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ARTIGOS

 

Artigos de autoria do Pároco Cônego Pedro Carlos Cipolini,

publicados no Jornal "Correio Popular", de Campinas-SP

 

 

ABORTO NA BERLINDA

Artigo publicado em 28/02/2005.

 

Ao ser solicitado, para escrever algumas linhas sobre o tema a partir da obra dos ilustres doutores A. Faúndes e J. Barzelatto (O drama do Aborto, Komedi, 2004), vieram-me à mente as cenas trágicas do filme “O crime do padre Amaro”. História dramática sobre aborto em condições inseguras, drama vivenciado por milhares de mulheres. Mais que o aborto realizado de forma clandestina e a morte da enamorada do padre Amaro, cúmplice, o filme retrata o “aborto” do próprio amor entre duas pessoas que se amavam perdidamente. Tudo termina em lágrimas, desespero e por fim, num silêncio arregalado: o silêncio da morte.

 

Não se trata aqui do aborto espontâneo, mas do provocado, causado pela interrupção da gravidez devido à intervenção externa, intencional. O aborto é fenômeno universal; a partir do século XX adquiriu tal radicalização que faz de nossa sociedade uma sociedade abortista. Já não é simples instrumento de eliminação de uma gravidez indesejada. Sua prática entra hoje no contexto da liberalização sexual e da libertação da mulher.

 

É provável que morra mais “indivíduos” nas práticas abortivas, do que em guerras ou epidemias. Impressionam as estatísticas apresentadas no terceiro capítulo da obra em questão. Digo indivíduos, a partir desta caracterização usada pelos doutores Faúndes e Barzelatto, para referirem-se ao zigoto após quatorze dias de gravidez ou doze semanas após a fertilização (p. 50-52). Na realidade, a permissividade moral, a facilidade técnica da prática abortiva, a emancipação feminina, a aceitação social, interesses econômicos e políticos, correntes de pensamento filosóficas e morais interpretando a vida do ser humano de variadas formas, estão levando cada vez mais países a legalizarem a prática do aborto.

 

Pareceu-me que a busca de uma solução consensual que alivie o sofrimento é o objetivo central da obra. Os autores analisam com competência técnica e serenidade esta questão candente. Pareceu-me serem favoráveis a um consenso que leve à liberalização do aborto, embora constatem que “a grande maioria das pessoas acredita que um mundo sem aborto seria um mundo melhor para todos” (p. 24).

 

Ao tratar deste assunto recordei-me de uma pessoa que se projetou em Campinas pela defesa dos direitos humanos, Cônego Milton Santana. Padre e jornalista, perseguido pela ditadura militar, de posições avançadas no âmbito interno da Igreja e muito mais no campo social. O único livro que escreveu se intitula: “Por que matar quem tem direito de nascer?” Conversando certa vez sobre aborto, ele dizia que não se defende a vida pela metade. A defesa da vida deve ser total, do começo ao fim, defender mais o mais fraco. Acrescentava: na sociedade, aborto é efeito, deve-se eliminar suas causas, não o feto.

 

Os autores abordam os quatro princípios da bioética (p. 166s) e nove pontos para orientar um diálogo que busque um consenso sobre a questão (p. 263ss). São expressão da cultura e humanismo dos autores. Porém, penso que não se pode esquecer que nossa sociedade, parte do princípio fundamental do individualismo, o qual reza ser o homem o autor de sua própria verdade: o indivíduo não somente pensa a verdade, mas ele mesmo a faz. Cada um faz a sua verdade, deixando de lado a verdade suprema que é Deus. Sendo assim, poder-se-ia admitir o aborto por qualquer motivo, mesmo o mais banal, pois tudo depende da verdade e da vontade de cada um. A Bíblia nos ensina que esta maneira de agir gera o caos da Torre de Babel: cada um falando a sua língua e ninguém se entendendo. Resultado final: impossibilidade de amar, de conviver, dispersão e violência.

 

Como teólogo católico, compartilho da doutrina da Igreja Católica sobre o aborto, a qual se baseia na doutrina bíblica sobre a vida humana: a) Todo ser humano tem direito à vida que lhe vem de Deus e não dos pais ou de qualquer autoridade humana. b) Não existe pessoa nem autoridade humana com indicação suficiente para uma disposição deliberada sobre uma vida inocente e indefesa. Pode se objetar que a Igreja está atrasada e acabará falando sozinha. Pode ser, quem sabe? Mas, a própria Igreja começou com uma voz que clamava no deserto: João Batista. E a Igreja sabe que a luz de milhares de velas não é maior que a luz de um único sol. Com humildade a Igreja admite que o sol é Jesus Cristo e que a verdade que ela transmite vem Dele, não é propriedade sua, pelo que ela não a pode mudar, nem mesmo para ser mais popular e fazer mais adeptos. A Igreja reconhece a laicidade do Estado e a respeita, mas tem direito de exprimir suas convicções e propô-las.

 

A reflexão desenvolvida no livro é uma busca válida. Não pode esquecer, porém, que o ser humano não é o senhor da vida e da morte. Existe o Deus da vida, aliás, se este Deus não existe, tudo é permitido, já foi dito. O livro questiona e suscita indagações. Será que a descriminalização do aborto aliviaria os dramas psicológicos provenientes de sua prática? Nem tudo o que é legal pode ser justo no âmago das consciências... Será que contribuiria para a saúde pública tanto quanto a eliminação da fome? Não seria pertinente descriminalizar também quem rouba para comer? A dor da fome é a mais terrível, ela também mata milhares de pessoas.

 

Enfim, em meio à nossa “cultura de morte”, na expressão do papa João Paulo II, compartilho o pensamento de Marciano Vidal: o mais importante não é condenar o aborto, mas elevar o nível moral da humanidade para que o aborto não tenha cabimento no nosso mundo.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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DOM  DA ALEGRIA

Artigo publicado em 19/12/2006.

 

O tempo bom do Natal vem chegando. Todos se preparam para as festas de fim de ano. A cidade iluminada se apronta para tantos encontros, confraternizações e amigos invisíveis. Mais um Natal, o qual se transformou na festa de Papai Noel, mas que todos sabem, é a festa do aniversário de nascimento de Jesus.

 

Nasceu Jesus. Os anjos cantam em Belém: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”. Jesus veio manifestar a glória de Deus. A simplicidade na qual o Filho de Deus se mostrou a nós, é sinal da sabedoria de Deus que poucos compreendem. O Natal é festa da alegria e na concepção bíblica, alegria é “satisfação da alma”.

 

Talvez, com tanta preocupação de dar e receber presentes, de concentrar a festa no seu aspecto material, muitos terão bastante contentamento no Natal, mas pouca ou nenhuma alegria. Mais que contentamento e satisfação, Jesus vem trazer alegria, na forma de comunhão fraterna, esperança e amor. Jesus vem trazer-nos uma alegria que pode livrar do desespero, da loucura.

 

É preciso contemplar o presépio. Olhá-lo e meditar sobre o acontecimento. Vá a uma igreja e olhe bem o presépio. Ele representa algo importante que Calvino, o reformador de Genebra, qualificou como theatrum glóriae Dei, o mundo é o palco da glória de Deus.

 

Jesus nasceu em meio ao drama da ocupação romana na Palestina, que acabou em uma tragédia. O presépio está instalado em meio a este drama de injustiça e ódio, mas nele só tem paz e alegria. É uma mensagem a nos dizer que em meio ao desenrolar conturbado da vida é possível ter alegria, pois, não é a maldade que tem de sair de nós, somos nós que temos de sair da maldade.

 

Deus é glorificado quando estamos alegres. O sentido da vida humana é esta alegria repleta de gratidão. Esta alegria que nos livra do “por que e para que”, a fim de vivermos plenamente cada instante como graça, graça que nos torna livres.

Desejo a você meu caro leitor, o dom da alegria neste Natal!

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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BASÍLICA  TOMBADA

 

A praça Bento Quirino acaba de ser tombada pelo Condephacc e junto com ela a Basílica do Carmo. Acontecimento  significativo, merece destaque por vários motivos.

Em primeiro lugar, a valorização da memória histórica no contexto de uma realidade que tem uma nova relação com o tempo. Em nossa época o que vale é o “presente contínuo”, sem futuro e sem passado. Assim, preservar a memória do passado através da preservação de seus símbolos faz bem a uma cidade, mostra que ela, ao preservar suas origens, garante o seu futuro. Árvore cujas raízes se decompõem acaba por sofrer as conseqüências no seu todo.

 

Em segundo lugar a divulgação e a importância que a imprensa dá ao fato demonstra mudança em relação ao conceito de progresso. Antes, ele era visto como a derrubada dos símbolos do passado para que surgisse o novo. Caso exemplar foi o que ocorreu com o Teatro Municipal. Hoje se percebe, em  contexto cultural mais amplo, que o novo pode e deve conviver com o passado de forma harmoniosa, para que o futuro tenha realmente futuro.

 

O espaço rural no Brasil era regido pelos referenciais católicos que ofereciam segurança e orientação para o comportamento das pessoas. Desta forma, uma igreja era geralmente o edifício mais notado no coração de uma vila ou cidade. Assim, a Matriz do Carmo e a atual praça Bento Quirino foram no seu passado, a cellula mater  em torno da qual se desenvolveu Campinas nos seus dois primeiros séculos de existência.

 

Na cidade grande diluem-se os referenciais cristãos, a ponto de desaparecerem em meio às pessoas já desorientadas pela fragmentação de valores. A parte arquitetônica das cidades maiores como Campinas termina também por ocultar a visibilidade das construções das igrejas, sua presença não se distingue entre os arranha-céus.

 

Este tombamento pretende preservar o berço da cidade, seu marco zero com a igreja que sinalizou sua fundação de forma indelével. A Basílica do Carmo tem três fases na sua existência cuja cidade acaba de reconhecer na sua importância histórica. Data de 1772 o pedido dos moradores do bairro de Campinas do Mato Grosso, pertencente à paróquia de “Jundiay”, para erigirem uma capela dedicada à Imaculada Conceição.

 

A primeira fase foi iniciada em 14 de julho de 1774, com a primeira missa, quando da fundação da paróquia e da cidade, em uma matriz provisória coberta de sapé, onde hoje está o monumento a Carlos Gomes. Esta matriz provisória funcionou desde a fundação até que estivesse pronta a matriz definitiva, inaugurada em 25 de julho de 1781, onde hoje está a atual Basílica. Esta matriz foi o primeiro templo religioso de Campinas e relicário de suas tradições mais caras. Nela foi sepultado o fundador da cidade em abril de 1782, conforme consta no Livro Tombo (L. 1, fls. 16 de 1774-1806) da paróquia, assinado pelo pároco da época (transcrito in Monografia Histórica de Campinas, 1952, pg. 77).

 

Esta matriz foi sede da freguesia (paróquia) de Nossa Senhora da Conceição durante o período do Brasil colônia e império. Todos os grandes acontecimentos desta época, em que os poderes civis e religiosos estavam unidos, se desenvolveram ao redor dela e desta praça. Nela foram batizados campineiros ilustres como Carlos Gomes e Campos Sales. A Matriz do Carmo atesta o que ninguém poderá negar, que Campinas nasceu cristã, com um gesto fundacional que recorda Jesus Cristo na Palavra e na Eucaristia (missa) e Maria, a  Mãe do Filho de Deus, escolhida como padroeira.

 

A segunda fase iniciou-se em 1870, quando a sede da paróquia de Nossa Senhora da Conceição foi transferida para a Igreja do Rosário (demolida) e, posteriormente, para a Matriz Nova, hoje a Catedral. A cidade foi dividida em duas paróquias. Assim a primeira igreja de Campinas passou a ser denominada Matriz Velha, sede da paróquia cognominada Santa Cruz e Nossa Senhora do Carmo.

 

Nesse período aí passaram como párocos os dois primeiros bispos de Campinas: D. Nery e D. Barreto. Na área territorial da paróquia foram fundadas a Puccamp e a Congregação das Irmãs de Jesus Crucificado. Em 1922, a Matriz do Carmo foi demolida e durante dez anos reconstruída como está no seu formato atual, em estilo neogótico, de inegável beleza e bom gosto.

 

A terceira fase iniciou-se em 22 de junho de 1975, quando a Matriz do Carmo, graças aos esforços de mons. Geraldo Azevêdo, recebeu do papa Paulo VI o título de Basílica Menor. Na justificativa apresentada para o requerimento deste importante título, constaram com destaque o aspecto histórico e o amor do povo a este templo enraizado na memória coletiva da população de Campinas. Como Basílica, este templo passou a ter uma ligação especial com o Santo padre o Papa, distinguindo-se como local abençoado para se receber as graças de Deus.

 

É pena que nem sempre existe sensibilidade por parte de todos para se valorizar este monumento, que agora tombado se confirma como patrimônio religioso, cultural e devocional do povo de Campinas. Indicativo disto são as placas de sinalização de trânsito, que antes ficavam no meio-fio da calçada e que agora foram colocadas rentes à parede da Basílica, alegando a necessidade de se deixar a calçada livre. Imaginem se o monumento a Carlos Gomes, também tombado junto com a praça e a Basílica, sofresse a mesma poluição visual e descaracterização!

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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A IGREJA DO NÃO

 

O referendo sobre o desarmamento foi realizado. Infelizmente perdeu o Sim, o comércio de armas continua. A vitória do Não foi um protesto contra a incompetência do governo em cuidar da segurança da população? Foi um equívoco, no sentido de repelir a interferência do Estado no direito pessoal de cada um ter sua arma? Equívoco porque no século XIX, aqui no Brasil, também se defendia o direito de cada um ter seu escravo(a), era direito assegurado por lei. Lei que então os advogados defendiam a favor dos senhores de escravos, com o argumento mais convincente: sem escravos a economia se arruína! Hoje também se defende o direito ao cigarro que mata milhares, todos os anos etc. São poderosos os argumentos da “cultura da morte”. Mas, enfim, quem venceu foi o medo. Vivemos sobre o signo do medo, ficou mais patente.

 

A população não crê que o Estado possa cumprir a obrigação de defendê-la. Cada um quer o direito de se defender por si. Desta maneira, talvez chegaremos ao salve-se quem puder, clássica postura em clima de guerra. Não há eficácia nas armas e no armamento da população, para debelar as mortes que ocorrem por armas de fogo. Armas foram feitas para matar e matam. As 36 mil mortes por armas de fogo em 2004 no Brasil configuram uma guerra civil camuflada, em um país que tem um povo em si pacífico.

 

O debate suscitado pelo referendo foi bom e o próprio referendo foi uma conquista da democracia. A vitória do Sim seria um passo avante no projeto de um mundo de paz, que é o projeto de Deus. Por isso a Igreja se engajou na campanha pelo Sim. Perdeu? Não. Cumpriu seu papel profético, indicou o caminho. Seguiu seu Senhor Jesus, Mestre da Justiça, Príncipe da Paz, rejeitado e preterido pela multidão. Barrabás, violento e assassino, foi o preferido.

 

“Bem-aventurados os que promovem a paz”, disse Jesus. De forma mais lapidar, no momento dramático de sua prisão, mandando Pedro guardar a espada: “Todos os que usam a espada pela espada morrerão” (Jo 26, 52). Com esta frase Jesus caracteriza a maldição divina sobre os que promovem a violência, fazendo uso dela, desde Caim, o primeiro assassino. Note-se que numa Palestina dominada pela potência estrangeira do Império Romano, sacudida pelo ódio e em clima permanente de rebelião e revolta, a novidade evangélica pregada por Jesus consiste em proclamar a paz e reconciliação como ideais fundadores do Reinado de Deus. Ideais supremos da vida: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”, anunciam os anjos em Belém.

 

Este ideal evangélico parece estar em contradição com a própria lei da natureza, repleta de competição e rivalidade. A lei da selva parece tão natural e até mesmo necessária para a evolução da espécie. Mas o cristão é nova criatura, por isso segue Jesus Cristo na firmeza permanente que é a não violência ativa. O cristão não reivindica somente seu bem pessoal, mas o bem comum. O cristão no seguimento de Cristo está comprometido a amar até o inimigo. Isto não é loucura, mas é a nova lei do amor, a nova lei que rege o Reino de Deus, um mundo renovado pela graça. Por isso a Igreja será sempre a Igreja do não às armas, do não à violência, do não à morte e do sim à vida.

 

A Igreja sabe que a luz de um milhão de velas não é mais nem maior que a luz de um único sol, no caso o sol da “justiça do Reino” que ela defende. A Igreja sabe que uma causa justa pode ser derrotada, mas nem por isso deixa de ser justa. E se agora o comércio de armas continua legal, a Igreja sabe que nem tudo o que é legal é justo segundo a lei das consciências e a lei de Deus. Sabe, por experiência própria também, porque ao longo da história já foi tentada a usar de violência, pelo que o papa João Paulo II pediu perdão em um gesto que passou para a história. “Não matarás”, esta é a lei de Deus inscrita no âmago das consciências. Esta lei acabará por vencer um dia. O tempo o dirá.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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ECUMENISMO

Artigo publicado em 07/08/2007.

 

Em documento de circulação interna, com aprovação de Bento XVI, a Congregação para a Doutrina da Fé, organismo da Cúria Romana, a qual assessora o papa, fez uma declaração considerando a realidade da Igreja Católica em relação a outras denominações religiosas. Isto provocou muitos pronunciamentos, sendo alguns irados, outros irônicos.

 

Passados os primeiros momentos se pôde perceber melhor o ocorrido. Sem o fragor das paixões, há condições de uma compreensão mais criteriosa dos fatos. Somente uma visão dos acontecimentos serena, sem preconceitos, pode fazer progresso na sua compreensão e tirar proveito.

 

“A Igreja Católica Apostólica Romana, por sua estreita e ininterrupta ligação com Jesus Cristo a quem ela prega, conserva e vive em seus sacramentos e ministérios, e por quem se deixa continuamente criticar, pode e deve ser considerada como a mais excelente articulação institucional do cristianismo. Nela se logrou a mais límpida interpretação do mistério de Deus, do homem e de sua mútua interpretação. Nela se encontra a totalidade dos meios de salvação”. É isto que afirma o teólogo Leonardo Boff em sua obra “Jesus Cristo Libertador” (cf. Ed. Vozes, Rio,1972, 2. ed. pp 278-279).

 

Como se pode ver, as afirmações da declaração não trazem novidade. Ao ler o que escreve L. Boff, alguém não avisado pode até pensar que seja um texto da declaração em questão. O mesmo L. Boff prossegue: “Ela, a Igreja Católica, não esgota a estrutura crística, nem se identifica pura e simplesmente com o cristianismo. Mas é sua objetivação e concretização institucional mais perfeita e acabada, de tal forma que nela já se realiza, em germe, o próprio reino de Deus. Com isso, porém, não se nega o valor religioso e salvífico das demais religiões”.

 

Prossegue, portanto, a marcha do ecumenismo, o qual procura realizar o desejo de Jesus Cristo: “que todos sejam um”. Trabalhar pela união dos cristãos é compromisso de Bento XVI, que o expressou logo no início de seu pontificado. O ecumenismo se faz com a conversão, o diálogo, o amor que crê, espera, tem paciência, mas sobretudo se regozija com a verdade. A Igreja Católica não está contra, nem se julga maior. Simplesmente não pode renunciar a realidades básicas de fé que ela não inventou, mas recebeu de Cristo como consta nos evangelhos, como a Sucessão Apostólica e a Eucaristia.  Assim foi durante mil e quinhentos anos. Antes de surgirem denominações religiosas modernas. Há que se dialogar!

 

Muito já se caminhou e frutos foram dados. Recorde-se o acordo assinado pela Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial em 1999. Foi uma declaração conjunta sobre a doutrina da justificação. O teólogo luterano Walter Altmann, membro do comitê executivo do Conselho Mundial das Igrejas, ressaltou que não se surpreendeu com a declaração: “Agora é que o diálogo vai se intensificar. Se temos diferenças, vamos encará-las”, declarou. Esta é a reação de um cristão esclarecido e sereno, que compreendeu que o debate sobre doutrinas tem a idade do cristianismo, e que o propósito da busca ecumênica é unir a humanidade.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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FÉ  E  POLÍTICA

Artigo publicado em 26/09/2006.

 

A vida de fé não dispensa o cristão da preocupação e da participação na política. O Compêndio da doutrina social da Igreja, aprovado por João Paulo II e publicado no Brasil no ano passado, propõe aos cristãos católicos o empenho por um humanismo integral e solidário, no qual a pessoa humana é fundamento e fim da convivência política. A política verdadeira é o empenho pelo bem comum e, quando exercida com honestidade e dignidade, é uma expressão exigente da caridade.

 

Os bispos reunidos na célebre conferência de Medellin, no ano de 1968, reconheciam que “a falta de consciência política em nossos países torna imprescindível a ação educadora da Igreja, com o objetivo de que os cristãos considerem sua participação na vida política da nação como um dever de consciência e como o exercício da caridade, em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da comunidade” (M 1,16).

 

Assim, são muito bem-vindas as orientações da CNBB sobre o momento político em que estamos, tendo em vista as próximas eleições. Estas orientações vieram em forma de cartilha elaborada de modo simples, com objetividade e profundidade. Na Matriz do Carmo já foi distribuída em todas as missas do domingo e creio que muitas comunidades fizeram o mesmo. Não trata de política partidária, mas da política responsável pelo êxito na busca do bem comum em forma de justiça e direito para todos.

 

A omissão na participação política ajuda a perpetuação de injustiças e da corrupção. Participando nas atividades da verdadeira política, a que busca o bem comum, estamos exercendo nossa função política.  A isso todos somos chamados, não só como cidadãos, mas acima de tudo como cristãos motivados pela fé.

 

Quando se diz que a Igreja não deve se meter em política, deve-se entender a política partidária, e a “politicagem” que é a degeneração da verdadeira política.  Quando Jesus diz que seu Reino não é deste mundo, Ele quer dizer que seu Reino não se organiza com a prepotência, sede de poder e corrupção que estão presentes nos poderes deste mundo. O Reino de Jesus Cristo se fundamenta no amor-serviço que constrói a “civilização do amor”, a qual avança pela eternidade, pois só o amor permanecerá.

 

Movidos por estes pensamentos, um grupo de cristãos fundou o movimento “Fé e Política”, em 1989, movimento ecumênico, não confessional e não partidário, aberto a todas as pessoas que consideram a política uma dimensão fundamental da vivência de sua fé. Tem o objetivo de fomentar a reflexão política e a vida espiritual daqueles que se comprometem com a prática política e social. O último encontro do movimento foi em março deste ano, em Vitória-ES, com o tema: “O profetismo no exercício do poder”.

 

São iniciativas assim que restituem a dignidade à atividade política. Dão forças para superar  estes momentos vergonhosos,  pelos quais  certos políticos nos fazem passar como Nação. Temos esperança de que a bandeira da ética e da honestidade não foi abandonada por todos, mas seguirá avante pelas mãos daqueles que souberem unir a fé à política.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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FUGA NAS DROGAS

Artigo publicado em 18/07/2007.

 

O Relatório Mundial de Drogas – 2006, das Nações Unidas, foi divulgado dia 26 do mês passado, dia internacional de prevenção às drogas. Consta nele existir no mundo 200 milhões de consumidores de drogas. Cerca de 110 milhões as consomem com regularidade e 90 milhões são consumidores ocasionais.

 

Pela primeira vez em 25 anos, o número de consumidores ficou estável. A idade das pessoas pesquisadas vai de 15 a 64 anos, embora se saiba que existem crianças de 10 ou 11 anos metidas no tráfico e já viciadas, muitas das quais acabam assassinadas. Os usuários de drogas estão bem abaixo dos fumantes e dos que abusam do álcool, mas sabemos que tanto o cigarro como o álcool são drogas que funcionam como portas abertas para as drogas mais pesadas, tais como maconha e haxixe, as de maior consumo.

 

Com maior ou menor rigor, as drogas são combatidas em todo o mundo. Nalguns países até com pena de morte. Os resultados são pouco animadores, pois a fiscalização se mostra ineficiente, e a apreensão não consegue reter mais que 20% da droga que circula. Existem ainda os interesses poderosos decorrentes da movimentação financeira proveniente do lucro com o comércio de drogas. É todo um emaranhado complexo e tétrico.

 

Todos parecem concordar que é impossível acabar com as drogas. Para muitos, a proibição não é o melhor caminho, valendo mais o jogo aberto no qual é mais fácil perceber quem trafica. Até mesmo o governo ganharia, pois não teria que gastar com o controle e ganharia com os impostos. É um debate sem fim!

 

Porém, o problema da droga não é um problema de polícia ou um problema clínico somente. Sem desconsiderar as causas sociais que induzem à droga, a meu ver, a dependência química é, sobretudo, na sua origem, um problema antropológico. Finca suas raízes no vazio de respostas, quando se pergunta pelo sentido da vida. A falta de um lar, a falta de amor, a insegurança e a fragilidade diante do desamparo da vida, fazem com que a droga funcione como um refúgio.

 

Recordo aqui o filósofo Heidegger falando do homem como “ser-para-a-morte”. Somente enfrentando a realidade da própria finitude, assumindo a vocação para ter consciência de si, de quem se é e qual seu destino, assumindo a própria realidade com coragem, é que se pode ser livre. A partir daí é que poderemos nos projetar para fora de nós mesmos, numa vida com sentido. E acrescento, se existe fé em Deus, uma vida não só com sentido, mas uma vida em plenitude. É a fuga das drogas.

 

Sem este acerto interior para que no íntimo do coração se ajustem os ponteiros na descoberta do sentido da vida, o ser humano não amadurece, continuará tendo medo, continuará precisando fugir e, infelizmente, continuará precisando de todo tipo de drogas. É a fuga nas drogas.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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GATOS E LAGARTOS

Artigo publicado em 02/01/2007.

 

A Basílica do Carmo é um local por onde passam centenas de pessoas todos os dias. Existe ali um serviço de acolhida fraterna muito bom, levado avante por leigos e leigas preparados. Atendem pessoas que ali chegam, buscando palavras de conforto, desejando fazer um desabafo, enfim, querendo ser ouvidas. Como pároco e reitor da Basílica, também acolho os que ali vão desejando falar com o padre. O diálogo com o povo é sempre enriquecedor e gratificante.

 

Dia desses conversei com uma senhora de oitenta e três anos, que aparentava menos. Com postura respeitosa, olhar de quem já viu quase tudo na vida, fala pausada e uma inteligência perspicaz, ela foi falando. Vou chamá-la pelo nome fictício de Eufrásia e relatar um pouco da conversa.

 

Reverendo, disse ela, agradeço por me receber. Na minha terra chamam o padre de reverendo, mas aqui não usa, não sei porque. Aliás, a educação parece que acabou. Antes a educação era substância, hoje é enfeite, usa quem quer. Pois é, disse-lhe, os tempos mudaram, os costumes também. Ela, porém, retrucou que a violência está demais, porque ninguém mais tem educação, e que a guerra no mundo começa com a falta de educação: da guerra pequena se passa pra grande. E o que é a guerra, senão uma grande falta de educação de todos contra todos? É a vitória do egoísmo, sentenciou.

 

Foi dizendo que veio do Norte em um caminhão e trabalhou quatro décadas, juntamente com o esposo, para ter sua casa e sua aposentadoria. Criou um filho, o esposo morreu. E concluiu: a preguiça tomou conta do mundo, as pessoas não gostam de trabalhar. Fui para minha terra e voltei decepcionada, não se tem vontade de trabalhar. Eu lhe disse que às vezes as pessoas estão doentes,  outros não acham emprego. Ela retrucou-me: reverendo, não é isso, não, é a “bolsa família” que o governo dá, acomodou as pessoas. Tudo dado de mão beijada. Para os doentes é bom, mas para os que têm saúde tem que dar é trabalho.

 

Admirei-me que dona Eufrásia tivesse estas idéias e lhe perguntei se havia estudado em algum lugar. Disse que não freqüentou escola, só a da vida, e que estas idéias lhe vêem de pensar e matutar muito. Somente agora é que freqüentou o projeto Letra Viva, o qual lhe facultou ler um pouco. E, alegre, acrescentou que já “pode ler o nome dos ônibus”. Facilita, porém, não tenho muito lugar para ir, meus parentes já morreram todos, eu também já estou no fim da linha, acrescentou.

 

Perguntei-lhe se assistia televisão. Dona Eufrásia disse que hoje em dia, sim, tem tempo, e que a TV é uma coisa maravilhosa, traz muita novidade. Ultimamente tem desanimado de assistir, porque além da violência tem muita briga de políticos, corrupção. Segundo ela, isto é um atraso. Perguntei o que acha dos políticos corruptos. Dona Eufrásia me respondeu que são pessoas sem piedade, não crêem em Deus. Acham que nunca serão julgados por Deus e que podem fazer o que bem entendem. Tudo passa e eles também vão ser julgados e vão passar. Daqui a algum tempo ninguém lembra deles. Olha o Getúlio Vargas, foi tão importante e Campinas, deste tamanho, não tem praça com o nome dele, nem sei se tem uma rua.

 

Conversamos sobre religião e outros assuntos de fé. Por fim dona Eufrásia se despede pedindo a benção. Digo a ela que também me abençoe para que eu seja, a seu exemplo, lúcido, se chegar à sua idade. Ela me responde: se Deus quiser, reverendo, o senhor chega, é só não se iludir com quem tem poder, coisa boa só pode vir é de baixo: olha o menino Jesus no presépio.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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HOMENAGEM

Artigo publicado em 10/10/2006.

 

Um amigo me contava que fora homenageado certa vez e que, durante a homenagem, também se lembraram de dar um ramalhete de flores à sua mãe. Ela ficou muito feliz, naturalmente. E o amigo dizia ter sido tal homenagem para ele tão importante, e que o deixara tão feliz como a que fora feita a ele próprio.

 

Assim é nossa vida, muitas vezes o que se faz às pessoas que amamos, é tão ou mais importante do que aquilo que se faz a nós mesmos. Homenagear a mãe, no caso, foi uma alegria a mais, proporcionada a este filho dedicado.

 

Pensei no que vai escrito ao desejar convocar a todos para prestar uma grande  homenagem a Jesus Cristo, nosso único Senhor e Salvador, na celebração eucarística que será realizada dia 12 de outubro, às 17h00, no Estádio Moisés Lucarelli (Ponte Preta). Nesta ocasião, estaremos também homenageando a Mãe de Jesus, invocada entre nós com o título de Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida.

 

E podemos ter a certeza de que esta homenagem prestada à mãe vai agradar ao filho. Os Evangelhos apresentam Maria intimamente ligada a seu filho. Foi discípula perfeita de Jesus, de Belém até o Calvário. Presença silenciosa, mas repleta da graça e força de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lc 1,38).

 

A Bíblia nos apresenta três retratos de Maria. Ela era toda de Deus, ouvia e meditava, cria e praticava a Palavra de Deus. Ela era também toda do povo, por opção pessoal, não pensava só em si, mas nos outros: ajuda Isabel, ajuda no casamento em Caná, está aos pés da cruz. Ela era mulher de oração como expressa o cântico do Magnificat (Lc 1,46-55), e a última vez que Maria aparece na Bíblia é no Cenáculo, rezando com os apóstolos até o dia de Pentecostes (At 1,14).

 

Somente quem já se informou sobre a situação terrível do Brasil em outubro de 1771, quando a pequena imagem foi encontrada no rio Paraíba, pode avaliar o que isto significou para a religiosidade do povo brasileiro. Numa realidade de miséria, revolta e escravidão, apareceu um sinal, esta pequena imagem sorridente, na qual o povo soube decifrar a bondade que encoraja e ampara.

 

O primeiro livro de registro da paróquia de Guaratinguetá iniciado em 1757, registra às páginas 98v e 99 o achado da imagem, acrescentando: “Continua a Senhora com seus prodígios, acudindo à sua santa Casa romeiros de partes muito distantes a gratificar os benefícios recebidos desta Senhora”. Séculos depois ainda continua, e o ano que vem a  Senhora receberá em “sua Casa” a visita do Papa Bento XVI.

 

Peçamos à Senhora Aparecida que nos dê sua benção: Jesus seu filho. Que  ajude a construir um Brasil mais justo, sem a escravidão da miséria e do ódio.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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INVEJA

Artigo publicado em 24/10/2006.

 

O diabo veste Prada é o título do filme que assisti dias atrás. Baseado no livro de Lauren Weisberger, que já vendeu milhares de exemplares. O filme é uma parábola sobre a inveja em nossa sociedade consumista, dominada pelo desejo de status e projeção social. A protagonista da história é uma jovem bonita e de bem com a vida, porque livre interiormente, além de competente no que faz. Para ela vale mais a amizade, o fazer amigos, que o luxo e a carreira na loja em que trabalha. Sobre ela vão incidir a inveja das colegas e, por fim, até mesmo da temida dona do estabelecimento. Ela, no entanto, saberá se libertar de tudo e de todos na hora certa, o que a tornará invejada em definitivo.

 

Já foi dito que se perdoam mais facilmente os pecados dos outros do que seus êxitos. Pois a inveja é uma paixão, um vício que planta suas raízes na tristeza experimentada à vista do bem observado nos outros. Diante do sucesso do outro, o invejoso sente um aperto no coração, alguma coisa paralisa seus membros e faz despontar a angústia. Inveja é tristeza que invade o invejoso e o machuca, ele vê o bem do outro como se fosse um golpe vibrado em sua pretensa superioridade. A inveja nasce do orgulho, o qual não pode tolerar rivais ou superiores.

 

Objeto de inveja é o sucesso do outro, suas qualidades e muitas vezes virtudes. É desejo do que não se tem e que o outro possui, somado ao desejo de ser este outro, ou tomar seu lugar. O invejoso não tolera que se elogie a pessoa invejada, para ele tal elogio é uma ofensa. Como ousa ser bom e querido, se eu não consigo? Em nossa sociedade onde a competição é alta, a inveja está na moda. O invejoso não se contenta nunca com o que possui ou recebe.

 

Os primeiros cristãos vão recordar a história de José, vendido como escravo no Egito pelos seus irmãos que tinham inveja dele (At 7,9). José é figura de Jesus, vítima da inveja no seu último grau que é o ódio. Vendo o bem invejado aumentar, o invejoso passa a ter ódio e desejo de eliminar o invejado. Foi o que aconteceu com Cristo: “De fato, Pilatos bem sabia que eles haviam entregado Jesus por inveja” (Mt 27,18). A inveja pode provocar ciúme, calúnia, maledicência e, por fim, o desejo não só de eclipsar, mas de dominar e até eliminar os rivais. O invejoso, no entanto, não tem paz, mesmo eliminando a pessoa invejada fica a sua lembrança e esta incomoda.

 

Inveja do latim invidia, olhar com maus olhos, é o popular mau olhado que todos temem com certa razão. Santo Agostinho via na inveja o pecado diabólico por excelência “pois foi pela inveja do diabo que a morte entrou no mundo”. Deus criou o mundo e viu que tudo era bom. A serpente maligna, invejosa do amor de Deus por Adão e Eva, procurou um meio de induzir o homem a estragar tudo. Assim, a inveja que odeia é coroada com a vingança. O problema do invejoso, porém, é que mesmo se vingando não está satisfeito, pois “a inveja apodrece os ossos do invejoso”, vai sentenciar a Bíblia (cf.  Pr 14,30).

 

Uma das melhores maneiras de glorificar a Deus é fugir da inveja e aprender a se alegrar com o mérito dos outros, que são dons de Deus. Quem não tem inveja é livre e vive bem, mesmo padecendo a inveja dos que invejam quem não tem inveja.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini

Doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), professor titular da PUC Campinas, pároco e reitor da Basílica do Carmo

 

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JESUS  CRISTO, AINDA  HOJE

Artigo publicado em 17/10/2003.

 

Nos últimos séculos, passamos por várias “idades” segundo alguns estudiosos. Primeiro foi a idade da religião, depois a da filosofia que suplantou aquela e, em seguida, a da ciência e da técnica. São as teorias e leis científicas que hoje dizem a verdade. A filosofia e a religião são desacreditadas. O problema da técnica aliada à economia  não é produção, mas capacidade de consumo. A ciência avançou de modo fantástico, porém, desconfia-se que existem outros meios de conhecimento ao lado da ciência (inteligência emocional). A ciência permite efeitos cada vez maiores, mas cada vez mais fica muda sobre o sentido da realidade. O homem não se satisfaz com suas conquistas, com a obtenção de mais e mais poder. A divisão do mundo em incluídos e excluídos obnubila as mentes.

 

Em meio a esta situação, Jesus Cristo parece ser aos olhos do homem de hoje alguém distante, lá da idade da religião. Está muito longe, no passado remoto. Talvez muitos, mais jovens, já não saberiam dizer quem foi Jesus Cristo. No entanto, a Igreja o celebra, e nestes dias, revive o mistério que envolve seu sofrimento, morte e ressurreicão. A Igreja foi o fato concreto surgido após a morte de Jesus  e através dela  o Evangelho se propagou. Mas o que pode significar para o homem de hoje a mensagem evangélica da pregação de Jesus: “Convertei-vos, e crede na boa notícia: o reinado de Deus está próximo” (Mc 1,15)?  Qual o significado sobretudo de seu sofrimento e morte?

 

Pode significar muito, porque em Jesus o homem pode intuir e perceber o sentido da existência. Jesus Cristo revela o ser humano a ele mesmo,  basta dar-lhe uma chance, tomar conhecimento de sua mensagem, debruçar-se um pouco sobre os acontecimentos que celebramos nesta semana santa, para perceber que seu significado vai além de qualquer história já ouvida.

 

Em sua  obra clássica, O poder do Mito, Joseph Campbell, respondendo à  pergunta se  acreditava  que aquele que  perde sua vida ganha a vida, como Jesus ensinou, diz: “Acredito, desde que se perca a vida em nome de algo”. E mais adiante continua: “Desde que há tempo, há sofrimento. Perda, morte, nascimento, perda, morte – e assim por diante. Ao contemplar a cruz, você está contemplando um símbolo do mistério da vida”. A cruz é símbolo de uma vida entregue para que todos tenham vida e vida em abundância, ou seja: liberdade.

 

Jesus tem tudo a dizer para o homem de hoje que busca a liberdade acima de tudo, desde o lazer até as drogas sem, no entanto, descobrir  o que é realmente liberdade. A liberdade e a busca da liberdade ultrapassam nossa vida puramente biológica, para nos fazerem avançar na transcendência e na eternidade. A pessoa é aquilo que no ser humano transcende a morte, depois da morte algo de nosso subsiste e que não é sujeito à morte.

 

Jesus crucificado, que entrega sua vida num gesto de profunda solidariedade e serviço, desperta em nós a compaixão, o amor. O outro nos questiona e, especialmente o outro que sofre. O pobre, o fraco, o pecador, nos questionam e desafiam. Se você se fechar em seu egoísmo, no seu individualismo, permanecerá estéril, escravo de si mesmo. Mas se você se abrir ao diálogo e ao encontro com o outro, você vai sofrer, mas vai se redimir e despertar para o amor. E, em última análise, é o amor que salva, o amor como entrega, oblação e serviço. E aí se encontra o sentido da vida que é ser livre no encontro com o outro. Mesmo porque sozinho não existe liberdade, mas fuga na solidão que não realiza ninguém.

 

O sofrimento de Cristo na cruz não pode ser visto como castigo de Deus. Lido na perspectiva libertadora, o sofrimento pode ser caminho de vida, como o grão que cai na terra e morre para gerar a espiga. Deus tem a força de transformar o sofrimento em alegria. A cruz de Jesus representa a fidelidade de Jesus ao plano de Deus que é a fraternidade universal, a civilização do amor. A morte de Jesus foi por solidariedade com os fracos e miseráveis deste mundo. Assim, Jesus mostra que Deus é bondade e misericórdia, compaixão e acolhimento. E se Deus é assim, abre-se uma esperança infinita para a humanidade.

 

A ressurreicão de Jesus é a alegria luminosa de viver na esperança. A morte foi vencida pela vida. A morte não tem a última palavra. A vitória final é da vida. Em meio a uma geração como a nossa que parece cultuar as estruturas de morte, não obstante  desenvolver meios incríveis de se promover a vida, tanto na medicina como na biologia, a humanidade precisa de alguém que lhe assegure que a vida é mais forte que a morte, que vida quer dizer liberdade e amor. E Jesus faz isto em um grau supremo, como somente um Deus pode fazê-lo. E como dizia muito bem D. Bonhoffer: somente um Deus que sofre serve para o homem. Portanto, Jesus Cristo ainda hoje, sempre e sempre atual.

 

Cônego Pedro Carlos Cipolini