoluto. Deus é o “sol da justiça” diz a Bíblia (Ml 3,20). Assim como o sol tudo penetra e faz nascer, crescer, além de aquecer, a justiça bem distribuída traz vida a uma nação.

Devemos confiar na justiça e ajudar que seja administrada cada vez mais com propriedade. Nada de justiça com as próprias mãos. Confiemos na Justiça, nos juízes e rezemos por eles, para que sejam iluminados pelo sol da justiça e sejam dignos de nossa confiança.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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15/05/2007

Bento XVI e Jesus

 

Muitas questões foram levantadas na passagem do papa pelo Brasil. De tudo um pouco, sobre quase todos os aspectos da vida. Pergunta-se: qual a questão fundamental? O que está por detrás das questões religiosas, teológicas, éticas? O que fica mais em evidência são questões pontuais de moral, tais como aborto, sexo antes do casamento etc. Porém, a questão de fundo é de ordem dogmática, é uma questão de fé, uma questão espiritual. Ou seja, primeiro vem aquilo que se crê (dogma), só depois o agir de acordo com o que se crê (moral). Dependendo do teor da fé você tem um direcionamento para a ação, para o comportamento. Sendo assim, tenho por mim que a questão fundamental está no âmbito da fé, e é relativa à pessoa de Jesus Cristo: quem é Jesus?

Se, para a Igreja, Jesus for um homem somente, por mais iluminado que seja, seus ensinamentos terão um peso somente humano. Se Jesus, além de Homem, é Deus, o Filho de Deus encarnado, seus ensinamentos terão um peso divino e, como tal, podem se apresentar como verdade e vida. Desde o início do cristianismo já há uma cristologia completa expressa por São Paulo em sua carta aos filipenses (Fil 2,5-11), que afirma a divindade de Jesus. A Igreja vive de Jesus Cristo, Filho de Deus, este é o fundamento irrenunciável.

Prestando atenção, constata-se que nestes últimos anos, mais que em tempos anteriores, levanta-se um questionamento tremendo sobre a pessoa de Jesus. A proposta é rejeitar sua divindade e acolhê-lo somente como homem, um como tantos outros. Um homem pecador, embora mais iluminado que todos. Se a divindade de Jesus Cristo é insuportável, o fato de ele ter morrido na cruz o é mais ainda. Só a negação da filiação divina de Jesus o tornaria aceitável à modernidade e pós-modernidade. Assim, seus ensinamentos podem ser relativizados, manipulados. Mas que seja Deus isto é insuportável, o torna digno de morte no dizer de seus juízes (Jo 19,7), pois não se manipula a Deus. Negando a divindade de Jesus se pode escolher Barrabás, sem culpa.

É nesta perspectiva que se pode compreender como o papa, homem esclarecido e plenamente consciente dos problemas do mundo de hoje, reafirma com convicção as normas comportamentais que um cristão deve seguir, a partir de sua fé em Jesus Cristo Filho de Deus. A Igreja na América Latina vai depender do aprofundamento da compreensão de quem realmente é Jesus. E isto a Igreja pode fazê-lo porque guarda a memória de Jesus initerruptamente a 2 mil anos. Vai neste sentido o esforço do papa em lançar seu livro Jesus de Nazaré, compartilhando sua busca pessoal na compreensão sempre mais profunda de Jesus. Esforço que se deve imitar. Conhecendo melhor Jesus o amor por ele se torna autêntico e capaz não só de produzir entusiasmo missionário, mas também o discernimento tão necessário diante da realidade e dos embates da vida.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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29/05/2007

Como sofrer?

 

No meu ministério, devo encontrar quase todos os dias pessoas que são atingidas pelo sofrimento. É doloroso ouvir o relato de situações as mais atrozes, situações de angústia e sofrimento, quer físicos ou morais! Isto me faz refletir e a reflexão busca luzes na razão, também na fé.

O sofrimento é experiência básica da vida humana, nascemos em meio à dor e morremos quase sempre com ela. Entre o nascimento e a morte, ela vem nos visitar muitas vezes. O coração humano aspira por um mundo sem sofrimento, mas ele é nosso companheiro de viagem na existência.

Na civilização atual, há um estímulo grande ao conforto, bem-estar. A busca por comodidade sempre maior se espanta diante do sofrimento. Em nossos dias, diminui a resistência à dor, ao sofrimento, isto aumenta duplamente seu efeito quando nos acomete. No entanto o sofrimento está presente como nunca, basta olhar à nossa volta, nem precisamos falar em guerras.

Há uma grande luta para reduzir o sofrimento no mundo. A dor é um alerta da natureza, anuncia que fomos atingidos por um mal que precisamos enfrentar. Provavelmente, no futuro se poderá eliminar toda dor, o que vai acabar privando-nos deste sinal de alerta. Mas a luta maior é para descobrir um sentido para o sofrimento.

A presença do sofrimento em nossa vida é tão dura que não se é capaz de resistir a ele sem recorrer a um estímulo maior, à religião que pode aproximar do mistério. Existem áreas do sofrimento humano que faz a vida parecer absurda, principalmente quando se trata do sofrimento do inocente. Aqui, o sofrimento se torna mais incompreensível para quem crê do que para quem se diz ateu. Para este o mal é normal, o bem é que surpreende. Aquele que crê num Deus providente e bom não pode deixar de se escandalizar diante do sofrimento. Pois para o que crê em Deus, o mal e o sofrimento são sempre uma anomalia.

Na Bíblia, tão repleta de relatos de sofrimentos e alegrias, como a própria existência, destaca-se o relato do livro de Jô, o homem sofredor. Mais que as teorias para explicar seu sofrimento, o que conforta Jô no seu sofrimento é a presença silenciosa e paciente de seu amigo. A solidariedade é a chave para vencer o sofrimento humano. Quantas vezes, em meio ao sofrimento mais amargo, a presença amiga de alguém dá conforto e alívio!

Desta maneira, Deus responde às indagações nossas sobre o sentido do sofrimento. Não com teorias, mas com a solidariedade de quem veio até nós e mergulhou na nossa dor. Jesus na cruz mergulha no sofrimento. Embora isto não explique o sofrimento de forma teórica e racional, dá-lhe um sentido. Em Jesus Cristo, Deus está presente no sofrimento humano, fazendo companhia e espreitando o que faremos com nosso sofrimento. Porque o problema maior do sofrimento é o que fazer com ele.

É no Calvário que podemos nos basear para escolher como sofrer. Temos três opções. Ou sofrer como o bandido, revoltado que blasfema e nada aproveita de seu sofrimento: o mau ladrão. Ou sofrer como penitente, que do fundo de sua dor aprende a humildade e se liberta para ser acolhido no paraíso: o bom ladrão. Ou sofrer como o inocente Jesus, o qual sofrendo com amor e confiança no Pai, redime o mundo com sua solidariedade. Escolhamos.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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12/06/2007

Hospital

 

Escreveu o poeta: “A vida é um hospital onde quase tudo falta, por isso ninguém se cura e morrer é que é ter alta”. Me desculpe Fernando Pessoa, mas estes versos permeados de pessimismo, podem ter algo de real, mas nem tanto. Nem a vida é um hospital ruim e nem todo hospital é assim mau.

Dias deste acompanhei uma pessoa ao Hospital Dr. Celso Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Fui justamente num dia em que, devido às paralisações em outros hospitais da cidade, o referido hospital estava bem concorrido. Apesar disso o atendimento foi muito bom. Durante o tempo que ali estive pude perceber o esforço dos funcionários, profissionais da saúde para agilizar o atendimento e atenção aos pacientes. Fato curioso, foi a presença do superintendente do hospital, dr. Antonio Celso de Moraes, ser visto circulando pelo hospital visitando os departamentos. Admirei-me, pois, é de nossa tradição antiquada que os gerentes, sejam invisíveis e inatingíveis.

O Hospital Dr. Celso Pierro é o único hospital que há vários anos atende a parte da cidade mais necessitada. Está situado próximo à região do Campo Grande, a qual se movimenta para pleitear a separação do município de Campinas, por se julgar malservida. Este hospital é um marco referencial, atende não só esta população que de outra forma deveria deslocar-se por quilômetros até o outro lado da cidade, o lado privilegiado onde se encontram os outros hospitais da cidade, mas atende também pessoas vindas de outros municípios.

Sendo hospital particular e filantrópico, pertencente a uma instituição de ensino sem fins lucrativos, não recebe certamente as verbas destinadas aos hospitais públicos, mesmo assim consegue cumprir seu papel social de forma admirável, muitas vezes sem publicidade, porque a maioria dos atendidos, a população de baixa renda não tem força para acessar os veículos noticiosos.

Segue assim este hospital, desenvolvendo a longa tradição da Igreja Católica, de cuidar dos doentes. A história nos atesta que não só a universidade como instituição nasceu à sombra das catedrais, do coração da Igreja, mas também as instituições hospitalares, com sentido humanitário, nasceram com a Igreja nos primeiros séculos do cristianismo.

O mundo pagão tinha recolhimentos para doentes: cinosargos, genúrios e xenodóquios. Mas nem de longe se assemelhavam aos hospitais como casa, onde se acolhe o outro como pessoa que deseja cuidado e cura. Isso somente o cristianismo foi capaz de fazer porque trouxe consigo uma mudança no conceito de pessoa.

No mundo pagão a pessoa valia tanto quanto sua riqueza, assim, o Imperador era um Deus, mas o pobre era um objeto.

O Evangelho de Jesus convocou os cristãos a viver o preceito da caridade em todos os sentidos. Diante de Deus todos tem a mesma dignidade. E isso mudou a maneira de tratar o indigente. Por muitos séculos o próprio Estado deixou à Igreja o cuidado dos doentes.

Que o hospital da PUC como o povo o chama, possa crescer sempre mais na valorização da vida.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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26/06/2007

Festa junina

 

Nossa vida às vezes é uma rotina tecida de trabalho, preocupações. Em meio a tudo isso existem as festas, momentos de alegria coletiva que anula, por assim dizer, o peso dos deveres diários, quebrando a rotina. Nas grandes cidades, as festas começaram a ser organizadas por empresas especializadas. As metrópoles começam também a se notabilizarem por festas que se tornaram tradicionais, ou características daquela cidade. Assim, a festa do figo em Valinhos, da uva em Vinhedo, Rodeio em Jaguariúna etc.

Campinas que dá vida a muitos eventos e festas o ano todo, agora deseja notabilizar-se pela festa junina. Neste sentido a Prefeitura promoveu na praça Arautos da Paz o Arraial Nhô Tonico, evento que deseja resgatar a tradição junina em Campinas. O nome homenageia Carlos Gomes, mas também os santos: Antonio, João e Pedro.

Antonio é santo mais querido no Brasil depois de Nossa Senhora Aparecida. Nasceu em Lisboa, morreu em Pádua aos 36 anos, em 1231. Foi franciscano, professor de teologia e missionário popular. Notabilizou-se por pregar o evangelho e defender o povo pobre. E por que casamenteiro? Porque conseguiu mudar algumas leis no sentido de favorecer os mais simples, como a lei que proibia casamento de moças que não tinham dinheiro para o dote, obrigatório àquela época, forçando muitas a ficarem sem casar.

São João Batista, primo, amigo e mentor de Jesus Cristo que por ele foi batizado no Rio Jordão. Profeta e mártir da Justiça. O rei Herodes mandou decapitá-lo porque juntamente com sua corte, não estava de acordo com sua pregação. Convidou as pessoas à conversão porque o Reinado de Deus estava chegando. Conversão para ele era preparar um mundo novo sem corrupção e injustiças. E por que a fogueira? Porque São João anunciou Jesus como cordeiro de Deus. Os cordeiros eram vigiados pelos pastores que acendiam fogueiras para se aquecerem no inverso.

São Pedro, chefe dos apóstolos, foi pescador, pai de família, escolhido por Jesus para ser a pedra de fundação da sua nova família: a Igreja. Após a morte de Jesus morou em Jerusalém, depois Antioquia e Roma, onde foi martirizado, provavelmente, no ano 67 na colina do Vaticano. Ali foi construída uma Basílica sobre o cemitério no qual Pedro foi sepultado. Por que a chave? Porque Jesus lhe disse: “Eu te darei a chave do Reino dos céus”, significando o serviço de pastor supremo da Igreja.

Que o Arraial do Nhô Tonico tenha êxito e se consolide como festa popular da cidade. E que os santos de junho nos recordem que a verdadeira festa é o amor de Deus agindo em nossos corações como agiu e continua agindo no deles por toda a eternidade.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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10/07/2007

Pajelança

 

É inegável que estamos numa mudança de época, mais que em época de mudanças. Assistimos a transformações significativas na maneira de viver, ver e entender a realidade. E tudo rapidamente. As maravilhas do progresso tecnológico e científico são bem-vindas, ajudam a viver e não há como deixar de agradecer por isso.

Porém, não se pode dizer o mesmo quanto ao progresso humano. Refiro-me à “humanidade”, àquilo que é mais profundamente próprio do ser humano: raciocinar e sentir em relação com os outros. O homem deve ser pessoa e pessoa é um nó de relações. Neste quesito, relações, a humanidade não pode contabilizar tanto sucesso.

Estamos preocupados com o aquecimento global, com razão. A destruição da natureza se opera fora das pessoas. É, porém, paradigma da destruição que se está operando por dentro das pessoas em termo de degradação da ética. Nem falemos das guerras em curso. A corrupção em nosso meio ultrapassou o que se poderia imaginar. É fruto podre da ambição desmedida de riqueza e poder. A impunidade parece indicar a impossibilidade de aplicar a justiça. O sistema econômico gera riqueza para poucos e pobreza para a maioria.

A violência assusta porque aumenta à medida em que o crime se organiza. O pan-sexualismo erotiza cada atividade que pretenda ter sucesso. A impressão é que desaparecerá a noção de crime: tudo será permitido, já que tudo é relativo. Grande parte da juventude sem perspectivas, refugia-se no álcool e outras drogas. Como a jovem que, citando um poeta, me disse: “O meu coração quebrou-se, como bocado de vidro, quis viver e enganou-se...”. Enquanto isso, os idosos afirmam: “Passo mal em ver tantas coisas tristes, descaradas...”.

Nosso povo não está bem. O povo brasileiro precisa recuperar a esperança, afirmam os bispos brasileiros em recente manifesto. Sem Deus não há esperança, por isso, adquirir esperança é voltar-se para Deus. Todas as religiões reconhecem que Deus está presente na realidade, nós é que não estamos presentes a Ele. Não se pode fazer e acontecer como se Deus não existisse. Decretada a morte de Deus, está decretada a morte do homem. Sem Deus, o homem não sobrevive, se destrói. É esta a mensagem da Bíblia.

Lembro-me de um filme a que assisti. Havia grande catástrofe numa região povoada por muitas tribos indígenas. Reuniram-se os caciques e chegaram à conclusão que a situação exigia soluções que iam além de medidas socioeconômicas e políticas. Convocaram-se os pajés para fazerem uma pajelança. Reconheciam todos que, sem o auxilio de Tupã, não encontrariam iluminação para resolverem a crise.

É o que devíamos fazer. A oração coloca-nos em contato com a dimensão mais profunda da existência, toca as raízes do ser e alcança a iluminação que vem de Deus. Gandhi, homem de oração, bem o compreendeu, por isso fez o que fez.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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18/07/2007

Fuga nas drogas

 

O Relatório Mundial de Drogas – 2006, das Nações Unidas, foi divulgado dia 26 do mês passado, dia internacional de prevenção às drogas. Consta nele existir no mundo 200 milhões de consumidores de drogas. Cerca de 110 milhões as consomem com regularidade e 90 milhões são consumidores ocasionais.

 

Pela primeira vez em 25 anos, o número de consumidores ficou estável. A idade das pessoas pesquisadas vai de 15 a 64 anos, embora se saiba que existem crianças de 10 ou 11 anos metidas no tráfico e já viciadas, muitas das quais acabam assassinadas. Os usuários de drogas estão bem abaixo dos fumantes e dos que abusam do álcool, mas sabemos que tanto o cigarro como o álcool são drogas que funcionam como portas abertas para as drogas mais pesadas, tais como maconha e haxixe, as de maior consumo.

 

Com maior ou menor rigor, as drogas são combatidas em todo o mundo. Nalguns países até com pena de morte. Os resultados são pouco animadores, pois a fiscalização se mostra ineficiente, e a apreensão não consegue reter mais que 20% da droga que circula. Existem ainda os interesses poderosos decorrentes da movimentação financeira proveniente do lucro com o comércio de drogas. É todo um emaranhado complexo e tétrico.

 

Todos parecem concordar que é impossível acabar com as drogas. Para muitos, a proibição não é o melhor caminho, valendo mais o jogo aberto no qual é mais fácil perceber quem trafica. Até mesmo o governo ganharia, pois não teria que gastar com o controle e ganharia com os impostos. É um debate sem fim!

 

Porém, o problema da droga não é um problema de polícia ou um problema clínico somente. Sem desconsiderar as causas sociais que induzem à droga, a meu ver, a dependência química é, sobretudo, na sua origem, um problema antropológico. Finca suas raízes no vazio de respostas, quando se pergunta pelo sentido da vida. A falta de um lar, a falta de amor, a insegurança e a fragilidade diante do desamparo da vida, fazem com que a droga funcione como um refúgio.

 

Recordo aqui o filósofo Heidegger falando do homem como “ser-para-a-morte”. Somente enfrentando a realidade da própria finitude, assumindo a vocação para ter consciência de si, de quem se é e qual seu destino, assumindo a própria realidade com coragem, é que se pode ser livre. A partir daí é que poderemos nos projetar para fora de nós mesmos, numa vida com sentido. E acrescento, se existe fé em Deus, uma vida não só com sentido, mas uma vida em plenitude. É a fuga das drogas.

 

Sem este acerto interior para que no íntimo do coração se ajustem os ponteiros na descoberta do sentido da vida, o ser humano não amadurece, continuará tendo medo, continuará precisando fugir e, infelizmente, continuará precisando de todo tipo de drogas. É a fuga nas drogas.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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24/07/2007

Nossa Padroeira

 

No mês de julho, dia 16, comemora-se Nossa Senhora do Monte Carmelo ou do Carmo. Essa devoção apareceu nos primeiros séculos do cristianismo. Terminadas as perseguições aos cristãos em 313, surgiram grupos de monges e eremitas que iam para o deserto a fim de “derramar o sangue da alma”, ou seja, ter uma vida de oração e penitência.

Um desses grupos estabeleceu-se no Monte Carmelo, na Palestina. No século 11 construíram uma capelinha dedicada à Virgem Maria. O bispo de Jerusalém, Santo Alberto, deu a eles uma regra de vida. Assim formou-se a ordem dos carmelitas. Em 1251, durante graves dificuldades, o superior da Ordem, S. Simão Stock, intercedendo em suas orações, recebe de Nossa Senhora o Escapulário como sinal de proteção à Ordem e a quem o usasse. Esta devoção espalhou-se pelo mundo todo e, segundo o papa Paulo VI, pode ser incluída entre as devoções verdadeiramente marianas.

Carmelo significa jardim ou pomar. O Monte Carmelo está presente em inúmeras passagens da Bíblia, em especial ao mencionar o profeta Elias, que ali morou com seus discípulos (1Rs 18,20-40). Por isso, os monges que ali se estabeleceram se entenderam como herdeiros do profeta Elias. Assim, a devoção carmelita tem como patronos Nossa Senhora, a profetiza do Magnificat e o profeta Elias. Há nela um cunho profético: anúncio de Jesus Cristo como concretização do Reino de Deus, Reino de justiça e paz, e denúncia de tudo aquilo que atenta contra os “direitos” do Deus da vida.

Nossa igreja matriz, hoje Basílica, situa-se na praça Bento Quirino e juntamente com esta praça é tombada como patrimônio histórico da cidade. Campinas surgiu ali. A Basílica está no local da primeira igreja da cidade, a qual era sede da paróquia Imaculada Conceição. Após a transferência da mesma para a Catedral, em 1870, continuou a ser paróquia, com o nome de Santa Cruz, tendo como padroeira Nossa Senhora do Carmo. Nela está enterrado o fundador de Campinas: Francisco Barreto Leme. Em 1909, por iniciativa do pároco, foi fundada a Ordem Terceira do Carmo, que reúne leigos desejosos de viver a espiritualidade carmelita.

Assim como Jesus foi transfigurado no Monte Tabor, podemos dizer que Maria também foi transfigurada no Monte Carmelo. Monte que é figura de Jesus Cristo. Nele se deve subir com o auxílio de Maria. Milhões de pessoas usam o escapulário, são todos carmelitas, consagrados a imitar Maria, que soube ouvir e praticar a Palavra de Deus.

Neste último dia 16, milhares de pessoas passaram pela Basílica para rezar e receber o escapulário, que não é superstição, mas devoção. Símbolo do compromisso do cristão em seguir Jesus imitando sua fiel discípula, sua mãe Maria. Consultando nosso site (www.basilicadocarmocampinas.org.br), saiba mais sobre Nossa Senhora do Carmo, o escapulário e a Basílica do Carmo.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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07/08/2007

Ecumenismo

 

Em documento de circulação interna, com aprovação de Bento XVI, a Congregação para a Doutrina da Fé, organismo da Cúria Romana, a qual assessora o papa, fez uma declaração, considerando a realidade da Igreja Católica em relação a outras denominações religiosas. Isso provocou muitos pronunciamentos, sendo alguns irados, outros irônicos.

Passados os primeiros momentos, se pode perceber melhor o ocorrido. Sem o fragor das paixões, há condições de uma compreensão mais criteriosa dos fatos. Somente uma visão dos acontecimentos serena, sem preconceitos, pode fazer progresso na sua compreensão e tirar proveito.

“A Igreja Católica Apostólica Romana, por sua estreita e ininterrupta ligação com Jesus Cristo a quem ela prega, conserva e vive em seus sacramentos e ministérios, e por quem se deixa continuamente criticar, pode e deve ser considerada como a mais excelente articulação institucional do cristianismo. Nela se logrou a mais límpida interpretação do mistério de Deus, do homem e de sua mútua interpretação. Nela se encontra a totalidade dos meios de salvação.” É isso que afirma o teólogo Leonardo Boff em sua obra Jesus Cristo Libertador (cf. Ed. Vozes, Rio,1972,2ed, pp278-279).

Como se pode ver, as afirmações da declaração não trazem novidade. Ao ler o que escreve L. Boff, alguém não avisado pode até pensar que seja um texto da declaração em questão. O mesmo L. Boff prossegue: “Ela, a Igreja Católica não esgota a estrutura crística, nem se identifica pura e simplesmente com o cristianismo. Mas é sua objetivação e concretização institucional mais perfeita e acabada, de tal forma que nela já se realiza, em germe, o próprio reino de Deus. Com isso, porém, não se nega o valor religioso e salvífico das demais religiões”.

Prossegue, portanto, a marcha do ecumenismo, o qual procura realizar o desejo de Jesus Cristo: “que todos sejam um”. Trabalhar pela união dos cristãos é compromisso de Bento XVI, que o expressou logo no ínício de seu pontificado.

O ecumenismo se faz com a conversão, o diálogo, o amor que crê, espera, tem paciência, mas, sobretudo se regozija com a verdade. A Igreja Católica não está contra, nem se julga maior. Simplesmente não pode renunciar realidades básicas de fé, que ela não inventou, mas recebeu de Cristo como consta nos evangelhos, como a sucessão apostólica e a eucaristia. Assim foi, durante mil e quinhentos anos. Antes de surgirem denominações religiosas modernas. Há que se dialogar!

Muito já se caminhou e frutos foram dados. Recorde-se o acordo assinado pela Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial em 1999. Foi uma declaração conjunta sobre a doutrina da justificação.

O teólogo luterano Walter Altmann, membro do comitê executivo do Conselho Mundial das Igrejas, ressaltou que não se surpreendeu com a declaração: “Agora é que o diálogo vai se intensificar. Se temos diferenças, vamos encará-las”, declarou. Essa é a reação de um cristão esclarecido e sereno, que compreendeu que o debate sobre doutrinas tem a idade do cristianismo, e que o propósito da busca ecumênica é unir a humanidade.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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21/08/2007

Família: amor e liberdade

 

De uma maneira ou outra todos temos família. Viemos de uma família por mais pequena que seja. Neste mês de agosto se comemora a Semana da Família e ficamos pensando se ainda é possível olhar com serenidade e simpatia, este grupo de pessoas que estabelece relações tão íntimas e dependentes.

Em sua obra, Era dos Extremos, sobre o século 20, o historiador inglês, Heric Hobsbaum escreve que “as instituições mais severamente solapadas pelo novo individualismo moral foram a família e as Igrejas organizadas no Ocidente”. Podemos deduzir assim que, a causa mais profunda desta crise da família é o individualismo.

Em nossa época, as pessoas prezam, sobretudo a liberdade como independência de tudo e de todos. O sujeito com sua liberdade ilimitada, o indivíduo livre! É esta a nova “utopia” ou seja, o desejo-projeto de felicidade, que cada um alimenta para si. Não depender de nada e de ninguém numa autonomia total, eis o ideal. Mas será que isto é possível ao ser humano?

Este projeto individualista proposto como meio de vida feliz é ilusório. São muitos os condicionamentos sociais e mecanismos que regem de forma invisível a sociedade, de tal modo imperceptíveis, que criam a ilusão de que é possível uma vida independente de tudo e de todos. Basta pensar no: “sorria você está sendo filmado”, cada vez mais presente em tantos lugares.

Tal individualismo é ilusório. A realidade não está constituída de indivíduos auto-suficientes, que estabelecem relações sociais somente de acordo com sua vontade, determinando sozinhos e por própria conta, com plena autonomia, todos os aspectos da vida. Percebemos que deve haver contrato em qualquer sociedade, nelas os relacionamentos tem prazo para terminar. E os vínculos contratuais são funcionais.

A família, no entanto, não é uma mera sociedade, é uma “comunidade”. A família é comunidade porque não se baseia na ficção de uma auto-suficiência ilusória, mas se funda na busca conjunta da auto-realização, no amor.

Nenhum ser humano é uma ilha. Por mais que as novelas na TV mostrem às vezes a família de forma depreciativa, quase todas terminam em um belo casamento. Casamento no qual se retoma a utopia verdadeira que é a união das pessoas para juntas buscarem a auto-realização, a qual não está no individualismo, no sujeito egoísta fechado sobre si mesmo, mas no amor que se comunica e gera vida. No amor que realmente liberta. Na prática, a verdadeira liberdade não está separada do amor.

A família é invenção de Deus como relata a Bíblia, é o “santuário da vida”. Mais que nunca devemos admitir, por muitos motivos, que o futuro da humanidade passa pela família.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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04/09/2007

O Deus dos ateus

 

Penso que as pessoas não são atéias. O homem pode ser ateu em relação a certas imagens de Deus, mas no fundo admite em segredo: sou ateu graças a Deus! Freqüentemente o que acontece é que ao encontrar-se com o sentimento de finitude, nada, existência para a morte, absurdo da vida, o homem possa tomar o caminho do desespero que leva à loucura (Nietzche) ou da realização na santidade (Gandhi).

O número dos que se declaram ateus no Brasil aumentou no último senso, passavam um pouco de 7%. E, ultimamente, alguns autores trouxeram o tema novamente á baila: Daniel Dennet, Sam Harris, Michel Onfray, Hitchens Christopher e Richard Dawkins.

Pode-se duvidar de Deus. Mas, com certeza, o ser humano busca amar e ser amado. Não experimentando amor, é impossível admitir a existência de Deus. Principalmente em nossa cultura, que esvaziou os símbolos do Pai a tal ponto que a figura do Pai entrou em colapso. O evento que preparou a hominização — o homo sapiens — não foi o assassinato do pai, mas o nascimento do pai, afirma E. Morin. O movimento hoje parece ser o contrário. Estamos a caminho de uma animalidade sem pai como afirma o psicólogo L. Zoja. Da morte do pai à morte de Deus é um passo.

Deixando para trás o refrão marxista que entende a religião como “ópio do povo”, os ataques passam agora, da religião para a própria possibilidade da existência de Deus: uma ilusão maléfica para o ser humano. Todos eles concordam que o pior na religião é a fé na existência de Deus. Assim, o zoólogo R. Dawkins, professor de Oxford, na Inglaterra, chega a afirmar que seu sonho é a completa destruição de todas as religiões.

Antes os ateus iam para a fogueira da Inquisição. Será que agora serão os crentes que irão para as fogueiras acesas por cientistas? Ao menos a fogueira das vaidades já foi acesa com esses discursos prepotentes sobre a fé.

Essa agressividade desses cientistas contra Deus, a religião, mostra o desapontamento com a persistência da fé em nossos dias, quando se esperava que Deus estivesse morto e sepultado. Mais que nunca, hoje o homem deseja colocar-se no lugar de Deus. A tecnociência reivindica pela boca de seus “profetas” o lugar de Deus. Enquanto parte da intelectualidade científica da Europa repropõe a morte de Deus, como avanço, a Europa como um todo se espanta com as contínuas conversões ao islamismo de um lado e de outro o niilismo e o crescimento dos cultos satânicos.

Porém, sem Deus, o mundo e o ser humano não se explicam. Podemos afirmar, sim, que é possível crer depois de Freud. A própria existência do homem impele a crer na existência de Deus. O físico e matemático B. Pascal, inventor da máquina de calcular escreve: “O momento mais sublime da razão é quando ela aceita que não pode explicar tudo”. Para ele, somente a religião e a fé podem ultrapassar o ponto em que a pesquisa científica se choca com o inexplicável.

Nem todos os cientistas concordam com teses atéias. O biólogo Francis Collins, diretor do Projeto Genoma, em livro lançado recentemente intitulado A Linguagem de Deus, apresenta as evidências de que Deus existe. Afirma que a ciência e a fé devem caminhar juntas e uma não tem nada a temer da outra. Precisa-se da humildade de Collins, um ex-ateu, para crer.

A fé nunca fecha-nos o caminho que conduz à descrença, deixa-nos livres. Crer é apenas arriscar-se a ler a realidade para além do empírico, do perceptível, em chave de símbolo. E não existe contradição com a ciência se houver diálogo.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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18/09/2007

80 anos de integridade

 

O Correio Popular completou este mês seu octogésimo aniversário. Motivo de júbilo para Campinas, que tem a satisfação de ser bem informada por este veículo de comunicação, que faz parte da vida de tantos cidadãos leitores como eu.

A informação é matéria-prima de todos os setores chave da sociedade, mormente o econômico. Estar certo de ser bem informado não é, portanto, pouca coisa. E informar bem é uma tarefa que o Correio Popular tem cumprido de maneira exemplar.

Admiro o trabalho dos profissionais da comunicação que confeccionam o jornal. Formam uma equipe entrosada. O resultado é um jornal solidário com os cidadãos. Um jornal que não só veicula notícias, mas é agente de transformação da sociedade: quer encontrar caminhos para uma vida com dignidade para todos. Destaco ainda a defesa da democracia e a independência, apanágios que se fazem sentir com facilidade quando constatamos a pluralidade de idéias que são veiculadas.

O primeiro artigo que escrevi nas páginas deste jornal em novembro de 1993, foi fruto desta admiração pelo bom jornalismo nele encontrado. Foi quando o Correio Popular estava sofrendo censura, por ter aberto suas páginas para que os cidadãos se expressassem sobre a corrupção. O jornal cumpria seu dever de colaborar para o crescimento da consciência e a coibição da impunidade, fato que incomodou muita gente. Foi uma defesa da altivez do jornal que não se intimidou no cumprimento de seu objetivo de zelar pelo direito coletivo.

Como bem enfatizou o presidente da RAC, Dr. Sylvino de Godoy Neto em discurso na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo durante homenagem pelos 80 anos do jornal: “Como se vê, os defensores da legalidade passam por maus bocados. Mas esse é o preço da integridade, qualidade indispensável para o exercício da boa política e do bom jornalismo”. Penso que a raiz do sucesso está aí, na integridade. Derivada do latim, a palavra integridade expressa a idéia de correção, imparcialidade, inteireza, lucidez e honradez entre tantos atributos.

Que o Correio Popular continue sendo um jornal íntegro, que não se vergue diante da força do poder político ou econômico. Mas se vergue sim, ante o ideal proposto de “sermos vigilantes fiscais da administração pública e zeladores intransigentes do direito coletivo”. Nosso pais que presencia o triste espetáculo da falta de integridade de tantos políticos e homens públicos em geral, que deveriam dar exemplo, precisa de um veículo de comunicação assim. Parabéns! Vida longa!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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02/10/2007

Sete pecados

 

Um sujeito trabalhando duro, vê outro deitado numa rede na maior folga e diz: “Sabe que preguiça é um dos sete pecado capitais?” E o outro responde: “Pois é, a inveja também!” Os pecados capitais são conhecidos, pois servem para fazer piada. O que não dá piada não é popular.

A atual novela da qual este artigo empresta o título, explicita os sete pecados capitais que se devem evitar, como aparecem nos ensinamentos éticos do cristianismo. Capitais porque são cabeça, deles procedem os demais. Mais que pecados são tendências que podem levar a pecar. Brasileiro gosta de novelas. Através delas muito se divulga de costumes e atitudes, construtivas ou destrutivas muitas vezes.

Em nossa mentalidade onde tudo se explica pela ciência e em se tratando de comportamento, pela psicologia, a noção de pecado é rejeitada pelo mundo bem pensante. Porém, a maior parte da população tem boa intuição, não se engana. Sabe que pecado é como atirar e errar o alvo, é algo que dá satisfação, mas não alegria, dá prazer mas não felicidade. É algo incompleto, como um botão de rosa que sempre fechado guarda tudo para si, não se abre. Em seu egoísmo não serve para ninguém, nem mesmo para si, não se desenvolverá, não produzirá sementes. Consideremos sucintamente os sete pecados capitais.

Primeiro, o orgulho que leva a pessoa a se colocar como princípio de tudo. Negando a existência de Deus a pessoa se coloca no seu lugar. É como um motorista que ao dirigir o carro, nega a existência das rodas por não vê-las. Esqueceu que são elas que fazem o carro andar e não ele. Elas sustem o carro assim como Deus sustenta o mundo.

A inveja é a tendência a entristecer-se com o bem dos outros. O invejoso só sofre, nunca está contente com o que tem e fica triste com o que os outros têm. Não tolera pessoas com dons diferentes, ou que fazem as coisas melhores que ele. O invejoso não é só um tormento para os outros, mas principalmente para sí mesmo.

A ira é o descontrole que ofende os outros com facilidade. Em geral, o inseguro é iracundo porque a ira é o exagero do sentimento instintivo que leva a pessoa a se defender dos perigos. É reação violenta, exagerada e também desejo de castigar quem ofende ou agride. A ira desconhece que só se vence o mal pelo bem.

A gula é o abuso do prazer legítimo que acompanha o comer e beber. A malícia da gula é que ela escraviza a pessoa a seu corpo. Ela é fonte de doenças. Não só fome mata, mas a gula também!

A luxúria é a absolutização do sexo, redução do amor ao erótico, ou seja, desligar sexo do amor o qual é compromisso de vida com outra pessoa. A erotização da sociedade torna a pessoa objeto de cama e mesa. Daí pode vir muito prazer, mas será que vem satisfação e felicidade? Em geral se esquece que formas sublimes de amor não incluem sexo: amor aos pais, a Deus, amigos, filhos etc.

A preguiça é a tendência a evitar qualquer esforço, torna a pessoa um parasita que se irrita quando querem tirá-lo de sua inércia. A lei do menor esforço é a lei do preguiçoso, indolente.

A avareza. É o vício dominante no mundo de hoje regido pelo sistema neoliberal centrado no econômico. As pessoas são levadas a pensar em ganhar dinheiro noite e dia para poder gastar e consumir. O ter é que vale e não o ser.

Enfim, para quem começou a escrever achando que o assunto era fraco, até que escrevi demais. Talvez seja um oitavo vício, o de quem escreve, quem sabe?

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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16/10/2007

Tropa

 

No momento o filme que causa sensação e um pouco de discussão é Tropa de Elite, em cartaz pelo País todo. O filme retrata o dia-a-dia de policiais da cidade do Rio de Janeiro, em especial do grupo de operações especiais da polícia (Bope). As opiniões se dividem: para uns, o filme faz apologia da polícia violenta que usa métodos fascistas; para outros, faz refletir sobre a violência crescente e a situação precária da segurança pública no Brasil.

O filme é sério, mais do que drama, retrata a tragédia na qual estão mergulhadas as cidades brasileiras, a tragédia de uma violência crescente e incontrolável. Ele retrata como já foi dito, a “bestialização” da vida brasileira por causa de múltiplos fatores. Nos sentimos impotentes e até desiludidos diante da violência como que institucionalizada. O grande contributo desse filme, no entanto, é fazer refletir!

A violência urbana muda a função da cidade. Ao invés de ser um lugar de liberdade e convivência pacífica onde a vida melhora, as cidades se tornaram lugar perigoso. As noções de segurança, vida comunitária foram substituídas pelo sentimento de insegurança e de isolamento que o medo impõe. A criminalidade vai aumentando e se diversificando. Parece que o crime está passando por completa transformação por causa do avanço da tecnologia. Mas conforme retrata o filme em questão, o avanço tecnológico é notado, sobretudo, nos armamentos usados tanto pelos criminosos como pela polícia.

A ação se desenvolve no Rio, cidade maravilhosa, que mostra de maneira privilegiada quais são os frutos de uma política social voltada para o endeusamento do mercado: aumento da pobreza, uso abusivo de drogas e crescimento da violência. Fica evidente o elo entre a exclusão social e a criminalidade. Porém, a reflexão que faço é que o pano de fundo do filme, seu tema verdadeiro, não é a violência, mas a corrupção que aparece em todos os lugares e momentos.

Se a pergunta é: quem mais mata no filme? Responderia que é a corrupção. Além de tudo o que se queira ponderar, é ela a causa principal de toda a violência mostrada. Desde a corrupção interna da polícia, a corrupção nas favelas, a corrupção dos políticos, do sistema de saber, que são mostradas, até a corrupção, a macro-corrupção que o filme não mostra, e que é praticada nas altas esferas do poder nacional e internacional.

A corrupção é um dos maiores impedimentos para o crescimento e desenvolvimento de países como o nosso. É o que diz o Compêndio de Doutrina social da Igreja (n. 477). Nisto faz eco ao documento de Puebla: “Os contrastes cruéis de luxo e extrema pobreza, tão visíveis em todo o Continente, agravados pela corrupção que invade a vida pública e profissional, manifestam até que ponto nossos países se encontram sob o domínio do ídolo da riqueza”(P 494). Na década de 50 se dizia: ou o Brasil acaba com a saúva ou ela acaba com o Brasil! Hoje se pode dizer: ou o Brasil acaba com a corrupção ou ela acaba com o Brasil.

A corrupção mata, essa poderia ser a conclusão a que se chega vendo este filme. Há esperança? Sim, o filme dá esperança: quando nasce um menino. No dizer do poeta da peça Vida e Morte Severina: “Nasceu uma criança, o mundo volta a começar”. Temos que começar um mundo novo sem corrupção. Talvez venha a ser uma questão de sobrevivência para todos.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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23/10/2007

Como tirar proveito de seus inimigos

 

Tenho um aluno de filosofia da PUC-Campinas, que está escrevendo sua monografia cientifica sobre o filósofo Plutarco. Um de seus livros leva o curioso título Como Tirar Proveito de seus Inimigos. Fiquei instigado e fui ler o pequeno texto.

Plutarco nasceu em 46 DC, em Queronéia, cidade da Beócia próximo a Delfos. Filho de família abastada, estudou em Queronéia e depois em Atenas. Aos vinte anos já ouvia as lições do médico Onesícrates, do orador Emiliano e do filósofo platônico Amônio. Ao dedicar o pequeno livro ao seu amigo Cornélio Pulquério, Plutarco afirma que pode-se encontrar um país onde não haja animais ferozes, mas encontrar uma administração política que não tenha exposto aqueles que a exercem ao ciúme de seus rivais, a inveja e a concorrência é muito difícil. Visto que é impossível não ter inimigos, Plutarco citando Xenofonte, afirma que deveria ser próprio de um homem “ponderado” (sobretudo daqueles que exercer cargos administrativos) tirar proveito de seus inimigos.

Mas, como? Diz o nosso filósofo que os primeiros homens limitavam-se a não cair nas garras dos animais selvagens. Depois seus descendentes aprenderam a utilizá-los. O fogo queima quem o toca, mas fornece luz e calor e ainda pode servir para muitas outras coisas. Plutarco solicita que examinemos nossos inimigos e coloca a seguinte interrogação: Será que não poderemos tirar deles algum benefício em particular? Certas pessoas não convertem sua doença numa doce inação física? Outros se fortificam e se tornam resistentes sob o império das provocações que tiveram de sofrer. Para Plutarco os imbecis maltratam suas amizades, enquanto os homens sensatos sabem dirigir para seu proveito mesmo as inimizades.

Afirma nosso autor: “Visto que nosso inimigo observa curiosamente nossas ações, é necessário que estejamos atentos a nós mesmos e, essa vigilância deve se transformar insensivelmente em hábito de virtude”. Deste modo, o mais prejudicial na inimizade pode tornar-se o mais proveitoso. Afirma Plutarco: “Teu inimigo continuamente atento espia tuas ações, na expectativa da menor falha, fica à espreita, em torno de tua vida, através dos pequenos detalhes. Isso nos obriga a viver com cautela, prestar atenção em si, a nada fazer nem nada dizer de forma irrefletida”.

De fato, essa maneira reservada, que controla as paixões da alma e refreia os desvios do raciocínio, inspira o cuidado e a vontade de viver de maneira virtuosa e irrepreensível. Para Plutarco aquele que sabe que seu inimigo é um concorrente, tanto no plano da conduta como no da reputação, presta mais atenção em si, olha o efeito de seus atos com circunspecção, regula melhor sua conduta.

Assim, a inveja de nossos inimigos é um contrapeso à nossa negligencia. Além disso, nós nos vingamos utilmente de um inimigo afligindo-o com nosso próprio aperfeiçoamento moral. Plutarco interroga: “Que sucederá, em tua opinião, se dás prova de equidade, de bom senso, de solicitude, de probidade nos discursos, de integridade em teus atos, de decência em tua conduta? Vencidos os inimigos, serão acorrentados ao seu mutismo”. Pergunta, ainda, Plutarco: “Queres modificar aquele que te odeia? Não o trates de dissoluto, mas comporta-te como homem, se moderado, diz a verdade, procede humanamente e com justiça. Redobra em ti o ardor pelo trabalho e o gosto pelas ciências”. Então, como tirar proveito de seus inimigos? Tratando-os com doçura, ouvindo as criticas, aprimorando comportamentos, mas, sobretudo procurando ser melhor do que eles. A vida de muitas pessoas que conheço é um testemunho dessa verdade.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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30/10/2007

Todos os santos

 

Dia 1º de novembro comemora-se o dia de todos os santos. A santidade fascina e atrai, como o mel atrai a abelha. Todos sabem que santo é quem encontrou o caminho da felicidade verdadeira no meio das contradições da vida.

A Bíblia ensina que só Deus é santo. Ele, porém, comunica a santidade, é um Deus santificador, deseja um povo santo: “Sede santos, porque eu sou santo”(Lv. 19,2;20,26). A santidade de Jesus é idêntica à de seu Pai Santo (Jo 17,11). Jesus santifica os cristãos pela força do Espírito Santo. Ele recomenda: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt. 5,48). Portanto, a santidade é vocação de todo cristão: “A vontade de Deus é esta: a vossa santificação”(1Tes.4,3).

Ser santo segundo a Bíblia é cumprir a vontade de Deus e assim realizar-se como ser humano. Eles não ocupam o lugar de Deus, nem são inventados pelos homens, são criaturas de Deus, a quem Ele privilegiou com amor especial, e viu este amor ser correspondido. Eles são reconhecidos como santos, porque foram amigos íntimos de Deus que os santificou. Os santos são heróis da fé vivida no amor. É o amor que santifica e salva.

No catolicismo não se adoram santos, mas se respeita e venera, como amigos de Deus. Esta atitude vem da fé na ressurreição, já que, os que morrem no Senhor estão com Ele. Reinam com Ele (Ap 4,4) e intercedem por nós (Ap 5,8).

A Bíblia mostra que Deus opera milagres pela intercessão dos santos. Um exemplo é a cura do coxo operada por São Pedro e São João: “Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho isto te dou. Em nome de Jesus Cristo levanta-te e anda” (At. 3,1-9). Nos apresenta outros exemplos, afirmando que “Deus fazia não poucos prodígios por meio de Paulo” (At. 19,11-12). No entanto, Jesus é o único mediador entre Deus e os Homens: “O Pai dará a vocês tudo o que pedirdes em meu nome” (Jo15,16).

Um santo opera em nome de Jesus porque só Nele está a fonte da graça e da força. Os santos colocam em evidência a glória e santidade de Cristo, cabeça da Igreja. Pois foi Ele mesmo que afirmou: “Eu garanto a vocês: quem crer em mim, fará as obras que eu faço, e fará maiores do que estas” (Jo 14,12). Ninguém pode ser santificado sem entregar sua vida a Jesus presente nos irmãos. Honrar um santo é reconhecer a força transformadora da Palavra de Deus que santifica quem a aceita e a coloca em prática.

O santo é para o cristão exemplo de quem testemunhou sua fé no seguimento de Jesus. O cristão tem a alegria de abrir o álbum de família — a família na fé — e contemplar uma fileira de heróis: os santos, nossos irmãos e amigos. Conseguiram servir a Deus com fidelidade e junto de Deus pedem por nós.

Os santos formam a multidão dos que souberam permanecer despertos, alertas, livrando-se das ilusões e alienações. Foram capazes de renunciarem a si mesmos, ou seja, o seu ego, seu egoísmo suas máscaras, e fazerem a viagem que importa: a viagem para o “centro da alma”, onde Deus nos espera (Jo14,23) para se revelar a nós e revelar-nos a nós mesmos. Santos e santas, rogai a Deus por nós!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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13/11/2007

Escuta cristã

 

São milhares de pessoas que já se beneficiaram deste serviço chamado “Escuta Cristã”, existente em algumas paróquias de Campinas, como a Catedral e a Basílica do Carmo. Neste mês, o serviço completou dez anos, devolvendo a alegria e infundindo coragem a pessoas desanimadas ou desesperadas que buscam quem as acolham e ouçam.

A vida na cidade se torna complexa a cada dia. A mudança de época, os muitos problemas de uma metrópole, machucam as pessoas deixando muitas delas desorientadas. De um lado, a pessoa moderna típica da cidade sofre a necessidade de conhecer e controlar tudo para sentir-se segura e livre. De outro lado, a pressa, sobrecarga de trabalho, medo, vão fragilizando os laços entre as pessoas. Ninguém tem tempo, já não há quem possa ouvir-nos! Num clima de tensão destes, muitas vezes agravado pela pobreza ou solidão, as pessoas se desequilibram.

No desejo de encontrar caminhos para ajudar, os organismos de articulação da pastoral da Arquidiocese de Campinas chegaram à conclusão que se tornava necessário implantar um serviço que disponibilizasse pessoas nas igrejas para acolher e ouvir. Assim surgiu esse serviço, levado avante por um grupo significativo de pessoas que se prepararam para exercer este trabalho, que a cada dia se revela mais importante.

A solução para nossos problemas pessoais e comunitários encontra-se, em princípio, não em programas sociais de vários tipos, que são necessários, mas na restauração do equilíbrio interior das pessoas. E isso começa pelo ouvi-las, o que as ajuda a ouvirem-se. Na “Escuta Cristã”, esse ouvir não é um ouvir profissional, mas um ouvir amoroso, gratuito, cheio de empatia e compaixão, valores básicos do cristianismo. Por isso se chama “Escuta Cristã”.

Tanto o judaísmo como o cristianismo são religiões da escuta. “Ouve ó Israel, o Senhor teu Deus vai falar” (Dt 6,4). O convite para ouvir a voz de Deus é freqüente na Bíblia. Também Deus ouve constantemente: “Eu ouvi o clamor do meu povo, conheço seus sofrimentos e desci para liberta-lo” (Ex 3, 7). Nos Evangelhos o mesmo convite: “Este é meu Filho amado: ouvi-o” (Mt 17,5), Jesus é o pastor e as suas ovelhas “ouvem a sua voz”" (Jo 10,3). O convite a ouvir é tão freqüente que S. Paulo escreve que “a fé entra pelos ouvidos” (Rm 10, 17). A fé é ouvir a Deus e a caridade é ouvir os irmãos, pois, “a fé age pela caridade” (Gl 5,6).

Ver e ouvir são manifestamente os meios fundamentais da experiência humana, são os portais pelos quais o mundo penetra em nosso íntimo. São as maneiras pelas quais abrindo-se à realidade aceitamos o encontro com ela. Nossa civilização é mais propensa a ver, contemplar imagens que ouvir ou ler. Parece que somos hoje transformados de pessoas do ouvido e da palavra em pessoas dos olhos e do ver. Surge constantemente muito palavreado vazio e imagens igualmente vazias diante de nós. Por isso, somos convidados hoje a reaprender a ver e principalmente a ouvir.

É Jesus que nos ensina o aprendizado da escuta (Lc 16,29). O rico não ouviu o pobre Lázaro, faminto à porta de sua casa enquanto ele se banqueteava. Isolado e insensível o rico não conseguia ouvir com os ouvidos do amor. São estes os únicos ouvidos que captam o mistério e o sentido de todas as coisas. Parabéns à Escuta Cristã e todos as pessoas envolvidas nesta pastoral que ouve com os ouvidos do amor.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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27/11/2007

Não ao aborto: sim à vida (I)

 

A 13ª Conferência Nacional de Saúde, que reuniu representantes da sociedade civil, profissionais da área e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), rejeitou, no último dia 18, a descriminalização do aborto: 70% dos representantes votaram contra a proposta defendida pelo Ministério da Saúde.

Fica provado mais uma vez que o brasileiro é contra o aborto. Em recente pesquisa divulgada em importantes jornais do País, constatou-se a rejeição do aborto pela população. Dos entrevistados, 87% são de opinião de que fazer aborto é moralmente errado.

O governo Lula, por meio do Ministério da Saúde e de políticos do PT, tem projetos favoráveis à aprovação da descriminalização do aborto. É preciso que fique claro que não é legalização, porque ninguém pode legalizar tal procedimento, dado que o direito à vida é uma cláusula pétrea da Constituição (Art. 5). O aborto é a violação do direito à vida do nascituro. Não vou entrar no emaranhado da ficção jurídica de cunho utilitarista, eivada de eufemismos, feito para negar ou amenizar a violação do direito à vida do nascituro.

As campanhas do governo em favor do aborto, que reduzem a questão somente a um de seus aspectos, qual seja, a saúde, estão de costas para o povo, com a astuta falácia de que defendem o próprio povo, que a uma altura destas precisa ser tutelado. E a democracia? Aliás, não existe democracia sem respeito à dignidade da pessoa humana. A pedra fundamental da dignidade humana é o direito à vida, sua defesa onde se encontra ameaçada. Ameaçada, justo ali onde não há como se defender.

Em um país como o nosso, no qual os ricos gastam dez vezes mais que os pobres, país que coloca sete jovens por hora nas prisões, a maioria desempregados, o favorecimento da prática do aborto, parece mais um subterfúgio, para resolver, passando por um atalho perverso, a má distribuição de renda e a desigualdade social escandalosa na qual vivemos. Por que as soluções para os problemas sociais devem passar sempre pela morte, em geral dos mais fracos, e não pela promoção da vida? Por que não usar a mesma presteza que se usa para aprovar a descriminalização do aborto, para aprovar leis urgentes, que destinem verbas para a educação e distribuam melhor a riqueza?

Poder-se-ia enumerar todo um arrazoado técnico-científico-social a favor do aborto. São opiniões que têm o direito de existir. Porém, não podem negar que o aborto é grave. É matar o feto, que sente alegria, dor e treme diante do bisturi. E diante do Deus da vida, é um crime, um pecado. Pode-se descriminalizar o aborto no papel, nas leis, mas não na consciência porque nem tudo que é legal é justo.

A despenalização material do aborto pela sociedade não elimina nem evita que a voz da consciência continue perguntando como perguntou a Cain: “Onde está teu irmão?”. O discurso deveria ser sobre como diminuir mortes por abortos e não como legalizar uma realidade de morte.

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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11/12/2007

Não ao aborto: sim à vida (II)

 

O Natal nos fala do mistério de uma gravidez inesperada por parte da mãe, Maria, e até certo ponto, indesejada pelo noivo dela, José, que pensou em deixá-la em segredo (Mt 1, 18-24). Sabemos como foi o desfecho do drama, como a criança nasceu. Se tivesse aborto nesta história, não haveria Natal. Mas foi o amor que venceu. Continuo assim minha reflexão sobre o aborto iniciada em meu artigo precedente.

Maria, mulher pobre de Nazaré, assumiu a gravidez, sem entrar na discussão prepotente de ser ou não ser dona do próprio corpo, fazendo dele o que desejar como se faz com mercadoria. Opta pela vida, coloca seu corpo a favor da vida. De sua vida brota outra vida que ela acolhe. Nisso se torna mulher grandiosa, perfeita.

Há valores que não se podem desprezar sob pena de se pagar um preço alto. Não matar é um mandamento ontológico inscrito na consciência de cada membro da humanidade. É sol que ilumina o ser humano de dentro. Não se pode cancelá-lo. Se a vontade do povo, o capricho de alguns, o interesse de poucos constituísse o direito, poderíamos então criar o direito ao roubo, latrocínio etc. Aqui é preciso considerar que a luz de milhões de velas não corresponde à luz de um único sol.

Como é esdrúxula a reclamação de certas mulheres, de que os homens são os principais participantes da discussão sobre o aborto. É muito natural que assim seja, pois eles, se desejam continuar nascendo, dependem das mulheres já que todo homem ao nascer tem sangue de mulher nas veias.

Achar que a disseminação do aborto diminui a violência é outra das teorias vindas dos EUA. Aliás, muito bem aceitas por grupos de cientistas e estudiosos que trabalham a peso de ouro, para instituições internacionais, interessadas em divulgar o aborto como solução. E vem o demógrafo Paul Ehrlich dizendo que a Terra tem gente demais etc. O IBGE já deixou claro que aborto não combate a violência e a demógrafa Susana Covenaghi disse muito bem: “Alguns querem acabar com a pobreza. Outros querem acabar com os pobres.”

Em 30 de outubro de 2005, o Correio Popular publicou uma pesquisa mostrando que o campineiro é contra o aborto. O que isto demonstra? Atraso? A pesquisa auferiu que 77,3% da população de Campinas é contra o aborto. Isto mostra o espírito solidário que sempre permeou a história da cidade. Uma cidade que quase foi extinta pela febre amarela e teve que conviver muito com a morte. Mas Campinas optou pela vida, aprendeu que a solução passa pela vida e não pela morte.

O óvulo fecundado pertence ao gênero humano, tem código genético diferente de seus genitores, por isso a tradição jurídica proclama que o nacituro é pessoa humana e tem direito à vida. Na tradição cristã aurida na Bíblia vemos Isabel que saúda Maria grávida como a “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). Antes de Nascer, Jesus já operava a redenção, já recebia a profissão de fé que fundamenta o cristianismo: Ele é o Senhor! Que Ele nos ilumine neste Natal!
 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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25/12/2007

Menino Jesus

 

É Natal! Por um instante vivemos um momento mágico de ternura e alegria. Mesmo quem não sabe ao certo se Natal é festa de Jesus ou se é festa do Papai Noel, sente-se tocado, o Natal é hoje uma festa universal tocando várias religiões. A noite se iluminou. Ao redor de uma criança o mundo gira em seu eixo agora reencontrado. Tudo que não é bondade perde seu sentido. Emerge das profundezas de um mundo de pecado, a certeza de que há primeiro uma inocência original que pode ser constatada na gruta de Belém.

No presépio José e Maria adoram o menino Jesus. Nele, Deus sai de sua onipotência, entra na fragilidade humana. Deus é amor e o amor sente necessidade de se comunicar. Como é Deus que ama primeiro, Ele se comunica conosco em Jesus, o qual é a imagem do Deus vivo. Esta comunicação se dá na fragilidade de uma criança, para que ninguém tenha medo ou se sinta excluído.

O menino que nasce em Belém traz uma mensagem: tudo tem um sentido! A miséria de nosso mundo visitado por Deus neste menino, tem uma saída. Tudo terminará bem, pois, agora Deus mesmo faz parte da humanidade.

Nas mitologias dos povos antigos, gregos em especial, muitos deuses se tornaram humanos. Quiseram ser tão humanos ao ponto de assumir nossas mazelas e vícios. A fragilidade destes deuses era fraqueza porque regidos pelo “destino”. Aqui é diferente: Jesus, filho de Deus, se faz homem para que nós humanos, sejamos divinizados. Desta forma, ele é em tudo semelhante a nós, menos no pecado. Sua fragilidade não é fraqueza mas humildade porque ele é regido pelo “amor”.

Olhando a imagem do menino Jesus, no presépio tão bonito aqui da Igreja do Carmo, penso nas crianças. Sempre foi difícil ser criança, hoje talvez o seja mais. Não há acolhida para as crianças. Muitos casais comemoram como uma vantagem o fato de não terem filhos. Volta e meia narram-se dramas envolvendo crianças. É o caso recente do menino Bruno, de cinco anos, morto a semana passada aqui em Campinas com marcas de espancamento. É de cortar o coração! Neste ano, o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami) já contabiliza 562 vítimas em nossa cidade.

Para educar a criança é necessário paciência, energia, não maltratar, nada de violência. Mas também, não sufocá-la com um amor que, às vezes, é sentimento de culpa. A correria e o trabalho não permitem a muitos pais dar à criança a atenção que ela tem direito, mas o amor sabe fazer o impossível. Não se deve desanimar diante da tarefa de educar, mas assumir a missão.

Vamos celebrar o Natal, que este celebrar ultrapasse o saber e o refletir para se tornar uma abertura do coração. Abertura ao mistério. Para celebrar, deixemos de lado todo medo para mergulharmos na alegria. É essa, aliás, a mensagem dos anjos: “Não tenham medo, anuncio-vos uma grande alegria: nasceu Jesus salvador!”

No Natal vamos deixar transparecer a criança que cada um carrega no seu interior. Procuremos ser bons e fazer de cada pessoa um próximo e de cada próximo um irmão.

Feliz Natal a todos!

 

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas e Reitor da Basílica do Carmo

 

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