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ARTIGOS
Artigos de
autoria do Pároco Cônego Pedro Carlos Cipolini,
publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP
ABORTO NA BERLINDA
Artigo publicado
em 28/02/2005.
Ao ser
solicitado, para escrever algumas linhas sobre o tema a partir
da obra dos ilustres doutores A. Faúndes e J. Barzelatto (O
drama do Aborto, Komedi, 2004), vieram-me à mente as cenas
trágicas do filme “O crime do padre Amaro”. História dramática
sobre aborto em condições inseguras, drama vivenciado por
milhares de mulheres. Mais que o aborto realizado de forma
clandestina e a morte da enamorada do padre Amaro, cúmplice, o
filme retrata o “aborto” do próprio amor entre duas pessoas que
se amavam perdidamente. Tudo termina em lágrimas, desespero e
por fim, num silêncio arregalado: o silêncio da morte.
Não se trata
aqui do aborto espontâneo, mas do provocado, causado pela
interrupção da gravidez devido à intervenção externa,
intencional. O aborto é fenômeno universal; a partir do século
XX adquiriu tal radicalização que faz de nossa sociedade uma
sociedade abortista. Já não é simples instrumento de eliminação
de uma gravidez indesejada. Sua prática entra hoje no contexto
da liberalização sexual e da libertação da mulher.
É provável
que morra mais “indivíduos” nas práticas abortivas, do que em
guerras ou epidemias. Impressionam as estatísticas apresentadas
no terceiro capítulo da obra em questão. Digo indivíduos, a
partir desta caracterização usada pelos doutores Faúndes e
Barzelatto, para referirem-se ao zigoto após quatorze dias de
gravidez ou doze semanas após a fertilização (p. 50-52). Na
realidade, a permissividade moral, a facilidade técnica da
prática abortiva, a emancipação feminina, a aceitação social,
interesses econômicos e políticos, correntes de pensamento
filosóficas e morais interpretando a vida do ser humano de
variadas formas, estão levando cada vez mais países a
legalizarem a prática do aborto.
Pareceu-me
que a busca de uma solução consensual que alivie o sofrimento é
o objetivo central da obra. Os autores analisam com competência
técnica e serenidade esta questão candente. Pareceu-me serem
favoráveis a um consenso que leve à liberalização do aborto,
embora constatem que “a grande maioria das pessoas acredita que
um mundo sem aborto seria um mundo melhor para todos” (p. 24).
Ao tratar
deste assunto recordei-me de uma pessoa que se projetou em
Campinas pela defesa dos direitos humanos, Cônego Milton
Santana. Padre e jornalista, perseguido pela ditadura militar,
de posições avançadas no âmbito interno da Igreja e muito mais
no campo social. O único livro que escreveu se intitula: “Por
que matar quem tem direito de nascer?” Conversando certa vez
sobre aborto, ele dizia que não se defende a vida pela metade. A
defesa da vida deve ser total, do começo ao fim, defender mais o
mais fraco. Acrescentava: na sociedade, aborto é efeito, deve-se
eliminar suas causas, não o feto.
Os autores
abordam os quatro princípios da bioética (p. 166s) e nove pontos
para orientar um diálogo que busque um consenso sobre a questão
(p. 263ss). São expressão da cultura e humanismo dos autores.
Porém, penso que não se pode esquecer que nossa sociedade, parte
do princípio fundamental do individualismo, o qual reza ser o
homem o autor de sua própria verdade: o indivíduo não somente
pensa a verdade, mas ele mesmo a faz. Cada um faz a sua verdade,
deixando de lado a verdade suprema que é Deus. Sendo assim,
poder-se-ia admitir o aborto por qualquer motivo, mesmo o mais
banal, pois tudo depende da verdade e da vontade de cada um. A
Bíblia nos ensina que esta maneira de agir gera o caos da Torre
de Babel: cada um falando a sua língua e ninguém se entendendo.
Resultado final: impossibilidade de amar, de conviver, dispersão
e violência.
Como teólogo
católico, compartilho da doutrina da Igreja Católica sobre o
aborto, a qual se baseia na doutrina bíblica sobre a vida
humana: a) Todo ser humano tem direito à vida que lhe vem de
Deus e não dos pais ou de qualquer autoridade humana. b) Não
existe pessoa nem autoridade humana com indicação suficiente
para uma disposição deliberada sobre uma vida inocente e
indefesa. Pode se objetar que a Igreja está atrasada e acabará
falando sozinha. Pode ser, quem sabe? Mas, a própria Igreja
começou com uma voz que clamava no deserto: João Batista. E a
Igreja sabe que a luz de milhares de velas não é maior que a luz
de um único sol. Com humildade a Igreja admite que o sol é Jesus
Cristo e que a verdade que ela transmite vem Dele, não é
propriedade sua, pelo que ela não a pode mudar, nem mesmo para
ser mais popular e fazer mais adeptos. A Igreja reconhece a
laicidade do Estado e a respeita, mas tem direito de exprimir
suas convicções e propô-las.
A reflexão
desenvolvida no livro é uma busca válida. Não pode esquecer,
porém, que o ser humano não é o senhor da vida e da morte.
Existe o Deus da vida, aliás, se este Deus não existe, tudo é
permitido, já foi dito. O livro questiona e suscita indagações.
Será que a descriminalização do aborto aliviaria os dramas
psicológicos provenientes de sua prática? Nem tudo o que é legal
pode ser justo no âmago das consciências... Será que
contribuiria para a saúde pública tanto quanto a eliminação da
fome? Não seria pertinente descriminalizar também quem rouba
para comer? A dor da fome é a mais terrível, ela também mata
milhares de pessoas.
Enfim, em
meio à nossa “cultura de morte”, na expressão do papa João Paulo
II, compartilho o pensamento de Marciano Vidal: o mais
importante não é condenar o aborto, mas elevar o nível moral da
humanidade para que o aborto não tenha cabimento no nosso mundo.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
DOM DA ALEGRIA
Artigo publicado
em 19/12/2006.
O tempo bom
do Natal vem chegando. Todos se preparam para as festas de fim
de ano. A cidade iluminada se apronta para tantos encontros,
confraternizações e amigos invisíveis. Mais um Natal, o qual se
transformou na festa de Papai Noel, mas que todos sabem, é a
festa do aniversário de nascimento de Jesus.
Nasceu Jesus.
Os anjos cantam em Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na
terra aos homens por Ele amados”. Jesus veio manifestar a glória
de Deus. A simplicidade na qual o Filho de Deus se mostrou a
nós, é sinal da sabedoria de Deus que poucos compreendem. O
Natal é festa da alegria e na concepção bíblica, alegria é
“satisfação da alma”.
Talvez, com
tanta preocupação de dar e receber presentes, de concentrar a
festa no seu aspecto material, muitos terão bastante
contentamento no Natal, mas pouca ou nenhuma alegria. Mais que
contentamento e satisfação, Jesus vem trazer alegria, na forma
de comunhão fraterna, esperança e amor. Jesus vem trazer-nos uma
alegria que pode livrar do desespero, da loucura.
É preciso
contemplar o presépio. Olhá-lo e meditar sobre o acontecimento.
Vá a uma igreja e olhe bem o presépio. Ele representa algo
importante que Calvino, o reformador de Genebra, qualificou como
theatrum glóriae Dei, o mundo é o palco da glória de
Deus.
Jesus nasceu
em meio ao drama da ocupação romana na Palestina, que acabou em
uma tragédia. O presépio está instalado em meio a este drama de
injustiça e ódio, mas nele só tem paz e alegria. É uma mensagem
a nos dizer que em meio ao desenrolar conturbado da vida é
possível ter alegria, pois, não é a maldade que tem de sair de
nós, somos nós que temos de sair da maldade.
Deus é
glorificado quando estamos alegres. O sentido da vida humana é
esta alegria repleta de gratidão. Esta alegria que nos livra do
“por que e para que”, a fim de vivermos plenamente cada instante
como graça, graça que nos torna livres.
Desejo a você
meu caro leitor, o dom da alegria neste Natal!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
BASÍLICA TOMBADA
A praça Bento
Quirino acaba de ser tombada pelo Condephacc e junto com ela a
Basílica do Carmo. Acontecimento significativo, merece destaque
por vários motivos.
Em primeiro
lugar, a valorização da memória histórica no contexto de uma
realidade que tem uma nova relação com o tempo. Em nossa época o
que vale é o “presente contínuo”, sem futuro e sem passado.
Assim, preservar a memória do passado através da preservação de
seus símbolos faz bem a uma cidade, mostra que ela, ao preservar
suas origens, garante o seu futuro. Árvore cujas raízes se
decompõem acaba por sofrer as conseqüências no seu todo.
Em segundo
lugar a divulgação e a importância que a imprensa dá ao fato
demonstra mudança em relação ao conceito de progresso. Antes,
ele era visto como a derrubada dos símbolos do passado para que
surgisse o novo. Caso exemplar foi o que ocorreu com o Teatro
Municipal. Hoje se percebe, em contexto cultural mais amplo,
que o novo pode e deve conviver com o passado de forma
harmoniosa, para que o futuro tenha realmente futuro.
O espaço
rural no Brasil era regido pelos referenciais católicos que
ofereciam segurança e orientação para o comportamento das
pessoas. Desta forma, uma igreja era geralmente o edifício mais
notado no coração de uma vila ou cidade. Assim, a Matriz do
Carmo e a atual praça Bento Quirino foram no seu passado, a
cellula mater em torno da qual se desenvolveu Campinas nos
seus dois primeiros séculos de existência.
Na cidade
grande diluem-se os referenciais cristãos, a ponto de
desaparecerem em meio às pessoas já desorientadas pela
fragmentação de valores. A parte arquitetônica das cidades
maiores como Campinas termina também por ocultar a visibilidade
das construções das igrejas, sua presença não se distingue entre
os arranha-céus.
Este
tombamento pretende preservar o berço da cidade, seu marco zero
com a igreja que sinalizou sua fundação de forma indelével. A
Basílica do Carmo tem três fases na sua existência cuja cidade
acaba de reconhecer na sua importância histórica. Data de 1772 o
pedido dos moradores do bairro de Campinas do Mato Grosso,
pertencente à paróquia de “Jundiay”, para erigirem uma capela
dedicada à Imaculada Conceição.
A primeira
fase foi iniciada em 14 de julho de 1774, com a primeira missa,
quando da fundação da paróquia e da cidade, em uma matriz
provisória coberta de sapé, onde hoje está o monumento a Carlos
Gomes. Esta matriz provisória funcionou desde a fundação até que
estivesse pronta a matriz definitiva, inaugurada em 25 de julho
de 1781, onde hoje está a atual Basílica. Esta matriz foi o
primeiro templo religioso de Campinas e relicário de suas
tradições mais caras. Nela foi sepultado o fundador da cidade em
abril de 1782, conforme consta no Livro Tombo (L. 1, fls. 16 de
1774-1806) da paróquia, assinado pelo pároco da época
(transcrito in Monografia Histórica de Campinas, 1952, pg. 77).
Esta matriz
foi sede da freguesia (paróquia) de Nossa Senhora da Conceição
durante o período do Brasil colônia e império. Todos os grandes
acontecimentos desta época, em que os poderes civis e religiosos
estavam unidos, se desenvolveram ao redor dela e desta praça.
Nela foram batizados campineiros ilustres como Carlos Gomes e
Campos Sales. A Matriz do Carmo atesta o que ninguém poderá
negar, que Campinas nasceu cristã, com um gesto fundacional que
recorda Jesus Cristo na Palavra e na Eucaristia (missa) e Maria,
a Mãe do Filho de Deus, escolhida como padroeira.
A segunda
fase iniciou-se em 1870, quando a sede da paróquia de Nossa
Senhora da Conceição foi transferida para a Igreja do Rosário
(demolida) e, posteriormente, para a Matriz Nova, hoje a
Catedral. A cidade foi dividida em duas paróquias. Assim a
primeira igreja de Campinas passou a ser denominada Matriz
Velha, sede da paróquia cognominada Santa Cruz e Nossa Senhora
do Carmo.
Nesse período
aí passaram como párocos os dois primeiros bispos de Campinas:
D. Nery e D. Barreto. Na área territorial da paróquia foram
fundadas a Puccamp e a Congregação das Irmãs de Jesus
Crucificado. Em 1922, a Matriz do Carmo foi demolida e durante
dez anos reconstruída como está no seu formato atual, em estilo
neogótico, de inegável beleza e bom gosto.
A terceira
fase iniciou-se em 22 de junho de 1975, quando a Matriz do
Carmo, graças aos esforços de mons. Geraldo Azevêdo, recebeu do
papa Paulo VI o título de Basílica Menor. Na justificativa
apresentada para o requerimento deste importante título,
constaram com destaque o aspecto histórico e o amor do povo a
este templo enraizado na memória coletiva da população de
Campinas. Como Basílica, este templo passou a ter uma ligação
especial com o Santo padre o Papa, distinguindo-se como local
abençoado para se receber as graças de Deus.
É pena que
nem sempre existe sensibilidade por parte de todos para se
valorizar este monumento, que agora tombado se confirma como
patrimônio religioso, cultural e devocional do povo de Campinas.
Indicativo disto são as placas de sinalização de trânsito, que
antes ficavam no meio-fio da calçada e que agora foram colocadas
rentes à parede da Basílica, alegando a necessidade de se deixar
a calçada livre. Imaginem se o monumento a Carlos Gomes, também
tombado junto com a praça e a Basílica, sofresse a mesma
poluição visual e descaracterização!
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
A IGREJA DO NÃO
O referendo
sobre o desarmamento foi realizado. Infelizmente perdeu o Sim, o
comércio de armas continua. A vitória do Não foi um protesto
contra a incompetência do governo em cuidar da segurança da
população? Foi um equívoco, no sentido de repelir a
interferência do Estado no direito pessoal de cada um ter sua
arma? Equívoco porque no século XIX, aqui no Brasil, também se
defendia o direito de cada um ter seu escravo(a), era direito
assegurado por lei. Lei que então os advogados defendiam a favor
dos senhores de escravos, com o argumento mais convincente: sem
escravos a economia se arruína! Hoje também se defende o direito
ao cigarro que mata milhares, todos os anos etc. São poderosos
os argumentos da “cultura da morte”. Mas, enfim, quem venceu foi
o medo. Vivemos sobre o signo do medo, ficou mais patente.
A população
não crê que o Estado possa cumprir a obrigação de defendê-la.
Cada um quer o direito de se defender por si. Desta maneira,
talvez chegaremos ao salve-se quem puder, clássica postura em
clima de guerra. Não há eficácia nas armas e no armamento da
população, para debelar as mortes que ocorrem por armas de fogo.
Armas foram feitas para matar e matam. As 36 mil mortes por
armas de fogo em 2004 no Brasil configuram uma guerra civil
camuflada, em um país que tem um povo em si pacífico.
O debate
suscitado pelo referendo foi bom e o próprio referendo foi uma
conquista da democracia. A vitória do Sim seria um passo avante
no projeto de um mundo de paz, que é o projeto de Deus. Por isso
a Igreja se engajou na campanha pelo Sim. Perdeu? Não. Cumpriu
seu papel profético, indicou o caminho. Seguiu seu Senhor Jesus,
Mestre da Justiça, Príncipe da Paz, rejeitado e preterido pela
multidão. Barrabás, violento e assassino, foi o preferido.
“Bem-aventurados os que promovem a paz”, disse Jesus. De forma
mais lapidar, no momento dramático de sua prisão, mandando Pedro
guardar a espada: “Todos os que usam a espada pela espada
morrerão” (Jo 26, 52). Com esta frase Jesus caracteriza a
maldição divina sobre os que promovem a violência, fazendo uso
dela, desde Caim, o primeiro assassino. Note-se que numa
Palestina dominada pela potência estrangeira do Império Romano,
sacudida pelo ódio e em clima permanente de rebelião e revolta,
a novidade evangélica pregada por Jesus consiste em proclamar a
paz e reconciliação como ideais fundadores do Reinado de Deus.
Ideais supremos da vida: “Glória a Deus nas alturas e paz na
terra aos homens de boa vontade”, anunciam os anjos em Belém.
Este ideal
evangélico parece estar em contradição com a própria lei da
natureza, repleta de competição e rivalidade. A lei da selva
parece tão natural e até mesmo necessária para a evolução da
espécie. Mas o cristão é nova criatura, por isso segue Jesus
Cristo na firmeza permanente que é a não violência ativa. O
cristão não reivindica somente seu bem pessoal, mas o bem comum.
O cristão no seguimento de Cristo está comprometido a amar até o
inimigo. Isto não é loucura, mas é a nova lei do amor, a nova
lei que rege o Reino de Deus, um mundo renovado pela graça. Por
isso a Igreja será sempre a Igreja do não às armas, do não à
violência, do não à morte e do sim à vida.
A Igreja sabe
que a luz de um milhão de velas não é mais nem maior que a luz
de um único sol, no caso o sol da “justiça do Reino” que ela
defende. A Igreja sabe que uma causa justa pode ser derrotada,
mas nem por isso deixa de ser justa. E se agora o comércio de
armas continua legal, a Igreja sabe que nem tudo o que é legal é
justo segundo a lei das consciências e a lei de Deus. Sabe, por
experiência própria também, porque ao longo da história já foi
tentada a usar de violência, pelo que o papa João Paulo II pediu
perdão em um gesto que passou para a história. “Não matarás”,
esta é a lei de Deus inscrita no âmago das consciências. Esta
lei acabará por vencer um dia. O tempo o dirá.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
ECUMENISMO
Artigo publicado
em 07/08/2007.
Em documento
de circulação interna, com aprovação de Bento XVI, a Congregação
para a Doutrina da Fé, organismo da Cúria Romana, a qual
assessora o papa, fez uma declaração considerando a realidade da
Igreja Católica em relação a outras denominações religiosas.
Isto provocou muitos pronunciamentos, sendo alguns irados,
outros irônicos.
Passados os
primeiros momentos se pôde perceber melhor o ocorrido. Sem o
fragor das paixões, há condições de uma compreensão mais
criteriosa dos fatos. Somente uma visão dos acontecimentos
serena, sem preconceitos, pode fazer progresso na sua
compreensão e tirar proveito.
“A Igreja
Católica Apostólica Romana, por sua estreita e ininterrupta
ligação com Jesus Cristo a quem ela prega, conserva e vive em
seus sacramentos e ministérios, e por quem se deixa
continuamente criticar, pode e deve ser considerada como a mais
excelente articulação institucional do cristianismo. Nela se
logrou a mais límpida interpretação do mistério de Deus, do
homem e de sua mútua interpretação. Nela se encontra a
totalidade dos meios de salvação”. É isto que afirma o teólogo
Leonardo Boff em sua obra “Jesus Cristo Libertador” (cf. Ed.
Vozes, Rio,1972, 2. ed. pp 278-279).
Como se pode
ver, as afirmações da declaração não trazem novidade. Ao ler o
que escreve L. Boff, alguém não avisado pode até pensar que seja
um texto da declaração em questão. O mesmo L. Boff prossegue:
“Ela, a Igreja Católica, não esgota a estrutura crística, nem se
identifica pura e simplesmente com o cristianismo. Mas é sua
objetivação e concretização institucional mais perfeita e
acabada, de tal forma que nela já se realiza, em germe, o
próprio reino de Deus. Com isso, porém, não se nega o valor
religioso e salvífico das demais religiões”.
Prossegue,
portanto, a marcha do ecumenismo, o qual procura realizar o
desejo de Jesus Cristo: “que todos sejam um”. Trabalhar pela
união dos cristãos é compromisso de Bento XVI, que o expressou
logo no início de seu pontificado. O ecumenismo se faz com a
conversão, o diálogo, o amor que crê, espera, tem paciência, mas
sobretudo se regozija com a verdade. A Igreja Católica não está
contra, nem se julga maior. Simplesmente não pode renunciar a
realidades básicas de fé que ela não inventou, mas recebeu de
Cristo como consta nos evangelhos, como a Sucessão Apostólica e
a Eucaristia. Assim foi durante mil e quinhentos anos. Antes de
surgirem denominações religiosas modernas. Há que se dialogar!
Muito já se
caminhou e frutos foram dados. Recorde-se o acordo assinado pela
Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial em 1999. Foi uma
declaração conjunta sobre a doutrina da justificação. O teólogo
luterano Walter Altmann, membro do comitê executivo do Conselho
Mundial das Igrejas, ressaltou que não se surpreendeu com a
declaração: “Agora é que o diálogo vai se intensificar. Se temos
diferenças, vamos encará-las”, declarou. Esta é a reação de um
cristão esclarecido e sereno, que compreendeu que o debate sobre
doutrinas tem a idade do cristianismo, e que o propósito da
busca ecumênica é unir a humanidade.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
FÉ E POLÍTICA
Artigo publicado
em 26/09/2006.
A vida de fé
não dispensa o cristão da preocupação e da participação na
política. O Compêndio da doutrina social da Igreja, aprovado por
João Paulo II e publicado no Brasil no ano passado, propõe aos
cristãos católicos o empenho por um humanismo integral e
solidário, no qual a pessoa humana é fundamento e fim da
convivência política. A política verdadeira é o empenho pelo bem
comum e, quando exercida com honestidade e dignidade, é uma
expressão exigente da caridade.
Os bispos
reunidos na célebre conferência de Medellin, no ano de 1968,
reconheciam que “a falta de consciência política em nossos
países torna imprescindível a ação educadora da Igreja, com o
objetivo de que os cristãos considerem sua participação na vida
política da nação como um dever de consciência e como o
exercício da caridade, em seu sentido mais nobre e eficaz para a
vida da comunidade” (M 1,16).
Assim, são
muito bem-vindas as orientações da CNBB sobre o momento político
em que estamos, tendo em vista as próximas eleições. Estas
orientações vieram em forma de cartilha elaborada de modo
simples, com objetividade e profundidade. Na Matriz do Carmo já
foi distribuída em todas as missas do domingo e creio que muitas
comunidades fizeram o mesmo. Não trata de política partidária,
mas da política responsável pelo êxito na busca do bem comum em
forma de justiça e direito para todos.
A omissão na
participação política ajuda a perpetuação de injustiças e da
corrupção. Participando nas atividades da verdadeira política, a
que busca o bem comum, estamos exercendo nossa função política.
A isso todos somos chamados, não só como cidadãos, mas acima de
tudo como cristãos motivados pela fé.
Quando se diz
que a Igreja não deve se meter em política, deve-se entender a
política partidária, e a “politicagem” que é a degeneração da
verdadeira política. Quando Jesus diz que seu Reino não é deste
mundo, Ele quer dizer que seu Reino não se organiza com a
prepotência, sede de poder e corrupção que estão presentes nos
poderes deste mundo. O Reino de Jesus Cristo se fundamenta no
amor-serviço que constrói a “civilização do amor”, a qual avança
pela eternidade, pois só o amor permanecerá.
Movidos por
estes pensamentos, um grupo de cristãos fundou o movimento “Fé e
Política”, em 1989, movimento ecumênico, não confessional e não
partidário, aberto a todas as pessoas que consideram a política
uma dimensão fundamental da vivência de sua fé. Tem o objetivo
de fomentar a reflexão política e a vida espiritual daqueles que
se comprometem com a prática política e social. O último
encontro do movimento foi em março deste ano, em Vitória-ES, com
o tema: “O profetismo no exercício do poder”.
São
iniciativas assim que restituem a dignidade à atividade
política. Dão forças para superar estes momentos vergonhosos,
pelos quais certos políticos nos fazem passar como Nação. Temos
esperança de que a bandeira da ética e da honestidade não foi
abandonada por todos, mas seguirá avante pelas mãos daqueles que
souberem unir a fé à política.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
FUGA NAS DROGAS
Artigo publicado
em 18/07/2007.
O Relatório
Mundial de Drogas – 2006, das Nações Unidas, foi divulgado dia
26 do mês passado, dia internacional de prevenção às drogas.
Consta nele existir no mundo 200 milhões de consumidores de
drogas. Cerca de 110 milhões as consomem com regularidade e 90
milhões são consumidores ocasionais.
Pela primeira
vez em 25 anos, o número de consumidores ficou estável. A idade
das pessoas pesquisadas vai de 15 a 64 anos, embora se saiba que
existem crianças de 10 ou 11 anos metidas no tráfico e já
viciadas, muitas das quais acabam assassinadas. Os usuários de
drogas estão bem abaixo dos fumantes e dos que abusam do álcool,
mas sabemos que tanto o cigarro como o álcool são drogas que
funcionam como portas abertas para as drogas mais pesadas, tais
como maconha e haxixe, as de maior consumo.
Com maior ou
menor rigor, as drogas são combatidas em todo o mundo. Nalguns
países até com pena de morte. Os resultados são pouco
animadores, pois a fiscalização se mostra ineficiente, e a
apreensão não consegue reter mais que 20% da droga que circula.
Existem ainda os interesses poderosos decorrentes da
movimentação financeira proveniente do lucro com o comércio de
drogas. É todo um emaranhado complexo e tétrico.
Todos parecem
concordar que é impossível acabar com as drogas. Para muitos, a
proibição não é o melhor caminho, valendo mais o jogo aberto no
qual é mais fácil perceber quem trafica. Até mesmo o governo
ganharia, pois não teria que gastar com o controle e ganharia
com os impostos. É um debate sem fim!
Porém, o
problema da droga não é um problema de polícia ou um problema
clínico somente. Sem desconsiderar as causas sociais que induzem
à droga, a meu ver, a dependência química é, sobretudo, na sua
origem, um problema antropológico. Finca suas raízes no vazio de
respostas, quando se pergunta pelo sentido da vida. A falta de
um lar, a falta de amor, a insegurança e a fragilidade diante do
desamparo da vida, fazem com que a droga funcione como um
refúgio.
Recordo aqui
o filósofo Heidegger falando do homem como “ser-para-a-morte”.
Somente enfrentando a realidade da própria finitude, assumindo a
vocação para ter consciência de si, de quem se é e qual seu
destino, assumindo a própria realidade com coragem, é que se
pode ser livre. A partir daí é que poderemos nos projetar para
fora de nós mesmos, numa vida com sentido. E acrescento, se
existe fé em Deus, uma vida não só com sentido, mas uma vida em
plenitude. É a fuga das drogas.
Sem este
acerto interior para que no íntimo do coração se ajustem os
ponteiros na descoberta do sentido da vida, o ser humano não
amadurece, continuará tendo medo, continuará precisando fugir e,
infelizmente, continuará precisando de todo tipo de drogas. É a
fuga nas drogas.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
Início
GATOS E LAGARTOS
Artigo publicado
em 02/01/2007.
A Basílica do
Carmo é um local por onde passam centenas de pessoas todos os
dias. Existe ali um serviço de acolhida fraterna muito bom,
levado avante por leigos e leigas preparados. Atendem pessoas
que ali chegam, buscando palavras de conforto, desejando fazer
um desabafo, enfim, querendo ser ouvidas. Como pároco e reitor
da Basílica, também acolho os que ali vão desejando falar com o
padre. O diálogo com o povo é sempre enriquecedor e
gratificante.
Dia desses
conversei com uma senhora de oitenta e três anos, que aparentava
menos. Com postura respeitosa, olhar de quem já viu quase tudo
na vida, fala pausada e uma inteligência perspicaz, ela foi
falando. Vou chamá-la pelo nome fictício de Eufrásia e relatar
um pouco da conversa.
Reverendo,
disse ela, agradeço por me receber. Na minha terra chamam o
padre de reverendo, mas aqui não usa, não sei porque. Aliás, a
educação parece que acabou. Antes a educação era substância,
hoje é enfeite, usa quem quer. Pois é, disse-lhe, os tempos
mudaram, os costumes também. Ela, porém, retrucou que a
violência está demais, porque ninguém mais tem educação, e que a
guerra no mundo começa com a falta de educação: da guerra
pequena se passa pra grande. E o que é a guerra, senão uma
grande falta de educação de todos contra todos? É a vitória do
egoísmo, sentenciou.
Foi dizendo
que veio do Norte em um caminhão e trabalhou quatro décadas,
juntamente com o esposo, para ter sua casa e sua aposentadoria.
Criou um filho, o esposo morreu. E concluiu: a preguiça tomou
conta do mundo, as pessoas não gostam de trabalhar. Fui para
minha terra e voltei decepcionada, não se tem vontade de
trabalhar. Eu lhe disse que às vezes as pessoas estão doentes,
outros não acham emprego. Ela retrucou-me: reverendo, não é
isso, não, é a “bolsa família” que o governo dá, acomodou as
pessoas. Tudo dado de mão beijada. Para os doentes é bom, mas
para os que têm saúde tem que dar é trabalho.
Admirei-me
que dona Eufrásia tivesse estas idéias e lhe perguntei se havia
estudado em algum lugar. Disse que não freqüentou escola, só a
da vida, e que estas idéias lhe vêem de pensar e matutar muito.
Somente agora é que freqüentou o projeto Letra Viva, o qual lhe
facultou ler um pouco. E, alegre, acrescentou que já “pode ler o
nome dos ônibus”. Facilita, porém, não tenho muito lugar para
ir, meus parentes já morreram todos, eu também já estou no fim
da linha, acrescentou.
Perguntei-lhe
se assistia televisão. Dona Eufrásia disse que hoje em dia, sim,
tem tempo, e que a TV é uma coisa maravilhosa, traz muita
novidade. Ultimamente tem desanimado de assistir, porque além da
violência tem muita briga de políticos, corrupção. Segundo ela,
isto é um atraso. Perguntei o que acha dos políticos corruptos.
Dona Eufrásia me respondeu que são pessoas sem piedade, não
crêem em Deus. Acham que nunca serão julgados por Deus e que
podem fazer o que bem entendem. Tudo passa e eles também vão ser
julgados e vão passar. Daqui a algum tempo ninguém lembra deles.
Olha o Getúlio Vargas, foi tão importante e Campinas, deste
tamanho, não tem praça com o nome dele, nem sei se tem uma rua.
Conversamos
sobre religião e outros assuntos de fé. Por fim dona Eufrásia se
despede pedindo a benção. Digo a ela que também me abençoe para
que eu seja, a seu exemplo, lúcido, se chegar à sua idade. Ela
me responde: se Deus quiser, reverendo, o senhor chega, é só não
se iludir com quem tem poder, coisa boa só pode vir é de baixo:
olha o menino Jesus no presépio.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
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HOMENAGEM
Artigo publicado
em 10/10/2006.
Um amigo me
contava que fora homenageado certa vez e que, durante a
homenagem, também se lembraram de dar um ramalhete de flores à
sua mãe. Ela ficou muito feliz, naturalmente. E o amigo dizia
ter sido tal homenagem para ele tão importante, e que o deixara
tão feliz como a que fora feita a ele próprio.
Assim é nossa
vida, muitas vezes o que se faz às pessoas que amamos, é tão ou
mais importante do que aquilo que se faz a nós mesmos.
Homenagear a mãe, no caso, foi uma alegria a mais, proporcionada
a este filho dedicado.
Pensei no que
vai escrito ao desejar convocar a todos para prestar uma grande
homenagem a Jesus Cristo, nosso único Senhor e Salvador, na
celebração eucarística que será realizada dia 12 de outubro, às
17h00, no Estádio Moisés Lucarelli (Ponte Preta). Nesta ocasião,
estaremos também homenageando a Mãe de Jesus, invocada entre nós
com o título de Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida.
E podemos ter
a certeza de que esta homenagem prestada à mãe vai agradar ao
filho. Os Evangelhos apresentam Maria intimamente ligada a seu
filho. Foi discípula perfeita de Jesus, de Belém até o Calvário.
Presença silenciosa, mas repleta da graça e força de Deus: “Eis
aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc
1,38).
A Bíblia nos
apresenta três retratos de Maria. Ela era toda de Deus, ouvia e
meditava, cria e praticava a Palavra de Deus. Ela era também
toda do povo, por opção pessoal, não pensava só em si, mas nos
outros: ajuda Isabel, ajuda no casamento em Caná, está aos pés
da cruz. Ela era mulher de oração como expressa o cântico do
Magnificat (Lc 1,46-55), e a última vez que Maria aparece na
Bíblia é no Cenáculo, rezando com os apóstolos até o dia de
Pentecostes (At 1,14).
Somente quem
já se informou sobre a situação terrível do Brasil em outubro de
1771, quando a pequena imagem foi encontrada no rio Paraíba,
pode avaliar o que isto significou para a religiosidade do povo
brasileiro. Numa realidade de miséria, revolta e escravidão,
apareceu um sinal, esta pequena imagem sorridente, na qual o
povo soube decifrar a bondade que encoraja e ampara.
O primeiro
livro de registro da paróquia de Guaratinguetá iniciado em 1757,
registra às páginas 98v e 99 o achado da imagem, acrescentando:
“Continua a Senhora com seus prodígios, acudindo à sua santa
Casa romeiros de partes muito distantes a gratificar os
benefícios recebidos desta Senhora”. Séculos depois ainda
continua, e o ano que vem a Senhora receberá em “sua Casa” a
visita do Papa Bento XVI.
Peçamos à
Senhora Aparecida que nos dê sua benção: Jesus seu filho. Que
ajude a construir um Brasil mais justo, sem a escravidão da
miséria e do ódio.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
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INVEJA
Artigo publicado
em 24/10/2006.
O diabo veste
Prada é o título do filme que assisti dias atrás. Baseado no
livro de Lauren Weisberger, que já vendeu milhares de
exemplares. O filme é uma parábola sobre a inveja em nossa
sociedade consumista, dominada pelo desejo de status e projeção
social. A protagonista da história é uma jovem bonita e de bem
com a vida, porque livre interiormente, além de competente no
que faz. Para ela vale mais a amizade, o fazer amigos, que o
luxo e a carreira na loja em que trabalha. Sobre ela vão incidir
a inveja das colegas e, por fim, até mesmo da temida dona do
estabelecimento. Ela, no entanto, saberá se libertar de tudo e
de todos na hora certa, o que a tornará invejada em definitivo.
Já foi dito
que se perdoam mais facilmente os pecados dos outros do que seus
êxitos. Pois a inveja é uma paixão, um vício que planta suas
raízes na tristeza experimentada à vista do bem observado nos
outros. Diante do sucesso do outro, o invejoso sente um aperto
no coração, alguma coisa paralisa seus membros e faz despontar a
angústia. Inveja é tristeza que invade o invejoso e o machuca,
ele vê o bem do outro como se fosse um golpe vibrado em sua
pretensa superioridade. A inveja nasce do orgulho, o qual não
pode tolerar rivais ou superiores.
Objeto de
inveja é o sucesso do outro, suas qualidades e muitas vezes
virtudes. É desejo do que não se tem e que o outro possui,
somado ao desejo de ser este outro, ou tomar seu lugar. O
invejoso não tolera que se elogie a pessoa invejada, para ele
tal elogio é uma ofensa. Como ousa ser bom e querido, se eu não
consigo? Em nossa sociedade onde a competição é alta, a inveja
está na moda. O invejoso não se contenta nunca com o que possui
ou recebe.
Os primeiros
cristãos vão recordar a história de José, vendido como escravo
no Egito pelos seus irmãos que tinham inveja dele (At 7,9). José
é figura de Jesus, vítima da inveja no seu último grau que é o
ódio. Vendo o bem invejado aumentar, o invejoso passa a ter ódio
e desejo de eliminar o invejado. Foi o que aconteceu com Cristo:
“De fato, Pilatos bem sabia que eles haviam entregado Jesus por
inveja” (Mt 27,18). A inveja pode provocar ciúme, calúnia,
maledicência e, por fim, o desejo não só de eclipsar, mas de
dominar e até eliminar os rivais. O invejoso, no entanto, não
tem paz, mesmo eliminando a pessoa invejada fica a sua lembrança
e esta incomoda.
Inveja do
latim invidia, olhar com maus olhos, é o popular mau
olhado que todos temem com certa razão. Santo Agostinho via na
inveja o pecado diabólico por excelência “pois foi pela inveja
do diabo que a morte entrou no mundo”. Deus criou o mundo e viu
que tudo era bom. A serpente maligna, invejosa do amor de Deus
por Adão e Eva, procurou um meio de induzir o homem a estragar
tudo. Assim, a inveja que odeia é coroada com a vingança. O
problema do invejoso, porém, é que mesmo se vingando não está
satisfeito, pois “a inveja apodrece os ossos do invejoso”, vai
sentenciar a Bíblia (cf. Pr 14,30).
Uma das
melhores maneiras de glorificar a Deus é fugir da inveja e
aprender a se alegrar com o mérito dos outros, que são dons de
Deus. Quem não tem inveja é livre e vive bem, mesmo padecendo a
inveja dos que invejam quem não tem inveja.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
Doutor em
Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular
da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo
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JESUS CRISTO,
AINDA HOJE
Artigo publicado
em 17/10/2003.
Nos últimos
séculos, passamos por várias “idades” segundo alguns estudiosos.
Primeiro foi a idade da religião, depois a da filosofia que
suplantou aquela e, em seguida, a da ciência e da técnica. São
as teorias e leis científicas que hoje dizem a verdade. A
filosofia e a religião são desacreditadas. O problema da técnica
aliada à economia não é produção, mas capacidade de consumo. A
ciência avançou de modo fantástico, porém, desconfia-se que
existem outros meios de conhecimento ao lado da ciência
(inteligência emocional). A ciência permite efeitos cada vez
maiores, mas cada vez mais fica muda sobre o sentido da
realidade. O homem não se satisfaz com suas conquistas, com a
obtenção de mais e mais poder. A divisão do mundo em incluídos e
excluídos obnubila as mentes.
Em meio a
esta situação, Jesus Cristo parece ser aos olhos do homem de
hoje alguém distante, lá da idade da religião. Está muito longe,
no passado remoto. Talvez muitos, mais jovens, já não saberiam
dizer quem foi Jesus Cristo. No entanto, a Igreja o celebra, e
nestes dias, revive o mistério que envolve seu sofrimento, morte
e ressurreicão. A Igreja foi o fato concreto surgido após a
morte de Jesus e através dela o Evangelho se propagou. Mas o
que pode significar para o homem de hoje a mensagem evangélica
da pregação de Jesus: “Convertei-vos, e crede na boa notícia: o
reinado de Deus está próximo” (Mc 1,15)? Qual o significado
sobretudo de seu sofrimento e morte?
Pode
significar muito, porque em Jesus o homem pode intuir e perceber
o sentido da existência. Jesus Cristo revela o ser humano a ele
mesmo, basta dar-lhe uma chance, tomar conhecimento de sua
mensagem, debruçar-se um pouco sobre os acontecimentos que
celebramos nesta semana santa, para perceber que seu significado
vai além de qualquer história já ouvida.
Em sua obra
clássica, O poder do Mito, Joseph Campbell, respondendo à
pergunta se acreditava que aquele que perde sua vida ganha a
vida, como Jesus ensinou, diz: “Acredito, desde que se perca a
vida em nome de algo”. E mais adiante continua: “Desde que há
tempo, há sofrimento. Perda, morte, nascimento, perda, morte – e
assim por diante. Ao contemplar a cruz, você está contemplando
um símbolo do mistério da vida”. A cruz é símbolo de uma vida
entregue para que todos tenham vida e vida em abundância, ou
seja: liberdade.
Jesus tem
tudo a dizer para o homem de hoje que busca a liberdade acima de
tudo, desde o lazer até as drogas sem, no entanto, descobrir o
que é realmente liberdade. A liberdade e a busca da liberdade
ultrapassam nossa vida puramente biológica, para nos fazerem
avançar na transcendência e na eternidade. A pessoa é aquilo que
no ser humano transcende a morte, depois da morte algo de nosso
subsiste e que não é sujeito à morte.
Jesus
crucificado, que entrega sua vida num gesto de profunda
solidariedade e serviço, desperta em nós a compaixão, o amor. O
outro nos questiona e, especialmente o outro que sofre. O pobre,
o fraco, o pecador, nos questionam e desafiam. Se você se fechar
em seu egoísmo, no seu individualismo, permanecerá estéril,
escravo de si mesmo. Mas se você se abrir ao diálogo e ao
encontro com o outro, você vai sofrer, mas vai se redimir e
despertar para o amor. E, em última análise, é o amor que salva,
o amor como entrega, oblação e serviço. E aí se encontra o
sentido da vida que é ser livre no encontro com o outro. Mesmo
porque sozinho não existe liberdade, mas fuga na solidão que não
realiza ninguém.
O sofrimento
de Cristo na cruz não pode ser visto como castigo de Deus. Lido
na perspectiva libertadora, o sofrimento pode ser caminho de
vida, como o grão que cai na terra e morre para gerar a espiga.
Deus tem a força de transformar o sofrimento em alegria. A cruz
de Jesus representa a fidelidade de Jesus ao plano de Deus que é
a fraternidade universal, a civilização do amor. A morte de
Jesus foi por solidariedade com os fracos e miseráveis deste
mundo. Assim, Jesus mostra que Deus é bondade e misericórdia,
compaixão e acolhimento. E se Deus é assim, abre-se uma
esperança infinita para a humanidade.
A
ressurreicão de Jesus é a alegria luminosa de viver na
esperança. A morte foi vencida pela vida. A morte não tem a
última palavra. A vitória final é da vida. Em meio a uma geração
como a nossa que parece cultuar as estruturas de morte, não
obstante desenvolver meios incríveis de se promover a vida,
tanto na medicina como na biologia, a humanidade precisa de
alguém que lhe assegure que a vida é mais forte que a morte, que
vida quer dizer liberdade e amor. E Jesus faz isto em um grau
supremo, como somente um Deus pode fazê-lo. E como dizia muito
bem D. Bonhoffer: somente um Deus que sofre serve para o homem.
Portanto, Jesus Cristo ainda hoje, sempre e sempre atual.
Cônego Pedro
Carlos Cipolini
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